quinta-feira, 13 de julho de 2017

Opinião Cinema: Mulher Maravilha

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Diferente de Batman e Superman, heróis que têm inúmeros filmes e uma longa história no cinema, a Mulher Maravilha nunca conseguiu de fato levar sua história para as telas; na década de 1970 houve a série de TV estrelada por Lynda Carter e nada mais. É por isso, que este filme carrega consigo tanta responsabilidade. Pois, ele é o primeiro longa sobre uma super-heroína dirigido por uma mulher, e Patty Jenkins é a segunda mulher  a dirigir um longa com orçamento de mais de US$ 100 milhões. Sem contar todas as polêmicas que o filme esteve envolvido. A personagem foi “declarada” Embaixadora Honorária para o Empoderamento das Mulheres da ONU, mas após apenas dois meses, uma petição assinada por de 45 mil pessoas fez com que ela fosse destituída do cargo, tudo isso porque “a escolha reforçava a objetificação da imagem feminina”. Afinal, é feminista ou não?

Vejam bem, não estou aqui para encher linguiça e nem colocar milhares de textos e teorias do feminismo, por isso é preciso um pouquinho saber da história dessa heroína. Ela foi criada em 1941, pelo psicólogo William Moulton Marston que admirava o movimento das sufragistas, que lutavam pelo direito ao voto das mulheres na década de 1920. Ele acreditava que mulheres deveriam ser ativas na sociedade, ter um papel combativo, guerreiro e político. Obviamente que, após a sua criação, o papel da heroína oscilou bastante, em algumas histórias tinha bastante representatividade e empoderamento, em outras era neutralizada, ícone de beleza e sexualizada, tudo dependia de quem era o autor. O fato é que a essência dela era feminista, ela tinha ideais e fez o possível para lutar por eles, tanto que em uma cena dos quadrinhos, quando seu namorado pergunta: “Quando é que vamos nos casar?”, ela responde: “ Quando o mal e a injustiça desaparecerem da Terra”.

Porém, qual a necessidade de viajar tanto assim no contexto histórico? Porque ai está o mínimo para você entendê-la e  Jenkins sabe bem disso, tanto que mergulhou e tratou com delicadeza toda sua história nesta produção. O filme já começa nos apresentando uma pequenina Diana, princesa das Amazonas, que vive em Themyscira. Toda a história dessa Ilha é suavemente explicada, mostrando o treinamento de Diana (Gal Gadot) com sua tia (Robin Wright), mesmo sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen), sendo super protetora. O treinamento foi de grande ajuda quando o oficial da Aeronáutica dos Estados Unidos Steve Trevor (Chris Pine) cai com seu avião na costa da ilha,  trazendo consigo uma guerra para as Amazonas e mostrando uma visão mais cética do mundo. A partir daí  a história vai se desenvolvendo aos poucos e com delicadeza, mostrando a Primeira Guerra Mundial e a luta da princesa das Amazonas para acabar com a dor do mundo. Na verdade, o ponto mais importante é que a diretora mostrou, no decorrer das cenas, a perda da inocência de uma mulher.



Patty Jenkins eu te venero! Com que poesia, com que delicadeza você conduziu o filme, respeitando a história e cuidando de absolutamente cada detalhe.  Mergulhando na mitologia grega e nas HQs também. A transição de tempo também foi suave, em um ritmo calmo  sem ser entediante. O diretor  de fotografia Matthew Jensen foi outro que nos presenteou com imagens fantásticos, nada tão escuro, sombrio e cinza como veríamos em qualquer filme do Batman; o dourado, o vermelho o azul eram cores em evidência, as imagens da ilha eram alegres e fortes. Quando a ação passa para Londres, durante a guerra, temos o cinza e cores mais calmas mostrando a dor daquela época.


Os únicos pontos negativos estão relacionados à construção dos vilões, eles são fracos e tão didáticos que insultam nossa inteligência e a de Diana também. Aquela cena da morte de Steve também é patética, me perdoe quem adorou, mas não havia necessidade alguma de um coadjuvante dividir a atenção da cena com a protagonista, ficou parecendo que nossa Wonder Women dependia dele para crescer. O pior  erro, sem dúvidas, foi a  pirotecnia do terceiro ato - se o começo foi pura poesia, calma, respeitando cada história, no final tivemos uma horrível pressa, todos os efeitos foram desnecessários.


Gal Gadot é rainha. Tiverem tantas dúvidas de que ela conseguiria dar conta do recado, mas depois desse filme, duvido que alguém ainda tenha. A entrega ao seu personagem foi fantástica, o seu olhar, o seu gestual, a sua postura foram dignas da princesa Diana, ela estava perfeita.

Essa resenha ficou mais longa que o habitual, mas estamos diante de um marco histórico, então não tem como ser uma resenha curtinha, não é? Vale a pena assistir, não só pelas incríveis atuações e direção, mas, sem dúvida pelos questionamentos que o longa traz à tona, por ver a inocência de uma mulher megaprotegida sendo perdida e em seu lugar nascendo uma heroína, a mais valente, a mais forte, a rainha do mundo.

domingo, 4 de junho de 2017

O Incansável Monarco

Se eu tivesse que definir o sambista Monarco em uma palavra, com certeza seria "incansável". Ele esteve em Porto Alegre fazendo um show com duração em torno de uma hora e meia no Santander Cultural em 27 de junho de 2004. Após o final da apresentação, o líder da Velha Guarda da Portela ficou quase uma hora atendendo o público e a imprensa, conversando, cantando, posando para fotos, concedendo autógrafos... 

O momento que mais me emocionou no espetáculo não estava previsto no roteiro. Monarco contava que a escola de samba só tem a perder quando foge da autenticidade. A ala de balé que a Portela incluiu no desfile este ano tirou zero. "O turista quer ver o sambista autêntico, balé eles têm lá". Citou que quando a duquesa de Kent esteve no Rio de Janeiro, não teve interesse em ver os espetáculos sugeridos pelo governo brasileiro (balé, opereta...), pedindo uma escola de samba! Enquanto falava, Monarco lembrou que Cartola e Carlos Cachaça compuseram sobre o episódio o samba "Tempos Idos". Citou os primeiros versos, se entusiasmou, informou o tom aos músicos e cantou o samba completo, apenas com violão e cavaquinho.

Os músicos que o acompanham (Guaracy no violão de 7, Serginho Procópio no cavaquinho e Cosme no pandeiro - os três, como Monarco, com o uniforme da Portela - mais o reforço local de Carlos Branco no tantã) já devem estar acostumados com episódios como este, que se repetiram ao longo do fim de tarde. Serginho, cujo cavaco era a base do acompanhamento (esteve maravilhoso em "Com que Roupa"/"Palpite Infeliz", de Noel Rosa) também dividiu com Monarco os vocais de alguns sambas, como "Vivo Isolado do Mundo" (Alcides Dias Lopes - Monarco), "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" (Paulinho da Viola) e "Contos de Areia" (Dedé da Portela - Norival Reis), o samba-enredo do desfile da Portela de 1984, que encerrou o show. 

Monarco, aos 70 anos, mostra estar em grande forma. Sua voz, a um tempo grave e melodiosa, firme sempre, é o veículo ideal para esse desfile de pérolas do samba de todos os tempos. Ele e o grupo estiveram soberbos na junção portelense de "Quitandeiro" (Paulo da Portela)/"Serei teu Ioiô" (Paulo da Portela)/"Coração em Desalinho" (Monarco - Ratinho)(definido como "um clássico do Zeca Pagodinho, aquele garoto maravilhoso"); "Passado de Glória" (Monarco); "Tive Sim" (Cartola); "Aquarela Brasileira", apresentada como "do maior compositor de samba-enredo, Silas de Oliveira, meu companheiro de cachaça"; e outra junção, "Tudo Menos Amor" (Monarco - Walter Rosa)/"Quantas Lágrimas" (Manacéa).

Entre os números mais aplaudidos, destaco "Sem Compromisso" (executado em andamento bem rápido), que ele anunciou como sendo "de Geraldo Pereira, um negão de 4 metros de altura", o clássico "Vai Vadiar" (Monarco - Ratinho); "Ilu Ayê Odara" (Cabana - Norival Reis); e a junção "Ai que Saudades da Amélia" (Ataulfo Alves - Mário Lago)/"A Voz do Morro" (Zé Kéti).

Além de todas essas músicas, cantadas inteiras, Monarco citou ao longo do espetáculo, complementando as histórias que contava sobre figuras do samba: "Falsa Baiana" e "Escurinho" (Geraldo Pereira), "Perdão, Meu Bem" e "Divina Dama" (Cartola), "Estamos Esperando" (Noel Rosa) e "Se Você Jurar" (Ismael Silva - Nilton Bastos - Francisco Alves).

A lamentar, mesmo, só a pequena presença do público, que ocupava apenas a metade da lotação do átrio do Santander. 

  • Making-off do texto - Publicado no site Brasileirinho em julho de 2004. Na mesma ocasião do show comentado, gravei com Monarco a entrevista que você lê abaixo ou clicando aqui."Junção" era o termo que eu costumava empregar na época, para evitar os estrangeirismos 'pot-pourri' ou 'medley'.... A foto eu encontrei no Google Images, infelizmente sem créditos para o autor.


Bate-Papo com Monarco



O líder da Velha Guarda da Portela fala de Lupicínio Rodrigues, Cartola, Noel Rosa, Candeia, Zeca Pagodinho...

Gravado em 27 de junho de 2004 no Santander Cultural (Porto Alegre)

FABIO GOMES - Monarco, eu havia marcado uma entrevista com o senhor...

MONARCO - Vamos fazer, só um momentinho que vou tirar umas fotos com o pessoal...

F - Tranqüilamente.

M - ... para marcar a minha presença, a minha lembrança aqui nesse Estado bonito, maravilhoso que é o Rio Grande do Sul, terra do nosso saudoso Gegê, Getúlio Vargas, ah! Um baixinho que... Dr. Leonel Brizola, é isso aí... Lupicínio Rodrigues! (canta "Ela Disse-me Assim", de Lupicínio Rodrigues) "Ela disse-me assim/ Tenha pena de mim, vá embora/ Vais me prejudicar, ele pode chegar, tá na hora/ Eu não tinha motivo nenhum para lhe recusar..." Eu vi a entrevista do Lupicínio... porque eu era fã dele desde garoto. "Se Acaso Você Chegasse" (Lupicínio Rodrigues - Felisberto Martins) (canta) "Se acaso você chegasse" - sucesso de 37, isso, e "Cadeira Vazia" (Lupicínio Rodrigues -Alcides Gonçalves)(canta) "Entra, meu amor, fica à vontade...", Chico (Francisco Alves) gravou. Então era fã do Lupicínio em menino. De repente... como o destino foi bom pra mim, rapaz. Eu guardando carro no Jornal do Brasil e o rapaz que entrevistava, chamava Simon Khoury, né:

- Monarco! Sabe quem é que vai ser entrevistado aqui hoje? Teu ídolo: Lupicínio Rodrigues!

- Ah, meu Deus! Que hora que ele vem?

- Dez horas ele tá chegando aí.

Aí eu largava às nove, né, tomei banho, fiquei prontinho. Daqui a pouco ele salta daquele carro, aquele carecão... Aí olhei: "É ele!" Aí, rapaz, eu fiquei assim no vidro até o final da entrevista. Ele tomou uma garrafa de uísque! Aí perguntaram a ele qual era o verso que ele gostava mais, dele. Ele falou que todas as coisas que ele fazia era com amor, com o coração, ele gostava, mas tinha um que marcou (cita "Felicidade"): "Felicidade fica lá detrás do mundo,/ Onde eu vou em um segundo/ Quando começo a pensar". Perguntaram a ele se ele tinha algum herdeiro musical, assim, ele lembrou um rapaz de São Paulo, chamado Lúcio Cardim: "Esse rapaz, ele escreve umas músicas, assim, com um estilo meu, né? (canta) 'Eta dor de cotovelo dos infernos/ Desse jeito não vai dar para esperar/ Qualquer dia tomo um fogo às escondidas/ Saio e choro por aí a lhe buscar', compreendeu? E "Matriz e Filial" é muito bonita. Mas aquela que diz: "Teu destino sempre é voltar chorando/ Arrependida me pedindo pra ficar", isso é Lupicínio, né? Ou é do Lúcio Cardim? 

- É do Lúcio. 

M - Ah, é do Lúcio Cardim! Tu vê, o estilo, o estilo igualzinho. Lupicínio era o orgulho do Rio Grande do Sul. Quando chegava no Rio, "seqüestravam" ele, seguravam ele, não deixavam... escondiam ele, Lupicínio. Agora, não sei por que cargas d'água ele se apaixonou pela voz do Jamelão e tudo que ele fazia novo levava pro Jamelão gravar. Tornou-se o maior intérprete do Lupicínio. Foi o Chico, primeiramente, depois veio... A Linda (Batista) gravou muito ele... "Vingança", já pegou... Eu sugeri, para uma escola de samba do 2º grupo, o Lupicínio como enredo (Unidos do Jacarezinho, 1987, "Lupiciniando na Sapucaí"). E o filho dele (Lupicínio Rodrigues Filho) foi, desfilou lá, Jamelão desfilou, compreendeu? Esse ano eu vou ser enredo da Unidos do Jacarezinho. É, eu sou enredo: "Monarco, Voz e Memória do Samba: um Passado de Glória". Os garotos já tão fazendo o samba lá, me param no meio da rua:

- Monarco! Tu nasceu quando?

- Ô rapaz! Pra fazer samba não precisa nem falar em dados biográficos! Pega a minha obra e vem cantando!

F - De onde vem esse apelido, "Monarco"? 

- Ah, "Monarco" foi em Nova Iguaçu. Que eu nasci em Cavalcante e fui morar em Nova Iguaçu. Quando cheguei em Nova Iguaçu, né, pequeno ainda, né, e comecei a me enturmar, fugir um pouquinho de casa e conhecer os amiguinhos. Foi quando um camarada tava lendo uma revistinha pequena... Gibi, era um gibi, Super-Homem, que tinha uns negócios... e o camarada proferiu essa palavra: "... não sei o quê não sei o quê o monarco não sei o quê...", aí eu comecei a rir. Achei gozado! Garoto bobo, tinha 5 ou 6 anos. Aí ele: "Tá rindo por quê, seu monarco?" Aquilo bateu, ficou como um visgo ali agarrado. Todo mundo vinha, os garotos: "Monarco!", nas minhas costas me batendo, aí eu fiquei assim bobo:

- Que que aconteceu?

- Que que aconteceu que você é um monarco. Tá rindo de quê, seu monarco?

Aí pronto, aquilo pegou, ficou até hoje. Quebrou muitos protocolos. Fui trabalhar na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), né, descobriram que meu apelido era Monarco na ABI. Herbert Moses era o presidente. Eu escovei muito a mesa de bilhar francês pro (Heitor) Villa-Lobos jogar. Ele não gostava de jogar sinuca, ele jogava era bilhar francês, era um jogo de carambola... Ele chegava 3 e meia, 4 horas da tarde, botava lá o paletó e eu escovava a mesa pra ele jogar bilhar francês. O Nássara não saía de lá, aquela época. Barão de Itararé...

 (interrompendo, emocionado) - Tu é o pai do Diniz, né...

M - Mauro Diniz. Meu filhão. Mauro, o Mauro, ele é arranjador, músico e compositor, grava... Tá gravando bem aí. E tem o menor, que é o Marcos Diniz, que tá chegando agora, mas numa linha jocosa, assim: (canta "Caviar", de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz) "Você sabe o que é caviar?/ Não comi, nunca vi, eu só ouço falar". Esse é o menorzinho, que já tá botando as unhas de fora (canta "Parabólica", de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz):

"A parabólica/ Foi trazida por um temporal/ Que eu achei no mato, botei no barraco na cara de pau/ O meu barraco hoje está valorizado/ Só por causa de uma antena/ Que eu coloquei no telhado/ Pois a parabólica/ Foi trazida por um temporal/ Que eu achei no mato, botei no barraco na cara de pau".

O moleque tá botando as unhas de fora.

F - O seu filho tá gravando muito com o Zeca Pagodinho, né?

M - É, ele é do Trio Calafrio - é ele, Barbeirinho e o... o...

F - Luiz Grande.

M - Luiz Grande. É isso aí. Viu como tu sabe?

F - É, justamente.

- E a linha deles é uma linha jocosa. O Mauro é mais romântico, né? O Mauro é: (canta "Parabéns pra Você", de Sereno, Ratinho e Mauro Diniz) "Parabéns pra você/ Por tentar me enganar/ Me ferir por prazer/ Num capricho vulgar"... O Mauro já vem nessa linha, me acompanhando. Já o moleque já... é jocoso, né? (fala trecho de "Conflito", de Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz)"Ô que conflito,/ Roubaram o cabrito/ Do seu Benedito", sei lá, compreendeu? Mas eu deixo ele, eu nunca cheguei perto dele e: "Ô, pára de fazer isso. Faz assim..." Eu não. Deixa ele. Ele cria nisso, ele cria nisso, ele vem nessa, nesse lance jocoso e o Zeca gosta, compreendeu? 

F - O Zeca convidou a Velha Guarda da Portela pra participar do Acústico (projeto da MTV Brasil que resultou em um programa de TV, um CD e um DVD), e também vocês participaram do filme do Paulinho da Viola (Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe)...

M - Paulinho adora a gente. Paulinho fala assim, Paulinho diz: "Ó, se acabar vocês aí, acabou tudo". O Zeca convida a Velha Guarda sempre. O Zeca, ele tem um respeito pela gente muito grande, entendeu, ele é como se fosse um filho nosso. Ele inclusive, ele é afilhado da Velha Guarda da Portela. E agora é meu padrinho de casamento. Ele me ligou: "Porra, que rolo danado, tu é meu padrinho, agora eu sou teu padrinho também, como é que é isso?" Eu digo: "É, tá tudo bem...". Que agora eles inventaram esse negócio de 5, 6 padrinhos de casamento, minha mulher que inventou isso.

- Minha filha, não é um só?

- Não, agora pode ser...

- Então você que sabe.

Aí convidou o Zeca, Zeca aceitou. Foi o primeiro a chegar. Aí o jornalista perguntou:

- Zeca, por que você chegou cedo?

- Não, eu cheguei... eles que chegaram atrasado. Eu gosto de chegar cedo.

Aí tirou logo aquele paletó, pendurou lá, com a fralda da camisa do lado de fora, e cerveja pra dentro. É o modo dele, não adianta, que ninguém muda ele. É a simplicidade em figura de gente, aquele garoto. O meu padrinho de casamento foi ele, Lan, que talvez você não conheça ...

F - Lan, o cartunista!

M - Cartunista, compreendeu? Guilherme de Brito... Há um time de compositores ali em Mangueira que não é mole. Nelson (Cavaquinho)... (fala trecho de "Quando Eu me Chamar Saudade", de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) "Quem quiser fazer por mim, que faça agora." O Cartola... Conheci Cartola bem. Cartola se afastou de Mangueira, né, e as pessoas faziam samba pensando que o Cartola já tinha morrido. Aí (canta "Saudade de Mangueira", de Herivelto Martins) "Tenho saudade do terreiro da escola/ Desde o tempo do Cartola". Nego pensava que ele tinha morrido. Mas ele se afastou, ele deu um desacerto na vida, né, e aí chegou pra morar lá em Nilópolis, todo mundo: "Ih, quedê o Cartola?" "Morreu!", de repente ele aparece lavando carro lá em Ipanema, compreendeu, aí foram lá, descobriram ele. (canta "Não Faz, Amor", de Cartola e Noel Rosa) "Não faz, amor/ Deixa-me dormir/ Ó minha flor, tenha dó de mim/ Sonhei, acordei assustado/ Receoso que tivesses me enganado/ Eu não durmo sossegado." Noel Rosa botou segunda parte! As segundas são do Noel, que o Cartola, quando o Chico (Alves) viu a Mangueira passar... um grupozinho pequeno da Mangueira, que era um contingente de 20, 30 pessoas, que a Neuma era mocinha e me contou... O Chico viu e falou: "Isso deve ser do Cartola". Porque ele já tinha comprado "Divina Dama", do Cartola. Quando passou aquele "Não faz, amor/ Deixa-me dormir...", ele: "Olha que coisa bonita. Isso deve ser do Cartola". Quando foi no dia seguinte, ele foi à Mangueira, o Chico. Foi à Mangueira, chegou lá, o Cartola tava ardendo em febre, não deu nem atenção a ele, não pôde nem conversar. Ele aí foi ao Noel, compreendeu, e cantou pro Noel, o Noel aí botou, compreendeu, e o Chico gravou. Cartola e Noel Rosa! Fizeram muita coisa. "Qual Foi o Mal que Eu te Fiz?"... (canta) "Diz qual foi o mal que eu te fiz/ Eu não te faria essa ingratidão/ Foi um falso contra nossa amizade/ Não creia, não pode ser verdade". (canta "Tenho um Novo Amor", de Cartola e Noel Rosa) "Tenho um novo amor,/ tenho um novo amor..." Carmen Miranda. Cartola! Diz que o Noel também que botou a segunda, não tenho certeza. - "...que vive pensando em mim/ Não quer me ver..." O samba era "sujo nem rasgado/ Gosta que eu ando assim alinhado". O Chico comprou do Cartola e trocou pro feminino, mudou: "Não quer me ver triste nem zangada" - e a Carmen gravou - "Gosta que eu ande assim engraçada/ Tenho um novo amor,/ tenho um novo amor". 1932, eu não era nem nascido. Eles me contam a história, os mais velhos, eu fico prestando atenção. O Carlos Cachaça... Carlos Cachaça foi idolatrado por (Carlos) Drummond de Andrade! Justamente! Noel... o Noel, rapaz, Noel, nem sei, sabe? Você vê: ele andou em Mangueira ali atrás do Cartola, o próprio Carlos Cachaça dizia. Ele atravessava a rua 8 de Dezembro e ia lá no barraco procurar o Cartola. Cartola morava com uma escura gorda... dizem que Cartola gostava de mulher gorda, até o Carlos Cachaça que falava isso. Então a Deolinda agarrava o Noel e metia a cabeça do Noel numa tina, pra poder o Noel ficar bom pra... porque ele tomava todas, né? Bebia mais que o Cartola, inclusive. E era vagabundo, que não trabalhava. O Cartola saía, saía pruma obrazinha, usava um chapeuzinho coco - foi aí que botaram o apelido de Cartola - pra não cair o cimento, e o Noel não fazia nada pra ninguém, compreendeu? Já gravava mais do que o Cartola e tudo, já tava... Noel, já tava, nessa época o Noel já tava gravando já com aquela turma do Estácio, com Ismael (Silva), aquele sucesso dele (canta "O Orvalho Vem Caindo") "O orvalho vem caindo/ Vai molhar o meu chapéu...", com Kid Pepe, (canta "Até Amanhã") "Até amanhã/ Se Deus quiser/ Se não chover/ Eu volto pra te ver, ó mulher..." O moleque era bom! "Feitiço da Vila" (Vadico - Noel Rosa)... Grande Noel Rosa! Eu nasci em 33, ele morreu em 37. Eu me lembro, eu era pequeno mas eu me lembro quando a minha irmã falou: "Quem morreu foi Noel Rosa". Aquilo pra mim foi uma coisa que eu não... não sabia quem era Noel Rosa. Quando o tempo foi passando é que eu fui... Noel Rosa! Esse camarada não tem igual (canta "Último Desejo"):

"Nosso amor que eu não esqueço/ E que teve o seu começo/ Numa festa de São João/ Morre hoje sem foguete/ Sem retrato e sem bilhete/ Sem luar e sem violão..."

Ah, quê isso! Não fazem mais isso. Agora é "a barata da vizinha caiu na minha cama". Por isso é que ele taí até hoje! O Noel taí vivo até hoje, e gravando, compreendeu? Justamente! Aí, "Com que Roupa", garota de 12, 13 anos canta isso aí. Você canta Noel Rosa aí, todo mundo canta. "Com que Roupa" é de 1930, compreendeu? É isso aí. (canta "Mulato Bamba") "Esse mulato forte é do Salgueiro/ Viajar no tintureiro era seu esporte/ Já nasceu com sorte/ E desde pirralho/ Vive à custa do baralho/ Nunca viu trabalho." (risadas) Fala, Noel!

F - A Portela chegou a desfilar na avenida com um samba da tua autoria?

M - Não. Portela desfilou com samba meu, sambas de terreiro que eu idolatrei ela, falando dela, como eu acabei de cantar agora: (canta "O Passado da Portela") "Um dia, um portelense de outrora...", (canta "Passado de Glória") "Portela, eu às vezes meditando/ Acabo até chorando...". Assim que ela desfilou, abrindo os desfiles com esses sambas. Agora, samba-enredo nunca porque nunca liguei muito pra samba-enredo, não é o meu forte. O meu forte é mais esse samba de terreiro, tirado, compreendeu, do coração... Sei lá, eu nunca entrei muito nessa, né? Andei fazendo até uns sambas-enredo lá e tudo, mas não fui feliz. Porque a escola de samba tá indo por um caminho muito... muito comercial, sabe, o negócio... Pra faturar, tão fazendo qualquer negócio. Qualquer negócio, eles tão fazendo. Tão desvirtuando, tão desvirtuando. Tinha um jornalista no Jornal do Brasil, chamava-se Juarez Barroso. Que inteligente! Aquele rapaz morreu novo porque bebia muita cana. Juarez Barroso. Ele escreveu na contracapa de um disco meu, um disco que o Lan fez a capa, ele escreveu:

"A meu compadre Monarco. Ao entrar na sede da Portela, em torno da cabine de som, estão retratados os verdadeiros sacerdotes do samba de Osvaldo Cruz".

Aí ele fala sobre o "perigoso desvio", ele fala, é, compreendeu... "vigiando todo o espaço vazio contra os perigosos desvios". Mas já desviou, não adiantou a gente ficar vigilante. A gente mantém o que a gente pode manter, né? Não entramos no modismo, compreendeu? Principalmente eu, que não me preocupo em fazer um samba comercial. Eu só vou fazer a música que eu faço com o coração. Então, que eu seja antiquado, que seja ultrapassado, que eu seja... deixa falar quem quiser. Mas eu me sinto bem assim. Ainda mais agora, que hoje eu ganho um dinheirinho com música. Passei fome ao lado desses sambas que hoje me dão um dinheirinho. Então agora mesmo é que eu não vou retroceder. Se não retrocedi até agora, não pulei o muro pro outro lado.... Eu cantei um samba agora, ainda há pouco: (canta "Vivo Isolado do Mundo", parceria com Alcides Dias Lopes) "Eu vivia isolado do mundo...", isso é 1947, compreendeu? Eu dou sorte é falando da Portela, né? Falando dela, que eu falo dela com carinho, né? (canta "De Paulo da Portela a Paulinho da Viola")

"Antigamente, era Paulo da Portela/ Agora é Paulinho da Viola/ Paulo da Portela, nosso professor/ Paulinho da Viola, o seu sucessor/ Vejam que coisa tão bela/ O passado e o presente da nossa querida Portela."

Aí eu entro com a segunda, a primeira é do Chico (Santana):

"Paulo, com sua voz comovente/ Cantava ensinando a gente/ Com pureza e prazer/ O seu sucessor na mesma trilha/ É razão que hoje brilha/ Vaidade nele não se vê/ Ó Deus, conservai esse menino/ Que a Portela do seu Natalino/ Saúda com amor e paz/ Quem manda um abraço é Rufino/ Pois Candeia e Picolino lhe desejam muito mais."

É a cultura dela que eu gosto de fazer. Compreendeu? Eu gosto de mexer com a cultura da Portela. Falar no Paulo, falar em Natal, falar em Rufino, Candeia. Candeia foi um líder, compreendeu, que morreu se batendo contra as injustiças sociais. Ele falava: "Cara, o crioulo, houve a abolição, mas continua marginalizado." Ele se batia nisso. É isso aí. (fala) "Tá invocado, sai, não encontra trabalho, vai jogar baralho". (canta "Dia de Graça", de Candeia)

"Hoje é manhã de carnaval, que esplendor/ As escolas vão desfilar garbosamente/ Aquela gente de cor/ Com a imponência de um rei/ Vão pisar a passarela/ Salve a Portela!/ Vamos esquecer os desenganos que passamos/ Vi...(pára, tenta se lembrar)

EDGAR (do Bebendo do Samba) - "Viver as alegrias..."

(Risadas gerais. Monarco cumprimenta Edgar)

M - ..."Viver as alegrias que sonhamos/ Durante o ano/ Pro nosso coração/ Com alegria e amor/ A todos sem distinção de cor/ Mas depois da ilusão/ Coitado!/ Negro volta ao humilde barracão/ (Mas depois da ilusão)/ Mas depois da ilusão/ Coitado!/ Negro volta ao humilde barracão/ Negro, acorda, é hora de acordar/ Não negue a raça/ Torne toda a manhã dia de graça/ Negro, não humilhes nem se humilhe a ninguém/ Todas as raças já foram escravas também/ E deixa de ser rei só na folia/ Faça de sua Maria um rainha/ Todos os dias/ E cante um samba na universidade/ E verás que teu filho será/ Príncipe de verdade/ Daí então/ Jamais tu voltarás ao barracão.(Risadas)

Só fiz um samba com esse rapaz, Candeia. Era pra ter feito muita coisa, mas eu gostava de fazer com os mais coroas, né? (canta "Preciso me Encontrar", de Candeia) "Deixe-ir, preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar./ Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar..." (Risadas) Marisa (Monte) gravou. 

(Somos informados que o local precisa fechar. Monarco despede-se de cada um dos presentes, apertando sua mão e desejando felicidade. Ainda posaria pra mais algumas fotos)


  • Making-off do texto - Entrevista, ou melhor, bate-papo que gravei logo após o show comentado no texto anterior. Foi a única vez, se bem me lembro, que pedi credenciamento junto à Branco Produções, que gerenciava à época a programação musical do Santander Cultural, para entrevistar alguém. A ideia era fazer a gravação no camarim, mas como Monarco ficou próximo ao palco atendendo os fãs a solução foi fazer ali mesmo, o que, reconheço, acabou gerando um resultado melhor do que uma eventual gravação no camarim. 
  • "Tenho um Novo Amor" é parceria de Cartola com Noel Rosa, lançada por Carmen Miranda em 1932. 
  • Ao contrário do comentário do show, o bate-papo não foi publicado de imediato no Brasileirinho; foi mantido inédito na internet por algum tempo para ser o chamariz de venda do CD-Rom do site, que lancei em 1 de julho de 2004. Num tempo de acesso unicamente discado à internet, parecia uma boa ideia oferecer todo o conteúdo do site numa mídia física, que não exigisse você estar online para ler. Mas apenas parecia, já que ao longo de meses (cheguei a anunciar o CD novamente em setembro) não foi encomendado CD algum. 
  • O encontro com Monarco também foi tema de um comentário que gravei em 2 de julho e foi ao ar no dia seguinte no programa Samba da Minha Terra, produzido por Cristiane Molina e apresentado por Claudia Alexandre na Rádio América (São Paulo), com o qual eu colaborava na época - estive em São Paulo algumas vezes em meados de 2004, chegando a ser entrevistado ao vivo na rádio; nessa mesma viagem, assisti a um show do Trio Calafrio em Osasco. 
  • As fotos eu encontrei no Google Images, infelizmente sem créditos para os autores. 
  • Leonel Brizola, político gaúcho citado no começo da entrevista, falecera em 21 de junho de 2004. Em 2004, Lupicínio Rodrigues completou 90 anos de nascimento e 30 de morte. Monarco, nascido no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1933, segue em plena atividade. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

E por falar em aposentadoria (Ovelhas Desgarradas - 23)

Passeata da Greve Geral de 28 de abril de 2017,
contra a proposta de reforma da Previdência
- Av. Presidente Vargas, Belém-PA


O presidente que quer que você contribua 49 anos para receber aposentadoria integral se aposentou aos 55 anos....de idade.

Hoje com 75 anos, Michel Temer é aposentado como procurador do estado de São Paulo desde 1996. Recebe por isso R$ 30.613,24 (valor referente a maio - mesmo descontado o Imposto de Renda, sobram R$ 22.082,70). Mais até do que recebe como Presidente da República - R$ 27.841,00. Somando os valores brutos de aposentado e presidente, são R$ 57 mil/mês, R$ 684 mil/ano.

Para comparar, o valor médio dos benefícios concedidos pelo INSS, em maio de 2016, foi de R$ 1.303,58 para os trabalhadores urbanos e de R$ 880,84 (ou seja, um salário mínimo) para os rurais. Nenhum destes, com a reforma da Previdência proposta por Temer, poderia se aposentar hoje com 55 anos.

Em entrevista a Miriam Leitão em outubro, Temer comentou sua aposentadoria precoce, querendo usá-la como justificativa para a reforma ora em tramitação:

"É interessante como o meu exemplo serve para revelar como há aposentadorias precoces. Passaram-se 20 anos e estou aqui conversando. Ainda consigo trabalhar. Naquele tempo não se pensava nisso, naquele tempo era natural, você tinha tantos anos de serviço ou de contribuição e se aposentava. Foi o que aconteceu comigo como procurador do estado. Mas há 20 anos atrás, o déficit da previdência não era o tamanho que é hoje. Hoje são R$ 100 bilhões, R$ 140 (bilhões) no que vem, R$ 180 (bilhões) daqui a dois anos."

Vamos analisar as ideias por trás desta citação:

1 - Ninguém sabia que há aposentadorias precoces, era necessário que Temer revelasse isso (ele chegou a dizer a Miriam: "Minha aposentadoria é uma revelação", como se falasse de um grande mistério)

2 - Há 20 anos, o rombo (ou 'déficit', como prefere Temer) da Previdência era menor do que hoje. O fato de haver um rombo de 100 bilhões hoje, produzido com as regras que estão em vigor, faz com que o presidente pense não em gerir melhor a Previdência para diminuir o rombo, mas sim em estender o tempo de contribuição - o que só posso ver como uma forma de punir o trabalhador pela má administração dos recursos feita pelo próprio governo!

3, para mim o mais grave - "Ainda consigo trabalhar. ....naquele tempo era natural, você tinha tantos anos de serviço ou de contribuição e se aposentava". Mas é essa a ideia-base de um sistema de previdência: você contribui X anos, comprova as contribuições, se aposenta e passa a receber pelos anos trabalhados! Porém nesse trecho da fala presidencial posso detectar uma visão condenatória à possibilidade de alguém ainda ter vigor físico, saúde etc etc e sair do mercado de trabalho (que aliás foi o que o próprio Temer fez ao se aposentar há 20 anos).

Tentando fazer uma leitura unificada do trecho, teríamos algo como: 'havendo um déficit gigantesco na Previdência, o trabalhador brasileiro não tem o direito de se aposentar numa idade em que ainda possa desfrutar de qualidade de vida".

Mas por qual motivo, fora resquícios feudais ou escravocratas, a população deve ser punida pela má gestão da Previdência, algo que cabe ao governo controlar?

Na visão presidencial, enquanto você tiver energia para trabalhar, e mesmo quando possivelmente já não a tiver, você deve estar trabalhando e contribuindo para o INSS, para que você conserte um problema que não foi você quem causou!

Belém, 19.12.16

  • Making-off do texto - Se eu houvesse planejado, não daria tão certo: este artigo que mostra a falácia da "Reforma Previdenciária" proposta por Michel Temer entra no ar um dia depois de o presidente ser incriminado em delação premiada da JBS, o que pode resultar em sua renúncia ou em um novo processo de impeachment. 
  • Meu 14º texto para o Digestivo Cultural, lido 892 vezes até hoje (meu segundo menos lido por lá, só perdendo para (ou seria 'ganhando de'?) O bom e velho formato site, republicado aqui anteontem. 
  • A foto que abre o post é inédita, não saiu na cobertura da Greve Geral que publiquei no blog Fabio Gomes Foto & Cinema nem em nenhum outro lugar.
  • Esta publicação encerra o resgate das "ovelhas" da minha coluna no Digestivo. Os textos que saíram este ano por lá já estão disponíveis em outros blogs meus. 


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fazendo a coisa certa (Ovelhas Desgarradas - 22)

Li no site português Observador que, em 25 de outubro, foi devolvido à biblioteca da cidade norte-americana de Guilderland um livro que havia sido retirado de lá...em 1974! O caso me recordou um episódio da minha infãncia que creio nunca tenha contado a ninguém.

Morei dos 5 aos 22 anos em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, e sempre fui assíduo frequentador da Biblioteca Pública Castro Alves, nos vários endereços que ela teve, sempre no Centro da cidade. Sempre, menos num período de alguns meses...

...nos quais eu mantive em meu poder um livro que havia retirado de lá e do qual gostei tanto que simplesmente decidi não devolver. Eu teria então por volta dos meus 10 ou 11 anos, e devo ter achado o máximo a ideia de poder ler aquele livro à hora que eu quisesse.



Porém, essa euforia inicial durou pouco. Afinal, como eu ainda era um sem-rendimentos, todos os livros que circulavam dentro de nossa casa ou eram livros didáticos ou presenteados por minha mãe, ou então volumes retirados da já citada biblioteca Castro Alves, que os cedia por uma semana, se lembro bem. Um livro que minha mãe não comprara e que fosse visto circulando pela casa por semanas a fio despertaria suspeitas. Ou seja, a ideia de "ler quando eu bem entender" já ficara descartada.

Eu já tinha idade suficiente para saber que estava fazendo algo errado - tecnicamente, era um furto. Então, depois de algum tempo, somou-se à preocupação já citada de ter o furto descoberto a consciência de que eu havia pego um livro destinado a todos e o desviado para meu deleite pessoal (um deleite que já nem ocorria mais).

Então um belo dia decidi dar uma fim àquela situação e enfrentar as consequências, quaisquer que elas fossem. O que me assustava particularmente era a questão da multa, afinal sendo eu um sem-renda, caberia à minha mãe ter que pagar, e aí inevitavelmente ela acabaria sabendo do meu delito. Pus o livro na mochila e me dirigi à Castro Alves, onde enfim entrava depois de meses ausente e apresentei como justificativa pelo atraso um singelo "esqueci de devolver!".

Não sei dizer se as funcionárias da biblioteca acreditaram, de todo modo ficaram felizes pela volta do livro (e, quero crer, por eu ter enfrentado a situação) e acabaram me isentando da multa (o que fez com que minha mãe jamais soubesse do ocorrido). Dali em diante, voltei a ser habituê na Castro Alves, devolvendo o que retirava sempre dentro dos prazos.

Lição aprendida: fazer a coisa certa sempre é a melhor opção!

Macapá, 14.11.16


  • Making-off do texto - O fato narrado, até onde eu lembro pela primeira vez, neste texto deve ter ocorrido por volta de 1981/82. De fato nunca contei para minha mãe, e pelo visto as bibliotecárias também não. Meu 13º texto para o Digestivo Cultural, foi lido 1268 vezes até hoje. A foto é Google Images, não creditada. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

O bom e velho formato site (Ovelhas Desgarradas - 21)

Em 17 de outubro de 2002 - há 14 anos, portanto -, entrava no ar o meu primeiro site, o Brasileirinho, dedicado ao jornalismo musical e com foco na MPB, em especial o samba e o choro. Penso ser oportuno, então, fazer nesta data uma reflexão sobre o 'formato site' a partir de minha experiência na área (assim como já fiz aqui anteriormente com o 'formato blog').

Milton Moura, Luiz Carlos da Vila e eu em debate 
sobre a História do Samba - Salvador, 2007 
(Foto: Adenor Gondim)


O Brasileirinho não foi meu primeiro projeto de site, foi apenas o primeiro que deu certo (antes dele, ali por 1999, pensei em ter um site com meu acervo fotográfico - já contei esta história em meu blog de Foto & Cinema). Me formei em Jornalismo pela UFRGS em 2001 já com a ideia de ter um programa de rádio semanal voltado para o samba e o choro. Cheguei a produzir um programa-piloto finalizado em CD, gravado e editado profissionalmente em estúdio, porém as rádios de Porto Alegre que procurei não se interessaram nem em me contratar para produzi-lo, nem em me vender horário para que eu produzisse de forma independente. Então me ocorreu que eu poderia aproveitar o fato de ter registrado um domínio com o nome que o programa teria - Brasileirinho, inspirado no clássico de Waldir Azevedo - e veicular diretamente na internet minha proposta de jornalismo musical independente.

Comecei então a publicar no Brasileirinho artigos que eu já tinha escrito sobre figuras da MPB, charges, entrevistas e dicas de shows, filmes, teatro e outros sites. Quando passei a produzir textos inéditos, em especial resenhas dos shows que assistia em Porto Alegre, esbarrei numa dificuldade: as atualizações do site eram semanais, devido ao acerto que eu havia feito com o webdesigner que contratei para criar o site. Então às vezes acontecia de a resenha entrar no ar duas semanas depois do show. Acabei assumindo eu mesmo a tarefa de ser o webmaster do meu próprio site no começo de 2003, usando os conhecimentos adquiridos num curso de criação de sites publicado em fascículos (ainda existe isso? risos).

Creio ter feito um bom trabalho, pois já em 2004 aconteceram dois fatos significativos. Primeiro, o Brasileirinho foi escolhido pela Representação Regional do Iphan no Rio Grande do Sul para representar o estado na fase nacional do Prêmio Rodrigo Mello Franco, do MinC. Segundo, e talvez o mais importante, meu trabalho no site motivou um convite do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para ministrar um curso de Jornalismo Cultural na capital paulista.

Por vários motivos, não pode aceitar de imediato o convite do Sindicato. Quando enfim pude fazê-lo, no ano seguinte, já havia também o convite da Fundação Getúlio Vargas para que eu fizesse o curso também em Belém (foi minha primeira viagem ao Norte). Acabei criando novo site, chamado justamente de Jornalismo Cultural, para veicular meus textos sobre outras artes como o cinema, o teatro e até vertentes da música que não a MPB. O site nunca chegou a ter a audiência e repercussão do Brasileirinho, mas acabava gerando mais renda porque era nele que eu divulgava o curso, tanto na versão à distância (antes do YouTube, curso à distância era curso feito por e-mail mesmo ;) quanto na presencial, que fez com que eu fosse nos anos seguintes a Joinville, Blumenau e Rio Branco, onde nova mudança aconteceu.

Na capital do Acre, cobri em 2008 um festival de música independente, tendo pela primeira vez contato com a sonoridade amazônica, que raramente chegava ao Sul do país. Isto, mais o interesse de artistas de Belém em meu trabalho como assessor de imprensa e as inúmeras inscrições que eu recebia do Norte para o curso à distância de Jornalismo Cultural me levaram em 2009 a criar novo espaço para falar da música da Amazônia - o Som do Norte. Mas já não como site, e sim blog.

O Som do Norte teve de imediato imensa repercussão, o que fez com que eu acabasse deixando um pouco de lado os dois sites. O Jornalismo Cultural não chegava a ser atualizado com frequência, talvez eu postasse um texto/mês; dinâmica bem diferente da atual, em que, convertido em blog desde agosto de 2011, é atualizado quase diariamente (inclusive com material veiculado originalmente nos dois sites mencionados). Já o Brasileirinho chegou a receber bastante material de artistas do Pará até a criação do Som do Norte, sendo pouco atualizado depois disso, o que me levou a anunciar o encerramento das atividades há exatos 5 anos e por fim tirá-lo do ar há um mês.

Comparando a quantidade de sites e de blogs que criei, deve-se concluir que prefiro este formato àquele? Não necessariamente. Ali por 2009, eu dizia que um site equivalia a um jornal, atualizado regularmente, mas com menos frequência que um blog, que seria como um programa de rádio, que permite atualizar a informação a qualquer momento. Hoje, penso que quem cumpre a função de rádio são as redes sociais, ao passo que quem está mais para um jornal são os blogs, já que os sites passaram a "se comportar" como...livros! Sim. Como eu já disse no texto sobre os blogs citado no começo, se você quer postar conteúdo com frequência, o mais indicado é criar um blog; se você começa a postar muuuuito texto num site, em algum momento terá que resolver a questão de como o internauta localizará todo o conteúdo nele publicado - este foi o grande problema que acabei tendo no Brasileirinho.

Por isso os sites hoje são mais recomendados para uso institucional, tanto por empresas quanto artistas. Ali você encontra histórico/biografia, fotos, vídeos, agenda (no caso de artistas), as principais informações de contato e, quase sempre, o link para um blog, onde então irá acessar atualizações frequentes.

Só pra fechar, o fato de eu ter tirado recentemente do ar meu primeiro site não significa que eu desacredite hoje do formato. Ao contrário, meu próximo site inclusive deverá tornar realidade o antigo sonho de 1999: será uma página 'institucional' do meu trabalho com foto & cinema, linkado com o blog. Quando entra no ar eu não sei, mas o domínio já está registrado!

Macapá, 17.10.16



  • Making-off do texto - Como citado logo no começo do artigo, ele foi a consequência natural do texto Eu blogo, tu blogas? - que originou o Os blogs poderão voltar a ser mais relevantes que as redes sociais?, já republicado aqui. Foi minha 12ª colaboração para o Digestivo Cultural, e é o meu texto menos lido na coluna (842 visualizações até hoje). O site de foto & cinema ainda não entrou no ar. 
  • Ah, não cheguei a mencionar, mas em dado momento (creio que ali por 2005 ou 2006), o Brasileirinho foi destacado no site do Instituto Goethe (o da sede, na Alemanha), como "exemplo de uso da língua portuguesa"! :)


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Etapas em Combustão (Ovelhas Desgarradas - 20)

Recentemente, duas pessoas próximas, ambas jovens cantoras, me contaram (uma sem saber da outra) que entraram em contato com artistas com um tempo de carreira maior. Coincidentemente, as duas, ao relatarem a eles seus planos para o futuro, em médio e longo prazo, receberam um balde de água fria - nas falas dos dois "veteranos", havia a mesma expressão: Você está querendo queimar etapas!

Ou seja: seria uma transposição, em termos de carreira musical, da velha piada de veteranos sobre calouros que, já na primeira viagem, "querem sentar na janelinha" - em outras palavras, querem figurar em lugar de destaque. Só que, na visão dos veteranos, os novatos ainda não mereceriam tal destaque, pois haveria 'N' etapas a percorrer, e pulá-las, ou ignorá-las, ou descartá-las, seria equivalente a uma 'queima'.

Mas quem é que define isto, ainda mais numa carreira artística? O primeiro disco de Marisa Monte - MM, lançado em 1989 -, era ao vivo. Em 2007, Mallu (ainda assinando com o sobrenome Magalhães) pegou uma grana que tinha juntado, gravou quatro canções suas e as postou no MySpace e do dia pra noite teve um expressivo número de audições - detalhe, ela estava com apenas 15 anos. Anitta era só um ano mais velha quando, em 2009, começou a postar vídeos em seu canal do YouTube; dois anos depois, este material acabou atraindo a atenção do produtor Batutinha, garantindo à cantora o seu primeiro contrato profissional.

No campo musical, há valores que evidentemente não mudaram, como o talento. Mas quem é que define quando, por exemplo, é o momento de uma cantora ou uma banda lançar seu primeiro disco, seja apenas na internet, seja físico? Ou de cantar apenas composições próprias, ou escritas especialmente para sua voz, e não ficar repetindo a eterna parada de sucessos que se escuta nos bares da vida? Ou largar o circuito de barzinhos e se aventurar no palco de um teatro? Penso que cabe a cada artista decidir quando é este momento - até porque, se for de fato prematuro, a resposta não se fará esperar.

De todo modo, falando agora como público, hoje em dia quando conheço - seja pessoal, seja virtualmente - algum/a artista ou banda, vou logo perguntando onde posso ouvir seu trabalho. Não são raras as bandas que lançam singles ou mesmo EPs no Soundcloud antes mesmo do primeiro show. Curiosamente, de um escritor não se cobra que tenha publicado um número X de contos em revistas literárias antes de lançar seu primeiro livro.

Há outro fator também que parece animar os 'novatos' a "queimar etapas": o estabelecimento de seu próprio status como artistas. Como já me disse o violonista gaúcho Maurício Marques numa entrevista de 2005: Parece que passei a existir depois do CD. Isto é maluco, você estuda e toca anos a fio, grava com muitos, vai a todos os festivais (eu já fui a todos e já devo ter umas boas 300 gravações) mas você só existe se tiver um disco. Para grandes contratantes, você precisa enviar junto com seu projeto de show a ser vendido... um CD (ou seja, se você não tiver, está fora do jogo).

Logo, se você decidiu que vai viver de arte, o momento em que seu trabalho estará disponível para ser apreciado por fãs e gerar contratações tem que ser decidido por você, eventualmente por sua equipe de produção (caso você já a possua), e não seguir um manual que nunca existiu.

Se você tem uma mensagem que considera importante mostrar ao mundo, faça isso, o que não faltam hoje são canais que o possibilitem. Nossos ouvidos agradecem.


Belém, 18.4.16


  • Making-off do texto - Meu sétimo texto para o Digestivo Cultural foi publicado na data citada acima e é desde então meu maior sucesso por lá, já tendo sido lido 2.258 vezes até hoje. Com o mesmo título, foi publicado de forma reduzida em 26 de abril de 2016 no espaço "Papo Cabeça" que eu escrevia dentro da Coluna RoraimaRockNRoll, do Victor Matheus Mattos, veiculada em duas mídias: o jornal Folha de Boa Vista, da capital de Roraima, e o blog RoraimaRockn'Roll

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pare de dizer que você tem problemas (Ovelhas Desgarradas - 19)


Se há algo que eu recomendo fortemente para o ano que se aproxima, é que você pare de achar que tem problemas. "Mas por quê?", você poderia me perguntar. E minha resposta seria: "Porque as palavras têm força". Na verdade, não é preciso ser um especialista em Neurolinguística para perceber isto. Basta lembrar de toda a sabedoria popular associada ao poder do pensamento positivo.

De certa forma, não deixa de ser curioso que, numa sociedade que valoriza tanto a posse de coisas (tema, aliás, brilhantemente abordado por Milton Jung no LinkedIn), se prefira dizer que "temos problemas", e não que "estamos com problemas". Em geral, afora a menção a problemas, nossa tendência para expressar coisas não palpáveis é o uso da expressão "estar com" - podemos estar com saudades, ou com alguma doença, ou com vontade de viajar, ou com um palpite para jogar na Mega Sena. Já o verbo "ter" é costumeiramente associado a objetos que possuímos, seja do tamanho que forem - de um alfinete a uma casa ou um carro.

E quando você tem alguma coisa, é porque de algum modo essa relação não é facilmente modificável. Que o diga o cantor Belchior, que abandonou dois carros há cerca de sete anos (um no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em outubro de 2008, e outro na garagem de um flat também localizado na cidade de São Paulo, em março de 2009. Fonte: Época). A propriedade de um carro, por si só, acarreta uma série de consequências jurídico-econômicas; você inclui o carro em sua declaração de Imposto de Renda e recolhe anualmente o IPVA, entre outras obrigações legais. De modo que diferentemente de um alfinete que eventualmente entorte ou enferruje, e que você pode jogar num cesto de lixo ou abandonar ao deus-dará e ninguém voltará a associá-lo a você, um carro não pode ser simplesmente largado por aí; a documentação do veículo seguirá em seu nome, e você será responsável pelos prejuízos que ele acarretar ou danos que vier a sofrer decorrentes do abandono. Em resumo: você diz que tem um carro porque sua relação com este objeto não pode ser facilmente modificada a qualquer momento.

Você percebe então o que está em jogo quando diz que tem um problema? Você está, de algum modo, afirmando que possui com o problema um vínculo cuja dissolução não é nada simples. Ao passo que se você mudar o verbo - e a forma de encarar a situação - para "estou com um problema", você modifica o quadro para algo com o que pode lidar: se você está com saudades de alguém, você entra em contato com a pessoa e marca um reencontro; se você está com uma doença, você vai procurar tratamento; se você está com vontade de viajar, você pesquisa preço de passagens, se agenda e viaja; e se você está com um palpite para a Mega Sena, você vai a uma lotérica e aposta (boa sorte!).

Notaram a diferença? Enquanto dizer que "temos um problema" nos paralisa - já que em nossa cultura materialista, "ter" é algo desejável, você raramente se mobiliza para deixar de ter algo que possua -, pensar que "estamos com" alguma coisa de certa forma nos impele, nos convida à ação, para que o estado agora imperfeito se modifique para a situação sonhada.

Fica então minha sugestão para 2016 (que na verdade vale para qualquer tempo): pare de achar que você tem um problema, comece a se dizer que está com um problema (o que lhe fará agir para que deixe de estar com ele) ou mesmo que apareceu um problema - afinal, o que aparece, e não lhe pertence, é melhor que desapareça, não é mesmo?

Um feliz e produtivo 2016 a todos nós!

Macapá, 11/1/2016

  • Making-off - Esse texto tem toda a cara de mensagem de começo de ano, não é? Pois foi com esse intuito mesmo que ele foi escrito para ser publicado no Digestivo Cultural (meu quarto testo por lá, lido 1791 vezes até hoje), onde saiu com o título Em 2016, pare de dizer que você tem problemas, que evidentemente tinha que ser mudado para a republicação aqui. Também no começo do ano passado, cheguei a postar o texto no meu finado LinkedIn. A foto é minha, creio que feita em Macapá em algum momento de 2015. É talvez meu único texto onde eu mencione Belchior, um dos grandes nomes da MPB, falecido em 30 de abril de 2017, aos 70 anos. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O que não fazer em época de crise (Ovelhas Desgarradas - 18)

Que o Brasil atravessa uma profunda crise econômica, não é novidade alguma, já há meses os noticiários deixam isto bem claro. Inclusive me surpreendi ao escutar, em pleno mês de setembro, um jingle de Natal tocando no som de uma grande loja de departamentos, em Salvador (ouvi certa vez que, quanto piores as vendas ao longo do ano, mais cedo as lojas canalizam a atenção do consumidor para as compras natalinas, consideradas o ápice do movimento anual). Se o momento é de crise, seria de imaginar as empresas buscassem aproveitar todas as oportunidades para faturarem, certo? Bem, a julgar por uma recente experiência que tive, talvez a resposta a esta pergunta seja "errado".

Vamos aos fatos: no começo de novembro, entrei em contato com diversas gráficas, de vários estados do Brasil, no intuito de solicitar orçamento para impressão de um livro (a obra, prevista para lançamento no primeiro semestre de 2016, dará continuidade a meu projeto As Tias do Marabaixo). Ainda em outubro, sondei alguns profissionais de design para fazerem a diagramação da obra, e imaginei que as pessoas contatadas pudessem me indicar gráficas para eu consultar, o que não se confirmou. O jeito foi eu reservar uma tarde para ir a uma livraria e procurar livros semelhantes ao que eu pretendo fazer, anotando então os nomes das gráficas onde eles foram impressos. Juntando essas informações com mais algumas indicações recebidas de amigos, cheguei então a uma lista de 11 empresas, cujo nome fui jogando no Google visando encontrar o site de cada uma.

Nessa etapa, a lista já reduziu um pouco, seja porque algumas empresas já haviam saído do mercado (o que pode ser considerado natural, afinal uma livraria não é uma banca de revistas, onde só há publicações do mês atual; os livros que encontrei foram publicados em diversos momentos ao longo dos últimos 10 anos), seja porque algumas delas não tinham site ou mesmo algum contato localizável, fosse e-mail, fosse telefone.

Enviei e-mail para todas as 8 empresas que sobraram na lista. Apenas 4 me responderam. Uma somente para informar que só trabalha com tiragens superiores a 20 mil exemplares. Outra indicou uma página em seu site onde eu poderia fazer a cotação e o pedido e até mesmo enviar o arquivo com a arte do livro - um tanto quanto impessoal, é verdade, mas bem fácil de operar, salvo a questão de excesso de termos técnicos que quem não é da área não domina (afinal, ninguém é obrigado a saber o que significa uma capa 4/0 ou um acabamento PUR). 

A mesma questão aparecia nas mensagens das outras duas gráficas, a quem então solicitei a 'tradução' dos termos, consultando ainda a designer que fará a arte e cheguei então ao seguinte impasse: as duas empresas ofereciam, no geral, condições, prazos e valores semelhantes; a distância entre a cidade onde cada uma delas está situada e Macapá (informação fundamental para o cálculo do frete) também era quase idêntica, de modo que o desempate se deu por um detalhe, justamente o já citado acabamento PUR (que nada mais é que uma cola resistente para evitar que as folhas do livro se soltem); uma das gráficas não aceita fazer o acabamento PUR para a tiragem que eu pretendo (1.000 exemplares), trabalhando apenas com costura de linha. Como a designer me assegurou que o PUR é melhor, escrevi então para as duas empresas que ainda estavam no páreo: à que oferece o acabamento PUR, informei que ela foi a escolhida por mim; à outra, agradeci a atenção dispensada e informei o motivo de ter escolhido a outra empresa.

Qual não foi minha surpresa em receber, no dia seguinte, uma resposta da empresa preterida, agradecendo minha informação, não sem também dar uma alfinetada na minha designer, dizendo que ela "parece não entender nada de gráfica", pois na concepção de quem respondeu, costura de linha é melhor que PUR.

Creio não ser necessário dizer que, em situação de crise ou não, tal manifestação é completamente equivocada - ou alguém pode acreditar que desqualificar a profissional que eu selecionei irá fazer com que eu resolva mudar o local onde irei imprimir meu livro, optando justamente por quem assim se posicionou?

Mas enfim, afora esta postura indefensável, duas coisas me preocupam no conjunto dos fatos relatados, ainda mais se considerarmos que vivemos um momento de crise:

1) a insistência em usar termos técnicos que só quem trabalha na área conhece. Por que criar essa barreira com um possível cliente? Por que já não explicar logo ao que a gráfica está se referindo?

2) mas, muito pior, é a pura e simples ausência de resposta. Enquanto quatro empresas contatadas responderam, nem que fosse para dizer que não poderiam me atender, outras quatro ignoraram solenemente uma mensagem na qual eu solicitava um orçamento; ou seja, em última análise eu estava oferecendo dinheiro a estas empresas, em troca de um serviço que elas poderiam me prestar - caso, claro, ao menos respondessem a mensagem.

Atitudes como ignorar um contato do consumidor, não facilitar a comunicação com ele ou mesmo desqualificar seus parceiros evidentemente não são recomendáveis em qualquer conjuntura, mas em período de crise me parecem se assemelhar a um tiro no pé.

Macapá, 7.12.15



  • Making-off do texto - Esta publicação inaugura a segunda leva de Ovelhas Desgarradas, desta feita republicando os textos que saíram na minha coluna mensal no Digestivo Cultural e que não se encontram em nenhum outro lugar. Inclusive ele continua lá. Este foi meu terceiro texto escrito para o site, já tendo sido acessado 1301 vezes até hoje. Chegou a ser republicado no LinkedIn, quando eu tinha conta lá. 
  • A livraria onde fiquei uma tarde buscando referências de gráficas é em Porto Velho, onde estive em novembro de 2015. 
  • O livro de fotos d'As Tias do Marabaixo segue em projeto mas já agora de outro modo. Em vez de fazer uma grande tiragem, de 1 ou 2 mil exemplares, me parece mais interessante e viável fazer tiragens menores (há gráficas que aceitam pedidos a partir de 25 exemplares) e aliá-las à venda pela internet através da impressão por demanda (na qual o exemplar só é impresso quando é efetivamente adquirido). 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Opinião Cinema: Power Rangers - O Filme (2017)



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


A série Power Rangers, criada em 1993 pelo empresário Haim Saban, que se inspirou na série japonesa Super Sentai, foi um grande sucesso nos anos 90. Cheio de cores e poses exageradas, o grupo conquistou uma geração inteira. E agora, em 2017, voltou com um reboot que promete deixar todo mundo nostálgico.

O longa começa há muitos milhões de anos atrás, com uma batalha da geração passada de Power Rangers que acaba sendo derrotada. O Ranger Vermelho então, enterra as moedas do poder, para que futuramente o próximo grupo possa salvar o planeta de Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Daí já pulamos para o presente, onde conhecemos os cinco jovens que terão o futuro de sua cidade em suas mãos: Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Trini (Becky G) e Zack (Ludi Lin). Juntos, os cinco buscam muito mais do que se tornarem super-heróis, eles buscam o autoconhecimento.



Mas, vamos ser sinceros, Power Rangers não era a melhor franquia do mundo, muito menos a mais coerente, então o filme de 2017, não poderia nos dar tanta expectativa, não é? Não pra mim, pelo menos.

O longa tem momentos bem divertidos e outros sombrios, e essas mudanças acontecem muito rápido, sem uma transição ou uma explicação plausível, prejudicando assim extremamente o ritmo, sem contar todos os furos do roteiro e as conexões rápidas para que tudo tenha um “desfecho logo”.

Porém, o diretor Dean Israelite acerta em mostrar os Rangers humanos, jovens com todos os seus problemas e diversidades. Ele apresenta os super-humanos de uma forma mais realista, e esse é o ponto alto do filme todo.


Israelite reserva uma boa parte só para mostrar que Jason é o capitão do time de futebol americano da escola que se envolve em algumas coisas erradas em busca de atenção; Billy é o gênio autista, que tem sérios problemas para se comunicar; Kimberly é a patricinha, chefe das líderes de torcida, que resolve se rebelar; Trini (foto ao lado) não consegue se encaixar com sua família, não tem amigos, é totalmente solitária, e Zack é o famoso bad boy que finge ser mau só para esconder seus medos. Ou seja, Israelite consegue falar sobre autismo, homossexualidade, bullying, alienação... temas que não imaginaríamos em um filme assim. E isso é maravilhoso!

As atuações não são nenhum presente, exceto RJ Cyler que faz o melhor Ranger: o azul. Cyler está tão bem em seu personagem, tão carismático, interpreta com vontade, sabe? Aquele tipo de personagem que temos vontade de abraçar. A vilã caricata de Elizabeth Banks também é um prato cheio. Seu personagem é complicado, com muitas performances, caras e bocas e Elisabeth consegue fazer tudo isso com excelência.

Cheio de nostalgia e informações diferentes, esse novo formato veio para mostrar que há sempre uma forma de se morfar, de se modificar. Se a intenção foi deixar os adultos bobos e as crianças animadas com as pirotecnias do final, Power Rangers vale a pena assistir e cumpriu seu papel. Poderia ter feito melhor, mas quem sabe no próximo, não é?





quinta-feira, 4 de maio de 2017

Não somos eternos (Ovelhas Desgarradas - 17)

Fabio Gomes


(O título se refere à sua, à minha, à nossa presença enquanto pessoas aqui no planeta Terra. Não vou entrar na questão de imortalidade da alma e vida eterna, ok? Sigamos.) 

O ser humano tem a estranha mania de se julgar eterno, ou mesmo imortal. Isso se reflete em vários aspectos de como funcionam nossas sociedades, ao menos no Ocidente. Contratos de trabalho, por exemplo. Creio que só jogadores de futebol e atores/atrizes de televisão assinem contratos por tempo fixo. A praxe do mercado é que, ao ser contratado por uma empresa privada, ambas as partes esperem que você só saia de lá aposentado - afinal, nem a empresa espera que você vá para uma concorrente, nem você almeja uma demissão. O próprio medo da demissão reflete um pouco como é forte essa expectativa de que o vínculo seja duradouro. 

Mas vamos pensar em termos de vida mesmo, não só trabalho. Quantas vezes adiamos um sonho, um projeto, uma viagem, tanta coisa!, com o pensamento de ah isso eu faço depois! uma hora aí eu faço isso. O problema desta equação é que nunca saberemos a variável que é = o tempo que nos resta neste planeta.

Na verdade, acredito que deveríamos, sim, nos pensar como seres finitos. Não estou dizendo para ficarmos o tempo todo pensando em nossas próprias mortes futuras, mas ao menos deixar de jogar tudo para um futuro tão tão distante. Isso serve pra muita coisa. Vou dar alguns exemplos pessoais:


  1. Em 2009, quando lancei meu blog Som do Norte, ainda morando em Porto Alegre, eu sabia que em algum momento iria morar em Belém, o que de fato acabou acontecendo no ano seguinte. Nesse meio tempo, me perguntei "O que tem em Porto Alegre que é absolutamente imperdível e que eu devo aproveitar nesses últimos meses aqui?". A resposta foi as quintas de choro e jazz, com o veterano flautista Plauto Cruz, no bar Odeon - que, detalhe: ficava a duas quadras da minha casa e onde eu só fôra até então apenas UMA vez. Passei a ir toda quinta até me mudar pro Pará.

  2. Ano passado, meti o pé na estrada com a cara e a coragem e fiz meu projeto As Tias do Marabaixo circular por três estados em cinco meses. Nesse processo, acabei ficando um trimestre inteiro na Bahia - o que simplesmente foi muito além de qualquer sonho anterior. A foto do post é desse período, um dos tantos pôres-de-sol que presenciei junto ao Elevador Lacerda (esse foi o de 28 de setembro de 2015). Qual seria a pergunta aqui? Talvez algo relativo a editais para circulação (cada vez mais escassos) e à minha própria vontade de passar mais tempo nesses lugares (além da Bahia, o roteiro incluiu Tocantins e Rondônia). 

Enfim, penso que isso vale pra tudo, ou ao menos pra bastante coisa. Comece a se perguntar: quando é que vou começar a caminhar/correr/fazer atividade física? O que tem na minha cidade que vem gente de fora pra ver e eu nunca fui? Etc etc Vai por mim: depois que você entender que é finito, pode começar a aproveitar a vida infinitamente melhor! ;)



  • Making-off do texto - Foi meu último artigo original para o LinkedIn (minha 55ª publicação no site). Foi publicado em 16 de novembro de 2016 e até hoje foi lido 53 vezes, em sua maioria por pessoas de Macapá, Belém e São José dos Campos, com 5 "gostei". O texto me ocorreu a propósito de um projeto que eu havia iniciado no dia 9 e que não é mencionado no texto, propositalmente (com este, resolvi retomar o procedimento que fiz quando lancei meus sites, cursos e livros, e só mencioná-lo quando estiver pronto para vir a público :)
  • Depois deste, só publiquei no LinkedIn o artigo sobre o incidente no hotel em Belém que acabou sendo meu texto mais lido na 'fase blog' (ou seja, de 2009 para cá). Falo de O que uma empresa ganha constrangendo as pessoas?. Publicado aqui em 31 de março, foi lido até agora 10.281 vezes, com 23 comentários, sendo o mais acessado e o mais comentado desde que o blog entrou no ar, em agosto de 2011. No mesmo dia 31 de março, o texto foi republicado no LinkedIn, sendo lido até hoje por 335 pessoas, a maioria de Belém, São Paulo e Rio de Janeiro, recebendo 3 comentários e 17 "gostei". Aliás, de modo geral, todos os textos que haviam saído só no LinkedIn e estão sendo republicados aqui na série "Ovelhas Desgarradas" recebem em poucos dias mais visualizações do que ao longo de meses por lá. Creio que os números falam por si e reforçam minha decisão de privilegiar a publicação de meu conteúdo em meu próprio blog.