sábado, 1 de outubro de 2016

Opinião Música: O Disco Americano do Caetano



O melhor o tempo esconde
Longe, muito longe
(“Trilhos Urbanos”, Caetano Veloso)

Caetano Veloso não tinha como saber, mas os versos com que abriu seu disco americano (Caetano Veloso, Nonesuch, 1986) de certa forma previam o que aconteceria com a gravação: ficou escondida longe, muito longe do público brasileiro, que só pôde conhecê-la quando a PolyGram (hoje Universal) se dignou a lançá-la aqui, em novembro de 1990.

Este disco foi gravado em dois dias, direto, sem playback nem nada, numa sala alugada especialmente, depois de uma apresentação em Nova York que Caetano considerou péssima mas arrancou elogios dos críticos americanos. Apesar da rapidez, é um bom disco. O baiano selecionou um repertório de composições suas que vão do começo da carreira (“Coração Vagabundo”, uma das melhores faixas, é de 1967) a canções do seu LP anterior de estúdio, Velô (1984)(“O Homem Velho” e “Pulsar”, esta uma parceria com o poeta Augusto de Campos). Aliás, em “Pulsar” Caetano não tocou violão, o único acompanhamento é o bater de um sino, além da participação do guitarrista Toni Costa fazendo eco em uma palavra (justamente “eco”!). Há alguma percussão em várias canções, mas sempre discretamente. Mais discreto ainda, é possível detectar um teclado em “Nega Maluca” (Fernando Lobo – Ewaldo Rui)/“Billie Jean” (Michael Jackson)/“Eleanor Rigby” (John Lennon – Paul McCartney).

Aliás, a propósito do medley (tá assim no encarte!), ressalte-se a versatilidade do repertório de Caetano, pois em três LPs lançados em 1986 – este nos EUA, Totalmente Demais (PolyGram) e Melhores Momentos de Chico e Caetano (Som Livre), ambos ao vivo -, só uma faixa se repete: justamente esta colagem, embora no disco do programa Chico e Caetano "Eleanor Rigby" não estivesse presente.

É louvável a preocupação que Caetano teve, variando o estilo de acompanhamento ao violão ao longo do disco. Também lançou mão de alguns recursos vocais, como o assobio na excelente “Trilhos Urbanos” e a bocca chiusa em “O Homem Velho” e “Odara”. Já em “Terra”, os malabarismos no começo da faixa, antes de começar a tocar, deixaram a desejar, num dia em que ele não interpretou bem esta que é uma de suas mais belas criações. Outro momento não muito feliz é “Eu Sei que Vou te Amar” (Tom Jobim – Vinicius de Moraes), com leve citação de “Dindi” (Tom Jobim – Aloysio de Oliveira) - a voz de Caetano está irregular, em geral não alcançando o tom nesse clássico da bossa nova.

A bossa nova, aliás, está presente em um dos grandes momentos do disco: “Get Out of Town” (Cole Porter), a única inédita do LP, é feita numa levada de bossa muito boa, com respeitável solo de violão. Inédita, claro, no sentido de nunca ter sido gravada antes por Caetano, já que se trata de um clássico lançado em 1938. 

  • Making-off do texto - Originalmente, fiz esta apreciação do disco em dezembro de 1990 para o espaço de comentário que eu mantinha na Rádio Revista de Bento Gonçalves (RS), iindo ao ar pouco antes do meio-dia entre os anos de 1990 e 1992. É dos meus raros textos curtos para rádio que ainda circulam. Adaptado em 2003 para publicação no site Brasileirinho, chegou a ser incluído em 2005 na primeira versão da apostila do curso de Jornalismo Cultural. 
  • OBS: Na Wikipedia, consta que o disco teria sido gravado em setembro de 1985, o que bate com a informação que eu tinha à época, de o registro ter ocorrido após os shows do baiano em Nova York. Já na biografia disponível no site oficial do artista, afirma-se que a gravação se deu em maio de 1986. Na dúvida, deixo as duas informações aqui ao final, sem alterar o texto original.. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro, é autor de mais de mil músicas. São peças de vários gêneros, como concertos, sinfonias, suítes, quartetos de cordas, sonatas, bailados, arranjos para coro, peças para pequenos conjuntos e para grande orquestra.

Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro em 1887. Seu pai, Raul Villa-Lobos, violoncelista amador, reunia em casa um grupo de amigos que tocava música de câmara. Com a tia Zizinha, o jovem Heitor aprendeu a amar a obra de Johann Sebastian Bach. Ainda pequeno, incentivado pelo pai, Heitor iniciou-se no aprendizado de clarinete e violoncelo. Muitos anos depois, Villa-Lobos lembrava o papel paterno em sua formação musical:

- Meu pai, além de ser homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, sempre assistia a ensaios, concertos e óperas.

A mãe de Villa-Lobos, dona Noêmia, é que não gostava muito desse interesse pela música, pois queria que o filho fosse médico. Um pouco maior, ele passou a freqüentar as rodas de boemia onde se fazia o melhor choro da época.

Villa-Lobos aprendeu na escola da vida. Chegou a freqüentar o Instituto Nacional de Música, aos 20 anos. Mas não suportou a rigidez da disciplina e da falta de espírito criativo da escola. O INM não era o lugar de sua música, e sim da música-papel, como ele dizia:

- Há três espécies de compositores: os que escrevem música-papel, segundo regras ou modas; os que escrevem para ser originais e realizar algo que outros não fizeram e, finalmente, os que escrevem música porque não podem viver sem ela. Só a terceira categoria tem valor.

Com toda a certeza, Villa-Lobos pertence à terceira categoria. Sua grandeza está no fato de ter conseguido uma mistura perfeita do folclore brasileiro com a música de concerto européia, com a marca da sua forte personalidade. Ele não se limitou a recolher temas do povo e os harmonizar, como tantos já haviam feito. Nem se contentou em reproduzir modelos de além-mar, caso de outro grande compositor brasileiro, Carlos Gomes. Alguns autores como Alexandre Levy e Brasílio Itiberê já haviam utilizado temas populares em obras sinfônicas antes de Villa-Lobos. Mas estes temas quase sempre eram citações, nunca se alterando a fórmula que já vinha pronta da Europa. Villa partiu da riqueza musical do nosso povo para chegar a formas novas de composição na área da música de concerto, como os Choros, as Bachianas Brasileiras, as Serestas e as Cirandas.


Villa-Lobos viajou por praticamente todo o Brasil de 1905 a 1912. As condições para fazer tal aventura na época eram as mais precárias possíveis. Durante sua estada na Amazônia, por volta de 1910, sua mãe mandou rezar uma missa pela alma do filho que ela já julgava morto. Imaginem a surpresa de dona Noêmia, tempos depois, ao ver o filho ressuscitando no Rio de Janeiro...

Curiosamente, as composições de Villa-Lobos nessa época não têm ainda a marca nacional que é tão exaltada por seus admiradores e que seria de esperar de quem estava em contato tão íntimo com as manifestações genuínas do povo. Villa estava ainda influenciado pelo italiano Giácomo Puccini e pelo impressionismo francês, tendo dado o subtítulo de “Désesperance” à sua “Primeira Sonata-Fantasia”, de 1912.


O casamento com a pianista Lucília Guimarães, em 1913, fez com que Villa-Lobos voltasse a se fixar no Rio. Ocupava-se então em tocar violoncelo em orquestras de teatro de revista e salas de espera de cinema. Em 1915, pela primeira vez sua música foi executada publicamente, primeiro em Friburgo (RJ) e pouco depois no Teatro São Pedro (atual João Caetano), do Rio de Janeiro. Foi o início das polêmicas com a imprensa, principalmente com o crítico Oscar Guanabarino, que acusava o compositor de “demolidor da tradição musical”.

Villa-Lobos participou da famosa Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, em São Paulo. Já chegou para se apresentar sendo vaiado. É que ele estava com um sapato num pé e um chinelo no outro, além de se apoiar numa bengala. Como vestia uma casaca, o conjunto ficava parecendo uma provocação. A platéia assobiava, gritando: “Xô, fora o capenga!” Mas o caso é que o compositor estava atacado de gota na ocasião. Durante o concerto, novas vaias. Um músico devia tocar um instrumento nada comum: uma folha de zinco. A grita do público foi tanta que a direção do Teatro Municipal mandou baixar a cortina em meio à execução. Villa não se importou, afinal estava acostumado a ser vaiado. (anos mais tarde, Tom Jobim diria que Villa-Lobos se orgulhava de ser “o mais vaiado do mundo”). Aliás, como se comprova na frase a seguir, Villa não tinha tal platéia em conceito muito melhor:

- O auditório de concertos é quase sempre formado de elites sociais que, na verdade e na maioria das vezes, não gostam da música, e sim do gênero, estilo ou autor que está na moda.


Em 1923, Villa-Lobos fez sua primeira viagem à Europa. Foi financiado pelo milionário Carlos Guinle, uma das maiores fortunas do Brasil na época. Quando desembarcou em Paris, perguntaram-lhe com quem iria estudar. A resposta de Villa foi ao mesmo tempo arrogante e humilde:

- Não vim estudar com ninguém, vim mostrar o que eu fiz. Se gostarem ficarei, senão voltarei para minha terra.

Em Paris, conviveu pouco mais de um ano com Igor Stravinski, Manuel De Falla, Serguei Prokofiev e Maurice Ravel, além de ter o apoio decisivo de um admirador seu de muitos anos, o pianista polonês Arthur Rubinstein, que lançou na Europa muitas peças para piano do brasileiro, como “A Prole do Bebê”. Mais tarde, o autor homenagearia o intérprete com um retrato psicológico em forma de música: “Rudepoema”. E não só isso. O ator e compositor Mário Lago, vizinho de Villa-Lobos nos anos 1920, contou no livro Na Rolança do Tempo que a amizade dos dois, autor e intérprete, chegou a tal ponto que o sisudo Rubinstein saiu no bloco de Villa-Lobos no carnaval de 1925 fantasiado de baiana, com torso de seda e tudo.



Obs: o pianista não interpreta a obra completa, 
mas vale a pena conhecer este raro registro de 1940!

Em novembro de 1925, Villa-Lobos promoveu um concerto de novas obras suas. O local? O mesmo Instituto Nacional de Música que ele abandonara na juventude. O poeta Manuel Bandeira dizia na ocasião que “o Rio de Janeiro desconhecia as obras mais importantes do compositor, principalmente porque faltavam respeito e afeto a um músico que sem favor podemos colocar entre os seis ou sete nomes mais fortes da atualidade musical, ao lado de um Stravinski”.

O maestro voltou à Europa em 1927, percorrendo França, Polônia, Inglaterra e Espanha já como verdadeira celebridade. Quando já se pensava que o índio de casaca, como o chamava Menotti del Picchia, só viria ao Brasil a passeio, uma revolução mudou tudo. Villa-Lobos estava em São Paulo fazendo uma série de apresentações, em 1930. Num belo dia, foi acordado no hotel pela polícia e levado à presença do interventor João Alberto. Mas o susto passou logo: o político informou que era pianista amador e queria saber se Villa teria projeto de educação musical. Ele tinha. Poucos meses depois, aconteceria num estádio de futebol a Exortação Cívica, primeira concentração de canto orfeônico (como Villa chamava o canto a três ou quatro vozes), reunindo 12 mil estudantes. O estilo de interpretação era por ele assim definido:

- O canto orfeônico é uma das mais altas cristalizações e o verdadeiro apanágio da música, porque, com seu enorme poder de coesão, criando um poderoso organismo coletivo, ele integra o indivíduo no patrimônio social da Pátria.

Villa-Lobos foi muito criticado por deixar de lado a carreira na Europa e assumir uma secretaria criada especialmente para ele pelo presidente Getúlio Vargas. Até hoje há quem o chame de oportunista, ou de promotor de eventos que lembravam as cerimônias de Mussolini e Hitler. Logo ele, que quase fora preso na Alemanha por se recusar a bater continência ao Führer. Em defesa de Villa-Lobos, podemos garantir que seu envolvimento em política fora da passagem pela secretaria era nulo. Aliás, no auge da repressão do Estado Novo, em 1941, o compositor achou que o melhor era cuidar da carreira e saiu da secretaria. Mesmo promovendo eventos com até 20 mil crianças cantando, ele nunca parara de compor. Nesta época, já estava fazendo seu ciclo de peças mais importante, o das Bachianas Brasileiras. Ele dizia ter encontrado no sertão nordestino temas folclóricos que lembravam a música barroca de Bach, vindo daí sua inspiração para a série.

A música de Villa-Lobos foi pouco aproveitada pelo cinema em vida do autor. O diretor que mais usou suas obras nesse período foi Humberto Mauro, para quem escreveu as suítes “O Descobrimento do Brasil”. O Descobrimento do Brasil, o filme, foi realizado em 1937 e tem poucos diálogos, ouve-se praticamente a música do Villa o tempo todo.



Sim! Filme completo!


Depois de Mauro, sua música só voltou às telas com o Cinema Novo. O diretor Glauber Rocha dizia que o compositor era o modelo de artista para o movimento. Um dos projetos não realizados de Glauber era filmar a vida de Villa-Lobos, com Tom Jobim no papel-título. Praticamente todos os grandes filmes do Cinema Novo têm alguma música de Villa, como Deus e o Diabo na Terra do SolMacunaíma e Terra em Transe. Em Hollywood, Villa-Lobos só musicou um filme: A Flor que não Morreu (1959). Ah, e o compositor brasileiro chegou a aparecer em carne e osso num desenho animado de Walt Disney, Alô, Amigos (1942), contracenando com o próprio Disney, o Pato Donald e o Pateta.


Heitor Villa-Lobos faleceu em 17 de novembro de 1959. Mas sua obra está aí, disponível, viva. Diferente do que acontece com a maior parte dos compositores chamados eruditos brasileiros, lembrados só muito raramente ou esquecidos mesmo. Os CDs com suas músicas dificilmente param nas lojas especializadas. Há muitos sites na internet sobre Villa-Lobos. Recomendamos o site do Museu Villa-Lobos (www.museuvillalobos.org.br), onde há uma boa biografia e se pode ouvir o compositor tocando piano, violão e falando. Sua obra também é permanentemente gravada e executada por artistas populares e eruditos.

Além disso, ele deve ser o músico brasileiro com maior número de biografias e estudos da obra. Citemos alguns:

  • O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos, de João Carlos Ribeiro (organizador). São Paulo, Martin Claret, 1987 (de onde saiu a maior parte das frases do maestro que citamos neste texto).
  • O Romance de Villa-Lobos, de C. Paula Barros. Rio de Janeiro, A Noite, 1950.
  • Villa-Lobos, de Lisa Peppercorn. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000.
  • Villa-Lobos (Coleção A Vida dos Grandes Brasileiros - vol. 10), de Francisco Pereira da Silva. São Paulo, Três, 2001.
  • Villa-Lobos - Alma Brasileira (Série Identidade Brasileira), de Maria Maia. Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.
  • Villa-Lobos e Chopin: O Diálogo Musical das Nacionalidades, de Lúcia Silva Barrenechea e Cristina Capparelli Gerling, in: Três Estudos Analíticos - Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri, de Cristina Capparelli Gerling (organizadora). Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000.
  • Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, de Bruno Kiefer. Porto Alegre, Movimento, 1986, 2ª edição.
***


Making-off do texto - Assim como a biografia que escrevi de Elis Regina, este texto originalmente foi concebido como um trabalho de aula, nascendo como roteiro de um dos quatro programas que fiz para uma disciplina de prática de rádio, durante o curso de Jornalismo na UFRGS, em 2000. Ao gravar o roteiro, convidei o ator Álvaro Rosacosta para interpretar Villa-Lobos, cabendo a ele ler as frases destacadas em itálico neste artigo. Desde 1999, Álvaro estava em cartaz nos palcos gaúchos vivendo o maestro na montagem A Família do Bebê, da Cia. Terpsí Teatro de Dança; com direção de Carlota Albuquerque, a montagem tinha trilha original de Gustavo Finkler (do grupo Cuidado que Mancha) e incluía peças de Villa-Lobos como "A Prole do Bebê". O texto foi publicado em 2003 no site Brasileirinho e teve como consequência direta o artigo Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach, de 2004, republicado aqui no sábado passado. Versão anterior deste texto chegou a ser publicada aqui no blog em 2014, ilustrada apenas com fotos.

  • A presença de Villa-Lobos no elenco de Alô, Amigos é confirmada pelo site Adoro Cinema (veja aqui), mas o compositor não consta desta versão integral dublada disponível no YouTube. Isto talvez se deva ao fato de que, segundo a página do filme na Wikipedia, o estúdio Disney ter feito oito diferentes versões da obra a partir de 1946. 


domingo, 18 de setembro de 2016

Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach

O ciclo de nove "Bachianas Brasileiras" é um dos destaques no conjunto da obra de aproximadamente mil músicas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959 - ao lado em foto de autoria desconhecida, feita c.1922). Ele mesmo afirmava isso. Alguns críticos chegam a esboçar que o ciclo dos "Choros" tem igual peso, mas ninguém se arrisca a apontar a superioridade deste sobre aquele. Basta lembrar que duas das peças mais gravadas de Villa-Lobos são desse ciclo: a "Ária (Cantilena)" que abre a "Bachianas Brasileiras nº 5" e a "Tocata (O Trenzinho do Caipira)", quarta parte da "Bachianas Brasileiras nº 2". A motivação para compor as obras do ciclo, de acordo com o próprio Villa-Lobos, foram as semelhanças que encontrou entre músicas folclóricas do sertão brasileiro e a obra do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750).

(Antes de prosseguir, duas observações importantes: 1ª, o uso do nome do ciclo no plural, mesmo quando se trata de uma música isoladamente, era prática usual de Villa-Lobos tanto em relação aos "Choros" quanto com as "Bachianas Brasileiras"; 2ª, geralmente, fala-se em "movimentos" das "Bachianas Brasileiras" - exemplo: "O Trenzinho do Caipira" seria o 4º movimento da "Bachianas nº 2". Ocorre que dentro de cada "movimento" há significativas alterações de andamento, assinaladas na partitura - assim na "Bachianas nº 2" temos um Tempo de Marcha dentro da 2ª parte, "Ária", que inicia e termina num clima de modinha. Desta forma, eu prefiro adotar o termo "parte", em vez de "movimento", para melhor compreensão).

Villa-Lobos afirmou a influência de Bach em sua obra muitas vezes ao longo da vida, tendo esporadicamente incluído a seu lado nomes como os do francês Florent Schmitt (1870-1958) e do russo Igor Stravinsky (1882-1971)(embora ele tenha usado o termo "me interessaram", e não "me influenciaram", em entrevista ao português Fernando Lopes Graça em 1958). Vários comentaristas ampliaram a lista, com os nomes dos austríacos Franz Joseph Haydn (1732-1809) e Wolfang Amadeus Mozart (1756-1791), dos alemães Richard Wagner (1813-1883), Robert Schumann (1810-1858), Felix Mendelssohn-Bartoldy (1809-1847) e Ludwig van Beethoven (1770-1827), do italiano Giácomo Puccini (1858-1924), do húngaro Franz Liszt (1811-1886), do francês Claude Debussy (1862-1918) e do polonês Fréderic Chopin (1810-1849); entre aqueles que ao menos admirava, constavam ainda os franceses Paul Dukas (1865-1935) e Vicent d'Indy (1858-1931).

A respeito de influência

Maria Maia, em Villa-Lobos - Alma Brasileira (2000) cita uma frase do maestro: "Logo que sinto a influência de alguém, me sacudo todo e pulo fora".

O termo "influência" parece carregar uma certa culpa, na língua portuguesa (e em outras também, senão ninguém se lembraria de denominar influenza ao vírus da gripe!). É comum lermos que "Fulano sofreu a influência de Beltrano", ou, mais suavemente, "Sicrano admite a influência de Fulano em sua obra". Parece a confissão de um pecado capital. Só que é impossível a um cidadão, principalmente artista, viver no mundo, tendo contato com outros cidadãos e com obras de arte, e não se influenciar. Se ele vai usar essa influência para melhorar ou piorar a obra que vier a produzir, é outra história. Na maior parte das vezes, inclusive, o artista não tem consciência das influências que utiliza em sua obra - ao menos não todas. A não ser, claro, no caso particular de bandas de rock atual, que anunciam que buscam, por exemplo, um guitarrista com influência de Jimi Hendrix...

Sobre Bach, é preciso que se diga que ele nunca saiu de seu país, nem parece ter se importado em algum momento com a divulgação ou preservação de sua obra. Durante quase 80 anos após seu falecimento, Bach era conhecido praticamente apenas pelo estudo de seus prelúdios e fuga para instrumentos de teclado. Foi assim que Haydn, Mozart e Beethoven tiveram contato com ele. Depois de sua redescoberta, promovida a partir de 1829 por Mendelssohn, a obra de Bach passou a ser editada, estando completamente disponível por volta do centenário de sua morte, em 1850. Isso permitiu que os compositores do período romântico pudessem estudá-lo. Mais que isso, propiciou que, no início do século 20, em meio a várias tendências de vanguarda, ocorresse o movimento Retorno a Bach, cuja principal figura era o alemão Max Reger (1873-1916). As outras principais figuras deste movimento Jovem Classicismo (ou Novo Classicismo) foram o italiano Ferruccio Busoni (1866-1924), os alemães Paul Hindemith (1895-1963) e Kurt Weill (1900-1950), o russo Dimitri Shostakovich (1906-1975)... e o brasileiríssimo Villa-Lobos.

O próprio Bach (ao lado em retrato de Elias Gottlob Haussmann feito em 1746) foi influenciado, naturalmente. Entre os compositores que ele apenas estudou, constam o francês François Couperin (1668-1733) e os italianos Antonio Vivaldi (1675-1741) e Tommaso Albinoni (1671-1751). Mas há as influências apontadas pelos estudiosos: o italiano Girolamo Frescobaldi (1583-1644), os alemães Johann Jacob Froberger (1605-1687) e Johann Pachelbel (1653-1705) e o dinamarquês Dietrich Buxtehude (1637-1707). Esse último devia ser muito bom MESMO, porque Bach, em 1705, foi capaz de andar a pé de Arnstald, na Turíngia, onde era organista, até Lübeck, capital do Holstein (ambas hoje integrando a Alemanha reunificada), para poder ouvir Buxtehude. O dinamarquês chegou a dar aulas para Bach durante alguns meses. Só para efeitos de comparação, a distância entre Arnstald e Lübeck, tomada em linha reta no mapa, é de aproximadamente 313 quilômetros - Bach teria percorrido o equivalente à distância entre Porto Alegre (RS) e Tubarão (SC), ou entre São Paulo e Ribeirão Preto. Nada como ter 20 anos!

Pra fechar esse capítulo de influências, temos que dizer que outros autores foram influenciados por Villa-Lobos. Um deles, curiosamente, teria sido Stravinsky, no entender de Tom Jobim (1927-1994) - aliás, também um dos discípulos de Villa, e não só musicalmente. Basta olhar a foto da capa do CD Antônio Brasileiro (1994) para ver que Villa estava influenciando até a imagem artística de Tom (que, compenetrado, acende um charuto, uma das marcas registradas de Villa - e de Jobim).


  • Adendo 2016 - Por algum motivo que não me ocorre agora, não cheguei a mencionar no texto original a existência das "Bachianinhas" do brasileiro Paulinho Nogueira (1929-2003). O próprio nome da série de Nogueira evidencia a influência do ciclo de Villa-Lobos. A "Bachianinha nº 1" é a mais famosa, aliás era a única que eu conhecia (na versão original de 1965 do próprio autor) à época que escrevi o texto (e cometi o inexplicável lapso de não mencioná-la). Resta (ao menos para mim) uma dúvida, trazida pelo adendo "nº 1" em seu título: quantas "Bachianinhas" Paulinho Nogueira teria composto? O site Discos do Brasil lista duas: a primeira com gravações do autor e também de seu aluno Toquinho, além de outros intérpretes, e a segunda apenas pelo próprio Nogueira, em disco de 1986. Uma rápida busca no Google permite acrescentar à lista de intérpretes da nº 2: Os Três Morais, Paulo Bellinati & Marco Pereira, Não localizei evidências de outras "Bachianinhas" fora estas duas. Já o site Super Partituras menciona ainda o choro "Bachianinho", de Ary Alves

Villa encontra Bach no sertão

O contato de Villa-Lobos com as obras de Bach se deu ainda na infância, através do grupo de amigos de seu pai, todos músicos amadores, que tocavam em sua casa, duas vezes por semana. Quando a música interpretada era de Bach, o jovem Heitor saía da cama, em camisa de dormir, e se escondia embaixo da escada para escutar. Sua tia paterna Zizinha (Maria Carolina Rangel) sabia que bastava iniciar uma peça de "O Cravo Bem Temperado" ao piano para ver surgir o pequeno sobrinho.

Vários autores afirmam, em coro: Villa-Lobos, já adulto, localizou no sertão brasileiro músicas que, neste ou naquele aspecto (melodia, contraponto, modulação), tinham afinidade com aspectos da obra de Bach que ele conhecia da infância. Certo, mas quais aspectos seriam esses e onde ele os encontrou?

O único biógrafo a encarar o desafio foi o mais próximo de Villa, C. Paula Barros, autor de O Romance de Villa-Lobos (1950) e seu parceiro em clássicos como "O Canto do Pajé" (normalmente, Barros, Mário de Andrade e outros escritores que letraram músicas do maestro afirmavam, cheio de dedos, serem seus "colaboradores", como se usar o termo "parceiro" fosse uma ofensa...). Escreve Barros às páginas 36-37:


"Nas suas Bachianas, por exemplo, sente-se muito das cousas sertanejas. Nessa prodigiosa polifonia que é a nº 1, conseguida apenas com oito violoncelos, está nítido o panorama das caatingas, sob o galope dos touros bravos e dos vaqueiros. Julgamos que nessa obra mestra do artista, vive o mistério que povoa a alma do sertanejo.

Só depois que Villa-Lobos nos contou como havia encontrado esses elementos melódicos à maneira de Bach, em plenos sertões, em meio de vaqueiros e cantadores, foi que compreendemos bem como está adequado esse título de 'Bachianas Brasileiras'. 

(...) o jovem caçador de ritmos, um belo dia, meteu-se numa barcaça de pescadores do rio São Francisco, entre Bahia e Minas Gerais. Como seriam as cantigas e toadas daquela gente?... Aí ele, estupefato, anotou melodias arrítmicas semelhando músicas eslavas. De outra feita, no Espírito Santo, na fazenda de um tal Coronel Gervasio, teve ocasião de observar uma outra forma de música, de origem européia, porém, executada empiricamente, de modo todo especial. Música para uma dança rude, quase brutal, com bater de ombros, que em muitas ocasiões, lançavam os pares ao chão. Essa dança chama-se 'esquinado' e um dos seus objetivos é tornar (sic) um vencedor."

Aparentemente, tudo muito simples. Villa-Lobos, convencido dessa semelhança, teria escrito as "Bachianas" utilizando-se desses motivos populares e de citações de obras de Bach, certo?

Errado.

Só em uma "Bachianas" há citação popular direta, de acordo com Bruno Kiefer em Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira (1986): na nº 4, nas partes terceira - "Ária (Cantiga)" - e quarta - "Dança (Miudinho)". Quanto a trechos de obras do mestre de Leipzig... não há NENHUM! E agora, José? (como diria Carlos Drummond de Andrade num poema que Villa-Lobos musicou)

Kiefer nos socorre, esclarecendo: Villa "escreve à moda de Bach e brasileiramente!" Com ele concordam o musicólogo americano Ölin Downes e os brasileiros Andrade Bello, Andrade Muricy, Luiz Heitor, Arnaldo Senise e Maria Maia, entre outros.

Ainda é Kiefer que explica como essa síntese era possível. Primeiramente, Villa voltava, a partir das "Bachianas" 1 e 2, a escrever obras tonais com armadura de clave, ou seja, indicações de alterações de notas, através do emprego de bemóis e/ou sustenidos na partitura. Esse procedimento, bastante comum em música tonal ou modal, não vinha sendo empregado pelo compositor mesmo quando trabalhava em outras releituras de temas populares, como "A Prole do Bebê nº 2" (1921). Porém, a simples presença de armadura de clave em Villa não implicava necessariamente em música tonal, como no "Choros nº 5 (Alma Brasileira)" (1925). Nas "Bachianas", também é constante a simplicidade e o emprego de métodos muito próximos da tradição musical.

As pianistas Lúcia Silva Barrenechea e Cristina Capparelli Gerling (autoras de Villa-Lobos e Chopin: O Diálogo Musical das Nacionalidades, in: Três Estudos Analíticos - Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri, 2000) identificam na série o emprego de uma matriz tonal estável no longo prazo e discernível por cadências bem delineadas. Em Três Estudos Analíticos, Lúcia e Cristina citam ainda a visão do compositor Lorenzo Fernandez (expressa no artigo A Contribuição Harmônica de Villa-Lobos para a Música Brasileira, 1946). Fernandez "observou a maneira pela qual Villa-Lobos explora o uso de dissonância nas cadências: o compositor invariavelmente constrói acordes de tônica e dominante com tons agregados e apojaturas sem resolução. Este procedimento gera sonoridades em clusters e também acordes politonais. O uso da politonalidade tão disseminado nas décadas medianas do século vinte é no entanto apenas uma maneira de combinar e sobrepor sonoridades pouco comuns com um vocabulário tonal."

Outra característica constante na série é que cada parte de uma "Bachianas" tem nome duplo: à denominação clássica de música de concerto corresponde a designação do ritmo popular ao qual se remete - por exemplo, a primeira parte da "Bachianas nº 3 chama-se "Prelúdio (Ponteio)".

As "Bachianas": composição, estréia e comentários

Bachianas nº 1 - Composta em 1930, para conjunto de 8 violoncelos, teve a primeira audição dirigida pelo autor, em 22 de setembro de 1932. C. Paula Barros afirmava ver nela religiosidade e possível evocação ao pai do compositor, Raul Villa-Lobos - nada mais justo, afinal, ele "apresentara" Bach ao filho! Barros acrescenta: "As 'Bachianas nº 1' nos envolvem num esplendor de ritmos e motivos surpreendentes pela cor e pela sugestão do que mais possa haver de subjetiva brasilidade". Em outra passagem, diz encontrar nela "ecos dos ritmos das vaquejadas dos campos marajoaras". Adhemar Alves da Nóbrega, autor de um livro sobre o ciclo das "Bachianas", considera a 1 a mais original, principalmente para os "não iniciados". Sobre a terceira parte, "Fuga (Conversa)", o próprio Villa-Lobos comentava:

"A cabeça do tema inicial se caracteriza numa espécie de transfiguração de certas células melódicas, típicas e populares dos antigos seresteiros da Capital Federal, à maneira de Sátiro Bilhar. Bilhar (1861-1929) foi um velho e incorrigível boêmio, cantador e tocador de violão que acumulava as funções de funcionário público com a de seresteiro habitual. 
A forma e o estilo da fuga representam, primeiro, a espiritualização da maneira de Bach, e depois uma idéia musical da conversação entre quatro chorões, cujos instrumentos se disputam a primazia temática, em perguntas (sujeito) e respostas sucessivas, num crescendo dinâmico, mas sempre conservando a mesma cadência rítmica."




Bachianas nº 2 - Também de 1930, para orquestra, estreou em Veneza, sob regência de Alfredo Casella. Em sua primeira parte, "Prelúdio (Canto do Capadócio)", Kiefer detecta a substituição de uma importante característica de Villa, a invenção contínua, pela progressão, um procedimento típico do Barroco. Além disso, um sax tenor chora uma melodia bem modinheira-seresteira, num esquema geral ABA' (ou seja, executam-se dois movimentos da parte sem repetição, retornando após ao tema do primeiro movimento, modificado). A segunda parte, "Ária (Canto da Nossa Terra)", alterna modinha e tempo de marcha, com os violoncelos num pizzicato grave lembrando os baixos cantantes dos violões das serestas. A imponência do início da parte, para Kiefer, evoca inequivocamente Bach. No tempo de marcha, a atmosfera bachiana é deixada de lado. O clima é tonal. Um solo de trombone marca a terceira parte, "Dança (Lembrança do Sertão)", em que movimentos modais emolduram um centro tonal. Já a quarta parte, a célebre "Tocata (O Trenzinho do Caipira)", é atonal, pois sugere o bater de ferros de uma locomotiva em movimento.


Bachianas nº 3 - Escrita em 1938 para piano e orquestra, só chegou ao público em 19 de fevereiro de 1947, com José Vieira Brandão ao piano, acompanhado da orquestra CBS regida por Villa-Lobos.



Bachianas nº 4 - Foi composta em 1930 para piano solo, tendo estreado com Vieira Brandão, em 27 de novembro de 1939. O arranjo para orquestra, de 1941, foi mostrado ao público em 15 de julho de 1942, regido pelo autor. O pianista Arthur Moreira Lima destaca, do ponto de vista do intérprete, "a grandiosidade do 'Prelúdio (Introdução)', a riqueza de timbres do 'Coral (Canto do Sertão)', a nostalgia da 'Ária (Cantiga)', interrompida por um ritmo sincopado típico do Nordeste, e a complexidade técnica da 'Dança (Miudinho)'". Para quem estranhou que a 4 tenha sido escrita antes da 3, esclarecemos que Villa costumava fazer isso - por exemplo, o "Choros nº 7" é de 1924, anterior ao 3, de 1925.




Bachianas nº 5 - A mais famosa do ciclo, para soprano e conjunto de 8 violoncelos. Teve a primeira parte, "Ária (Cantilena)", composta em 1938. Sua primeira audição se deu pela voz de Ruth Valadares Corrêa, também autora dos versos. A segunda parte, "Dança (Martelo)", letrada por Manuel Bandeira em 1945, estreou com Hilda Ohlin em Paris, a 29 de outubro de 1947. David Nasser escreveu nova letra para a primeira parte, gravada por Elizeth Cardoso com conjunto, em arranjo e regência de Radamés Gnattali em 1979. Para dar uma idéia da popularidade desta composição, basta lembrar o que o pianista Vieira Brandão ("Brandãosinho") contou a C. Paula Barros: tendo sido Villa chamado aos Estados Unidos em 1947 para escrever sob encomenda a opereta Madalena, os empresários da companhia sugeriram-lhe usar a "Bachianas nº 5" como abertura... Villa ameaçou voltar ao Brasil, suspendendo a temporada toda, fato que os levou a ceder. Felizmente eles eram de palavra, pois Villa não pôde ensaiar a companhia, devido a ter sido hospitalizado com gravidade antes da estréia da opereta, em 1948.



Bachianas nº 6 - Composta em 1938 para flauta e fagote, estreou em 24 de setembro de 1945.





Bachianas nº 7 - De 1942, para orquestra, teve primeira audição regida pelo autor, em 13 de março de 1944. Foi escolhida pelo diretor do Departamento de Difusão Cultural da Prefeitura do Distrito Federal, professor Francisco Gomes Maciel Pinheiro, para abrir um Festival Villa-Lobos no Teatro Municipal, em 29 de abril de 1950 (houve um segundo Festival pouco depois). Tendo o concerto sido aberto com as "Bachianas nº 7", a jornalista e musicóloga Beatriz Guimarães comentou com C. Paula Barros: "Bach deveria estar aqui para ouvir estas 'Bachianas'".


Bachianas nº 8 - Escrita para orquestra em 1944, foi uma das que estrearam fora de casa - em Roma, em 6 de agosto de 1947, com a Orquestra da Academia de Santa Cecília, regida pelo autor. É das poucas, junto com a 4, a ter duplo arranjo. Sua quarta parte foi transformada na "Fuga Vocal da Bachiana nº 8", para coro misto. Este arranjo foi incluído junto com músicas de Bach e outros no livro Solfejos Vol. 2 (1945), editado pelo MEC visando o ensino de música e canto orfeônico nas escolas. Sobre a obra, C. Paula Barros escreveu: "É um tema rico de coloridos vivos e que traduz a modinha brasileira, apaixonada e sentimental, como a expressão psicológica do povo brasileiro. E porque ela é tão acentuadamente nacional, nos faz vibrar violentamente". O regente francês Paul Paray, ouvindo a nº 8 numa noite em Paris, exclamou: "Il fait pleurer"... (Ele faz chorar).



Bachianas nº 9 - A última do ciclo, composta para orquestra de cordas, é de 1945. Contou com Eleazar de Carvalho dirigindo a orquestra que a apresentou ao público em 17 de novembro de 1948.



Outras obras de Villa com influência de Bach

Kiefer aponta como "bachiano" também o "Estudo nº 1 para Violão" (1929), tonal. Para encontrarmos ecos do mestre de Leipzig em outras obras, precisamos recorrer ao próprio Villa-Lobos. Adhemar Alves da Nóbrega citava numa palestra de 1970 uma classificação que Villa fizera de sua obra, dividindo-a em cinco agrupamentos, considerando a maior ou menor presença do folclore em cada um deles. As "Bachianas" estavam no 4º grupo, assim definido: "Com transfigurada influência folclórica, impregnada do ambiente musical de Bach". Junto às "Bachianas", figuravam a série de "Marchas" religiosas para orquestra (1913-25), o oratório "Vidapura" para orquestra (1919), as "Suítes 1 a 3 do Descobrimento do Brasil" (1937), "Sertaneja (3ª parte da Suíte para Canto e Violino)" (1923), "Poema de Itabira" para canto e orquestra (1943), "José" para coro a capela (1945), o "1º Quarteto de Cordas" (1915) e o "Allegro Troppo e Final (4º movimento do 1º Trio para Piano, Violino e Violoncelo)" (1911) e os "6 Prelúdios para violão" (1940).

Não tenho como confirmar ou refutar tal classificação, afinal destas obras só conheço as da suíte "O Descobrimento do Brasil" (recomendo!) e os "Prelúdios" de 1940. Também não sei de ninguém que tenha conseguido, ou ao menos tentado, mostrar que não há Bach nessa ou aquela composição desta lista. Só posso dizer que, nas obras de Villa-Lobos que conheço escritas antes de 1917, noto influência de Puccini e do impressionismo francês, e praticamente nenhum traço brasileiro. Notem que o "Estudo nº 1" citado por Kiefer não figura nesta relação - no total dos cinco agrupamentos, as únicas peças para violão que Villa arrolou foram os "Prelúdios" de 1940. (Sobre esta série, cabe observar que há registro de que Villa tenha efetivamente composto seis prelúdios, mas o último se perdeu. Cada um dos cinco restantes apresenta um subtítulo homenageando alguma característica do Brasil, exceto o "Prelúdio nº 3 em Lá menor", cognominado "Homenagem a Bach", sendo a única composição, fora da série das "Bachianas", em que Villa presta tributo a seu ídolo.)


Arranjos de Villa-Lobos para obras de Bach

No período em que compôs as "Bachianas Brasileiras", Villa-Lobos dedicou-se paralelamente a escrever arranjos para obras de Bach. São de 1930 as transcrições para violoncelo e piano dos "Prelúdio e Fuga" nºs 10 e 14 e o "Prelúdio nº 8". Em 1938, foi a vez dos arranjos para orquestra do "Prelúdio e Fuga nº 4", regido por Villa a 1º de maio de 1944; antes, a 3 de abril de 1944, ele dirigira a estréia de "Tocata e Fuga nº 3" e "Prelúdio e Fuga nº 6" (assisti a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, regida pelo fantástico Henrique Morelembaum, executar este arranjo a 22 de agosto de 2000 e devo dizer que era possível distinguir aqui e ali o estilo ou ao menos alguns maneirismos típicos do Villa). Também de 1938, o arranjo para "Fantasia e Fuga nº 3" permaneceu inédito.

Já em 27 de outubro de 1941, Edoardo Guarnieri regeu as estréias dos arranjos de Bach que Villa escrevera naquele ano, todos para orquestra de violoncelos: "Fugas" nºs 1, 5 e 21; "Prelúdio e Fuga nº 8" e "Prelúdios" nºs 14 e 22.

Durante o período em que dirigiu a SEMA (Superintendência de Educação Musical e Artística) do Distrito Federal, Villa-Lobos realizou arranjos para coro de muitas obras de Bach. O maior destaque desse ciclo foi a apresentação da "Missa em Si menor", cuja primeira audição no Brasil, comemorando os 250 anos do alemão, se deu através do Orfeão de Professores no Teatro Municipal do Rio, em 9 de novembro e 11 de dezembro de 1935. O Orfeão era um coro de cerca de 250 professores das redes municipal, federal e particular da Capital da República, criado por Villa em 1932.

No primeiro ano da SEMA, em 1932, Villa arranjou e dirigiu a estréia de "Fuga nº 5", para 4 vozes, "Fuga nº 21", para 5 vozes, e "Prelúdio nº 22", para coro misto a capela. Estes dois últimos foram interpretados pelo Orfeão, sob direção de Villa, na comemoração do Dia da Pátria, no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1932. As obras voltaram a ser cantadas no Concerto aos Operários, no mesmo local, a 28 de abril de 1935, e, juntamente com o "Prelúdio nº 14", a 18 de dezembro de 1937, na primeira parte do Concerto Cultural Popular, no Municipal, desta vez em novos arranjos sem palavras.

Em 23 de junho de 1933, regeu a estréia dos arranjos das "Fugas" nº 1 e 8, ambas para 4 vozes, escritos no mesmo ano. Em julho, aconteceu a primeira audição de seu arranjo para coro misto à capela do "Prelúdio nº 8". Esta obra apareceu, arranjada para coro misto a 6 vozes, no livro Corais de Diversos Autores, editado pelo MEC.

Em 1934, novo arranjo para coro misto a capela: "Prelúdio nº 14", incluído depois no livro Obras Corais, Originais e Arranjos, numa versão para 4 vozes.

Enfim

Com isso, creio que fica em definitivo desautorizado dar crédito ao que diz a jornalista americana Lisa Peppercorn em seu livro Villa-Lobos, afirmando que a partir de 1930 o compositor "chamou de Bachianas Brasileiras tudo o que compunha (como havia feito alguns anos antes ao usar o nome de Choros para uma série de obras) mesmo que não houvesse nenhuma relação íntima entre a composição e o seu título". Eu, hein?


  • Making-off do texto - Escrevi esse texto em 2004, a partir de uma pergunta de uma estudante de História mineira, que tendo lido uma biografia que eu publicara de Villa-Lobos no site Brasileirinho, quis saber - mais a título de uma curiosidade pessoal - se haveria mesmo influência de Bach na obra do compositor brasileiro. Comecei a ler o material de que dispunha (os livros citados ao longo do texto) e me dei conta de que a influência era não só real, como admitida pelo própria Villa - e mais, no livro de C. Paula Barros (raramente citado pelas outras fontes) eu tinha a chave da história toda! Isto me animou a fazer este que eu considero, modéstia às favas, um de meus melhores textos. Basta dizer que motivou, em 2008, uma consulta que recebi de um dos maiores críticos de arte do país, Olívio Tavares de Araújo, a quem se encomendara um artigo sobre Villa-Lobos (já contei esta história aqui). É um dos meus quatro artigos citados na Wikipedia, mais exatamente no verbete Bachianas Brasileiras

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Opinião/Cinema: Vidas Partidas

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro



Vidas Partidas é um filme inspirado na trajetória da biofarmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, inspiradora da Lei Maria da Penha, promulgada há 10 anos para punir de forma severa a violência doméstica contra a mulher. 

A ação é ambientada no Recife dos anos 1980. Graça (Naura Schneider) e Raul (Domingos Montagner) formam um casal apaixonado, com duas filhas. Mas, diferentemente do que seria considerado padrão na época (ou mesmo hoje, para alguns), é o salário da esposa, Graça, que constitui a principal fonte de renda da família; Raul está num período dedicado apenas aos estudos, findo o qual Graça consegue um emprego de professor universitário para ele. E é ai que tudo muda, Raul se torna cada dia mais agressivo, possessivo, ciumento e suas frustrações pessoais se refletem na forma agressiva com que trata sua família; em contrapartida, Graça está cada dia mais reconhecida em seu trabalho.





Vidas Partidas tinha tudo para se tornar um belíssimo trabalho mas o máximo que conseguiu foi ser algo caricato. Do ponto de vista técnico, faltou uma melhor direção de atores, todos se perdem frequentemente e em um mesmo diálogo há exageros de um lado e sutileza demais do outro. Outro ponto a observar é que, mesmo com a ação se passando no Nordeste, o sotaque ouvido em cena é do Sul (algo comum em produções da TV Globo, por exemplo). A própria direção de arte apresenta problemas, com objetos e peças do figurino modernos demais para a época retratada.  

Porém,  o que mais me incomodou foi a falta de sensibilidade tanto do diretor Marcos Schechtman quanto do roteirista José Carvalho. Como é que num filme em que o tema é violência doméstica contra a mulher o ponto de vista escolhido para conduzir a história é o do marido, Raul? Em muitas cenas parece que direção e roteiro tentam justificar as atitudes agressivas de Raul, romantizando a violência. Há uma cena de sexo forçado que é bem forte, mas o jeito que ela foi abordada parecia que a vítima estava gostando - sendo que a esposa estava sendo abusada sexualmente pelo próprio marido, alguém em que ela deveria poder confiar! Como ela poderia estar gostando? Faltou empatia, sensibilidade, se colocar no lugar da outra pessoa e principalmente dar voz a vítima, é ela que precisa e não tentar justificar e passar a mão no agressor.

É bom lembrar que, segundo uma pesquisa do Instituto Avon/Ipsos - Percepções sobre a violência doméstica contra a mulher -, a violência doméstica atinge 2 milhões de mulheres no Brasil. A cada 4 minutos uma mulher é atendida no SUS depois de sofrer esse tipo de agressão; mas apenas 63% das agredidas denunciam. O filme aborda um tema muito sério e poderia até ajudar mais mulheres agredidas a se sentirem encorajadas a denunciar. 

Dito tudo isso, há sim pontos positivos que precisam ser ressaltados. Schechtman conduziu perfeitamente as cenas de contexto erótico, sem falsos pudores, o que é algo bom já que dificilmente o cinema brasileiro faz isso, principalmente com casais de meia idade. As cenas de violência são bem “verdadeiras”, elas impactam, são fortes, como deveriam ser.

O trabalho de direção, somado ao dos fotógrafos Elton Menezes e Rafael Rahal, resultou em sequências apresentadas através de ângulos diferentes e incomuns, o que nos deixou mais próximos do que estava acontecendo em cena. Além disso, Schechtman usou técnicas que ajudaram muito no clima de suspense, como a iluminação, a trilha sonora e o enquadramento que trouxe toques até de terror em certas cenas. Aliás, esse tom de suspense é uma das melhores coisas do longa. Outro ponto positivo é a linha do tempo, as cenas se alternam entre 1982, 1992 e 2006, sem seguir a ordem cronológica, instigando a curiosidade do espectador. 



O elenco está bem entrosado, principalmente Naura e Domingos. Naura, também uma das produtoras do longa, demonstra personalidade e força no olhar, conseguindo transmitir a dor de sua personagem e a ilusão também. Já Domingos é o ator certo para esse filme, pois ele consegue mudar rapidamente os jeitos e expressões faciais, desde uma ternura singela até a agressividade e fúria que seu personagem tem. Os dois tiveram uma boa sintonia com as participações especiais de Jonas Bloch, Milhem Cortaz e Denise Weimberg.

Há uma beleza sim no filme, mas infelizmente ela acaba se perdendo quando lembramos que o tema principal acabou não sendo tão destacado quanto deveria, o que me decepcionou bastante.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

150 mil acessos!





Na noite dessa quarta, 27, este blog atingiu a marca de 150 mil acessos desde sua entrada no ar, em 8 de agosto de 2011 (há praticamente 5 anos, portanto). Em média, são 82 acessos por dia ao longo desse tempo todo, mas é claro que sempre há oscilações, não é? No mês de estreia, o blog atingiu 1.615 acessos e já em setembro de 2011 pulou para 2.906, recorde que só foi quebrado em janeiro de 2013 (2.943). Novos recordes vieram em abril de 2013 (3.702), janeiro de 2014 (4.717) e maio de 2015 (5.181, ainda não superado). Só entre junho e agosto de 2012 o acesso mensal ficou abaixo de mil - sendo o pior mês da série histórica (sempre quis usar esta expressão!) agosto de 2012, com apenas 844 visitas. Agora em julho de 2016, já tivemos 3.040 acessos (sendo 112/dia). 

Os números são animadores, levando-se em conta de que os blogs não são há muito tempo a mídia virtual da moda, tendo sido ultrapassados há tempo em relevância para o público pelas redes sociais (mas, como escrevi no LinkedIn mês passado, esse jogo pode estar começando a virar). 

Este blog foi criado como sucessor do site Jornalismo Cultural, que coloquei no ar em 6 de outubro de 2005 (e ainda segue no ar, aqui você acessa a página de Artigos dele). Seus objetivos eram dois: 

funcionar como um canal para publicação de artigos meus e de outras pessoas sobre a cena cultural brasileira e também como agenda cultural (função que descartei ao longo do tempo, já que as pessoas deixaram de usar blogs como guia cultural, optando por redes sociais ou Whatsapp); e

ser uma antologia dos meus principais artigos publicados nos antigos sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural.

Olhando retrospectivamente, fico feliz ao constatar que as duas funções foram e estão sendo plenamente cumpridas. Talvez um pouco menos a segunda (mas note pela ilustração do post que Tia Ciata, um texto que escrevi para o Brasileirinho em 2007, e republicado aqui em 2012, é o terceiro mais visto desde que o blog é blog, sendo citado até na Wikipedia; seguido por Gaita no Sul = Sanfona no Nordeste, também originalmente publicado no Brasileirinho.). De todo modo, como ambos os sites seguem no ar, os textos continuam acessíveis, portanto.

Os outros três textos do nosso Top 5 são ligados à faceta opinativa do Jornalismo Cultural. O campeão do blog é um comentário que fiz destacando os furos de roteiro do filme O Espetacular Homem Aranha 2 - sendo que eu próprio cometi alguns equívocos no texto, o que me levou a fazer novo artigo sobre o filme... 

A presença na lista de outra crítica de cinema destaca a importância de haver gente colaborando com o blog, afinal nem só não tem como eu ouvi/ver tudo, mas também é fundamental haver pluralidade de opiniões. O texto de Bianca Oliveira, nossa comentarista desde 2014, analisando o filme Como Eu Era Antes de Você,  pode ser considerado um fenômeno de popularidade - tornou-se o quinto texto mais lido na história do blog em apenas 21 dias!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Destaco também o texto sobre teatro Peça Salvador: Éramos Gays, o segundo colocado na lista, da jornalista baiana Calila das Mercês, que foi colaboradora do blog entre 2011 e 2014. A Calila, Bianca e todas as pessoas que ao longo destes 5 anos escreveram para o blog, o meu agradecimento. 

Ao longo destes 5 anos, o país de onde mais recebemos visitas é, naturalmente, o Brasil (72 mil, quase a metade dos acessos); seguem-se Estados Unidos (35 mil, ou seja praticamente 25%), Alemanha, Rússia e Ucrânia. Nos últimos 30 dias, o Brasil segue líder (quase um terço das visitas), vindo em seguida Rússia, Hong Kong (!), Alemanha e EUA. 

Os principais browsers usados pelos internautas desde sempre para nos ver são o Chrome, o Firefox e o Internet Explorer - sendo que o IE surpreende ao ser o 2º colocado nos últimos 30 dias, com um terço dos acessos (o Chrome lidera com 50%). 

Já a análise do sistema operacional preferido para nos ver mostra uma importante mudança - o Windows sempre liderou (67% nos 5 anos e 58% de um mês pra cá), porém o Android, que na série histórica ficava em 4º lugar (7%, atrás do Linux), no último mês representa 27%, à frente do Macintosh (8%). Ou seja, o acesso móvel maciço já é o presente da internet. 

Outra mudança significativa é a origem das visitas - ou seja, onde os internautas seguiram um link que os trouxe até o blog. Historicamente, é o Google, com 10%. No último mês, é o Facebook, com 20%. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Opinião Cinema: Como Eu Era Antes de Você

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro




Jojo Moyes é a nova queridinha do mercado literário. Seu livro Como Eu Era Antes de Você vendeu mais de três milhões de cópias no mundo inteiro, e naturalmente atraiu o interesse dos produtores de cinema. É normal que o filme perca um pouco da essência do livro, mas nesse aspecto é importante ressaltar que foi a própria Moyes que escreveu o roteiro, ou seja, qualquer mudança ou simplificação veio da própria autora das personagens. Então o que nos resta é nos conformar com o que promete ser “ A culpa é das Estrelas” de 2016.

Louisa Clark (Emilia Clarke) é uma jovem moça que não tem muitas ambições, ela está acostumada em morar numa cidadezinha perto de Londres junto com os pais, avô, irmã e seu sobrinho pequeno. Infelizmente, ou não, o café em que Lou trabalha fecha as portas e a moça se vê na obrigação de procurar urgente um novo emprego para ajudar sua família, mesmo tendo pouca experiência. Esse emprego é nada mais, nada menos, do que como cuidadora de Will Traynor (Sam Claflin), um rapaz aventureiro, rico e que tinha grandes ambições, mas que após um acidente ficou tetraplégico, com um humor difícil e perdido, sem saber o que fazer, além de querer desistir da vida.

Ser um deficiente físico não deve ser algo fácil, isso sabemos, e não é de hoje que o cinema vem abordando temas assim em filmes como O Meu Pé Esquerdo, o fabuloso A Teoria de Tudo, Tudo Por Amor etc. Jojo tinha tudo para fazer desse um exemplo de luta e perseverança, mas optou resolver as questões de modo fácil, bobo e melancólico. Calma, crianças, não me ataquem, larguem  essas pedras, eu sei que o filme está na modinha e todo mundo amando, mas deixa a tia Bianca falar uma coisa, do fundo do coração dela, NÃO É ASSIM QUE FUNCIONA NÃO. A vida de um deficiente não é cheia de adaptações, jatinhos e funcionários paparicando. Pessoas de verdade têm que enfrentar todos os dias enormes desafios, têm que enfrentar os outros olhando para elas como aberrações, às vezes precisam da ajuda de estranhos pois nem todo local é adaptado, precisam passar várias horas quase esmagados no avião, porque tudo é muito pequeno, e tem que conviver com aquilo diariamente, sem a opção que Will teve.

“Ah, Bianca, mas isso é ficção, não leve tão a serio”. Eu sei disso, só que o cinema influencia e muito a vida de qualquer um, e por que não usar esse meio para mostrar as pessoas que não é o fim do mundo? Eu sei também que Will era aventureiro e seu acidente foi um choque mas tenho absoluta certeza que Jojo Moyes poderia contornar isso. O próprio Francesco Clark, que dizem ter sido uma das “inspirações” da autora, criticou a trama e principalmente a forma que ela foi abordada:

- Eu trabalho incansavelmente para mostrar para todo mundo que ser quadriplégico não o final da vida de ninguém – é um novo começo. Eu não estou tomando uma posição contra o suicídio assistido, estou dizendo que estou revoltado por terem me associado a uma história que diz que a única ou melhor saída para pessoas como eu é a morte. Eu vou continuar espalhando uma mensagem de positividade e esperança para as pessoas que sofreram ferimentos como os meus, ou que conhecem e amam alguém que sofreu. Sou um perfeito exemplo de que a vida não só continua, como se torna melhor a cada dia.

Eu sei que, olhando por esse lado, estou detonando a “magia” do filme, mas me revolta a forma com que a autora abordou um tema assim. Romantizar isso é perpetuar um estereótipo, é uma questão de abandonar as pessoas reais com deficiência que estão lutando e muito para ter sua sanidade e meios para sobreviver.

Além disso, outro erro foi na pressa em apresentar os personagens, na verdade nem apresentaram, o longa foi logo colocando momentos aleatórios. O começo todo é uma correria, há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e muitas nem ligação têm. A diretora Thea Sharrock queria colocar logo seus personagens em um conflito central, o que gerou uma construção fraca e não nos deixou aproveitar o momento.







Exemplos: Lou diz que gostou de um filme que assiste com Will, mas a gente não a vê assistindo a sessão em casa, rindo e nem vê seus olhos brilhando e se apaixonando pelo tal filme. Ou então a cena do concerto de música clássica, que é tão rápida que nem reparamos direito nos dois e na sintonia. A diretora forçou a aproximação, e o engraçado disso tudo é que os melhores momentos, os que arrancam de verdade gargalhadas e lágrimas, são os mais bestinhas.

Dito tudo isso preciso ressaltar as partes boas (aleluia). O filme possui uma fotografia linda, as paisagens do interior da Inglaterra são verdadeiros presentes para o público. O diretor de fotografia Remi Adefarasin usou e abusou das cores quentes, e isso deu um charme e ajudou a percebermos a beleza da relação entre os atores principais. A trilha sonora, açucarada, de Ed Sheeran fez todo mundo entrar no clima e até em determinados momentos fez cair aquele suor hetero dos olhos.  Mas não tenho dúvidas que o que mais chamou a atenção foram os exuberantes figurinos, principalmente o da Lou, a figurinista Jill Taylor disse que queria que as pessoas sentissem a alegria da personagem e isso nos cativou muito.


Emilia é o coração do filme, e a direção sabe muito bem disso, não é à toa que focaram bastante nela. Mas mesmo sua personagem sendo divertida e cativante, a atriz decidiu interpretá-la de uma forma caricata, exagerando em absolutamente tudo, desde as caretas até a entonação. Não que isso seja ruim, é algo estranho mas que trouxe várias gargalhadas. 

Claflin interpretou algo difícil, não chamou atenção,  nem foi a melhor atuação de sua carreira, mas ele demonstrou segurança e o seu contraste com Emilia rendeu ótimas cenas. E de todos as cenas, sem dúvidas, a sequência do casamento é a mais linda e meiga.

Um pouco de comédia, e muito mais romance, Como Eu Era Antes de Você  não é aquele filme espetacular e perfeito, ele apenas soube seguir à risca a fórmula do cinema água com açúcar que faz as pessoas chorarem, rirem, soltarem aquele “awwwm” mas que depois são facilmente esquecidos. Vale a pena ver na sessão da tarde, quem sabe.


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terça-feira, 21 de junho de 2016

Opinião Cinema: O Maior Amor do Mundo

Por Bianca Oliveira, 
do Rio de Janeiro





O titulo original não deixa dúvidas: o novo filme de Garry Marsahll, Mother's Day, visava atrair espectadores ao cinema aproveitando as comemorações do Dia das Mães (o filme foi lançado no Brasil em 5 de maio, a três dias da data festiva). A fórmula usada pelo diretor é bem simples: artistas conhecidos + várias histórias paralelas que sempre têm algo em comum (nesse filme histórias sobre a maternidade) + enredo bobo com desfecho mais bobo ainda = uma comédia fraquinha que até provoca algumas gargalhadas na plateia,  mas no outro dia ninguém vai lembrar nem o nome.

Em uma de suas histórias, Mother’s Day apresenta Sandy (Jennifer Aniston), divorciada, mãe de dois filhos que está tentando se adaptar a numa nova vida enquanto seu ex já está com uma nova namorada: Miranda (Júlia Roberts), escritora e apresentadora de sucesso e que escolheu focar mais na carreira do que na sua vida pessoal. Sua história se cruza com a de Kristin (Britt Robertson), uma jovem mãe insegura que não sabe “quem é de verdade” e está a procura da sua mãe biológica. Já Jesse (Kate Hudson),  casada com o indiano Russell (Aasif Mandvi), é mãe de um menino e que guarda muitos segredos de sua mãe junto com sua irmã Gabi (Sarah Chalke); e por último mas não menos importante Bradley (Jason Sudeikis), pai viúvo que depois que sua esposa faleceu teve que cuidar sozinho de suas duas filhas.

Todas as histórias se cruzam e têm o seu grau de importância; todas foram abordadas com o tom certo de sutileza e humor. O problema é que o filme é cheio de clichês, mesmo tentando ser “contemporâneo” e simples o longa é carregado de conservadorismo e ideias antiquadas. Vemos mulheres que precisam de um homem para fazê-las se sentirem bem, mães que precisam ser perfeitas e compreensíveis, aquela “padronização” básica que sempre vemos por aí.  Mas por que Sandy só consegue ser feliz de verdade com um homem do seu lado? Como Jesse consegue esconder o seu filho de sua mãe??? Os roteiristas Tom Hines, Matt Walker e Anya Kochoff Romano deveriam ter aprofundado um pouco (muito) mais nas histórias que contam, o seu roteiro abre tantas histórias ao mesmo tempo, que quase duas horas de filme ainda não são suficientes para fechar adequadamente cada uma, e a solução foi  acabar usando os desfechos mais bobos e grosseiros possíveis.

O melhor do filme é o elenco.  Jennifer Aniston está despojada, sincera e que consegue muito bem passar tudo o que sua personagem está sentindo. Jason Sudeikis é o que anima o filme, traz a dose certa de humor, e é engraçado que ainda assim ele transmite todo luto e dor que seu personagem passou. Julia Roberts é só aquela participação especial que mais trouxe mídia do que acrescentou ao filme de fato, foi inserida em contextos sem nexo e sem aprofundamento.

Nem é que o filme seja horrível ou o pior do mundo, ele só é comum e decepcionante, parece mais que Garry estava de olho nas bilheterias e não na qualidade ou em pesquisar de fato e oferecer o melhor para o seu público. Você vai rir,  em determinados momentos pode até sair um suor hétero dos seus olhos, há cenas em que a fotografia é linda, mas pára por  ai mesmo. Depois de um tempo você vai ver em uma sessão da tarde, ou quando reunir a família e num almoço mas pára por ai também.