sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Opinião Cinema: Minha Mãe é uma Peça 2



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


Para iniciarmos 2017 escolhi falar sobre um longa que estava deixando a galera sem unhas já, de tanta espera, quatro anos para ser mais precisa. Minha Mãe é uma Peça 2 é o tipo de sequência que todos temos certeza que vai acontecer: a peça de teatro, em 2006, encantou o publico; o primeiro filme, em 2013, foi o maior sucesso nacional daquele ano e teve uma aceitação fantástica do público. Ou seja, o segundo filme já tem o seu público cativo e que esperou ansiosamente por ele, então era impossível Paulo Gustavo, com sua Dona Hermìnia, não voltar para o cinema, mesmo correndo o risco de repetir erros e apelar bastante. 

Minha Mãe é uma Peça - O filme termina com Dona Hermínia ganhando um programa de televisão,  no qual ela pode comentar sobre as felicidades e angústias da maternidade. O novo filme dá continuidade a isso; ela ainda é apresentadora, mais estável economicamente - para não dizermos rica -, é avó e aquela mãezona super preocupada com suas crias Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier), que dessa vez estão se mudando para São Paulo. Basicamente é essa a trama principal - sim, juro, não há tanta mudança no roteiro.


Aliás, nem sei se podemos considerar isso um roteiro. Ele foi desenvolvido por Fil Braz, em co-autoria com Paulo Gustavo, e possui uma narrativa confusa e desconexa. Há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e nenhuma delas tem aquele famoso começo, meio e fim,  tudo fica pela metade, fica aquela ponta solta, nada é desenvolvido adequadamente. Sim, há situações que podem arrancar sorrisos mas depois que percebemos quão sem sentido é determinada sequência, aquilo perde a graça na hora. Até uma esquete do YouTube consegue ser mais produtiva, se bem que o filme inteiro parece uma união de varias esquetes.

Apesar de utilizar uma linguagem bastante dinâmica, a direção peca quando insiste em usá-la de forma mais novelística. Esteticamente falando o filme evoluiu bastante em relação ao primeiro, ele está mais bonito, refinado, “clean”, e isso é uma enorme ousadia, a fotografia do filme é bonita de verdade, porém todos falam o tempo todo em cena, quando alguém comenta algo mais interessante, aparece na outra cena a explicação didaticamente da cena anterior. Isso pode até funcionar em novelas, mas em filmes é bastante chato, não é mesmo?!



Paulo Gustavo é o coração do filme, a sequência aposta alto nele, as melhores sacadas são dele, ele, sem dúvidas,  é o centro do longa. Os estereótipos estão ali, é evidente, e Paulo Gustavo sabe como tirar o melhor de cada um. Ele também é ousado, usou uma dinâmica e linguagem diferente, mostrou que está tentando melhorar a franquia, o que nos deixa bastante empolgados já que Minha mãe é uma peça tem um público totalmente cativado já. Eu acredito sim que mesmo com tantos erros, vale a pena cada centavo gasto para ver o seu trabalho e a busca pela evolução estética, mesmo que o caminho seja complicado e um tanto looongo.



domingo, 29 de janeiro de 2017

Rapidola nº 1/17

Ao longo do ano passado, voltei a assinar diversas newsletters de sites/blogs que curto e/ou acompanho, o que me animou, já quase no finalzinho de 2016, a reativar minha própria newsletter, intitulada Rapidola (logo abaixo há um breve histórico a respeito dele). Então procurei alternativas para o envio, abri inscrição para assinaturas e até cheguei a enviar esta primeira edição no dia 11. O "detalhe" é que enviei apenas para mim mesmo, já que ninguém assinou até agora. 

Decidi então alterar o formato. Por um lado, considero importante (ao menos para mim próprio) esse olhar retrospectivo contínuo, fazer uma pausa, olhar a semana que passou e ver o que ela trouxe de bom ou de ruim. Prefiro fazer isso toda semana do que deixar as coisas indo ao sabor dos ventos e tentar fazer algo assim só ao final de cada ano. Por outro lado, já que não houve interesse no recebimento por e-mail, o Rapidola então passará a ser publicado semanalmente aqui (não sei se nas terças, que seria o dia do envio da news por e-mail. Depois decido e aviso).

Fabio Gomes



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January 11, 2017

Rapidola nº 1/17


A volta do Rapidola

A primeira versão do Rapidola circulou entre 2010 e 2014. O informativo, na ocasião veiculando especialmente as notícias postadas no blog Som do Norte, era enviado para assinantes por e-mail e também podia ser lido em um blog-arquivo. A ênfase do novo Rapidola é reunir toda terça-feira links para todo o conteúdo que eu houver postado na semana anterior pela internet.

Essa primeira edição é um pouco atípica, pois como eu estive em férias desde o dia 15 de dezembro até a sexta passada, 6 de janeiro - período que aproveitei para transferir a base de minhas operações de Macapá para Belém -, não há muito conteúdo que reportar.
Fabio Gomes, 10.1.17
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Fabio Gomes Foto & Cinema


  • No dia 6, entrou no ar o Ensaio de janeiro, estrelado pela amapaense Mary Cumaru
  • Dia 9: no post A Semana nº 22 anunciei a seleção do meu projeto audiovisual As Tias do Marabaixo no edital de programação 2017 da Casa de Cultura Mario Quintana (Porto Alegre) \o/
Jornalismo Cultural
  • No dia 4, republiquei no blog uma reportagem de 2007 falando da edição de uma carta que enviei à revista Diapason Brasil (já extinta) sobre os erros contidos em matéria que eles haviam publicado sobre Villa-Lobos. Uma rara e (espero!) interessante oportunidade de ver como os veículos impressos edita(va)m as manifestações de seu público - Bastidores: Minha Carta à Revista Diapason sobre o "Dossiê Villa-Lobos"
YouTube
Digestivo Cultural
  • Ainda em 2016, no caso em 19 de dezembro, analisei no artigo E por falar em aposentadoria a famigerada proposta governamental de reforma da Previdência. Até o momento, o texto tem 136 acessos. 
Também tem
  • Todo dia, geralmente no final da tarde, publico nova foto em meu Instagram  - @fabiogomes.fotocinema . No momento, estou postando as fotos do ensaio com Mary Cumaru. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Bastidores: Minha Carta à Revista Diapason sobre o "Dossiê Villa-Lobos"


São raras as ocasiões em que o leitor tem acesso a bastidores do fazer do jornalismo cultural. É quase como se a matéria chegasse pronta à página do jornal ou revista, ao transmissor de rádio ou TV, ao site da internet.

Um momento em que esse processo foi exposto encontra-se no livro Caetano - Esse Cara, de Heber Fonseca (Revan, 1993): no capítulo Midas (versus mídia) - Uma entrevista em "Veja", Heber transcreve uma entrevista de Caetano Veloso a Antônio Chrysóstomo, publicada em 16 de junho de 1977, seguida da carta do compositor questionando a edição de suas declarações, um relatório de Chrysóstomo a seus editores Carmo Chagas e Zuenir Ventura e, por fim, a transcrição integral das fitas que registraram a conversa entre Caetano e Chrysóstomo. Não, não parece grande, É grande - o capítulo ocupa mais de 30 páginas do livro. Recomendo.


O caso em questão é bem mais singelo. Trata-se da edição da carta que enviei em 11 de julho de 2006 à revista Diapason Brasil, em função de incorreções que encontrei nas matérias do "Dossiê Villa-Lobos" publicado em seu nº 3 (julho/agosto de 2006); minha correspondência, devidamente editada, foi incluída na seção "Cartas" do nº 4 (setembro/outubro). Quero deixar claro que, ao contrário do que ocorreu no exemplo anterior, em que Caetano se queixava da edição, eu não a contesto, apenas quero aproveitar a oportunidade para mostrar ao leitor o "outro lado" do jornalismo cultural. Publiquei este comparativo pela primeira vez no antigo site Jornalismo Cultural em 2007, quando possivelmente a revista já nem circulava mais. Seu último número a chegar a Porto Alegre foi justamente o 4, com Beethoven na capa, em que minha carta saiu. O site que era informado na publicação também já está fora do ar. 

Mas enfim, vamos lá. O "Dossiê Villa-Lobos" abrangia seis matérias (entre ensaios e entrevistas), mais discografia, cronologia e biografia, indo das páginas 26 a 51 do nº 3 de Diapason Brasil, a versão brasileira, editada em São Paulo, da revista francesa Diapason, especializada em música de concerto.

Para melhor entendimento da edição, a cada parágrafo de minha carta original, segue-se o trecho publicado no nº 4 da revista, em negrito itálico:



"Prezados Senhores, na qualidade de jornalista cultural especializado em música, venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 de sua revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 da revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Acerca do Dossiê Villa-Lobos, tenho algumas observações a fazer:

Algumas observações:

- Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em sua primeira estada na capital francesa, em 1923-24, Villa hospedou-se primeiramente na residência de amigos; de 1924 a 27, permaneceu no Brasil. Em 1927, retornando a Paris, com intenção de permanecer, morou então em tal endereço. Dali só voltaria ao Brasil por breve período em 1929. Sua estada aqui em 1930 também seria provisória, não tivesse Villa aproveitado a chegada de Getúlio Vargas ao poder para apresentar ao novo presidente seu plano de educação musical.

Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em 1923-24, hospedou-se na residência de amigos; e de 1924 a 1927, permaneceu no Brasil.

- Sobre o artigo “O Mito: ‘A Música Brasileira Começa Comigo’” (Maria Alice Volpe): na referência à classificação das obras de Villa que Adhemar Nóbrega atribuía ao próprio compositor, só são mencionados quatros grupos dos cinco referidos. O primeiro e o segundo estão corretos; já o citado por Volpe como terceiro é na verdade o quarto, e o que aparenta ser o quarto (“em controle total do universalismo”) se constitui no quinto. Falta o terceiro, “com transfigurada influência folclórica”, em que os destaques são os “Choros”, “A Prole do Bebê” nºs 2 e 3 e o “Rudepoema”.

(Omitido da edição)

- Há uma contradição sobre o caráter das composições de Villa-Lobos na época da primeira viagem à Europa. Enquanto em “A Dimensão Humana da Criação Artística”, Paulo Renato Guérios afirma que Villa só adotaria procedimentos modernos em sua composição após ouvir Stravinski em Paris, Rodolfo Coelho de Souza nos dá conta, em “O Pelé da Música Brasileira”, do conhecimento de Villa do panorama europeu através de seu contato com Alberto Nepomuceno e Frederico Nascimento. Afora esse contato referido, Coelho de Souza menciona bem a propósito que o Brasil recebia freqüentemente orquestras e elencos de ópera europeus, não só durante todo o período anterior à 1ª Guerra Mundial (foi justamente a ausência dessas orquestras que oportunizou o primeiro concerto com obras de Villa, em 1915), como também em parte do entreguerras, tornando-se raro desde então. Se a obra de Villa em 1918 fosse semelhante ao que um europeu de duas décadas anteriores faria, ela não teria despertado interesse nenhum em Arthur Rubinstein. O próprio “Noneto” foi escrito no Brasil, em 1923, antes da viagem.

(Omitido da edição)

- Jornalisticamente falando, lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti. Aliás, a matéria parece inconclusa, pois na última pergunta o entrevistador indaga sobre semelhanças e diferenças entre Sibelius e Villa-Lobos e Tarasti apenas fala rapidamente sobre semelhança.

Lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti.

- Em relação à “Bibliografia”, discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”. Ela revela boa pesquisa, um certo apuro na apresentação do material, mas escorrega feio em atribuir a Villa uma (digamos) “falsidade ideológica” de anunciar em programas peças recém-compostas como se fossem de muitos anos antes (a “Suíte Popular Brasileira” para violão, que todos sabem ser de 1912, é jogada por Peppecorn para 1928!). O motivo por ela apresentado para isto seria até certo ponto elogioso: ela acredita que Villa poderia compor a qualquer momento imitando qualquer fase anterior sua. Pena que isso, além de negar a evolução natural do compositor, não seja em absoluto verdade. Recomendo a leitura do livro de Peppercorn apenas depois que o interessado já tenha tido contato com outras obras sobre Villa, de forma a mais facilmente separar o que é chute do que é real – e, por favor, há coisas verdadeiramente muito boas no livro.

Discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”.

- Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Aproveito para sugerir a leitura de meus artigos sobre Villa-Lobos veiculados no site Brasileirinho - Villa-Lobos e Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach -, em que abordo muitos dos aspectos tratados no Dossiê.

(Omitido da edição)

Fabio Gomes"

A revista respondeu deste modo minha carta:

"Obrigado pelas correçõesO autor da entrevista com Eero Tarasti é o editor da Diapason brasileira."

A omissão mais grave da publicação de minha carta é a correção da classificação das obras de Villa pelo próprio, em que o leitor de Diapason Brasil é levado a crer que eram 4 grupos, e não 5. O editor de Diapason Brasil, autor da entrevista com Tarasti, é João Marcos Coelho. O livro de Lisa Peppercorn mencionado é Villa-Lobos (tradução de Talita M. Rodrigues), lançado pela Ediouro em 2000. Além das matérias que citei, o "Dossiê" incluía ainda "A Riqueza da Ambigüidade", de Vladimir Safatle.


  • Não fui o único a ficar insatisfeito com o Dossiê. Na mesma página, logo após a minha, a revista publicou a seguinte carta, desta feita admitindo claramente a edição do conteúdo:





quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Opinião Cinema: As Aventuras de Robinson Crusoé

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



O clássico da literatura inglesa Robinson Crusoé, criado pelo escritor inglês Daniel Defoe,  foi publicado originalmente em 1719, no Reino Unido. Desde então, teve inúmeras adaptações no cinema, já que seu protagonista é um dos personagens mais famosos da literatura. Agora em 2016 o diretor francês Vincent Kesteloot tenta, numa versão em animação feita em co-produção com a Bélgica, apresentar um olhar diferente dessa história que conquistou o mundo.

As Aventuras de Robinson Crusoé conta a história de um homem que, após um acidente de barco, vai parar em uma ilha exótica, precisando sobreviver e superar seus medos. Na animação, obviamente,  muito coisa foi omitida. A ilha deserta do livro foi transformada em uma ilha habitada por animais de todas as espécies que falam e que são super desconfiados.  Terça-Fira é o nome do papagaio tagarela sonhador, que nesta versão é o narrador principal. O papagaio, junto com seus amigos, tenta proteger a ilha do invasor Crusoé, mas por fim os animais descobrem que os verdadeiros inimigos são os gatos que estavam a bordo do navio naufragado. Daí nasce uma união muito bonitinha... e atrapalhada também.

Em tempos em que as animações são feitas para todos os públicos, inclusive os adultos, nesse longa vemos nitidamente a intenção do diretor em atingir o público infantil, e somente ele, o que dificilmente ele conseguirá porque comete tantos excessos que até criancinhas pequenas ficarão entediadas.


O máximo que o longa consegue é proporcionar algumas risadinhas mas que logo serão esquecidas, além daquela clássica luta entre o bem e o mal (zzZzZ). O roteiro é fútil e os personagens, vazios e desinteressantes, além do filme não ter ritmo e ter um péssimo desfecho (parece mais que Kesteloot não sabia como terminar e pegou qualquer coisa que se encaixava).


A história de Crusoé é extremamente rica, mas pelo visto a opção do filme foi usar seu nome apenas para atrair mídia, já que os personagens principais são os animais; o que no livro era a ação principal neste filme foi transformado em um negócio chato de pano de fundo. Não que utilizar animais seja algo ruim, várias animações provaram o contrário, mas nesse caso não houve construção dos personagens, que nem ao menos nos foram apresentados direito. 

Pelo menos a estética salva, visualmente o filme é muito bonito, os efeitos, sons, 3D... tudo foi caprichado, mas não passa daí. As Aventuras de Robinson Crusoé mostrou que é possível transformar o tempo dos pais com seus filhos, no cinema, em verdadeiro pesadelo e tédio interminável.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Opinião Cinema: Doutor Estranho

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Dr. Estranho é um clássico dos quadrinhos. O personagem sempre foi o preferido de muita gente, e se ele demorou tanto para ir às telas não foi por não ser famoso, mas sim porque o cinema ainda não estava preparado para tê-lo... Como assim? Bom, Dr. Estranho entra em um mundo não muito explorado, pela Marvel, que é a magia. Todo o trabalho anterior foi importante para introduzir esse personagem. E sem dúvidas esse era o maior desafio da Marvel: Como ingressar nesse mundo de tanta magia, força e representar bem o colorismo e traços do maravilhoso Ditko? E tudo isso sem assustar o público?

Dr. Estranho foi criado por Stan Lee e Steve Ditko, em 1963; as histórias eram uma mistura de super-herói, com um pouquinho de horror e a psicodelia da época. Era tudo diferente, ele representava vários mundos e dimensões, era para usarmos nossa imaginação mesmo. No filme, começamos na origem do personagem Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um médico renomado, porém arrogante, e que após um acidente de  carro perde o movimento das mãos, o que o impossibilita de exercer sua profissão. Procurando uma cura ele acaba em Katmandu (Nepal), onde além de recuperar seu corpo o doutor treina sua mente e descobre a magia e um mundo novo com dimensões paralelas. Graças a ajuda da Anciã (Tilda Swinton) e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o doutor finalmente se encontra.  

O diretor Scott Derrickson, com o seu olhar preciso, traz ao longa o tom de terror que já é conhecido em seus trabalhos, essencial aqui. O roteiro simples e coeso, a montagem, o figurino, a trilha sonora pesada, tudo foi feito com capricho e digno de um filme bom mas a edição e os efeitos visuais...nossa! Esses sim foram os elementos-chave para entrarmos de vez nesse mundo.





 supervisor de efeitos especiais Stephane Ceretti foi o responsável por fazer desse um dos filmes mais lindos da Marvel. Os efeitos serviram para entendermos o mago, tudo era muito surrealista e psicodélico, cheio de cores e vida, cada cena era um presente para nós. Por exemplo, logo na cena inicial, onde vemos um prédio  caindo de uma forma impossível para a Física - aliás não tente procurar lógica, como a Anciã diz “Nem tudo precisa fazer sentido”. E não precisa mesmo: ali não há explicação, é simplesmente a pura magia, é impossível não ficarmos hipnotizados com a estética do filme. Obrigada, Ceretti, você merece o Oscar, sem dúvidas.



Depois de  tudo isso ainda temos o elenco. Benedict encara seu personagem e mostra o porquê dele ser uma das melhores descobertas atuais, Dr. Estranho não é fácil ou comum, mas Benedict tira de letra. Outra que rouba a cena é a anciã que consegue mudar o ambiente com sua sabedoria e também abusa o sarcasmo (para nossa alegria). Além de Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor e Mads Mikkelsen - este ultimo é um ótimo ator mas que deu o azar de ficar com um vilão mal construído, com o qual ele não pôde demonstrar sua capacidade. Aliás, já é conhecida essa característica da Marvel de criar vilões rasos e mal utilizados (o que é uma pena).

No fim, todos fizeram sua lição de casa correta, não há um graaaande momento na história e nem um vilão que não te deixe dormir de noite. Mas há um visual que vale a pena, algo novo e impressionante e que abre portas para essa nova Marvel mais madura que vem por aí.






sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Elton Medeiros: "A música é o meu ar"


Entrevista realizada em Porto Alegre, em 18 de fevereiro de 2004, após show do sambista no Santander Cultural. Publicado originalmente no site Brasileirinho.

BRASILEIRINHO - Há quanto tempo tu não vinhas a Porto Alegre?

ELTON MEDEIROS - Eu não vinha a Porto Alegre desde o início da década de 70, quando eu vim aqui fazer o Sarau com o Conjunto Época de Ouro e o Paulinho da Viola, no Teatro Leopoldina. E lamentavelmente, amanhã tenho que ir-me embora, porque eu queria ao menos dar umas voltas por aí. Mas cheguei de Minas, fiquei um dia no Rio e vim pra cá. E agora vou passar o Carnaval lá meio escondido, porque eu não quero mais saber... Tô no Carnaval desde os 8 anos, eu tô com 73, então chega.

B - Cansou do Carnaval?

E - É, chega. A garotada é que tem que tomar conta do Carnaval, não sou eu. Eu fundei três escolas de samba: a Tupi de Brás de Pina, que acabou, o Quilombo, que foi uma escola que representava a resistência ao luxo, à ostentação das escolas de samba e os Unidos de Lucas, que tá no 3º grupo. 

B - O Quilombo foi um projeto do Candeia, não?

E - É, a idéia foi do Candeia, mas quem participou da fundação foi Paulinho da Viola, Martinho da Vila, eu e muita gente, jornalistas como Juarez Barroso... Foi um movimento bastante interessante.

B - Tens composto ultimamente, como é que tá a tua produção?

E - Você respira todo dia?

B - Sim.

E - Se não respirar, o que que acontece?

B - Eu morro.

E - A música é o meu ar. Eu continuo fazendo música.


sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista: Wany Sampaio - Mitos Amondawa



A pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia fala do livro Mitos Amondawa.

Entrevista realizada por e-mail em 12 de outubro de 2005

JORNALISMO CULTURAL - Wany, você é uma das autoras do livro Mitos Amondawa (Edufro, 2004), ao lado de Vera da Silva e Valdemir Miotello. Como se deu o seu contato com o povo Amondawa? 

WANY SAMPAIO - Na verdade, nós não somos autores do livro. Somos apenas os organizadores, porque os indígenas é que são os narradores dos textos míticos. Aliás, são narrativas lindas, que podem explicar muito sobre o universo mítico do povo Amondawa. O meu primeiro contato com esse povo se deu por volta de 1993, quando eu iniciava também o meu mestrado em Lingüística. Naquela época, os Amondawa eram ainda recém-contactados (os seus primeiros contatos com o não-índio aconteceram por volta de 1986) e ainda conservavam muito de sua tradição, cultura, costumes, rituais, enfim. Eu iniciei um estudo sobre a língua Amondawa, então, a fim de descrevê-la e trabalhar com o processo de redução de língua escrita, pois até então a sociedade era ágrafa. Os Amondawa queriam uma escola e então nós fizemos, em conjunto, a primeira cartilha de alfabetização, em caráter experimental, para testar um alfabeto que pudesse ser utilizado naquela escrita. Funcionou relativamente bem. Daí pra cá, tenho desenvolvido diversos trabalhos com a comunidade Amondawa, continuo colaborando com a escola, desenvolvendo trabalhos de pesquisa em Lingüística e Antropologia. A Vera é mestre em Antropologia; ela foi minha aluna de graduação e hoje mora na Inglaterra, mas continuamos trabalhando em conjunto, porque fazemos parte do mesmo grupo de pesquisa do CNPq/ Universidade Federal de Rondônia - onde eu trabalho - e também da universidade em que ela trabalha - Universidade de Portsmouth -, em que faço estágio pós-doutoral. O nosso grupo participa de um grupo internacional, com seis universidades da Europa, financiado pela União Européia e hoje desenvolvemos um grande projeto chamado Estágios da Evolução no Desenvolvimento do Uso de Sinais. Bom, voltando à questão, então, a nossa relação com os Amondawa se tornou extremamente consistente e produtiva. Ressalto que temos o total apoio da FUNAI, e trabalhamos em parceria com o Setor de Educação dessa instituição, na cidade de Porto Velho.

JC - Que estratégias vocês utilizam para realizar o estabelecimento da gramática Amondawa?

WANY - Nós iniciamos o trabalho de descrição da língua com as metodologias tradicionais em Lingüística e Antropologia (base estruturalista). Como não sabíamos nada daquela língua, optamos por trabalhar com os métodos chamados "calhambeque" porque tínhamos mais segurança na sua utilização e também porque nós próprias estávamos iniciando um aprendizado. Além do mais, são métodos eficientes para implantação de escritas, que era o nosso primeiro objetivo, naquele momento. Fizemos levantamentos lexicais, estabelecemos os fones e fonemas de língua e depois demos continuidade com sentenças simples, complexas, até chegar aos textos propriamente ditos. Hoje estamos testando novas metodologias, através do atual projeto. Usamos jogos, maquetes, seqüências de gravuras, filmes etc. Com isto, temos textos mais naturais. Nós descrevemos a morfologia lexical e depois passamos a fazer as relações significativas dentro das construções sintáticas e textuais. É um trabalho que dá trabalho! E exige muita concentração, muito estudo analítico, para que possamos fazer um descrição pelo menos razoável. Estamos tentando organizar uma gramática descritiva do Amondawa para que ela possa ser utilizada pelos professores indígenas. Mas isso ainda vai levar alguns anos de trabalho.

JC - Como os índios encaram este processo? Você vem observando mudanças ao longo do período de convivência com eles em relação à presença das equipes da Unir?

WANY - Os índios participam de todo o processo. Hoje já temos dois professores indígenas (um homem e uma mulher) em processo de formação. Com exceção dos mais velhos, todos os Amondawa escrevem na sua língua materna; e isso começa muito cedo porque os bebês vão pra escola com suas mães, então eles rapidamente se familiarizam com os materiais escolares. É claro que temos hoje um grande problema pra resolver, que é o estabelecimento da ortografia. As escolhas devem ser feitas pela comunidade... e isso não é muito fácil, porém é uma necessidade que os próprios índios, alunos e professores já estão sentindo; então eu acho que o momento chegou.... e teremos de trabalhar com isso no ano de 2006. Muita coisa mudou na sociedade Amondawa. Depois do contato, é impossível que tudo se mantenha igual... os índios são pessoas que têm inteligência, vontade, sonhos... Não podem ser mantidos em uma redoma de vidro e serem objetos de observação nem de ideologias românticas. Hoje temos energia elétrica, casas de madeira, TV, geladeira, fogão a gás, panelas de pressão, enfim, coisas da cultura não-índia que trazem maior conforto... Os índios se organizam socialmente em associações, grupos de discussão etc. É uma forma de se manterem índios, dentro de uma sociedade que os quer engolir e dizimar. É nesse sentido que o trabalho das universidades se torna muito importante, porque nós podemos contribuir com esse processo que é um caminho para a libertação dos povos oprimidos sem que eles percam a sua identidade enquanto indígenas.

JC - Quais devem ser os próximos passos do projeto?

WANY - O próximo passo do trabalho, com relação à escola Amondawa, é a construção coletiva de algumas regras que fixem a ortografia, porque todos já dominam à escrita. Com relação ao projeto de pesquisa que desenvolvemos com o financiamento da União Européia, deveremos trabalhar, nos próximos dois anos, com as construções metafóricas sobre o espaço, o tempo e o movimento. Essas são questões que nos permitirão analisar como os Amondawa representam o mundo no nível conceitual, ou seja, que tipos de figuras podem eles, através de suas linguagens (oral e gestual) utilizar para traduzir sua concepção de espaço, tempo e movimento e como é que isso é veiculado pela cultura. A nossa equipe está construindo instrumentos de coleta de dados - e já estamos testando alguns - que serão também aplicados na Tailândia. Como o grupo se constitui de lingüistas, antropólogos, psicólogos, biólogos, zoólogos etc, também serão desenvolvidos trabalhos com macacos (para estudar também a evolução no uso de signos e sinais); esse trabalho será realizado através do Museu de Zoologia de Roma. Uma outra parte do grupo trabalhará com o uso de sinais e signos nas relações mamãe-bebê com populações da Índia... enfim. É bastante coisa! Mas a nossa grande questão é: O QUE SIGNIGICA SER HUMANO? (What it means to be human?). Tradicionalmente se diz que o que distingue o homem dos outros animais é a capacidade da linguagem. Propomos a tese de que o que distingue o homem dos outros animais não é a capacidade da linguagem, mas a capacidade de organizar os signos e sinais e transformá-los em linguagem. Estamos trabalhando com diversos tipos de populações humanas, de indígenas a industrializadas, porque concebemos que o homem é único.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Opinião Cinema: É Fada!

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Um fato é inegável: os youtubers estão tomando conta de tudo. Eles influenciam essa nova geração, sendo verdadeiros ídolos para eles. E Kéfera Buchmann é um desses fenômenos da internet. Com 23 anos, ela mantém há seis o canal 5minutos no YouTube, um dos primeiros no Brasil a atingir um milhão de inscritos (atualmente são quase 10 milhões), possuindo portanto um grande número de seguidores que são bem devotos. No entanto, com tanta exposição assim, ela também conquistou fervorosos haters, que “perdem” horas da sua vida criticando absolutamente em tudo que a youtuber faz e toca. E claro, se Kéfera lança um filme é impossível não ter polêmica.  E mais claro ainda, se tem treta e babado  aqui estou para comentar. É importante deixar bem claro que aqui eu vou falar sobre o longa e não a vida pessoal dela.
O filme é baseado no livro Uma Fada Veio Me Visitar, de Thalita Rebouças. A adolescente Júlia  (Klara Castanho) foi criada de uma forma muito simples pelo pai (Sílvio Guindane), mas com o retorno de sua mãe socialite precisa trocar de colégio, indo para uma escola de meninas riquinhas que agem bem estilo “Meninas Malvadas”. Para ajudar Júlia a conseguir amigas e se adaptar a este novo mundo aparece uma fada madrinha, Geraldine (Kéfera). A fada precisa ajudar a menina para conseguir de volta suas asas, que perdeu por aconselhar mal o técnico Felipão no famoso jogo dos 7x1 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Juntas Geraldine e Júlia tentam se adaptar, se conhecer e buscar atingir seus objetivos, mesmo que... de forma errada.
Mas por que de forma errada? Bom, o roteiro de Patrícia Andrade, Fernando Ceylão e Sylvio Gonçalves é mal desenvolvido, não empolga e está repleto de preconceitos. Os personagens são rasos demais, Geraldine tenta “ajeitar” Júlia de todas as formas, diz que ela precisa alisar cabelo, mudar de roupa, personalidade, mentir que viajou para vários lugares, renegar o pai... Mas que bela mensagem, não?  Claro que no final há aquela ideia bonita dizendo que é errando que se aprende e blábláblá, mas é tão rápida que a gente nem percebe. Não adianta passar o filme todo com um discurso preconceituoso e bastante elitista e nos 2 minutos finais vir com um discurso de arrependimento. Não cola não.  O que aprendemos com o filme é que temos que ser superficiais para assim podermos ser “reconhecidos”. Além de tudo isso, o roteiro no final opta por soluções simples, inocentes, previsíveis  e bobas demais, mesmo para o público mais jovem.
O trabalho de Cris D'Amato como diretora deixa muito a desejar. Ela não deu conta de desenvolver as situações criadas pelo roteiro. Além disso, os diálogos, a fotografia e a montagem tem uma enorme pegada publicitária (parece mais aquelas propagandas bizarras da Jequiti);  há ainda uma enorme quantidade de imagens aéreas,  bem desnecessárias, inclusive, e há cortes demais, a gente fica perdido, não entende a cena toda. Foi preguiça na hora de montar? Vontade de dar ritmo? O que terá acontecido? Faltou criatividade, se arriscar,  se jogar de cabeça e se lançar em um projeto melhor. Por fim, ainda preciso dizer o quão sofrível foi ver em cena aqueles efeitos visuais, digitais e a maquiagem. A floresta parece que saiu do Sítio do Pica-pau Amarelo, os “poderes” da fada não convencem ninguém e para piorar até a orelha do guardião das fadas tinha uma tonalidade diferente da sua pele. 
Antes que vocês me perguntem por que ainda não falei da Kéfera, vou logo respondendo: porque ela está nos pontos positivos. Sim! A menina tem talento, seu carisma na tela é inegável! Claro que há espaço para ela se aperfeiçoar na interpretação, mas é inquestionável a relação entre a YouTuber e Klara Castanho. A pequena Klara, com todo seu talento, consegue explorar bem as mudanças que sua personagem sofre e juntas, elas fazem as melhores cenas do longa, cheias de caras e bocas e personalidade. A trilha sonora, embora não chegue a surpreender, também é outro ponto positivo. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Homenagem a Mario Quintana

Bruna Lombardi e Mario Quintana


Mário Quintana foi o grande homenageado do 23º Seminário Brasileiro de Crítica Literária na PUCRS (Porto Alegre), realizado entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2006. Nada mais justo, afinal, estávamos no ano do centenário do poeta, nascido a 30 de julho de 1906 em Alegrete (RS) e falecido a de 5 de maio de 1994 na capital gaúcha.

O seminário apresentou no dia 6 uma mesa-redonda com o poeta Armindo Trevisan, amigo e estudioso de Quintana, a poetisa e atriz Bruna Lombardi, musa do homenageado, e a atriz Elena Quintana, sobrinha do autor de A Rua dos Cataventos; já no dia 7 foi a vez do professor Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, proferir a palestra Um Olhar sobre Quintana. A seguir, apresentamos os principais trechos de cada pronunciamento:

Armindo Trevisan - "A poesia de Mário Quintana me interessa fundamentalmente por três aspectos: 1º, por sua autenticidade; 2º, pela sua intransigência - ele impõe o silêncio à velocidade desmesurada; 3º, por ser a um tempo simples e complexa: ela tende ao classicismo, apesar de apresentar também um caráter modernista.

A autenticidade corresponde ao que a pessoa está sentindo; o mundo interior do homem - idéias, sentimentos, emoções - é impressionante. O universo animal é mais simples, sua expressão se esgota em pios, uivos, latidos. Já a fala humana vem da necessidade de revelar o mundo oculto e rico que cada ser humano tem.

Quintana tem uma capacidade impressionante de poetizar coisas que para outra pessoa passariam como algo comum. Além disso, ele só aparentemente levava tudo na brincadeira, no fundo era um trágico. Para ele, o que não era poesia era fofoca; então tudo o que não podia ser dito de forma sublime para ele não tinha nenhum valor."

Bruna Lombardi - "Conheci Mário Quintana quando vim lançar meu primeiro livro, No Ritmo Dessa Festa (1976), na Feira do Livro de Porto Alegre. Ele estava na minha fila de autógrafos, eu o chamei para a frente - eu brincava dizendo que ele era o falso humilde (ele era humilde, mas sabia tudo!). Conversamos muito, eu fiquei aqui alguns dias e combinamos de tomar um chá anual. Nosso contato era mais de trocar cartas, imagina hoje com a internet, seria uma maravilha receber um e-mail dele todo dia! Uma vez me pediram pra eu publicar as cartas, eu recusei, hoje acho que seria legal. Eu sempre mandava meus poemas novos a ele, que fazia comentários. Pra mim foi um privilégio ter conhecido Mário, uma figura rara; penso que poderia ter sido mais assídua, mas a vida da gente é muito corrida.

Eu admirava muito a inteligência, o senso de observação e a informalidade do Mário. Ele gostava das coisas muito simples; nelas, está toda a resposta que você possa procurar. Mário observava a natureza, as criações de Deus, com uma sensibilidade muito grande. A poesia não é feita de grandes barulhos, ela é um riachinho que corre. Se você presta atenção nela, ela te dá um monte de respostas.

Mário Quintana nunca se deixou seduzir pelo falso brilho, vaidade, fama, esses valores tão usados na sociedade hoje. Algumas pessoas deviam ser preservadas como exemplo de comportamento. Quando penso no Mário, penso em valores bons, como honestidade, simplicidade. Ainda bem que a poesia dele está aí, ela serve como uma referência. Há dois pilares que sustentam as relações entre as pessoas: a solidariedade e a solidão. Escrever é um ato solitário. Mário vivia num quarto de hotel, com seu pequeno mundo, levava uma 'vida comum', mas sabemos que não era uma vida comum. A preservação desse dom da poesia que o levou a uma vida solitária é que tornou a poesia dele grande, em qualquer lugar do mundo."

Elena Quintana - "O tio Mário gostava de escrever mais à noite, quando os telefones não tocam. A idéia podia vir a qualquer momento, ele a anotava e olhava à noite. Algumas vezes já escrevia o poema, outras deixava a idéia na gaveta. Certas ocasiões buscava esses rascunhos na gaveta, juntava vários e fazia o que chamávamos 'rezar': pegava o poema, ficava lendo, relendo em voz alta, resmungando, buscando a melhor forma. Quando o poema estava mais perto de estar pronto, ele lia mais alto. Ele não gostava de música, assim como outros poetas (João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade...). Às vezes ele me pedia um palpite, mas quase nunca seguia o que eu sugeria! Só uma vez eu pedi pra mudar uma palavra: ele escreveu 'ignominiosa' e eu sugeri 'criminosa'; na hora ele deixou como estava, mas na última edição que revisou, ele me atendeu. (Elena se refere ao poema "Cocktail Party": "Não tenho vergonha de dizer que estou triste/ Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: / Estou triste por que vocês são burros e feios/ E não morrem nunca..."). Os poemas dele podiam levar muito tempo para ficarem prontos - "Cronologia" levou 40 anos!

Mário Quintana dizia que a única saída para os jovens poetas (que ele chamava natimortos) era participar de todos os concursos que pudessem. Numa das poucas palestras que fez, deu este conselho aos iniciantes: 'Escrevam, reescrevam, voltem a escrever. Não publiquem!'. E é uma verdade, muitos autores publicam muito jovens, depois com 40 anos se arrependem do que tinham escrito.

Ele gostava de ler os poemas, dizia que poema não pode ser declamado, e sim 'dito', 'lido como prosa'. Não gostava de declamadoras, só da Berta Singerman."

(Intervenção de Trevisan: "São raríssimos os autores que lêem bem seus próprios poemas: Quintana era um, Drummond já não era. A questão das declamadoras é que, no passado, como não havia bons microfones como os de hoje, às vezes se recorria à impostação da voz para conseguir preencher grandes auditórios. Interpretar poemas é uma coisa muito difícil.")

Antônio Carlos Secchin - "Em seus cinco primeiros livros, Mário Quintana vai do soneto com métrica não-ortodoxa (A Rua dos Cataventos, 1940) à prosa poética (Sapato Florido, 1948), passando pelo verso livre (Canções, 1946). Estilo, para ele, era a falta de capacidade de não ser repetitivo. Nesses cinco primeiros livros (a relação inclui, além dos citados, O Aprendiz de Feiticeiro, 1950Espelho Mágico, 1951), há um eu lírico constante, marcado por uma relação ávida com o mundo e maravilhado com ele.

Quintana está entre o clássico (pela tendência a seguir modelos fixos como o soneto) e o romântico (por sua espontaneidade). Sua obra se distancia tanto da geração de 1922 (novamente pela atração por formas fixas) quanto da de 1945 (da qual não tem nenhuma das características principais: pompa, solenidade, seriedade temática, vigilância lexical e restrição vocabular).

A poesia de Quintana parte de um choque, de algo fortuito, que ele reelabora, ferindo nossa sensibilidade anestesiada. Nesse ponto, ele se aproxima de Manoel de Barros e seus 'inutensílios': Quintana desfuncionaliza a realidade. Basta ver o título de seus livros: A Rua dos Cataventos, Sapato Florido, Espelho Mágico, Baú de Espantos, A Cor do Invisível. A um objeto com função determinada, liga-se uma característica inesperada, que o desfuncionaliza. Esse desvio de função remete ao surrealismo. É um olhar criador, e não reprodutor da realidade."


  • Making-off do texto - Publicado originalmente em dezembro de 2006 no site Jornalismo Cultural.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A propósito de Halloween, Dia do Saci e outras patrulhas

1 - A primeira vez que ouvi falar em 'Dia do Saci' foi em 2003, quando estive em São Paulo cobrindo o Festival de Música Instrumental, que foi nesta época do ano (final de outubro, começo de novembro, por aí). Amigos músicos do grupo Sociedade do Choro me levaram a um bar próximo ao Ó do Borogodó onde havia uma roda de choro toda noite de segunda, e lá em algum momento alguém falou de 'Dia do Saci', explicando que seria uma 'reação' ou 'resposta' brasileira ao Haloween. Na hora, eu achei aquilo tão desconectado de qualquer coisa que parecia uma daquelas brincadeiras que volta e meia eu posto no Facebook, tipo imagina se ninguém mais se meter na vida dos outros, que louco seria!

2  - Não muito tempo depois, talvez ainda naquela viagem, ou quem sabe no ano seguinte, eu soube da existência em Sampa de uma Sociedade Amigos do Saci, ou algo assim, que faria anualmente em 31 de outubro uma festa pelo 'Dia do Saci', sempre, claro, como uma "resposta brasileira" ao Halloween. Ignoro se a festa continua acontecendo, imagino que não, pois jamais ouvi referências a ela depois disso. 

3 - Foi só bem recentemente, em função da existência do Facebook, que voltei a ouvir falar de tal 'festividade', o 'Dia do Saci'. Mas, enquanto os convites para festas de Halloween são postados já a partir da metade de setembro, as referências ao 'Dia do Saci' iniciam, quando muito, no dia 30 de outubro. Geralmente é mais no dia 31 mesmo e acabou. Os escassos posts sempre reforçam o caráter de 'resposta brasileira' contra o que seria uma invasão, ou algo parecido, do Halloween. 

4 - Só que existe nisso tudo uma coisa muito engraçada (ou, vai ver, até mais de uma... ;) O brasileiro, não comemora, de fato, o Halloween. Como todo mundo que leu revistas Disney na infância nas décadas 1960-80 sabe, no Dia das Bruxas norte-americano, crianças saem fantasiadas pela vizinhança batendo nas casas e fazendo a pergunta clássica "Travessuras ou gostosuras?" Invariavelmente (ao menos nas histórias Disney), recebem doces, de modo que eu nunca soube quais seriam as travessuras perpetradas caso não viessem as 'gostosuras'. E é isso, gente, é essa a 'famigerada' comemoração do Halloween norte-americano! Uma coisa que não ultrapassa os limites da vizinhança e que não incomoda ninguém, salvo um que outro vizinho mais rabugento.

5 - E como é que no Brasil se "comemora" o Halloween? Com festas temáticas, que podem ou não ser a fantasia, sejam estas festas em casas particulares, seja em boates e tal. Nenhum sinal de crianças fantasiadas pedindo doce para os vizinhos. Eu conheci ainda bem novo essas festas temáticas, pois minha mãe era professora de Inglês - sim, pessoas, durante muito tempo as "comemorações" do Halloween no Brasil se restringiam às escolas de Inglês. Talvez o incômodo que gerou a idéia do 'Dia do Saci' tenha começado quando as tais festas deixaram de ser feitas apenas nos cursos de idiomas e foram abraçadas pelas casas noturnas. Mas que tanto incômodo isso gera, afinal de contas? É só mais uma festa temática entre trocentas que tais estabelecimentos fazem ao longo do ano - nem todas "fomentando" a cultura nacional, evidente, pois não é pra isso que alguém se torna empreendedor noturno. 

6 - Em tempo: não tenho nada contra o Saci Pererê, personagem aliás que goza da minha mais ampla simpatia. Não lembro qual versão conheci primeiro, talvez tenha sido o Saci dos quadrinhos do Ziraldo, ou - mais provavelmente - o Saci do Sítio do Pica-pau Amarelo, inicialmente na adaptação para a TV dos anos 1970, e pouco depois nos livros de Monteiro Lobato, e mais tarde em vários filmes - isso sem falar que o Saci é o personagem símbolo do Inter de Porto Alegre. 

7 - Por tudo isso, entendo que, sim, o Saci deva ter um dia dedicado a ele, por que não? Mas também não compactuo da idéia de que a melhor data para isso seja 31 de outubro, nem a melhor motivação para isso seja uma "resposta brasileira" à "invasão do Halloween" - até porque, como já disse, não vejo invasão alguma. Por que não eleger uma outra data sem essa motivação algo estranha (ao menos para mim) e celebrar de fato, sim, o Saci e até mesmo outras figuras do nosso imaginário, como o Curupira, a Mula-sem-Cabeça, a Cuca etc etc? 

8 - Porque uma coisa é fato: a batalha contra o Halloween já nasce perdida. Quem quer fazer sua festa temática alusiva às bruxas no final de outubro vai fazer, independente de quem postar no dia 30 e 31 que isso é uma "invasão" (e, peloamordy né, não é). E com isso se perde a oportunidade de ter um dia que de fato seja uma homenagem ao Saci e cia. Ou então, se é pra manter a data dedicada ao Saci em 31/10, que se faça uma divulgação mais ampla das programações que comemorem a data (embora, como eu já falei no começo, não tenho visto mais comemoração alguma faz teeempo). Enfim, se se pretende mudar um imaginário mais que consolidado mundialmente, não vejo outro caminho senão fazer eventos para promover o que se quer, divulgar muito e persistir mais ainda - e deixar os mimimis de 'fomos invadidos' de lado.

9 - Até porque se formos levar essa questão nacionalista tão a sério, precisaríamos urgentemente de criar eventos para substituir  carnaval, Páscoa, Dia do Trabalho, festas juninas, réveillon, Natal e todas essas festas estrangeiras importadas, afinal, vai que elas resolvem ameaçar a pureza da cultura brasileira ;)

  • Making-off do texto - Um dos poucos escritos que fiz especialmente para publicar no Apontam Estudos, blog que lancei há dois anos e cuja principal função era ser uma antologia do meu Facebook pessoal. Foi publicado lá há exatos dois anos (31.10.14). O lançamento do recurso 'Lembranças' pelo próprio Facebook tirou a razão de ser daquele blog. 

sábado, 29 de outubro de 2016

Zé Celso: Tropicalismo, Oswald & Outras Bossas




O diretor José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, esteve no Solar dos Câmara (Porto Alegre) em 24 de julho de 2004, narrando sua batalha para convencer o Grupo Sílvio Santos a desistir de construir um shopping center no terreno destinado às arquibancadas do Teatro Oficina, no bairro da Bela Vista (São Paulo). Zé Celso confessa que não sabe como isso vai terminar, mas revelou que Sílvio sensibilizou-se com a causa em recente visita ao Oficina. Pudera: a recepção cantada que lhe prepararam iniciou com uma "Ave Maria" e durou cerca de uma hora e meia. Só depois disso tratou-se de negócios. A mais recente adesão à causa de Zé Celso é do arquiteto Oscar Niemeyer, que projetou uma arquibancada em curvas, com desníveis que tanto podem acomodar espectadores como compor a cenografia - seriam ideais, por exemplo, para a peça que o Oficina deve estrear em novembro: Os Sertões - A Luta (I), com as três primeiras expedições a Canudos (a quarta expedição fica para a peça que encerra o ciclo iniciado em 2002 com Os Sertões - A Terra, seguida de duas partes de Os Sertões - O Homem). Mas é pouco provável que o projeto de Niemeyer possa ser executado até novembro.

Com destacada atuação na época do Tropicalismo (dirigiu as duas únicas peças que se considera integrarem o movimento, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, e Roda-Viva, de Chico Buarque, em 1968), Zé Celso considera que o Tropicalismo não acabou. Ao contrário, está cada vez mais forte: "Em todo o mundo, São Paulo, Nova York, Londres, a periferia está comendo o centro". As manifestações culturais mais fortes de hoje vêm da periferia, como o hip hop, o funk e o rap. "Não é o centro, que se mantém conservador e burguês, que renova a cultura".

Isso não é de hoje, observa: a periferia já legou manifestações como o samba e o maracatu, cercados de um certo luxo - característica que foi abandonada por produtores culturais que, ao longo do século 20, colocaram a arte a serviço de causas sociais, econômicas ou políticas. "A arte tem que ser feita pela arte. O teatro militante apequenou o teatro, o importante era a militância." Vê uma certa culpa cristã no processo, que levaria os praticantes do teatro militante a um resultado visualmente feio e artisticamente discutível. Cita como exemplo o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Ressalva: Zé Celso respeita Boal como artista, mas crê que hoje a mensagem do Teatro do Oprimido já não tem razão de ser.

- Vivemos um outro momento. O rap trouxe novamente à cena a rima, abriu a possibilidade de fazer uma coisa rimada, o teatro em versos. Hoje é possível você encenar uma peça em versos de Shakespeare por causa do rap. No tempo dos pequenos burgueses (provável referência à peça Os Pequenos Burgueses, do russo Máximo Gorki, que o Oficina montou em 1963) não tinha como você fazer isso.

Resultado de imagemLamenta que, dos dois cinqüentenários importantes assinalados em 2004, só se fale do suicídio de Getúlio Vargas e se esqueça completamente da morte de Oswald de Andrade, também ocorrida em 1954:

- Oswald em 1928 já dizia que não era mais modernista: era pós-moderno, e datava o início do Brasil a partir do dia em que os índios devoraram o bispo Sardinha (esta manifestação de Oswald, inspirado pela tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, funda o Movimento Antropofágico). Oswald é um artista fundamental para o Brasil, mas não é reconhecido. Não é conhecido. Ainda quero montar dele a peça O Homem e o Cavalo, que é uma maravilha. É uma peça escrita contra o stalinismo, mas não ficou datada. É atualíssima.

Roda-viva (declarações de José Celso Martinez Corrêa exclusivas ao Brasileirinho):
  • O Chico Buarque sofreu muita pressão na época do Roda-Viva. A maioria dos amigos dele era contra.
  • Uma das músicas do Roda-Viva, "Sem Fantasia", teve uma gravação horrível no disco Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo (1975). Um não ouvia o outro, e vinha aquela orquestra forte em cima.
  • Uma bela gravação é "Cálice" (Chico Buarque - Gilberto Gil), com Bebel Gilberto e Miúcha (no LP Miúcha e Tom Jobim, 1979).
  • Bebel se inspira muito no pai dela (João Gilberto), que é O rigor.
  • Adoro João Gilberto.
  • Fiz um show, cantando, com José Miguel Wisnik no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio em 5 de maio. Combinamos de voltar a apresentá-lo.
  • Além dos poemas e das peças, Oswald tem livros com estudos filosóficos que pouquíssima gente conhece.
  • Caetano Veloso só foi conhecer Oswald quando o Oficina montou O Rei da Vela, mas intuitivamente já estava praticando o Antropofagismo.
  • Participei como ator do clipe da música "O Estrangeiro", do Caetano.
  • Gilberto Gil não gosta de teatro. Só respeita o Oficina, mas não gosta de mim pessoalmente.
  • Quero muito vir com Os Sertões a Porto Alegre, no (festival de teatro) Porto Alegre em Cena, mas isso depende da decisão da organização do festival. Fica caro porque é muita gente (60 pessoas em cena), mas pode ser feita uma estrutura cênica mais simples que a que fazemos no Oficina.
  • Tô com uma saudade do Caetano!

***

Making-off do texto - Zé Celso esteve em Porto Alegre a convite da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que anualmente realiza seminários e debates sobre temas teatrais. Após assistir o debate, aberto ao público, fui convidado por Zé Celso para jantar com a organização do evento, no Bar do Beto (se não me engano, o da av. Venâncio Aires), onde então pude colher as declarações exclusivas reproduzidas na parte final do texto. 
  • A saga imobiliária do Teatro Oficina, 12 anos depois dos episódios relatados no começo do texto, ainda não acabou, como podemos ler no mais recente post publicado por Zé Celso em seu blog: Vitória da nossa paixão


sábado, 22 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Madame Satã



Grande ano, 1932. Não politicamente, é certo: São Paulo pegava em armas para exigir a convocação de uma Assembléia Constituinte para a qual o “governo provisório” de Getúlio Vargas já marcara eleições. Mas, na área do samba, incomparável. O rádio era autorizado por lei a veicular anúncios, passando a incluir cada vez mais a música popular em sua programação. Vivia-se o auge da incrível dupla Francisco Alves e Mário Reis, abastecida por pérolas de Noel Rosa, Ismael Silva, e outros bambas, como Lamartine Babo – este, aliás, o grande vencedor do carnaval, com o controverso “O Teu Cabelo Não Nega”, cujo disco não indicava os verdadeiros autores da marcha, os Irmãos Valença. Carmen Miranda já arrancava suspiros dos rapazes – arrancaria mais ainda em breve. Já na música romântica, Vicente Celestino era o maior cartaz. É, grande ano, 1932.

Pois não foi preciso usar mais que esse ano para Karim Aïnouz contar a história de Madame Satã (Brasil, 2002, 100min), o célebre transformista da Lapa. O bairro das quatro letras era o reduto boêmio do Rio de Janeiro (então Capital Federal) e por seus bares, cafés, cabarés e prostíbulos (dizia-se “casa de tolerância”) passava a nata da música brasileira.

João Francisco dos Santos (Lázaro Ramos) era o que hoje seria definido como um excluído: negro, pobre, homossexual. O futuro Satã não levava desaforo para casa e envolvia-se seguidamente em brigas, como quando tenta entrar no seletíssimo clube High Life, freqüentado apenas pela elite... branca. João trabalha como camareiro da vedete Vitória (Renata Sorrah), que é tudo o que ele quer ser. Um dia, a estrela o pega com a roupa que ela, Vitória, deveria usar dali a pouco em cena. Revoltada, ela o humilha. João foge, não sem antes ferir a estrela e obrigar o empresário dela (Floriano Peixoto) a lhe pagar os salários atrasados.

A polícia invade a casa onde João mora com Laurita (Marcélia Cartaxo), a filha desta e Tabur (Flávio Bauraqui), outro transformista, que o ajuda em golpes de “suador” (onde eles atraem rapazes prometendo amor para furtar dinheiro). João foge, mas, a conselho de um rapaz que o ama (apesar de ter caído no “suador”), Renatinho (Fellipe Marques), entrega-se. Aliás, a concisão da seqüência da entrega, prisão e soltura demonstra um grande domínio da narrativa cinematográfica.


Solto, João procura seu velho amigo Amador (Emiliano Queiroz), dono de um bar, que lhe oferece emprego. Vendo aí sua grande oportunidade artística, João, a pretexto de comemorar o aniversário de Laurita, é autorizado a fazer um espetáculo (onde canta “Noite Cheia de Estrelas”, de Cândido das Neves). Um incidente após o espetáculo quase faz João perder a cabeça, mas ele (incrivelmente) se controla.

O grande sucesso autoriza João a repetir a dose, interpretando “Mulato Bamba” (Noel Rosa), e “Ao Romper da Aurora” (Ismael Silva – Lamartine Babo – Francisco Alves). Mas há outro incidente, a reação de João é outra e isso, digamos, muda seus planos imediatos para a vida.



O filme, que até aí vai num ritmo delicioso (mal se percebe o tempo passar), apela então para a velha solução de letreiros tipo “depois disso, nosso herói fez isso, isso e aquilo”. Felizmente, alternando com um desfile do bloco Caçadores de Veado, ao som de uma grande batucada - escrita especialmente para a fita pelos diretores musicais, Marcos Suzano e Sacha Amback. Eles foram felizes tanto nos temas que criaram quanto na seleção de repertório – que incluiu, além dos sambas já citados, “Fita Amarela” (Noel Rosa), “Na Batucada da Vida” (Ary Barroso – Luiz Peixoto) (aliás, música de 1934) e o campeoníssimo “Se Você Jurar” (Ismael Silva – Nilton Bastos – Francisco Alves).

Filmado na própria Lapa, Madame Satã consegue se destacar como um dos melhores filmes num ano de boa safra do cinema brasileiro – basta pensar em Cidade de Deus, Abril Despedaçado, Avassaladoras,A Festa de Margarette, Bellini e a Esfinge. Grande ano, 2002.



  • Making-off do texto - Publicado originalmente no site Brasileirinho em 2003. Também fez parte da minha brevíssima primeira experiência com blogs, no mesmo ano - republiquei num blog alguns textos sobre filmes saídos no site, para testar a ferramenta.