quarta-feira, 22 de março de 2017

Opinião Cinema: Logan

Por Bianca Oliveira,
de Macapá




Vou começar esse texto dizendo que ele terá spoiler, eu preciso conversar com você francamente, sem joguinhos, contando absolutamente tudo que vi naquela tela de cinema. Então tome uma água, sente aí e venha dialogar comigo.

Logan é o tipo de filme que faz a gente sair do cinema sem muito ideia do que aconteceu realmente, a gente fica pensando: “não pode ser, como assim?” Mesmo sendo um dos personagens mais intrigantes do X-Men, o Wolverine nunca teve um filme de fato à sua altura, que explorasse todo seu potencial. Me arrisco a dizer que o Wolverine dos quadrinhos nunca foi visto de verdade em qualquer um dos nove filmes em que ele esteve. Eu poderia fazer uma enorme revisão de sua história, mergulhar nas adaptações para as telas e fazer qualquer coisa do tipo, mas não o farei por um simples motivo: Logan é único e ele merece ser visto dessa forma.




Para relembrar um pouquinho o contexto do filme, vamos dar aquela revisada antes de tudo. O filme se passa em 2029, onde os poucos mutantes que existem são caçados. Logan está debilitado, doente, vive alcoolizado e trabalha como chofer de uma limusine para cuidar de Charles Xavier (Patrick Stewart), que já é um perigo para ele mesmo e toda a humanidade. Tudo muda quando aparece a pequena Laura (Dafne Keen), uma menina de 12 anos, uma cópia fiel de Logan mais novo. A menina é procurada por uma organização paramilitar e conta com a ajuda dos dois “supermutantes” para sair dessa.



Na primeira cena, a gente já tem uma pista da real intenção do diretor James Mangold. Ele quer um filme diferente, quer mostrar algo verdadeiro, Wolverine não é mais o mesmo, agora ele está velho, cansado e as lembranças do seu passado o atormentam constantemente. Sabiamente o diretor consegue mostrar isso tudo com os mínimos detalhes, as cores quentes da fotografia, o figurino desgastado, a trilha sonora. Ele poupou o uso de tantos efeitos visuais, colocou muito sangue, não escondeu nada, não manipulou a linguagem, ele conseguiu transmitir o seu protagonista de fato, o cara sombrio e amargurado. Além de tudo isso, outra dica que temos de quem é esse novo Logan é a cena do hotel, em que Professor Xavier assiste Os Brutos Também Amam, faroeste clássico de 1954 dirigido por George Stevens. Do mesmo jeito que o protagonista daquele filme, Logan está cansado de todo sofrimento e de uma vida cheia de violência, que referência, hein? Não tenha dúvidas que essa é o filme mais adulto da Marvel (ATÉ QUE ENFIM).


Este é o último Wolverine de Hugh Jackman, que explorou seu personagem de uma forma que nunca tínhamos visto, ele deu tudo de si. Adotou um ar vulnerável, voz desgastada, olhar intenso, sentíamos pena e medo ao mesmo tempo. Todos sentiremos saudades desse personagem, foi impossível não segurar as lágrimas ao ver sua despedida, seu último suspiro e a cena que a Cruz vira um X corta o coração de qualquer um. Patrick Stewart, junto com Jackman, mostrou uma cumplicidade pai e filho mesmo, Charles Xavier sempre será Charles Xavier, meio que o pai sábio de todos nós que crescemos vendo ele. Menina Dafne, que atriz, olha! É incrível o talento da pequena que passou mais da metade do filme sem falar uma palavra e ainda sim tomou conta de tudo. Nossa esperança está com você, Dafne Keen.

Deixando o saudosismo todo de lado - enxugue essa lágrima aí - precisamos falar dos pontos negativos. Há, como sempre no universo Marvel, uma falta de aprofundamento nos vilões, um olhar mais cuidadoso sobre eles, aqui eles ficaram totalmente despercebidos de verdade, não tinham carisma algum. Sem falar dos personagens coadjuvantes totalmente desinteressantes. Ou seja, queremos sim Logan mas queremos mais do meio que o cerca.

Tudo isso, não tira o brilho do longa por completo. Dói dizer, mas a morte foi um bem necessário para o nascimento de algo bom que vem por aí. Há esperança sim e ela bate aqui com força, brilho nos olhos e humanidade. Valeu a pena esperar, valeu a pena todos os filmes que antecederam a esse e principalmente só nos resta agradecer por tudo que Jackman fez nesses anos todos.






quinta-feira, 2 de março de 2017

Inscrições abertas para o 46º Concurso Internacional de Cartas da UPU


Estão abertas, até o dia 17 de março, as inscrições para o 46° Concurso Internacional de Redação de Cartas, realizado no Brasil pelos Correios. O concurso é promovido em todo o mundo pela União Postal Universal (UPU) — entidade que reúne os operadores postais de 192 países — com o objetivo de incentivar crianças e adolescentes a expressarem a criatividade e aprimorarem seus conhecimentos linguísticos.

O tema dessa edição é: “Imagine que você é um(a) assessor(a) do novo secretário-geral da ONU – Qual é o problema mundial que você o ajudaria a resolver em primeiro lugar e de que forma você o aconselharia para isso?”.

Redações - Para escrever suas redações, os estudantes podem buscar inspiração nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, material que pode ser acessado por meio do  site da unicef.

As redações devem ser em formato de carta, escritas a mão, usando caneta esferográfica preta ou azul, contendo no máximo 900 palavras. O estudante interessado em participar deve passar por uma seleção prévia em sua escola. Cada escola pode inscrever no máximo duas redações.

Prêmios – Os três primeiros colocados na fase estadual e as respectivas escolas recebem prêmios em dinheiro. O vencedor da fase nacional, além de troféu e R$ 5 mil, representará o Brasil na etapa internacional. A escola receberá o valor de R$ 10 mil.

Em 2016, o concurso teve a participação de mais de quatro mil escolas públicas e particulares em todo o Brasil. Laryssa da Silva Pinto, moradora de Porto de Trombetas, no Pará, foi a vencedora nacional e ficou com menção honrosa na fase internacional. O Brasil é o segundo país em número de vitórias no concurso, com três medalhas de ouro, atrás apenas da China, com cinco.

Em 2014, o Amapá foi vencedor na etapa Nacional, representado pela aluna Fernanda de Souza Valente, estudante do ensino médio do Colégio Conexão Aquarela.

O regulamento completo do Concurso Internacional de Redação de Cartas está disponível no site dos Correios, no endereço www.correios.com.br

Para acessar o regulamento e demais informações clique aqui


quarta-feira, 1 de março de 2017

Opinião Cinema: Estrelas Além do Tempo

Por Bianca Oliveira,
de Macapá






Você conhece Katherine G. Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan? É horrível saber que mulheres tão incríveis e importantes para a corrida espacial ficaram tanto tempo sem o devido reconhecimento. Baseado no livro Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win The Space Race, de Margot Lee Shetterly, o filme Estrelas Além do Tempo vem com  a proposta de mostrar o preconceito dessa época e os obstáculos que essas mulheres precisaram enfrentar para atingirem seus sonhos.
Antes de tudo é importante entendermos o contexto histórico: década de 1960, Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética no auge da corrida espacial. A NASA (Agência Espacial Americana) tinha os seus “computadores humanos”, mulheres negras que faziam os cálculos e análises de trajetórias. E é sobre essas mulheres que vamos conhecer um pouco mais, em especial três delas: Katherine Johnson (Taraji P. Henson), matemática brilhante, muito inteligente, viúva e mãe de três filhas; Dorothy Vaughn (Octavia Spencer), a primeira supervisora negra e mulher da NASA; e Mary Jackson (Janelle Monáe), uma sonhadora que pretende ser a primeira engenheira da NASA. Em áreas diferentes, mas atuando juntas, as três buscam o lugar que merecem, passando pelo machismo e pelo preconceito racial da época.



É indiscutível a importância desse tema, afinal, a segregação racial é algo que precisa ser discutido. Na época, negros e brancos tinham acessos separados para todos os ambientes: banheiros, bibliotecas, lanchonetes, ônibus... absolutamente tudo era dividido. E olhando dessa forma, já dá para imaginar quão grande era o campo que o longa deveria ter abordado, certo? Mas infelizmente, como tantos outros, o filme acabou sendo um “enlatado para o Oscar” cheio de limitações e desfechos confusos.
O diretor Theodore Melfi evita tocar de forma mais aprofundada no assunto, fica superficial, cheio de estereótipos, tudo muito cordial e simples. Claro que há momentos gritantes, mostrando que jamais se deve abaixar a cabeça, mas também se passa a mensagem de que você não precisa brigar pelo que quer nem nada, mas deve manter a postura. E isso, de fato, é o que mais incomoda. É importante também frisarmos a adaptação do personagem de Katherine: a cientista, na verdade, tem pele branca, mas por sua descendência africana era considerada negra. Provavelmente, a escolha da atriz negra foi mais para simplificar e não confundir a cabecinha dos espectadores, porém, esse seria um tema que mostraria toda a complexidade da sociedade em questões de raça.



Ainda com defeitos o longa consegue ter muito pontos positivos sim. As atuações são maravilhosas. Tarajii é perfeita, ela fica tão bem nas telas que dá vontade de nunca pararmos de vê-la. A direção de arte, o figurino e principalmente a fotografia são os pontos altos do longa. A recriação da atmosfera dos anos 60, cheia de cores e paisagens lindas, enche os olhos. A fotografia usou uma paleta mais cinza para o escritório, mostrando a seriedade e o ambiente hostil de lá, enquanto na casa das personagens foram usadas uma paleta mais verde, viva, com detalhes em vermelhos, eu realmente adorei! A trilha sonora de Hans Zimmer e Pharrell Williams (também produtor do filme) funciona bem com o contexto todo; não chega a ser das melhores, exagera em muita coisa mas não deixa de ser boa.
Enfim, mesmo com limitações, não podemos esquecer da importância desse filme: ele deu voz a essas personagens, reforçando a importância da representatividade. E nos fez refletir sobre valorização da mulher no mercado de trabalho. E só isso já ajuda e muito para que o público pense sobre tais assuntos e quem sabe, questione sobre muita coisa que acredita ser o certo, mas nem sempre é.




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Opinião Cinema: Minha Mãe é uma Peça 2



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


Para iniciarmos 2017 escolhi falar sobre um longa que estava deixando a galera sem unhas já, de tanta espera, quatro anos para ser mais precisa. Minha Mãe é uma Peça 2 é o tipo de sequência que todos temos certeza que vai acontecer: a peça de teatro, em 2006, encantou o publico; o primeiro filme, em 2013, foi o maior sucesso nacional daquele ano e teve uma aceitação fantástica do público. Ou seja, o segundo filme já tem o seu público cativo e que esperou ansiosamente por ele, então era impossível Paulo Gustavo, com sua Dona Hermìnia, não voltar para o cinema, mesmo correndo o risco de repetir erros e apelar bastante. 

Minha Mãe é uma Peça - O filme termina com Dona Hermínia ganhando um programa de televisão,  no qual ela pode comentar sobre as felicidades e angústias da maternidade. O novo filme dá continuidade a isso; ela ainda é apresentadora, mais estável economicamente - para não dizermos rica -, é avó e aquela mãezona super preocupada com suas crias Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier), que dessa vez estão se mudando para São Paulo. Basicamente é essa a trama principal - sim, juro, não há tanta mudança no roteiro.


Aliás, nem sei se podemos considerar isso um roteiro. Ele foi desenvolvido por Fil Braz, em co-autoria com Paulo Gustavo, e possui uma narrativa confusa e desconexa. Há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e nenhuma delas tem aquele famoso começo, meio e fim,  tudo fica pela metade, fica aquela ponta solta, nada é desenvolvido adequadamente. Sim, há situações que podem arrancar sorrisos mas depois que percebemos quão sem sentido é determinada sequência, aquilo perde a graça na hora. Até uma esquete do YouTube consegue ser mais produtiva, se bem que o filme inteiro parece uma união de varias esquetes.

Apesar de utilizar uma linguagem bastante dinâmica, a direção peca quando insiste em usá-la de forma mais novelística. Esteticamente falando o filme evoluiu bastante em relação ao primeiro, ele está mais bonito, refinado, “clean”, e isso é uma enorme ousadia, a fotografia do filme é bonita de verdade, porém todos falam o tempo todo em cena, quando alguém comenta algo mais interessante, aparece na outra cena a explicação didaticamente da cena anterior. Isso pode até funcionar em novelas, mas em filmes é bastante chato, não é mesmo?!



Paulo Gustavo é o coração do filme, a sequência aposta alto nele, as melhores sacadas são dele, ele, sem dúvidas,  é o centro do longa. Os estereótipos estão ali, é evidente, e Paulo Gustavo sabe como tirar o melhor de cada um. Ele também é ousado, usou uma dinâmica e linguagem diferente, mostrou que está tentando melhorar a franquia, o que nos deixa bastante empolgados já que Minha mãe é uma peça tem um público totalmente cativado já. Eu acredito sim que mesmo com tantos erros, vale a pena cada centavo gasto para ver o seu trabalho e a busca pela evolução estética, mesmo que o caminho seja complicado e um tanto looongo.



domingo, 29 de janeiro de 2017

Rapidola nº 1/17

Ao longo do ano passado, voltei a assinar diversas newsletters de sites/blogs que curto e/ou acompanho, o que me animou, já quase no finalzinho de 2016, a reativar minha própria newsletter, intitulada Rapidola (logo abaixo há um breve histórico a respeito dele). Então procurei alternativas para o envio, abri inscrição para assinaturas e até cheguei a enviar esta primeira edição no dia 11. O "detalhe" é que enviei apenas para mim mesmo, já que ninguém assinou até agora. 

Decidi então alterar o formato. Por um lado, considero importante (ao menos para mim próprio) esse olhar retrospectivo contínuo, fazer uma pausa, olhar a semana que passou e ver o que ela trouxe de bom ou de ruim. Prefiro fazer isso toda semana do que deixar as coisas indo ao sabor dos ventos e tentar fazer algo assim só ao final de cada ano. Por outro lado, já que não houve interesse no recebimento por e-mail, o Rapidola então passará a ser publicado semanalmente aqui (não sei se nas terças, que seria o dia do envio da news por e-mail. Depois decido e aviso).

Fabio Gomes



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January 11, 2017

Rapidola nº 1/17


A volta do Rapidola

A primeira versão do Rapidola circulou entre 2010 e 2014. O informativo, na ocasião veiculando especialmente as notícias postadas no blog Som do Norte, era enviado para assinantes por e-mail e também podia ser lido em um blog-arquivo. A ênfase do novo Rapidola é reunir toda terça-feira links para todo o conteúdo que eu houver postado na semana anterior pela internet.

Essa primeira edição é um pouco atípica, pois como eu estive em férias desde o dia 15 de dezembro até a sexta passada, 6 de janeiro - período que aproveitei para transferir a base de minhas operações de Macapá para Belém -, não há muito conteúdo que reportar.
Fabio Gomes, 10.1.17
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Fabio Gomes Foto & Cinema


  • No dia 6, entrou no ar o Ensaio de janeiro, estrelado pela amapaense Mary Cumaru
  • Dia 9: no post A Semana nº 22 anunciei a seleção do meu projeto audiovisual As Tias do Marabaixo no edital de programação 2017 da Casa de Cultura Mario Quintana (Porto Alegre) \o/
Jornalismo Cultural
  • No dia 4, republiquei no blog uma reportagem de 2007 falando da edição de uma carta que enviei à revista Diapason Brasil (já extinta) sobre os erros contidos em matéria que eles haviam publicado sobre Villa-Lobos. Uma rara e (espero!) interessante oportunidade de ver como os veículos impressos edita(va)m as manifestações de seu público - Bastidores: Minha Carta à Revista Diapason sobre o "Dossiê Villa-Lobos"
YouTube
Digestivo Cultural
  • Ainda em 2016, no caso em 19 de dezembro, analisei no artigo E por falar em aposentadoria a famigerada proposta governamental de reforma da Previdência. Até o momento, o texto tem 136 acessos. 
Também tem
  • Todo dia, geralmente no final da tarde, publico nova foto em meu Instagram  - @fabiogomes.fotocinema . No momento, estou postando as fotos do ensaio com Mary Cumaru. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Bastidores: Minha Carta à Revista Diapason sobre o "Dossiê Villa-Lobos"


São raras as ocasiões em que o leitor tem acesso a bastidores do fazer do jornalismo cultural. É quase como se a matéria chegasse pronta à página do jornal ou revista, ao transmissor de rádio ou TV, ao site da internet.

Um momento em que esse processo foi exposto encontra-se no livro Caetano - Esse Cara, de Heber Fonseca (Revan, 1993): no capítulo Midas (versus mídia) - Uma entrevista em "Veja", Heber transcreve uma entrevista de Caetano Veloso a Antônio Chrysóstomo, publicada em 16 de junho de 1977, seguida da carta do compositor questionando a edição de suas declarações, um relatório de Chrysóstomo a seus editores Carmo Chagas e Zuenir Ventura e, por fim, a transcrição integral das fitas que registraram a conversa entre Caetano e Chrysóstomo. Não, não parece grande, É grande - o capítulo ocupa mais de 30 páginas do livro. Recomendo.


O caso em questão é bem mais singelo. Trata-se da edição da carta que enviei em 11 de julho de 2006 à revista Diapason Brasil, em função de incorreções que encontrei nas matérias do "Dossiê Villa-Lobos" publicado em seu nº 3 (julho/agosto de 2006); minha correspondência, devidamente editada, foi incluída na seção "Cartas" do nº 4 (setembro/outubro). Quero deixar claro que, ao contrário do que ocorreu no exemplo anterior, em que Caetano se queixava da edição, eu não a contesto, apenas quero aproveitar a oportunidade para mostrar ao leitor o "outro lado" do jornalismo cultural. Publiquei este comparativo pela primeira vez no antigo site Jornalismo Cultural em 2007, quando possivelmente a revista já nem circulava mais. Seu último número a chegar a Porto Alegre foi justamente o 4, com Beethoven na capa, em que minha carta saiu. O site que era informado na publicação também já está fora do ar. 

Mas enfim, vamos lá. O "Dossiê Villa-Lobos" abrangia seis matérias (entre ensaios e entrevistas), mais discografia, cronologia e biografia, indo das páginas 26 a 51 do nº 3 de Diapason Brasil, a versão brasileira, editada em São Paulo, da revista francesa Diapason, especializada em música de concerto.

Para melhor entendimento da edição, a cada parágrafo de minha carta original, segue-se o trecho publicado no nº 4 da revista, em negrito itálico:



"Prezados Senhores, na qualidade de jornalista cultural especializado em música, venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 de sua revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 da revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Acerca do Dossiê Villa-Lobos, tenho algumas observações a fazer:

Algumas observações:

- Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em sua primeira estada na capital francesa, em 1923-24, Villa hospedou-se primeiramente na residência de amigos; de 1924 a 27, permaneceu no Brasil. Em 1927, retornando a Paris, com intenção de permanecer, morou então em tal endereço. Dali só voltaria ao Brasil por breve período em 1929. Sua estada aqui em 1930 também seria provisória, não tivesse Villa aproveitado a chegada de Getúlio Vargas ao poder para apresentar ao novo presidente seu plano de educação musical.

Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em 1923-24, hospedou-se na residência de amigos; e de 1924 a 1927, permaneceu no Brasil.

- Sobre o artigo “O Mito: ‘A Música Brasileira Começa Comigo’” (Maria Alice Volpe): na referência à classificação das obras de Villa que Adhemar Nóbrega atribuía ao próprio compositor, só são mencionados quatros grupos dos cinco referidos. O primeiro e o segundo estão corretos; já o citado por Volpe como terceiro é na verdade o quarto, e o que aparenta ser o quarto (“em controle total do universalismo”) se constitui no quinto. Falta o terceiro, “com transfigurada influência folclórica”, em que os destaques são os “Choros”, “A Prole do Bebê” nºs 2 e 3 e o “Rudepoema”.

(Omitido da edição)

- Há uma contradição sobre o caráter das composições de Villa-Lobos na época da primeira viagem à Europa. Enquanto em “A Dimensão Humana da Criação Artística”, Paulo Renato Guérios afirma que Villa só adotaria procedimentos modernos em sua composição após ouvir Stravinski em Paris, Rodolfo Coelho de Souza nos dá conta, em “O Pelé da Música Brasileira”, do conhecimento de Villa do panorama europeu através de seu contato com Alberto Nepomuceno e Frederico Nascimento. Afora esse contato referido, Coelho de Souza menciona bem a propósito que o Brasil recebia freqüentemente orquestras e elencos de ópera europeus, não só durante todo o período anterior à 1ª Guerra Mundial (foi justamente a ausência dessas orquestras que oportunizou o primeiro concerto com obras de Villa, em 1915), como também em parte do entreguerras, tornando-se raro desde então. Se a obra de Villa em 1918 fosse semelhante ao que um europeu de duas décadas anteriores faria, ela não teria despertado interesse nenhum em Arthur Rubinstein. O próprio “Noneto” foi escrito no Brasil, em 1923, antes da viagem.

(Omitido da edição)

- Jornalisticamente falando, lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti. Aliás, a matéria parece inconclusa, pois na última pergunta o entrevistador indaga sobre semelhanças e diferenças entre Sibelius e Villa-Lobos e Tarasti apenas fala rapidamente sobre semelhança.

Lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti.

- Em relação à “Bibliografia”, discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”. Ela revela boa pesquisa, um certo apuro na apresentação do material, mas escorrega feio em atribuir a Villa uma (digamos) “falsidade ideológica” de anunciar em programas peças recém-compostas como se fossem de muitos anos antes (a “Suíte Popular Brasileira” para violão, que todos sabem ser de 1912, é jogada por Peppecorn para 1928!). O motivo por ela apresentado para isto seria até certo ponto elogioso: ela acredita que Villa poderia compor a qualquer momento imitando qualquer fase anterior sua. Pena que isso, além de negar a evolução natural do compositor, não seja em absoluto verdade. Recomendo a leitura do livro de Peppercorn apenas depois que o interessado já tenha tido contato com outras obras sobre Villa, de forma a mais facilmente separar o que é chute do que é real – e, por favor, há coisas verdadeiramente muito boas no livro.

Discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”.

- Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Aproveito para sugerir a leitura de meus artigos sobre Villa-Lobos veiculados no site Brasileirinho - Villa-Lobos e Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach -, em que abordo muitos dos aspectos tratados no Dossiê.

(Omitido da edição)

Fabio Gomes"

A revista respondeu deste modo minha carta:

"Obrigado pelas correçõesO autor da entrevista com Eero Tarasti é o editor da Diapason brasileira."

A omissão mais grave da publicação de minha carta é a correção da classificação das obras de Villa pelo próprio, em que o leitor de Diapason Brasil é levado a crer que eram 4 grupos, e não 5. O editor de Diapason Brasil, autor da entrevista com Tarasti, é João Marcos Coelho. O livro de Lisa Peppercorn mencionado é Villa-Lobos (tradução de Talita M. Rodrigues), lançado pela Ediouro em 2000. Além das matérias que citei, o "Dossiê" incluía ainda "A Riqueza da Ambigüidade", de Vladimir Safatle.


  • Não fui o único a ficar insatisfeito com o Dossiê. Na mesma página, logo após a minha, a revista publicou a seguinte carta, desta feita admitindo claramente a edição do conteúdo:





quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Opinião Cinema: As Aventuras de Robinson Crusoé

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



O clássico da literatura inglesa Robinson Crusoé, criado pelo escritor inglês Daniel Defoe,  foi publicado originalmente em 1719, no Reino Unido. Desde então, teve inúmeras adaptações no cinema, já que seu protagonista é um dos personagens mais famosos da literatura. Agora em 2016 o diretor francês Vincent Kesteloot tenta, numa versão em animação feita em co-produção com a Bélgica, apresentar um olhar diferente dessa história que conquistou o mundo.

As Aventuras de Robinson Crusoé conta a história de um homem que, após um acidente de barco, vai parar em uma ilha exótica, precisando sobreviver e superar seus medos. Na animação, obviamente,  muito coisa foi omitida. A ilha deserta do livro foi transformada em uma ilha habitada por animais de todas as espécies que falam e que são super desconfiados.  Terça-Fira é o nome do papagaio tagarela sonhador, que nesta versão é o narrador principal. O papagaio, junto com seus amigos, tenta proteger a ilha do invasor Crusoé, mas por fim os animais descobrem que os verdadeiros inimigos são os gatos que estavam a bordo do navio naufragado. Daí nasce uma união muito bonitinha... e atrapalhada também.

Em tempos em que as animações são feitas para todos os públicos, inclusive os adultos, nesse longa vemos nitidamente a intenção do diretor em atingir o público infantil, e somente ele, o que dificilmente ele conseguirá porque comete tantos excessos que até criancinhas pequenas ficarão entediadas.


O máximo que o longa consegue é proporcionar algumas risadinhas mas que logo serão esquecidas, além daquela clássica luta entre o bem e o mal (zzZzZ). O roteiro é fútil e os personagens, vazios e desinteressantes, além do filme não ter ritmo e ter um péssimo desfecho (parece mais que Kesteloot não sabia como terminar e pegou qualquer coisa que se encaixava).


A história de Crusoé é extremamente rica, mas pelo visto a opção do filme foi usar seu nome apenas para atrair mídia, já que os personagens principais são os animais; o que no livro era a ação principal neste filme foi transformado em um negócio chato de pano de fundo. Não que utilizar animais seja algo ruim, várias animações provaram o contrário, mas nesse caso não houve construção dos personagens, que nem ao menos nos foram apresentados direito. 

Pelo menos a estética salva, visualmente o filme é muito bonito, os efeitos, sons, 3D... tudo foi caprichado, mas não passa daí. As Aventuras de Robinson Crusoé mostrou que é possível transformar o tempo dos pais com seus filhos, no cinema, em verdadeiro pesadelo e tédio interminável.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Opinião Cinema: Doutor Estranho

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Dr. Estranho é um clássico dos quadrinhos. O personagem sempre foi o preferido de muita gente, e se ele demorou tanto para ir às telas não foi por não ser famoso, mas sim porque o cinema ainda não estava preparado para tê-lo... Como assim? Bom, Dr. Estranho entra em um mundo não muito explorado, pela Marvel, que é a magia. Todo o trabalho anterior foi importante para introduzir esse personagem. E sem dúvidas esse era o maior desafio da Marvel: Como ingressar nesse mundo de tanta magia, força e representar bem o colorismo e traços do maravilhoso Ditko? E tudo isso sem assustar o público?

Dr. Estranho foi criado por Stan Lee e Steve Ditko, em 1963; as histórias eram uma mistura de super-herói, com um pouquinho de horror e a psicodelia da época. Era tudo diferente, ele representava vários mundos e dimensões, era para usarmos nossa imaginação mesmo. No filme, começamos na origem do personagem Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um médico renomado, porém arrogante, e que após um acidente de  carro perde o movimento das mãos, o que o impossibilita de exercer sua profissão. Procurando uma cura ele acaba em Katmandu (Nepal), onde além de recuperar seu corpo o doutor treina sua mente e descobre a magia e um mundo novo com dimensões paralelas. Graças a ajuda da Anciã (Tilda Swinton) e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o doutor finalmente se encontra.  

O diretor Scott Derrickson, com o seu olhar preciso, traz ao longa o tom de terror que já é conhecido em seus trabalhos, essencial aqui. O roteiro simples e coeso, a montagem, o figurino, a trilha sonora pesada, tudo foi feito com capricho e digno de um filme bom mas a edição e os efeitos visuais...nossa! Esses sim foram os elementos-chave para entrarmos de vez nesse mundo.





 supervisor de efeitos especiais Stephane Ceretti foi o responsável por fazer desse um dos filmes mais lindos da Marvel. Os efeitos serviram para entendermos o mago, tudo era muito surrealista e psicodélico, cheio de cores e vida, cada cena era um presente para nós. Por exemplo, logo na cena inicial, onde vemos um prédio  caindo de uma forma impossível para a Física - aliás não tente procurar lógica, como a Anciã diz “Nem tudo precisa fazer sentido”. E não precisa mesmo: ali não há explicação, é simplesmente a pura magia, é impossível não ficarmos hipnotizados com a estética do filme. Obrigada, Ceretti, você merece o Oscar, sem dúvidas.



Depois de  tudo isso ainda temos o elenco. Benedict encara seu personagem e mostra o porquê dele ser uma das melhores descobertas atuais, Dr. Estranho não é fácil ou comum, mas Benedict tira de letra. Outra que rouba a cena é a anciã que consegue mudar o ambiente com sua sabedoria e também abusa o sarcasmo (para nossa alegria). Além de Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor e Mads Mikkelsen - este ultimo é um ótimo ator mas que deu o azar de ficar com um vilão mal construído, com o qual ele não pôde demonstrar sua capacidade. Aliás, já é conhecida essa característica da Marvel de criar vilões rasos e mal utilizados (o que é uma pena).

No fim, todos fizeram sua lição de casa correta, não há um graaaande momento na história e nem um vilão que não te deixe dormir de noite. Mas há um visual que vale a pena, algo novo e impressionante e que abre portas para essa nova Marvel mais madura que vem por aí.






sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Elton Medeiros: "A música é o meu ar"


Entrevista realizada em Porto Alegre, em 18 de fevereiro de 2004, após show do sambista no Santander Cultural. Publicado originalmente no site Brasileirinho.

BRASILEIRINHO - Há quanto tempo tu não vinhas a Porto Alegre?

ELTON MEDEIROS - Eu não vinha a Porto Alegre desde o início da década de 70, quando eu vim aqui fazer o Sarau com o Conjunto Época de Ouro e o Paulinho da Viola, no Teatro Leopoldina. E lamentavelmente, amanhã tenho que ir-me embora, porque eu queria ao menos dar umas voltas por aí. Mas cheguei de Minas, fiquei um dia no Rio e vim pra cá. E agora vou passar o Carnaval lá meio escondido, porque eu não quero mais saber... Tô no Carnaval desde os 8 anos, eu tô com 73, então chega.

B - Cansou do Carnaval?

E - É, chega. A garotada é que tem que tomar conta do Carnaval, não sou eu. Eu fundei três escolas de samba: a Tupi de Brás de Pina, que acabou, o Quilombo, que foi uma escola que representava a resistência ao luxo, à ostentação das escolas de samba e os Unidos de Lucas, que tá no 3º grupo. 

B - O Quilombo foi um projeto do Candeia, não?

E - É, a idéia foi do Candeia, mas quem participou da fundação foi Paulinho da Viola, Martinho da Vila, eu e muita gente, jornalistas como Juarez Barroso... Foi um movimento bastante interessante.

B - Tens composto ultimamente, como é que tá a tua produção?

E - Você respira todo dia?

B - Sim.

E - Se não respirar, o que que acontece?

B - Eu morro.

E - A música é o meu ar. Eu continuo fazendo música.


sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista: Wany Sampaio - Mitos Amondawa



A pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia fala do livro Mitos Amondawa.

Entrevista realizada por e-mail em 12 de outubro de 2005

JORNALISMO CULTURAL - Wany, você é uma das autoras do livro Mitos Amondawa (Edufro, 2004), ao lado de Vera da Silva e Valdemir Miotello. Como se deu o seu contato com o povo Amondawa? 

WANY SAMPAIO - Na verdade, nós não somos autores do livro. Somos apenas os organizadores, porque os indígenas é que são os narradores dos textos míticos. Aliás, são narrativas lindas, que podem explicar muito sobre o universo mítico do povo Amondawa. O meu primeiro contato com esse povo se deu por volta de 1993, quando eu iniciava também o meu mestrado em Lingüística. Naquela época, os Amondawa eram ainda recém-contactados (os seus primeiros contatos com o não-índio aconteceram por volta de 1986) e ainda conservavam muito de sua tradição, cultura, costumes, rituais, enfim. Eu iniciei um estudo sobre a língua Amondawa, então, a fim de descrevê-la e trabalhar com o processo de redução de língua escrita, pois até então a sociedade era ágrafa. Os Amondawa queriam uma escola e então nós fizemos, em conjunto, a primeira cartilha de alfabetização, em caráter experimental, para testar um alfabeto que pudesse ser utilizado naquela escrita. Funcionou relativamente bem. Daí pra cá, tenho desenvolvido diversos trabalhos com a comunidade Amondawa, continuo colaborando com a escola, desenvolvendo trabalhos de pesquisa em Lingüística e Antropologia. A Vera é mestre em Antropologia; ela foi minha aluna de graduação e hoje mora na Inglaterra, mas continuamos trabalhando em conjunto, porque fazemos parte do mesmo grupo de pesquisa do CNPq/ Universidade Federal de Rondônia - onde eu trabalho - e também da universidade em que ela trabalha - Universidade de Portsmouth -, em que faço estágio pós-doutoral. O nosso grupo participa de um grupo internacional, com seis universidades da Europa, financiado pela União Européia e hoje desenvolvemos um grande projeto chamado Estágios da Evolução no Desenvolvimento do Uso de Sinais. Bom, voltando à questão, então, a nossa relação com os Amondawa se tornou extremamente consistente e produtiva. Ressalto que temos o total apoio da FUNAI, e trabalhamos em parceria com o Setor de Educação dessa instituição, na cidade de Porto Velho.

JC - Que estratégias vocês utilizam para realizar o estabelecimento da gramática Amondawa?

WANY - Nós iniciamos o trabalho de descrição da língua com as metodologias tradicionais em Lingüística e Antropologia (base estruturalista). Como não sabíamos nada daquela língua, optamos por trabalhar com os métodos chamados "calhambeque" porque tínhamos mais segurança na sua utilização e também porque nós próprias estávamos iniciando um aprendizado. Além do mais, são métodos eficientes para implantação de escritas, que era o nosso primeiro objetivo, naquele momento. Fizemos levantamentos lexicais, estabelecemos os fones e fonemas de língua e depois demos continuidade com sentenças simples, complexas, até chegar aos textos propriamente ditos. Hoje estamos testando novas metodologias, através do atual projeto. Usamos jogos, maquetes, seqüências de gravuras, filmes etc. Com isto, temos textos mais naturais. Nós descrevemos a morfologia lexical e depois passamos a fazer as relações significativas dentro das construções sintáticas e textuais. É um trabalho que dá trabalho! E exige muita concentração, muito estudo analítico, para que possamos fazer um descrição pelo menos razoável. Estamos tentando organizar uma gramática descritiva do Amondawa para que ela possa ser utilizada pelos professores indígenas. Mas isso ainda vai levar alguns anos de trabalho.

JC - Como os índios encaram este processo? Você vem observando mudanças ao longo do período de convivência com eles em relação à presença das equipes da Unir?

WANY - Os índios participam de todo o processo. Hoje já temos dois professores indígenas (um homem e uma mulher) em processo de formação. Com exceção dos mais velhos, todos os Amondawa escrevem na sua língua materna; e isso começa muito cedo porque os bebês vão pra escola com suas mães, então eles rapidamente se familiarizam com os materiais escolares. É claro que temos hoje um grande problema pra resolver, que é o estabelecimento da ortografia. As escolhas devem ser feitas pela comunidade... e isso não é muito fácil, porém é uma necessidade que os próprios índios, alunos e professores já estão sentindo; então eu acho que o momento chegou.... e teremos de trabalhar com isso no ano de 2006. Muita coisa mudou na sociedade Amondawa. Depois do contato, é impossível que tudo se mantenha igual... os índios são pessoas que têm inteligência, vontade, sonhos... Não podem ser mantidos em uma redoma de vidro e serem objetos de observação nem de ideologias românticas. Hoje temos energia elétrica, casas de madeira, TV, geladeira, fogão a gás, panelas de pressão, enfim, coisas da cultura não-índia que trazem maior conforto... Os índios se organizam socialmente em associações, grupos de discussão etc. É uma forma de se manterem índios, dentro de uma sociedade que os quer engolir e dizimar. É nesse sentido que o trabalho das universidades se torna muito importante, porque nós podemos contribuir com esse processo que é um caminho para a libertação dos povos oprimidos sem que eles percam a sua identidade enquanto indígenas.

JC - Quais devem ser os próximos passos do projeto?

WANY - O próximo passo do trabalho, com relação à escola Amondawa, é a construção coletiva de algumas regras que fixem a ortografia, porque todos já dominam à escrita. Com relação ao projeto de pesquisa que desenvolvemos com o financiamento da União Européia, deveremos trabalhar, nos próximos dois anos, com as construções metafóricas sobre o espaço, o tempo e o movimento. Essas são questões que nos permitirão analisar como os Amondawa representam o mundo no nível conceitual, ou seja, que tipos de figuras podem eles, através de suas linguagens (oral e gestual) utilizar para traduzir sua concepção de espaço, tempo e movimento e como é que isso é veiculado pela cultura. A nossa equipe está construindo instrumentos de coleta de dados - e já estamos testando alguns - que serão também aplicados na Tailândia. Como o grupo se constitui de lingüistas, antropólogos, psicólogos, biólogos, zoólogos etc, também serão desenvolvidos trabalhos com macacos (para estudar também a evolução no uso de signos e sinais); esse trabalho será realizado através do Museu de Zoologia de Roma. Uma outra parte do grupo trabalhará com o uso de sinais e signos nas relações mamãe-bebê com populações da Índia... enfim. É bastante coisa! Mas a nossa grande questão é: O QUE SIGNIGICA SER HUMANO? (What it means to be human?). Tradicionalmente se diz que o que distingue o homem dos outros animais é a capacidade da linguagem. Propomos a tese de que o que distingue o homem dos outros animais não é a capacidade da linguagem, mas a capacidade de organizar os signos e sinais e transformá-los em linguagem. Estamos trabalhando com diversos tipos de populações humanas, de indígenas a industrializadas, porque concebemos que o homem é único.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Opinião Cinema: É Fada!

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Um fato é inegável: os youtubers estão tomando conta de tudo. Eles influenciam essa nova geração, sendo verdadeiros ídolos para eles. E Kéfera Buchmann é um desses fenômenos da internet. Com 23 anos, ela mantém há seis o canal 5minutos no YouTube, um dos primeiros no Brasil a atingir um milhão de inscritos (atualmente são quase 10 milhões), possuindo portanto um grande número de seguidores que são bem devotos. No entanto, com tanta exposição assim, ela também conquistou fervorosos haters, que “perdem” horas da sua vida criticando absolutamente em tudo que a youtuber faz e toca. E claro, se Kéfera lança um filme é impossível não ter polêmica.  E mais claro ainda, se tem treta e babado  aqui estou para comentar. É importante deixar bem claro que aqui eu vou falar sobre o longa e não a vida pessoal dela.
O filme é baseado no livro Uma Fada Veio Me Visitar, de Thalita Rebouças. A adolescente Júlia  (Klara Castanho) foi criada de uma forma muito simples pelo pai (Sílvio Guindane), mas com o retorno de sua mãe socialite precisa trocar de colégio, indo para uma escola de meninas riquinhas que agem bem estilo “Meninas Malvadas”. Para ajudar Júlia a conseguir amigas e se adaptar a este novo mundo aparece uma fada madrinha, Geraldine (Kéfera). A fada precisa ajudar a menina para conseguir de volta suas asas, que perdeu por aconselhar mal o técnico Felipão no famoso jogo dos 7x1 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Juntas Geraldine e Júlia tentam se adaptar, se conhecer e buscar atingir seus objetivos, mesmo que... de forma errada.
Mas por que de forma errada? Bom, o roteiro de Patrícia Andrade, Fernando Ceylão e Sylvio Gonçalves é mal desenvolvido, não empolga e está repleto de preconceitos. Os personagens são rasos demais, Geraldine tenta “ajeitar” Júlia de todas as formas, diz que ela precisa alisar cabelo, mudar de roupa, personalidade, mentir que viajou para vários lugares, renegar o pai... Mas que bela mensagem, não?  Claro que no final há aquela ideia bonita dizendo que é errando que se aprende e blábláblá, mas é tão rápida que a gente nem percebe. Não adianta passar o filme todo com um discurso preconceituoso e bastante elitista e nos 2 minutos finais vir com um discurso de arrependimento. Não cola não.  O que aprendemos com o filme é que temos que ser superficiais para assim podermos ser “reconhecidos”. Além de tudo isso, o roteiro no final opta por soluções simples, inocentes, previsíveis  e bobas demais, mesmo para o público mais jovem.
O trabalho de Cris D'Amato como diretora deixa muito a desejar. Ela não deu conta de desenvolver as situações criadas pelo roteiro. Além disso, os diálogos, a fotografia e a montagem tem uma enorme pegada publicitária (parece mais aquelas propagandas bizarras da Jequiti);  há ainda uma enorme quantidade de imagens aéreas,  bem desnecessárias, inclusive, e há cortes demais, a gente fica perdido, não entende a cena toda. Foi preguiça na hora de montar? Vontade de dar ritmo? O que terá acontecido? Faltou criatividade, se arriscar,  se jogar de cabeça e se lançar em um projeto melhor. Por fim, ainda preciso dizer o quão sofrível foi ver em cena aqueles efeitos visuais, digitais e a maquiagem. A floresta parece que saiu do Sítio do Pica-pau Amarelo, os “poderes” da fada não convencem ninguém e para piorar até a orelha do guardião das fadas tinha uma tonalidade diferente da sua pele. 
Antes que vocês me perguntem por que ainda não falei da Kéfera, vou logo respondendo: porque ela está nos pontos positivos. Sim! A menina tem talento, seu carisma na tela é inegável! Claro que há espaço para ela se aperfeiçoar na interpretação, mas é inquestionável a relação entre a YouTuber e Klara Castanho. A pequena Klara, com todo seu talento, consegue explorar bem as mudanças que sua personagem sofre e juntas, elas fazem as melhores cenas do longa, cheias de caras e bocas e personalidade. A trilha sonora, embora não chegue a surpreender, também é outro ponto positivo. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Homenagem a Mario Quintana

Bruna Lombardi e Mario Quintana


Mário Quintana foi o grande homenageado do 23º Seminário Brasileiro de Crítica Literária na PUCRS (Porto Alegre), realizado entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2006. Nada mais justo, afinal, estávamos no ano do centenário do poeta, nascido a 30 de julho de 1906 em Alegrete (RS) e falecido a de 5 de maio de 1994 na capital gaúcha.

O seminário apresentou no dia 6 uma mesa-redonda com o poeta Armindo Trevisan, amigo e estudioso de Quintana, a poetisa e atriz Bruna Lombardi, musa do homenageado, e a atriz Elena Quintana, sobrinha do autor de A Rua dos Cataventos; já no dia 7 foi a vez do professor Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, proferir a palestra Um Olhar sobre Quintana. A seguir, apresentamos os principais trechos de cada pronunciamento:

Armindo Trevisan - "A poesia de Mário Quintana me interessa fundamentalmente por três aspectos: 1º, por sua autenticidade; 2º, pela sua intransigência - ele impõe o silêncio à velocidade desmesurada; 3º, por ser a um tempo simples e complexa: ela tende ao classicismo, apesar de apresentar também um caráter modernista.

A autenticidade corresponde ao que a pessoa está sentindo; o mundo interior do homem - idéias, sentimentos, emoções - é impressionante. O universo animal é mais simples, sua expressão se esgota em pios, uivos, latidos. Já a fala humana vem da necessidade de revelar o mundo oculto e rico que cada ser humano tem.

Quintana tem uma capacidade impressionante de poetizar coisas que para outra pessoa passariam como algo comum. Além disso, ele só aparentemente levava tudo na brincadeira, no fundo era um trágico. Para ele, o que não era poesia era fofoca; então tudo o que não podia ser dito de forma sublime para ele não tinha nenhum valor."

Bruna Lombardi - "Conheci Mário Quintana quando vim lançar meu primeiro livro, No Ritmo Dessa Festa (1976), na Feira do Livro de Porto Alegre. Ele estava na minha fila de autógrafos, eu o chamei para a frente - eu brincava dizendo que ele era o falso humilde (ele era humilde, mas sabia tudo!). Conversamos muito, eu fiquei aqui alguns dias e combinamos de tomar um chá anual. Nosso contato era mais de trocar cartas, imagina hoje com a internet, seria uma maravilha receber um e-mail dele todo dia! Uma vez me pediram pra eu publicar as cartas, eu recusei, hoje acho que seria legal. Eu sempre mandava meus poemas novos a ele, que fazia comentários. Pra mim foi um privilégio ter conhecido Mário, uma figura rara; penso que poderia ter sido mais assídua, mas a vida da gente é muito corrida.

Eu admirava muito a inteligência, o senso de observação e a informalidade do Mário. Ele gostava das coisas muito simples; nelas, está toda a resposta que você possa procurar. Mário observava a natureza, as criações de Deus, com uma sensibilidade muito grande. A poesia não é feita de grandes barulhos, ela é um riachinho que corre. Se você presta atenção nela, ela te dá um monte de respostas.

Mário Quintana nunca se deixou seduzir pelo falso brilho, vaidade, fama, esses valores tão usados na sociedade hoje. Algumas pessoas deviam ser preservadas como exemplo de comportamento. Quando penso no Mário, penso em valores bons, como honestidade, simplicidade. Ainda bem que a poesia dele está aí, ela serve como uma referência. Há dois pilares que sustentam as relações entre as pessoas: a solidariedade e a solidão. Escrever é um ato solitário. Mário vivia num quarto de hotel, com seu pequeno mundo, levava uma 'vida comum', mas sabemos que não era uma vida comum. A preservação desse dom da poesia que o levou a uma vida solitária é que tornou a poesia dele grande, em qualquer lugar do mundo."

Elena Quintana - "O tio Mário gostava de escrever mais à noite, quando os telefones não tocam. A idéia podia vir a qualquer momento, ele a anotava e olhava à noite. Algumas vezes já escrevia o poema, outras deixava a idéia na gaveta. Certas ocasiões buscava esses rascunhos na gaveta, juntava vários e fazia o que chamávamos 'rezar': pegava o poema, ficava lendo, relendo em voz alta, resmungando, buscando a melhor forma. Quando o poema estava mais perto de estar pronto, ele lia mais alto. Ele não gostava de música, assim como outros poetas (João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade...). Às vezes ele me pedia um palpite, mas quase nunca seguia o que eu sugeria! Só uma vez eu pedi pra mudar uma palavra: ele escreveu 'ignominiosa' e eu sugeri 'criminosa'; na hora ele deixou como estava, mas na última edição que revisou, ele me atendeu. (Elena se refere ao poema "Cocktail Party": "Não tenho vergonha de dizer que estou triste/ Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: / Estou triste por que vocês são burros e feios/ E não morrem nunca..."). Os poemas dele podiam levar muito tempo para ficarem prontos - "Cronologia" levou 40 anos!

Mário Quintana dizia que a única saída para os jovens poetas (que ele chamava natimortos) era participar de todos os concursos que pudessem. Numa das poucas palestras que fez, deu este conselho aos iniciantes: 'Escrevam, reescrevam, voltem a escrever. Não publiquem!'. E é uma verdade, muitos autores publicam muito jovens, depois com 40 anos se arrependem do que tinham escrito.

Ele gostava de ler os poemas, dizia que poema não pode ser declamado, e sim 'dito', 'lido como prosa'. Não gostava de declamadoras, só da Berta Singerman."

(Intervenção de Trevisan: "São raríssimos os autores que lêem bem seus próprios poemas: Quintana era um, Drummond já não era. A questão das declamadoras é que, no passado, como não havia bons microfones como os de hoje, às vezes se recorria à impostação da voz para conseguir preencher grandes auditórios. Interpretar poemas é uma coisa muito difícil.")

Antônio Carlos Secchin - "Em seus cinco primeiros livros, Mário Quintana vai do soneto com métrica não-ortodoxa (A Rua dos Cataventos, 1940) à prosa poética (Sapato Florido, 1948), passando pelo verso livre (Canções, 1946). Estilo, para ele, era a falta de capacidade de não ser repetitivo. Nesses cinco primeiros livros (a relação inclui, além dos citados, O Aprendiz de Feiticeiro, 1950Espelho Mágico, 1951), há um eu lírico constante, marcado por uma relação ávida com o mundo e maravilhado com ele.

Quintana está entre o clássico (pela tendência a seguir modelos fixos como o soneto) e o romântico (por sua espontaneidade). Sua obra se distancia tanto da geração de 1922 (novamente pela atração por formas fixas) quanto da de 1945 (da qual não tem nenhuma das características principais: pompa, solenidade, seriedade temática, vigilância lexical e restrição vocabular).

A poesia de Quintana parte de um choque, de algo fortuito, que ele reelabora, ferindo nossa sensibilidade anestesiada. Nesse ponto, ele se aproxima de Manoel de Barros e seus 'inutensílios': Quintana desfuncionaliza a realidade. Basta ver o título de seus livros: A Rua dos Cataventos, Sapato Florido, Espelho Mágico, Baú de Espantos, A Cor do Invisível. A um objeto com função determinada, liga-se uma característica inesperada, que o desfuncionaliza. Esse desvio de função remete ao surrealismo. É um olhar criador, e não reprodutor da realidade."


  • Making-off do texto - Publicado originalmente em dezembro de 2006 no site Jornalismo Cultural.