terça-feira, 19 de setembro de 2017

Plauto Cruz: Choro Alegre (Ovelhas Desgarradas - 39)

Porto-alegrenses podem ouvir toda semana
um dos melhores flautistas do País – de graça


A estreia de minha coluna no Prosa em Verso, na terça passada, falando dos Retrofoguetes, repercutiu bem mais do que eu podia imaginar. Recebi ótimos comentários, o primeiro sendo do colega colunista GenteFina, me cumprimentando por ter entrevistado Altamiro Carrilho. Sempre digo que Altamiro é um dos dois maiores flautistas do Brasil. O outro é o gaúcho Plauto Cruz.

Altamiro e Plauto já dividiram o palco num show do projeto O Choro é Livre que marcou época em Porto Alegre. Em 11 de novembro de 1984, os dois tocariam no foyer do Theatro São Pedro, cuja capacidade é para... 90 pessoas. O local naturalmente se revelou pequeno e o encontro histórico foi transferido para o palco principal do Theatro (700 lugares). No livro Som do Sul (2002), Henrique Mann escreveu no capítulo dedicado a Plauto: “Uma multidão acorreu ao evento que reunia dois monstros sagrados da flauta brasileira. Lotação esgotada por um público múltiplo em faixa etária e classe social. Muita gente teve que voltar para casa sem conseguir entrar no Theatro São Pedro.”

Aquele show de 1984 eu não vi, nem morava em Porto Alegre. Atualmente, ouço Plauto todas as quintas no bar Odeon. Ele só não toca quanto tem algum show fora da cidade, ou por motivo de saúde. Assim foi no começo do ano: sofreu um infarto em janeiro, porém se recuperou incrivelmente rápido para alguém de 80 anos e antes do Carnaval já estava de volta, tocando ao lado da pianista Dionara Schneider, do saxofonista Mário Thaddeu e do cantor Celestino Santana, o Tino, o intérprete oficial da única música de Plauto que tem letra (escrita pelo próprio flautista): o samba-canção “Força Atraente”, composto nos anos 1950 e ainda inédito.

De fato, boa parte de sua obra ainda não foi gravada. Talvez pelas poucas oportunidades que Plauto teve para fazê-lo. Chegou a atuar como instrumentista em mais de 40 discos - acompanhando artistas como Lupicínio Rodrigues, Kleiton & Kledir, Ângela Maria e Silvio Caldas - porém, os discos que assinou se resumem a oito: O Choro é Livre (1977), Nós, os Chorões (coletivo, 1980), O Fino da Flauta (1981), Engenho e Arte (com Mário Barros, 1995), Em Novos Tempos de Seresta (1998), Choros e Canções (1999) e O Mago da Flauta (2002). Há mais um CD, gravado ano passado. Enquanto este lançamento não acontece, ouçamos o choro “Ginga no Samba”, do CD O Mago da Flauta. Curte o som!





  • Making-off do texto - Minha segunda coluna "Curtissom" para o Prosa em Verso, da escritora Tatiana Monteiro. Foi publicada em 30 de março de 2010. Chegou a ser republicada no site Brasileirinho.
  • Foi também a minha última colaboração publicada no P&V. Cheguei a enviar um terceiro texto em 4 de abril, porém Tatiana sofreu um infarto no dia seguinte, vindo a falecer com apenas 30 anos. Pouco tempo depois, seu site saiu do ar. 
  • O terceiro e último texto da "Curtissom" foi publicado no Som do Norte em 8 de abril de 2010: Curtissom: Boddah Diciro e o Prazer de Tocar. A publicação foi assim destacada no Fotolog da banda no dia seguinte (inclusive aproveitando a chamada do informativa Rapidola do mesmo dia, onde utilizei um bordão que seguidamente eu usava no Twitter do Som do Norte, parodiando antigo anúncio da Philips) - e que, salvo engano, é a única menção remanescente à coluna "Curtissom" fora as republicações que venho fazendo:
Curtissom: Boddah Diciro e o prazer de tocar

(...) Enquanto preparamos novidades segue uma quentinha para vocês aê =D

Banda do Tocantins segue tradição pouco comentada: a inclusão de faixas instrumentais em CDs cantados.
Então.....
O que une a Boddah Diciro, os Novos Baianos e os Paralamas do Sucesso?

Então o jornalista Fabio Gomes do super blog Som do Norte sabe! Porque tem coisas que só o Som do Norte conta pra você!

Leia Agora!

  • Ouvi Plauto Cruz semanalmente no bar Odeon entre fevereiro de 2009 e junho de 2010, quando me mudei para Belém. Ele seguiu tocando no bar até o final de 2011, quando então a saúde já não lhe permitia prosseguir com aquela rotina semanal. 


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Retrofoguetes, ativar! (Ovelhas Desgarradas - 38)

Banda baiana é destaque na nova
 safra do instrumental brasileiro

  
Um dos momentos mais felizes da minha carreira de jornalista cultural foi entrevistar o flautista Altamiro Carrilho, em 2003, para o site Brasileirinho. Uma das coisas que ele disse que mais me marcaram foi, ao lembrar as caravanas que nos anos 1950-60 divulgavam a música brasileira no exterior: “O sucesso das caravanas foi enorme, porque nós tocávamos 90% de música instrumental. Sem barreiras de idioma. O idioma é uma barreira enorme fora do Brasil. Elis Regina chegou a ir numa das últimas caravanas. Com todo o sucesso que ela conseguia no Brasil, lá fora ela perdia para meus instrumentistas. Por causa do idioma. Agora, instrumental era sempre sucesso garantido.”

O espaço para a música instrumental no Brasil era realmente maior naquela época, depois uma série de interesses da indústria fonográfica “decretou” que só música cantada (de preferência, com refrão pegajoso) podia fazer sucesso - e o que não se encaixava nisso era tratado como algo à parte. Aos poucos, com o declínio das majors e a articulação da cena independente, isso foi mudando, graças a Deus. Lembro da minha alegria ao constatar que, entre os melhores shows do Festival Varadouro, em Rio Branco, Acre, em 2008, em que naturalmente predominavam na programação bandas que cantavam, vários dos shows de destaque eram instrumentais: Pata de Elefante (RS), La Pupuña (PA) e os peruanos do Bareto, que “fizeram aquele que foi para mim o grande show do Varadouro 2008. Não só para mim, com certeza, afinal foi este o único show que fez as pessoas dançarem na segunda noite”, escrevi no site Jornalismo Cultural.

Foi por meio dos paraenses da Pupuña que vim a conhecer o som dos Retrofoguetes. Este grupo baiano - formado por Morotó Slim (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria) - convidou seus amigos nortistas para tocarem este ano no Trio Foguetão, no carnaval de Salvador. O trio da banda integra o projeto Retrofolia, que visa resgatar antigas tradições carnavalescas, e que neste ano contou com um baile de salão e dois desfiles, um no Barra-Ondina e outro no Pelourinho, sem haver cordas separando as pessoas, nem abadás vendidos a preços exorbitantes. O próprio fato de sair sem cantor no carnaval já é por si só um resgate: nenhum trio elétrico tinha cantor até que Moraes Moreira letrou “Double Morse”, de Dodô e Osmar (rebatizando a música como “Pombo Correio”), e saiu no trio deles, em 1976 – o resto da história você já sabe.

Já o som dos Retrofoguetes, com certeza, de tradicional não tem nada! Associados com a surf music desde o primeiro disco – Ativar Retrofoguetes! (2003) –, hoje sua alquimia sonora funde ingredientes tão diversos quanto o rockabilly, o tango, jazz, funk, soul, polca e... mambo, como vamos ouvir em seguida, em “Maldito Mambo!”, faixa do CD Chachachá (Indústrias Karzov, 2009). O disco coleciona reconhecimentos: para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 25 melhores nacionais de 2009; para o jornal A Tarde (Salvador), ficou em 3º lugar; e para a revista e portal Rockpress, ele foi o melhor e ponto. Curte o som!




  • Making-off do texto - A banda Retrofoguetes fez uma pausa nas atividades entre 2012 e 2013, retornando como quarteto, mantendo apenas Rex da formação mencionada no texto; os novos integrantes são Julio Moreno (guitarra), André T (teclados) e Fábio Rocha (baixo). 
  • O texto tem uma 'pegada' de script pra rádio, mas de fato foi meu artigo de estreia na coluna "Curtissom", que escrevi por breve período de 2010 no site Prosa em Verso, da escritora e editora Tatiana Monteiro, residente à época em Cordeiro (RJ). Minha amiga virtual há pelo menos um cinco anos nessa época, Tatiana me convidou para integrar a equipe na reformulação de seu site, carinhosamente chamado "P&V". A matéria entrou no ar em 23 de março de 2010 e chegou a ser republicada no site Brasileirinho, hoje fora do ar. 
  • A foto mostra um momento do evento Retrofolia, realizado em Salvador em fevereiro de 2010. Creio que já tenha sido enviada a mim pela assessoria da banda sem crédito para o autor. 
  • Foi minha primeira coluna em site após ter começado a minha "fase blog". Coube a mim escolher o tema e o nome da coluna, sobre os quais assim falei num "texto de perfil" solicitado pela Tatiana e que enviei em 17 de março: 

Tema: Música instrumental brasileira
Nome da coluna: Curtissom
Nome: Fabio Gomes
Periodicidade: Semanal
Dia da semana para entrada no ar: Terça-feira
  • pequena biografia: Fabio Gomes, jornalista, gaúcho, tem três livros publicados e edita os sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural. Lançou em 2009 o blog Som do Norte. Tem participado de debates sobre Jornalismo Cultural e música brasileira em vários estados do Brasil.
  • tema da coluna e o porquê do nome dela: Escolhi escrever aqui toda semana sobre música instrumental brasileira por três motivos. Em primeiro lugar, brasileira porque não me considero suficientemente informado sobre a música de outros países para poder falar dela com propriedade. Em segundo lugar, porque este foi um tema do qual eu sempre gostei, que abordei sempre que possível nos diversos lugares onde trabalhei, mas nunca como tema principal, como será aqui. Terceiro, porque pela primeira vez na vida vejo que o chamado "grande público" vem aceitando a música instrumental como uma manifestação cultural tão válida quanto qualquer outra, e não mais algo "difícil" ou "chato". O nome é, como espero que dê pra notar, um trocadilho com a gíria "curtição" e a palavra "som" - que é o que, convenhamos, há para curtir numa música instrumental, que abdica do recurso à palavra, aparentemente de comunicação mais imediata - mas nem por isso mais eficaz, necessariamente.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O jornalismo cultural na era das mídias sociais

Com o advento das redes sociais, os artistas (em especial os da música) passaram a se comunicar diretamente com seu público, não necessitando mais da antiga "ponte" que o jornalismo cultural representava. Este é o tema central de um texto que escrevi no ano passado, intitulado Caiu na rede, virou social, saído primeiro no blog Roraima Rock'n'Roll, e republicado aqui. E também a ideia principal do artigo Tribalistas não precisam de jornalismo, escrito por Pedro Varoni e publicado no site Observatório da Imprensa em 15 de agosto deste ano.

Varoni se referia à live que o supergrupo formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte fizera no Facebook, sem aviso prévio, na noite de 9 de agosto. No dia seguinte, anunciaram o lançamento de um EP no inédito formato Hand Album, criado em dois dias (!) a pedido de Marisa por engenheiros brasileiros com suporte de colegas europeus e norte-americanos do Facebook e Spotify. O formato visa proporcionar a quem ouve um álbum no smartphone uma experiência similar à de se ouvir um CD físico (saiba mais neste texto de Igor Ribeiro para o site Meio & Mensagem). Varoni também destaca a queixa de Nando Reis, ao participar do programa de Pedro Bial em 19 de junho, dando conta de que o "caderno de cultura do maior jornal de São Paulo" não dedicara uma "única linha ao trabalho" - no caso, o mais recente CD de Nando, Jardim Pomar (2016).

Não encontrei dados sobre vendas (ainda se fala nisso? - risos) ou audições do CD de Nando, mas é evidente que, mesmo que um jornal não tenha falado do disco, outros falaram e as próprias redes sociais do artista se encarregaram de espalhar a notícia (apenas no Instagram ele tem 403 mil seguidores). Sobre os Tribalistas, o próprio Varoni refere que a live foi vista por 5,62 milhões de pessoas em 52 países. Isto o leva a afirmar que "As novas formas de circulação são mais democráticas e não precisam do antigo modelo de mediação que dependia de critérios eletivos dos jornalistas culturais, quando não do poder econômico das gravadoras" - conclusão que endosso inteiramente. Já falei certa vez que no antigo sistema gravadoras e jornalismo cultural (mais aquelas que este, evidentemente) decidiam "quem podia" ser artista. Hoje a internet possibilita que todos possam mostrar o seu trabalho sem intermediários.

As mudanças nessa área podem ser melhor traduzidas através do trabalho de divulgação dos três mais recentes CDs de Chico Buarque. Em 2006, ao lançar Carioca, a gravadora Biscoito Fino produziu um documentário sobre os bastidores do álbum, exibido parcialmente no programa Fantástico (TV Globo) juntamente com uma breve entrevista do cantor à repórter Tatiana Nascimento. Em 2011, quando saiu o CD Chico, ele fez uma auto-entrevista (!) transmitida pelo hotsite Chico: Bastidores, outra iniciativa da Biscoito Fino. Já agora em 2017, o CD Caravanas foi precedido da estreia do artista no Instagram e do single digital "Tua Cantiga", além de vídeos com trechos das faixas "Massarandupió", "Dueto" e "As Caravanas".  A três dias do lançamento do CD, a Biscoito Fino enviou à imprensa um "link sigiloso" (como definiu O Globo) dando acesso ao álbum, mais fotos, encarte e um texto do jornalista Hugo Sukman detalhando as referências das canções (enfim, uma versão contemporânea do antigo "press kit").




Embora eu tenha um blog com o nome de Jornalismo Cultural, creio que o espaço onde mais exerci de fato o que entendo como jornalismo cultural foi o Som do Norte, de sua criação em 2009 até 2015. Comecei o ano retrasado parando de postar agenda de shows no blog, já que a audiência dessas postagens era pequena; as pessoas hoje se atualizam sobre shows em sua cidade através das redes sociais. Decidi então investir em entrevistas com músicos, porém lá pro meio do ano comecei a ter algumas recusas. Entendi então que, como disse Varoni no trecho citado acima, o antigo modelo de mediação representado pelo jornalismo cultural "clássico" não era mais necessário nos tempos atuais.

Mais ou menos na mesma época, em 30 de julho de 2015, o cineasta Jorge Furtado declarou à TV Carta, a propósito de seu filme O Mercado de Notícias, que "a imprensa praticamente perdeu o sentido" de existir. Eu não iria tão longe, mas o fato de eu ser um jornalista pode estar influindo na minha percepção (risos).

Evidentemente eu não tenho como dizer para onde o jornalismo cultural como um todo deverá ir, ou tentar prever o que vai acontecer. O que posso é decidir o que vou fazer a partir do quadro atual. Nesses últimos dois anos tenho priorizado meu trabalho ligado às imagens, sejam fixas (Fotografia), sejam em movimento (Cinema), com o jornalismo cultural presente em vários destes trabalhos, como o projeto As Tias do Marabaixo, por exemplo. Quanto ao jornalismo propriamente dito, tenho preferido escrever artigos como este tanto para meus blogs quanto na coluna do Digestivo Cultural, ao lado da republicação de textos meus escritos em épocas diversas e que nunca postei em meus próprios blogs. A quantidade de acessos não chega a ser muito expressiva, mas de todo modo creio que estou oferecendo um conteúdo menos perecível do que fazia quando minha prioridade era postar agenda de shows - em sua maioria, estes posts jamais voltavam a ser acessados após a realização do evento.


* Publicado originalmente no 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Caiu na rede, virou social (Ovelhas Desgarradas - 37)



Em 2009, quando lancei o blog Som do Norte, pode-se dizer que estávamos na Pré-História das redes sociais. Quem dominava esse mercado aqui no Brasil era o Orkut, e nos Estados Unidos e parte da Europa o MySpace – sim, ele pretendia ser uma rede social, embora tenha se destacado por algum tempo pelas postagens de músicas. Mesmo assim, sem liberar um código para inserir as canções em sites, blogs ou outras redes sociais, pode-se dizer que o MySpace tinha uma interface monolítica, ainda mais se comparado com o talvez seu principal sucessor, o Soundcloud.

Num cenário como o descrito, era útil e por vezes até necessário para artistas e bandas independentes entrar em contato com os principais sites e blogs existentes, voltados para o tipo de som que faziam e/ou o recorte geográfico em que se inseriam, uma vez que estes espaços, geralmente criados por jornalistas ou aficionados da área, acabavam se tornando referência e atraindo a audiência de um público que poderia se interessar pelo som daquela banda X (ou daquele artista Y).

Esse cenário começou a se modificar, pelo menos no Brasil, a partir de 2011, com a ascensão entre nós do Facebook, tomando então o lugar que já tinha sido do Orkut e (pasmem) do Twitter até ali. Desde então, não param de surgir espaços onde o próprio artista pode falar diretamente com seu público – e ponha aí Instagram, Google +, LinkedIn, Snapchat e váááárias outras, como vemos na imagem, que inclui até sites que nem pensamos ser uma rede social, como o YouTube. O que acontece é que grande parte dos sites mais acessados do mundo acabou adotando a lógica de rede social, o que, se por um lado pode incomodar alguns internautas, por outro abre uma série de oportunidades para quem precisa se comunicar com um público amplo e divulgar seu trabalho artístico, como por exemplo... artistas e bandas independentes! Yeah!

Se criar um site exigia, quase sempre, a contratação de um webdesigner, e para manter um blog era recomendável que houvesse disciplina e regularidade nas postagens, com as redes sociais o trabalho fica bastante facilitado, pois até mesmo de um celular você pode postar em redes como o Instagram. Já uma plataforma como o Snapchat, onde tudo o que for postado deixará de existir no dia seguinte, abre a porta para uma informalidade impensável num site institucional da banda.

Mas, independente do canal que você escolher para falar com seu público, algumas coisas não mudam. É importante manter um certo nível de linguagem (pode ser informal, sim, pode incorporar algumas gírias e mesmo emoticons, porém não deve ser indecifrável para a maioria das pessoas, salvo se você quiser mesmo falar apenas com um nicho muito específico). É fundamental manter uma periodicidade nas postagens – não precisa ser a toda hora, nem diariamente, mas fica estranho você entrar no perfil de uma banda em atividade e a postagem mais recente ser o anúncio de um show de novembro de 2014. Talvez, se sua carreira decolar, você precise contar com a colaboração de alguém – de preferência um profissional da área de comunicação, nem sempre sua namorada ou seu primo vão ter tempo ou vão saber lidar com as demandas cada vez mais frequentes e elaboradas que irão surgir. E com as próximas redes a serem criadas, é claro.


  • Making-off do texto -  Esse texto foi originalmente escrito para a coluna Papo Cabeça, que mantive em dois momentos no blog Roraima Rock'n'Roll, do meu amigo Victor Matheus Mattos. Produtor cultural e músico (band leader da Veludo Branco), Matheus é um gaúcho de Porto Alegre que mora desde a infância em Boa Vista, onde edita desde 2010 o RRR, que a partir do ano seguinte ganhou também as páginas da Folha de Boa Vista. 
  • Na volta do Papo em 2016, os textos deveriam ser menores, já que a ideia do Matheus é que eles aparecessem dentro da sua coluna no jornal, sendo depois republicados no blog. Novamente foram 5 textos, sendo que este era o único que seguia "desgarrado" - havia sido reproduzido, parcialmente (os dois primeiros parágrafos e o início do terceiro) neste post do Som do Norte. Escrito em Maceió, foi publicado originalmente na Folha de Boa Vista, sendo reproduzido no Roraima Rock'n'Roll em 26 de julho de 2016. Chegou a ser publicado no LinkedIn, no tempo em que eu escrevia por lá, e foi também minha coluna de agosto no Digestivo Cultural. Algumas vezes eu precisei resumir o texto do Papo Cabeça, em virtude do espaço disponível para a coluna no jornal. Desta vez, mesmo o texto tendo 5 parágrafos, isto não foi necessário. Agradeço também ao Matheus ter me ajudado a ver que o título escolhido era bom; eu mandei pra ele com esta dúvida, me parecia um pouco informal demais. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Discografia Brasileira de Roberto Carlos (1959-2005)


Ao publicar ontem, aqui, um texto analisando a obra de Roberto Carlos, dividindo-a em sete fases, mencionei que se tratava de um texto inédito, primeiro de uma série de dois que escrevi em 12 de março de 2006 para a Editora Garamond, para um livro que não chegou a ser publicado. 

O outro texto é este que enfim publico hoje, e que abrange toda a obra de Roberto Carlos lançada no Brasil até o final de 2005. Além da discografia, com a incrível cifra de 571 fonogramas (somando-se aí os discos nacionais, mais relançamento de gravações em espanhol, inglês, francês e italiano destinadas ao exterior), incluí o que pude localizar de sua participação no cinema (que vai muito além dos 3 filmes que estrelou na virada das décadas de 1960-70, dirigidos por Roberto Farias) e em novelas de TV, além dos DVDs e do único livro que publicou, ainda na época da Jovem Guarda. 

Devido à extensão do material (25 pág), optei por disponibilizá-lo em arquivo pdf. Para abri-lo / baixá-lo, basta clicar na imagem. 



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As sete fases de Roberto Carlos

Este é um texto inédito, que enviei em 12 de março de 2006 para a Editora Garamond (São Paulo), para o projeto de livro que a empresa pretendia lançar a propósito dos 65 anos do cantor Roberto Carlos. Fui convidado para colaborar no livro (e ser uma espécie de supervisor do projeto) por Maria Alzira Brum Lemos, então sub-editora da Garamond, que me enviara um e-mail em junho de 2005. Como o livro não saiu, este e outro texto que mandei no mesmo dia jamais foram publicados.

Aproveitei aqui parte de um dos textos mais lidos na "fase site" da minha carreira de jornalista cultural (2003-09), intitulado "Roberto Carlos e a Religião", que escrevi em 2001 como minha monografia de conclusão do Curso de Comunicação Social - Habilitação Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

***

AS SETE FASES DE ROBERTO


"Adoração (Altar para Roberto Carlos)",
instalação de Nelson Leirner (1966)


Quando do lançamento do disco anual de Roberto Carlos em 1989, um crítico aproveitou um verso de “ Você não Sabe” - “Os amigos dizem que eu mudei” - para fustigar o cantor. Segundo o articulista, a frase era mentirosa, pois Roberto jamais mudara!

Difícil determinar hoje a causa do ataque. Mau humor? Desatenção? O fato é que basta percorrer a discografia de Roberto para constatar que ele muda sim! Talvez isso passe um pouco batido pelo fato de suas mudanças serem coerentes com seu histórico: raras vezes o cantor promoveu uma guinada total na direção até então seguida; o mais comum é que novas características sejam incorporadas (conscientemente ou não) a seu trabalho, cujas linhas gerais são mantidas.

Ao longo da carreira de Roberto em disco, é possível identificar sete fases distintas, considerando o estilo lítero-musical e os tipos de assunto tratados. E geralmente essas mudanças coincidem com períodos de transformação na vida pessoal do artista.

1 - Indefinida (1959-1963)

O nome desta fase é sugerido por Ricardo Pugialli em seu livro No Embalo da Jovem Guarda (Ampersand, 1999). Iniciando a carreira artística, Roberto gravava estilos muito diversos como sambas, tangos, rocks, boleros, chá-chá-chás e outros ritmos em voga. As letras também apontavam para várias direções: amor, desejo de ascensão social, corrida espacial, religiosidade, além de apresentar uma temática adolescente. No acompanhamento, geralmente orquestras, com apenas algumas faixas de rock comgrupo jovem”. Integram esta fase os LPs Louco por Você (1961) e Roberto Carlos (1963).

A estréia de Roberto em disco ocorreu dois anos antes de Louco por Você, em um compacto da Polydor (“João e Maria”/ “Fora do Tom”) no qual ele imitou João Gilberto, cantando bossa nova.  O mesmo que fazia desde o final de 1958 na boate Plaza, do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Alguns autores chegam a afirmar que o próprio João trabalhara nesta boate, o que não é correto: o baiano cantou ali, sim, mas participando de “canjas” nas quais era acompanhado por Milton Banana à bateria.

Até ali, Roberto era um artista identificado com o rock. Depois de chegar em 1955 de Cachoeiro de Itapemirim (Espírito Santo), onde nasceu a 19 de abril de 1941, e morar até 1956 em Niterói, quando então se fixou no Rio de Janeiro, Roberto freqüentava programas de calouros nas rádios cariocas. O veículo não era novidade para ele, que tivera seu próprio programa numa emissora da cidade natal – aos nove anos de idade!

Circulando no meio radiofônico, conheceu Arlênio Lívio, empregado de uma emissora e também seu colega em um curso supletivo. Arlênio o apresentou a Tim Maia e Erasmo Carlos, que, como ele, dividiam o entusiasmo pelo rock. Em 1957, os quatro, com outros amigos, fundam o grupo The Sputniks, depois The Snakes.

Roberto apresentava-se na televisão, com o grupo ou sozinho, cantando músicas do repertório de Elvis Presley. O produtor do programa Clube do Rock (e seu conterrâneo de Cachoeiro), Carlos Imperial, convidou-o para ser guitarrista do grupo que empresariava, Os Terríveis. Assim, em maio de 1958, Roberto participou do show do Clube do Rock que abriu a apresentação de Bill Haley no Maracanãzinho.

Como o disco com “João e Maria” não vendeu, Roberto foi dispensado da gravadora Polydor, pensando até em desistir da carreira – chegou a arrumar um emprego no Ministério da Fazenda. A insistência de Imperial levou-o em 1960 a um contrato com a gravadora Columbia (depois CBS e atualmente Sony). No ano seguinte, a faixa-título do LP Louco por Você chegou a ser bem tocada nas rádios do Rio (chegando a umlugar na parada), mas outra vez o disco não vendeu. O funcionário público Roberto Carlos conseguiu uma transferência para o Ministério da Educação e Cultura e tentou divulgar o disco na rádio MEC.

Em 1962, Sérgio Murilo, o maior astro jovem da Columbia, deixou a gravadora brigado, o que abriu o caminho para RC, que a pedidos da empresa voltou a cantar rock. Com um rock-balada, “Malena”, Roberto atinge pela primeira vez o topo da parada de sucessos, em julho de 1962.

A denominação do cantor comoRei” acontece nessa época. Tendo sido fundado um fã-clube de Roberto no bairro de Santo Cristo, no Rio de Janeiro, as sócias atribuem um caráter monárquico ao ídolo. Conta Ricardo Pugialli no livro No Embalo da Jovem Guarda (Ampersand, 1999, pág. 103): “as meninas fazem faixas, vão a todos os programas de auditórios das rádios e TVs, sobem ao palco para colocar as faixas de ‘Nosso Rei’, ‘Rei da Juventude’.” (pág. 103)


2 - Jovem Guarda (1964-1967)


Estas datas correspondem aos discos de Roberto em que o iê-iê-iê predomina, e não à duração do movimento em si (geralmente fixada entre 1965 e 1968, período em que esteve no ar o programa de TV de mesmo nome).

em 1962, ao conhecerem os primeiros trabalhos do grupo The Jet Blacks, Roberto e Wanderléa “perceberam que seus discos soavam mal porque não eram tocados por roqueiros” (conforme relata Pugialli – op. cit, pág. 96). Apercebendo-se do fato, dois anos depois, a CBS passou a escalar apenas grupos jovens para acompanhar Roberto.

Compõem basicamente o repertório desta fase rocks, baladas, surf music e twist, com no máximo três ou quatro acordes, abordando uma temática adolescente - namoros, carrões, brigas, praia, personagens de histórias em quadrinhos. Integram esta fase os discos É Proibido Fumar (1964), Canta para a Juventude (1965), Jovem Guarda (1965), Roberto Carlos (1966) e Em Ritmo de Aventura (1967). No mesmo período, a CBS lançou no Brasil o disco destinado ao mercado latino-americano Canta a la Juventud (1965).

Musicalmente falando, a Jovem Guarda apresenta uma nova forma de canção, não mais baseada na forma rondó, estrutura que a música brasileira herdara da polca (a canção inicia com o refrão, que é sempre repetido após cada nova estrofe). Em boa parte das músicas, o iê-iê-iê não tinha refrão. O cantor interpretava a letra do início ao fim e, após uma pausa instrumental, repetia alguns dos últimos versos. Por vezes, o público era levado a atribuir a essas passagens o caráter de refrão. Esta é a estrutura, por exemplo, do megasucesso “Quero queTudo pro Inferno”. Nesta, ainda, Albert Pavão identifica a definição do iê-iê-iê: “uma guitarra marcando o ritmo, ao lado de um órgão fazendo harmonia” (in: Rock Brasileiro 1955-65. Trajetória, Personagens e Discografia, Edicon, 1989, pág. 40). Nem todas as músicas da Jovem Guarda obedecem a esta estrutura, claro, mas sua quantidade é bastante significativa e certamente a parceria Roberto Carlos & Erasmo Carlos foi importante para consolidar este novo formato.

Em 1963, Roberto inaugurara com Erasmo a mais duradoura parceira da música popular brasileira. Vendo semelhanças em seus estilos, os dois escrevem “Parei na Contramão”, lançada no mesmo disco - Roberto Carlos (1963) - que contém “Splish Splash”. As duas músicas fazem bastante sucesso, conseguindo que Roberto atingisse pela primeira vez o mercado paulista, então fundamental para o êxito nacional de qualquer artista. O sucesso seguiu com “É Proibido Fumar”, no ano seguinte, e a TV Record (São Paulo) decidiu contratar Roberto, Erasmo e Wanderléa para comandar um programa musical jovem. Pouco antes, a TV Rio tentara fazer o mesmo, com Roberto, mas a idéia foi logo arquivada. De todo modo, com os musicais da TV carioca dominados pela bossa nova, ir para São Paulo parecia uma escolha lógica numa época em que não havia redes nacionais.

O programa Jovem Guarda logo alcançou grande audiência. Era exibido ao vivo para São Paulo nas tardes de domingo - as outras capitais o viam em videoteipe, com alguns dias de atraso. As gírias lançadas pelos cantores da Jovem Guarda, suas músicas, as roupas que usavam e produtos a eles associados viraram mania nacional. Foi a época das expressões “É uma brasa, mora!” e “barra limpa” e das marcas Calhambeque, Tremendão, Ternurinha e Jovem Guarda em objetos tão diversos como roupas, calçados, material escolar, equipamento de som, fotos...

O iê-iê-iê logo tomou conta das paradas, principalmente após o lançamento do disco Jovem Guarda, aberto por “Quero queTudo pro Inferno”, uma das músicas mais tocadas no Brasil nos dois anos seguintes, inclusive nos bailes de carnaval. A faixa tornou-se o hino do movimento; era de praxe, ao final de cada programa Jovem Guarda, todos os participantes daquele dia cantarem juntos esta música. Detalhe: então era raro uma canção permanecer dois anos fazendo sucesso. Atualmente, não se registra nenhum caso semelhante.

Depois do Brasil, o mundo passou em seguida a ser o palco de Roberto: suas primeiras turnês, em 1965, foram para Argentina e Portugal. Nos lugares onde ele ainda não chegava pessoalmente, seus discos iam por ele: em 1966, seus discos, em português mesmo, passam a ser lançados nos Estados Unidos.

Em fevereiro de 1967, Roberto faz o show de encerramento do MIDEM (a feira mundial do mercado do disco), na França. Retornou à Europa em agosto, para participar do Festival de Veneza, ficando entre os seis primeiros colocados.

nos festivais brasileiros, diretamente inspirados no modelo italiano, Roberto nunca foi além de umlugar, posição obtida abaixo de vaias com “Maria, Carnaval e Cinzas” no 3º Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record em 1967. As vaias se deviam à parcela do público que considerava uma invasão a presença do “rei do iê-iê-iê” num evento que originalmente se propunha a veicular a nova música nacional, herdeira da tradição da bossa nova. Roberto voltaria a ser vaiado no ano seguinte, quando defendeu “Madrasta”, mas não deve ter se importado muito: em 1968, o público vaiou até Tom Jobim.

O tempo mostraria que, mais do que a sua própria colocação, a vitória de Roberto em 1967 estava de certa forma no segundo lugar obtido por Gilberto Gil comDomingo no Parque” e no quarto lugar de Caetano Veloso comAlegria, Alegria”. Era o surgimento da Tropicália, que avalizava o iê-iê-iê como uma de suas mais importantes influências, ao lado da bossa nova e do pop-rock internacional da linha consagrada por The Beatles.


3 - Fase de Transição (1968-1969)


Ao longo do ano de 1968, muitos cantores e grupos da Jovem Guarda mostravam-se desorientados com o novo quadro da música popular brasileira, principalmente em função do surgimento da Tropicália. Seja por esse fator, ou pelo próprio desgaste do movimento após três anos na televisão, o fato é que os próprios músicos reconheciam que não era possível avançar mais pelo mesmo caminho seguido até então, como assinala Marcelo Fróes à pág. 203 do livro Jovem Guarda em Ritmo de Aventura (Ed. 34, 2000):

Conscientes de que muita gente esperava que tomassem uma atitude naquele momento de incerteza para a música jovem, Erasmo e Roberto pensavam em ir para os Estados Unidos para pesquisar novos rumos.”

Essa transição está plenamente exposta nos discos que Roberto lançou nessa fase. Mesmo as faixas de rock não são Jovem Guarda. Embora tenham uma unidade garantida devido à manutenção das linhas gerais do estilo pessoal do artista (diferente da fase indefinida, por exemplo), alternam-se nos discos músicas pop com acompanhamento do RC-7 e canções românticas com orquestra. Integram esta fase os discos O Inimitável (1968) e Roberto Carlos (1969).

Antes mesmo do final da Jovem Guarda RC passara a adotar uma postura mais amadurecida. no início de 1968, começara a deixar para trás a imagem de ídolo jovem: após vencer o Festival de San Remo, interpretando “Canzone per Te”, foi recebido na volta ao Brasil por 10 mil pessoas no aeroporto do Galeão. Nem um dos autores da música, Sergio Endrigo, imaginou que Roberto conseguiria ir tão longe, o que levou o Rei a prometer que, caso vencessem, o italiano seria convidado a ficar um mês no Brasil, com direito a uma participação em um programa de televisão. Vitória confirmada, promessa cumprida: em abril, Endrigo participou da estréia de Roberto Carlos-68 (TV Record).

Ambos, Endrigo e Roberto, tinham motivos de sobra para festejar aquela vitória. Através de Roberto, Endrigo teria seu único primeiro lugar em San Remo. Também havia a questão de se superar o impasse que levou Roberto a desistir de concorrer no festival em 1967: o Rei iria defender "Dove Credi di Andare", de Endrigo, mas não concordou com a exigência dos editores da música de que a cantasse juntamente com Memo Remige. Mais que isso, porém, era a primeira vez que um cantor estrangeiro vencia um festival na Itália - e cantando em italiano! Na esteira desta conquista, todos seus LPs lançados de 1967 a 1979 receberam uma versão em italiano.

Também nessa fase, RC começa a estrelar uma série de filmes dirigidos por Roberto Farias: os primeiros foram Em Ritmo de Aventura (1968) e O Diamante Cor-de-Rosa (1969). Antes destes, o Rei chegou a participar em 1966 das filmagens de SSS contra a Jovem Guarda, um projeto de Luís Sérgio Person que não chegou a ser concluído.

Em maio de 1968, o ídolo casou-se na Bolívia com Cleonice Rossi, a Nice, desquitada e mãe de uma filha, Ana Paula, que Roberto passou a considerar como sua. O primeiro filho do casal, Roberto Carlos Braga Segundo, também conhecido como Segundinho ou Dudu, nasceu em 1969, com glaucoma. Roberto e Nice teriam ainda outra filha, Luciana. Antes de Dudu, o cantor fora pai, embora ainda não soubesse: em 1991 Rafael Torres Braga, então com 25 anos, teve confirmada sua condição de filho de Roberto.


4 - Fase Romântica (1970-1984)


É nesta fase que se definem as características de RC como intérprete com as quais o público ainda hoje o associa. O tema principal dos discos é sempre o amor, em canções românticas gravadas com orquestra, recorrendo, ao lado dos habituais boleros e baladas e alguns rocks ocasionais, alguns gêneros que não estavam mais na parada de sucesso, como o fox, o fox-trot, a valsa, o tango.

As composições passam a ser mais elaboradas, bastando citar o exemplo de “Amiga”, gravada por Roberto com Maria Bethânia em 1982, que possui 39 acordes (na Jovem Guarda dificilmente se chegava a cinco).

No disco de 1970, registrado no Brasil com orquestra regida por Chiquinho de Morais, é nítida a influência do samba-canção, atenuada, como não poderia deixar de ser, quando o artista passou a gravar seu trabalho nos Estados Unidos. Mesmo assim, é possível identificar o espírito do samba-canção presente em trabalhos posteriores, como nos discos de 1974 e 1977. Além do amor (que passa a apresentar acentos eróticos), incorporam-se à lista de temas freqüentes a religiosidade, a ecologia, a amizade e o culto à Jovem Guarda. Algumas regravações de clássicos da música popular brasileira (no início da fase) e latino-americana (durante quase toda a década de 70) completam o quadro. Muitas das letras abordam sua visão de um mundo melhor, com alta qualidade literária. Algumas vezes remetendo a sonhos que ele teria tido, outras não, o artista consegue trazer ao público a uma visão mais poética da vida.

Integram esta fase os discos anuais (todos denominados Roberto Carlos) lançados entre 1970 e 1984, além do LP San Remo 1968 (uma coletânea de compactos editados de 1967 a 1973) e do disco em inglês Roberto Carlos (1981, com cinco versões de sucessos de Roberto e cinco canções originais em inglês). Cronologicamente, abre esta fase um disco atípico na carreira do artista: Roberto Carlos Narra Pedro e o Lobo (1970), em que ele participa lendo (acompanhado pela New York Philarmonic Orchestra, regida por Leonard Bernstein) o texto narrativo da história infantil escrita e musicada pelo compositor russo Sergei Prokofiev.

Nesta fase, Roberto consolida sua imagem de cantor romântico, abandonando de vez a postura de artista jovem. Um grande show em 1970 no Canecão, no Rio de Janeiro, produzido pela dupla Luís Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, com orquestra dirigida pelo maestro Chiquinho de Morais, marca o novo estilo. A partir daí, Roberto mantém como redatores e produtores de todos os seus shows a dupla Miéle e Bôscoli (Miéle prosseguiu na função após o falecimento de Bôscoli, em 1994). Chiquinho foi indicado pelos produtores como um bom maestro, mas, como avaliou Bôscoli em suas memórias (o livro Eles e Eu, Nova Fronteira, 1994), acabou se revelando “um tanto irresponsável”. Isto contribuía para deixar Roberto muito tenso na véspera de cada estréia, o que o levou a substituir Chiquinho por seu discípulo Eduardo Lages no final da década de 70. Lages é até hoje o responsável pela parte musical dos shows e pelo arranjo dos discos de Roberto. O Canecão também se constituiu, por muitos anos, no local preferido por ele para lançar seus LPs. Em 1983, Roberto inovou fretando um avião para realizar o “Projeto Emoções”, levando seu show para quatorze estados brasileiros, totalizando vinte e uma apresentações.

Em 1971 - ano do seu último filme, A 300 Quilômetros por Hora -, Roberto passa a gravar seus discos nos Estados Unidos. O lançamento dos discos, desde 1965 sempre em dezembro, recebe como apoio o programa especial na TV Globo, na semana do Natal, a partir de 1974. Cada LP brasileiro volta a ter versão em espanhol a partir de 1972. Além do disco em inglês citado, também gravou em francês em 1982, ano em que a CBS outorgou-lhe o Globo de Cristal, oferecido aos artistas que vendem mais de 5 milhões de cópias fora de seu país de origem.

Em 1979, Roberto separa-se de Nice; algum tempo após, o cantor une-se à atriz Míriam Rios.


5 - Fase Pop-brega (1985-1992)


Mantendo como ingrediente básico o romantismo, nesta fase, Roberto incorpora ao seu trabalho gêneros em moda na época (numa atitude pop, próxima do tropicalismo), deixando um pouco de lado os foxes e as valsas e voltando-se para ritmos como rock, rock-balada, funk, samba, sertanejo, bossa nova, forró, adaptados, claro, ao seu estilo. Na parte das letras, as imagens ficam menos poéticas e imaginativas que na fase anterior, aproximando-o do estilo brega.

No decorrer desta fase, o cantor deu uma certa ênfase para sua temática ecológica, com músicas comoÁguia Dourada” e “Amazônia”, chegando a implantar uma pena no couro cabeludo (aparece com ela nas capas dos discos de 1989 e 1990).

Cabe ressaltar que, nos discos que inauguram esta fase, Roberto voltara a gravar no Brasil, após quinze anos. É válido supor que a presença maciça de arranjadores e músicos brasileiros ajudou a direcionar a parte musical do trabalho para ritmos contemporâneos, aos quais o público nacional se encontrava plenamente acostumado.

Integram esta fase os discos anuais (todos eles, novamente, intitulados Roberto Carlos) lançados no período, além de um disco Ao Vivo (1988) e das coletâneas Roberto Carlos (1992, com músicas registradas entre 1971 e 1984) e Inolvidables (1993, reunindo versões em espanhol de seus sucessos, gravadas entre 1972 e 1980).

No final dos anos 80, sua carreira em espanhol acumulava seguidos êxitos: ganhou em 1988 o Grammy de melhor cantor pop latino-americano por sua gravação de “Si el Amor se Va” (Roberto Livi - Bebu Silvetti). No ano seguinte, seu disco em espanhol Sonrie atingiu o topo da parada latina da revista americana Billboard.

Também pertence a este período uma homenagem que muito comoveu Roberto: no carnaval de 1987, a Escola de Samba Unidos de Cabuçu levou sua vida para a Marquês de Sapucaí com o samba-enredo de autoria de Adilson Gavião, Adalto Magalha e Sérgio Magnata “No Reinado de Momo, que Rei Sou Eu?” (nome que, a pedido do próprio homenageado, foi encurtado para “Roberto Carlos no Reino da Fantasia”).

6 - Fase Religiosa (1993-1999)


Continuando romântico e de certa forma ainda na área pop-brega, a partir de 1993 é possível identificar o início do direcionamento da carreira discográfica de RC para a religiosidade. As músicas religiosas ganham um destaque maior do que antes (quando apareciam com freqüência, mas nunca em todos os discos de uma fase). Além de haver no mínimo uma canção explicitamente religiosa por disco (no de 1996 foram duas, “O Terço” e “O Homem Bom”), isto ocorreu mesmo quando, em princípio, o disco era um projeto no qual ela não caberia. Foi assim no disco Canciones que Amo, com repertório em espanhol, no qual a única música em português é “Coração de Jesus”. Das quatro inéditas do disco de 1998, uma é a única canção de Natal de Roberto: “Meu Menino Jesus”. Em 1999, a coletânea 30 Grandes Sucessos (apresentada em dois CDs) trouxe uma música inédita: “Todas as Nossas Senhoras”, que abre os dois CDs. Também nesse ano, Roberto apresentou Mensagens, uma antologia de suas canções sobre religião.

Em todos os discos do início da fase religiosa aparecem regravações de sucessos da Jovem Guarda, alguns com alterações na letra. Na música “Custe o que Custar”, os versos originais “Será, meu Deus, enfim/ Que eu não tenho paz?” deram lugar a “Somente em Deus, enfim/ É que eu encontro a paz”. As canções eróticas somem do repertório, numa guinada sem escalas. Basta comparar algumas músicas das duas fases. EmVocê é Minha”, no último disco pop-brega, ele cantava, marotamente: “Gosto tanto do seu jeito/ De tirar as meias sem correr o fio/ Gosto de puxar seu zíper/ Te beijar os ombros, ver seu arrepio/ (...)/ Eu não resisto, amo você”. no disco inaugural da fase religiosa, as passagens mais ousadas estão emCoisa Bonita” (“Pode me lamber, que eu sou dietético./(...)/ Gosto de me encostar nesse seu decote quando te abraço/ De ter onde pegar nessa maciez enquanto te amasso”) e emHoje é Domingo” (“Quero beijos e abraços demorados/ Esperei por isso de segunda a sábado”). Pode-se supor que o artista passara a julgar incompatível veicular lado a lado canções religiosas com músicas eróticas, como fizera nas fases romântica e pop-brega.

Voltando a gravar preferencialmente no Brasil (a partir de meados da década em seu estúdio particular, Amigo), Roberto em alguns momentos substituiu a orquestra que geralmente o acompanha por teclados eletrônicos programados por computador.

Integram esta fase os discos anuais de 1993 a 1996 (novamente, todos com o nome de Roberto Carlos), Canciones que Amo (1997, em espanhol) e Roberto Carlos (1998). Algumas coletâneas foram lançadas neste período: Mensagens (1999, reunindo músicas religiosas de 1970 a 1997) e 30 Grandes Sucessos (1999, com gravações de 1965 a 1998).

De 1996 em diante, o especial de fim de ano na Globo passou a ser precedido pelo lançamento do disco no programa Domingão do Faustão.

Novo recorde foi anunciado em 1994: Roberto Carlos havia se tornado o primeiro artista latino-americano a vender mais discos que The Beatles. E as homenagens não param: em 1993, Maria Bethânia gravou um disco (As Canções que Você Fez pra Mim) com músicas de Roberto e Erasmo; no ano seguinte, os roqueiros surgidos nos anos 80 e 90 fizeram releituras do repertório da Jovem Guarda, no disco Tributo ao Rei.

Após se separar de Miriam Rios em 1989, Roberto começou a namorar Maria Rita Simões em 1991. No ano seguinte, ela passa a integrar um grupo de orações denominado O Terço. A união religiosa do casal, ocorrida em 15 de abril de 1996, que Roberto pretendia manter em sigilo, não tardou a ser descoberta e amplamente noticiada pela imprensa. Em 1998, descobriu-se que Maria Rita tinha um tipo raro de câncer. Sua cura chegou a ser anunciada pelos médicos no início de 1999, mas a doença voltou e acabou por vitimá-la no final daquele ano, fazendo Roberto cancelar toda sua agenda, inclusive o especial da Globo. Muito abatido, o cantor voltou a se apresentar em público no Recife, em novembro de 2000.

7 - Segunda fase romântica (a partir de 2000)

A partir da viuvez, Roberto retoma as principais características do seu trabalho dos anos 70 e começo dos anos 80: as letras altamente poéticas, com melodias requintadas e recorrência a ritmos pouco usuais nos dias de hoje (como o fox, utilizado em “Pra Sempre”). Estas características voltam a figurar em sua obra fonográfica, convivendo com aspectos das fases religiosa (como alterações em letras de músicas regravadas) e mesmo da pop-brega (por exemplo, o rapSeres Humanos”, no disco de 2002).

Em 2000, entra no ar o site oficial do Rei - http://robertocarlos.globo.com/

em relação à televisão, neste período Roberto, ao mesmo tempo em que consolida a ligação de sua imagem com a TV Globo (chegou a fazer participações especiais nas novelas Celebridade, em 2003, e América, de 2005), teve impedida pela própria Globo a realização de um projeto seu em outra emissora. A MTV tentou realizar um programa da série Acústico com o ídolo; o especial foi gravado, mas não chegou a ser exibido. A Globo deu início a uma batalha jurídica com a MTV, conseguindo por fim esvaziar o interesse desta em levar a questão adiante ao transformar o especial de 2001 de RC num clone do que seria o programa da concorrente, inclusive com os mesmos convidados especiais – Samuel Rosa, do Skank, e Toni Bellotto, dos Titãs...

Integram esta fase os discos Amor sem Limite (2000), Acústico MTV (2001), Roberto Carlos (2002), Pra Sempre (2003), Pra Sempre ao Vivo no Pacaembu (2004)  e Roberto Carlos (2005), além da coletânea 30 Grandes Canciones (2000, com versões em espanhol registradas de 1973 a 1997). Também os fãs puderam contar com o Rei em nova mídia, o DVD - em 2002, com o lançamento do tal programa Acústico MTV que não pôde ser levado ao ar; em 2004, com o show realizado no Pacaembu que também saiu em CD.


A Voz

Em todas estas fases, a marca que permaneceu constante foi a voz de Roberto. Em nenhum momento ele sentiu-se inclinado a interpretações grandiloqüentes, como ocorreu com alguns de seus colegas de Jovem Guarda após o final do movimento. Soube também quando suspender os gritos (geralmente “Iau!”) que figuravam em algumas gravações do começo da carreira, principalmente nas músicas que descreviam histórias engraçadas comoNoite de Terror”.

Os que insistem em classificar a voz de Roberto comopequena” deveriam ouvir gravações como “A Montanha”, que ele inicia em e conclui em mi (subindo cinco semitons) ou “O Velho Homem do Mar”, em que ele sobe três tons (de fá menor a si bemol menor). Ou ainda suas notas prolongadas emHistória de um Homem Mau”, “Se o Amor se Vai” e “Índia”.

Além de sua indiscutível segurança como intérprete (ele é considerado pela crítica especializada como o único cantor brasileiro que não desafina em shows), outra característica sua chama a atenção: Roberto canta sempre junto ao compassoou seja, jamais se adianta nem se atrasa em relação ao acompanhamento. Uma qualidade muito rara.