sexta-feira, 8 de junho de 2018

Novos editais: Cinema


Editais abertos nesta semana dos quais cineastas brasileiros podem participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.



  • Programa Banco do Brasil de Patrocínios:  Edital 2019-2020 - O Banco do Brasil recebe propostas de projetos a serem patrocinados para compor a programação das unidades do Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), nos anos 2019 e 2020. Na área do Cinema, podem ser inscritos projetos de festival, mostra, evento multidisciplinar e evento para área externa do CCBB de Brasília. Também podem ser apresentadas, na rubrica Ideias, propostas de debate, palestra, seminário e workshop/oficina. Pessoas físicas podem se inscrever, desde que indiquem uma pessoa jurídica com CNPJ e poderes para representá-lo e executar o projeto. Inscrições até 8.6 pela internet. Os valores do patrocínio serão negociados diretamente com os projetos selecionados. Informações: http://www.bb.com.br/pbb/pagina-inicial/sobre-nos/patrocinios#/




terça-feira, 5 de junho de 2018

Opinião Cinema: Verdade ou Desafio



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


A Blumhouse Productions já produziu vários sucessos - podemos citar Corra! (2017), Whiplash (2014) e os quatro filmes da franquia Atividade Paranormal (2009, 2010, 2011, 2012). Ela é conhecida, justamente pela habilidade de transformar filmes com pequenos orçamento em sucessos com grandes lucros. E com Verdade ou Desafio não tem sido diferente: com um orçamento de 3,5 milhões de dólares, o longa já atingiu a receita de 72 milhões. Mas qual será o motivo? Será a qualidade do filme ou o peso do nome da marca?



Antes de chegarmos lá, precisamos entender a trama. Nela, somos apresentados a um grupo de adolescentes, cruzando a fronteira dos Estados Unidos e indo para o México em busca de diversão, festas e bebidas. Porém, eles conhecem um “estranho” que os convida para jogar verdade ou desafio”; o que não sabem é que esse jogo nada mais é que amaldiçoado (caso se recusem a jogar ou contem uma mentira, eles são mortos). Eles correm contra o tempo, tentando entender as motivações e soluções para se livrar dessa maldição.

Com um elenco principal com Lucy Hale (Pretty Little Liars), Violett Beane (The Flash) e Tyler Posey (Teen Wolf), o diretor Jeff Wadlow utiliza uma linguagem atual, com formato de Stories do Instagram no início e dando cara ao “vilão” – sempre que o demônio desafia, os personagens demonstram uma expressão sinistra, meio Coringa, meio V de Vingança). Mas Wadlow falha com o ritmo lento e cansativo da trama, com a inserção de sustos desnecessários, com a falta de clímax e com as mortes dos personagens - elas se tornam tão comuns que nem sentimos o “luto”, nem os personagens sentem mais, não tem repercussão nenhuma.

O roteiro  - escrito por Wadlow em parceria com Chris Roach, Michael Reiz e William Jacobs - deixa pontos soltos. Exemplos não faltam: por que o demônio se interessa tanto em questões inúteis e infantis? Quem traiu quem, quem mentiu para quem... isso soa até engraçado, sabe? Pois não faz sentido! Não tem mistério, pavor, tudo soa meio fútil. As conversas são bestas e o trio protagonista, apesar de talentoso, não tem carisma e nem química em cena.

Mesmo com tudo isso, o longa levanta questões importantes no desfecho, criticando a sociedade por seu uso da internet, e como ela pode tanto nos beneficiar quanto prejudicar. A importância de pensarmos em como podemos utilizar melhor as redes, de forma a não nos tornarmos tão vulneráveis e influenciáveis. São sim questões importantes e que precisam de atenção; é uma pena que o filme não as soube aproveitar tão bem assim.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Novos editais: Fotografia

Editais abertos nesta semana dos quais fotógrafos brasileiros possam participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.









  • ALDEIA SESC DAS ARTES 2018 - O SESC de Sergipe seleciona propostas artísticas para apresentação em Aracaju e no interior do estado. Na área de Artes Visuais, serão aceitas propostas de oficinas de até 20h. Inscrições até 30.5, presenciais em Aracaju ou pelo Correio. Cachês: R$ 1.000, mais passagens, hospedagem e alimentação para oficineiros que não residam em Sergipe. Informações: http://novosite.sesc-se.com.br/noticias/regulamento-de-participacao-aldeia-sesc-de-artes-2018

  • SELEÇÃO DE PROFISSIONAIS PARA COMPOSIÇÃO DAS COMISSÕES JULGADORAS DOS EDITAIS FUNCULTURA DE 2018 - A Secult do Espírito Santo recebe inscrições de profissionais das Artes Visuais para julgarem os projetos a serem inscritos nos editais Funcultura deste ano. Inscrições até 5.6 pela internet. Remuneração: o edital não detalha o pagamento que os julgadores receberão por projeto analisado, apenas informa o valor total orçado para remunerar os julgadores (R$ 713.160). Informações: https://secult.es.gov.br/Not%C3%ADcia/secult-lanca-edital-de-selecao-de-profissionais-para-comissao-julgadora-dos-editais-2018

  • Scatta il bosco PEFC - Podem ser inscritas fotos documentem o trabalho florestal, a vida das comunidades rurais ou as tradições locais. Inscrições até 5.6 pela internet. Premiação: o primeiro colocado recebe um final de semana para duas pessoas em Borgo Val di Taro (Itália). As cinco melhores fotos concorrem ao Prêmio de fotógrafo do ano de 2018 do PEFC Internacional, cujo vencedor irá receber 3.000 francos suíços (R$ 11.286). Informações (em italiano): https://www.pefc.photo/it-it


  • Programa Banco do Brasil de Patrocínios:  Edital 2019-2020 - O Banco do Brasil recebe propostas de projetos a serem patrocinados para compor a programação das unidades do Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), nos anos 2019 e 2020. Na área de Exposições, podem ser inscritos projetos coletivos, individuais e evento multidisciplinar. Também podem ser apresentadas, na rubrica Ideias, propostas de debate, palestra, seminário e workshop/oficina. Pessoas físicas podem se inscrever, desde que indiquem uma pessoa jurídica com CNPJ e poderes para representá-lo e executar o projeto. Inscrições até 8.6 pela internet. Os valores do patrocínio serão negociados diretamente com os projetos selecionados. Informações: http://www.bb.com.br/pbb/pagina-inicial/sobre-nos/patrocinios#




  • MEMORIES - Seleção de fotos para exposição em Roma (Itália) em outubro. As obras reunidas serão intérpretes de uma reflexão que investigará o papel da fotografia contemporânea e da arte digital visual no trabalho de construção da memória coletiva e individual. Inscrições até 15.6 pela internet. Informações (em inglês): https://www.loosenart.com/pages/cal


  • SELEÇÃO DE EXPOSIÇÕES DE ARTES VISUAIS PARA A GALERIA DE ARTES "ELSON RENATO DOS SANTOS" - Artistas acima de 18 anos podem propor exposições para a galeria situada em Navegantes (SC). O mesmo edital irá selecionar um curador para as 9 exposições selecionadas, que irá receber R$ 2.700. Inscrições até 15.6 presenciais em Navegantes (SC). Premiação: R$ 2.200. Informações: http://navegantescultural.blogspot.com.br/p/blog-page.html


  • (BA) Edital Mobilidade Artística e Cultural 2018 - Pessoas físicas com mais de 18 anos e jurídicas do estado da Bahia podem solicitar auxílio para a realização de projetos de Intercâmbio e Difusão, Residência Artística e Cultural e Formação Artística e Cultural. Inscrições até 21.6 pela internet. Premiação: até R$ 50.000 para projetos de Intercâmbio e Difusão e até R$ 25.000 para projetos de Residência Artística e Cultural e Formação Artística e Cultural, mais adicional para custeio de viagem (R$ 2.000 a R$ 6.000) e diárias (a partir de R$ 50/dia). 





  • BOLSA DE FOTOGRAFIA ZUM/ IMS 2018 - Seleção de dois projetos de criação fotográfica inéditos. Inscrições até 29.6 pela internet E pelo Correio (são duas etapas). Premiação: R$ 65.000. Edital: https://revistazum.com.br/edital-bolsa-zum-ims-2018/

  • DIRECT LOOK  - Fotógrafos podem apresentar séries de imagens feitas a partir de 2014, com os temas "O Problema", "O Conflito" e "O Compromisso". As melhores serão expostas em Moscou (Rússia) em outubro. Inscrições até 1.7 pela internet. Premiação: 30.000 rublos (R$ 1.794). Informações (em inglês): http://directlook.fotodoc.center/en/about/


  • Racconti tra le nuvole - Fotógrafos com mais de 14 anos podem inscrever imagens originais e inéditas em que apareçam aeronaves do HAG (Historical Aircraft Group). Inscrições até 30.9 pela internet. Informações (em italiano): http://www.raccontitralenuvole.it/page16.htm

Novos editais de Literatura



Editais abertos nesta semana dos quais escritores brasileiros podem participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.






  • ALDEIA SESC DAS ARTES 2018 - O SESC de Sergipe seleciona propostas artísticas para apresentação em Aracaju e no interior do estado. Na área de Literatura, serão aceitas propostas de contação de histórias (mínimo 30min) e intervenções literárias (declamações, recital, leitura encenada etc.), além de lançamento de livros, categoria exclusiva para autores de Sergipe. Inscrições até 30.5, presenciais em Aracaju ou pelo Correio. Cachês: R$ 400 (contação de histórias) e R$ 500 (intervenção literária. Informações: http://novosite.sesc-se.com.br/noticias/regulamento-de-participacao-aldeia-sesc-de-artes-2018


  • SELEÇÃO DE PROFISSIONAIS PARA COMPOSIÇÃO DAS COMISSÕES JULGADORAS DOS EDITAIS FUNCULTURA DE 2018 - A Secult do Espírito Santo recebe inscrições de profissionais da Literatura e Incentivo à Leitura para julgarem os projetos a serem inscritos nos editais Funcultura deste ano. Inscrições até 5.6 pela internet. Remuneração: o edital não detalha o pagamento que os julgadores receberão por projeto analisado, apenas informa o valor total orçado para remunerar os julgadores (R$ 713.160). Informações: https://secult.es.gov.br/Not%C3%ADcia/secult-lanca-edital-de-selecao-de-profissionais-para-comissao-julgadora-dos-editais-2018




  • PRÊMIO GOVERNO DE MINAS GERAIS DE LITERATURA -  Escritores a partir de 18 anos, residentes no Brasil, podem inscrever livros inéditos de Poesia ou Conto (categoria Ficção). Autores naturais de Minas Gerais, ou residentes há no mínimo 5 anos no estado, e que tenham idade entre 18 e 32 anos podem se inscrever na categoria Jovem Escritor Mineiro. Inscrições até 1.7, presenciais em Belo Horizonte, ou pelo Correio. Premiação: R$ 25.000 (categorias Poesia e Ficção), R$ 42.000 (categoria Jovem Escritor Mineiro). Informações: http://www.cultura.mg.gov.br/component/search/?all=literatura+2018&exact=&any=&none=&created=&modified=&area=documents

  • (SP) INCENTIVO À CRIAÇÃO E PUBLICAÇÃO LITERÁRIA - PROSA - Autores residentes no estado de São Paulo podem propor a publicação de livros de contos, romance e novela. Metade dos selecionados deverá ser de não-residentes na capital. Inscrições até 4.7 pela internet. Premiação: R$ 25.000. Edital: http://www.proac.sp.gov.br/wp-content/uploads/33_18_Prosa.pdf

  • INCENTIVO À CRIAÇÃO E PUBLICAÇÃO LITERÁRIA - POESIA - Autores residentes no estado de São Paulo podem propor a publicação de livros de poesia. Metade dos selecionados deverá ser de não-residentes na capital. Inscrições até 4.7 pela internet. Premiação: R$ 25.000. Edital: http://www.proac.sp.gov.br/wp-content/uploads/34_18_Poesia.pdf



  • Racconti tra le nuvole - Escritores com mais de 14 anos podem inscrever contos originais e inéditos sobre tema aeronáutico. Inscrições até 30.9 pela internet. Informações (em italiano): http://www.raccontitralenuvole.it/page6.html

Opinião Cinema: Os Vingadores: Guerra Infinita

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Quem acompanha minhas críticas aqui no blog, sabe que as minhas maiores reclamações sobre os longas da Marvel são relacionadas aos vilões rasos, que só servem para alavancar os heróis. Mas, meu irmão, isso está mudando! Primeiro com Killmonger de Pantera Negra, e agora em Os Vingadores: Guerra Infinita (calma! Eu sei que Loki foi extremamente importante também). Nesse filmezinho lindo nós somos puxados pelo vilão, sentimos a dor dele e até entendemos as suas escolhas. Aliás, esse é o maior diferencial do filme e é - também - o responsável por ele ter uma das maiores bilheterias da história (foi o primeiro filme a arrecadar 1 bilhão de dólares em apenas 11 dias!).



É difícil fazer um resumo para vocês, tudo acontece muito rápido! O filme já começa com a cidade de Thor (Chris Hemsworth) sendo dizimada por Thanos (Josh Brolin); Loki (Tom Hiddleston) e Hulk (Mark Ruffalo) tentam ajudar mas acabam falhando. Isso faz com que o alter ego do Hulk, Bruce Banner, reúna os Vingadores - ou ao menos tentar reunir. A verdade é que há mortes, há dor e há destruição; o longa já tem um início sombrio, ele é todo subdividido em mundos, cada Vingador na sua própria missão em que o único objetivo é impedir Thanos de conseguir as jóias do infinito.

Não sei vocês, mas eu fiquei o tempo todo me perguntando: como seria possível reunir tantos heróis em uma única produção? Será que não ficaria confuso? A verdade é que não ficou! Os irmãos Joe e Anthony Russo conseguiram alinhar mundos distintos, sem deixar que o ritmo fosse prejudicado. Os Guardiões da Galáxia encaixam como uma luva no mundo de Thor, enquanto o time “terrestre” é bem representado por Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Homem-Aranha (Tom Holland) e Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch); e o universo Wakanda, cara!... Chega a arrepiar. As cenas de ação, apesar de ficarem escuras, são lindas e não posso deixar de falar dos papéis femininos – a união feminina me fez pular de emoção.

A direção é incrível, a sonoplastia e trilha sonora idem, porém o que chama atenção mesmo é o roteiro de Stephen McFeely e Christopher Markus. O que falar de Thanos? Como posso explicar, para vocês, que na metade do filme eu já queria dar um abraço nele? Ele é carismático, tem um peso emocional muito forte - principalmente por causa da relação com a Gamora (Zoe Saldana) - essa humanização é que é o grande triunfo da Marvel. Thanos não é um vilão que quer destruir a Humanidade por prazer, ele é utópico, do jeito dele, ele acredita que aquilo é o melhor para todos. Nós entramos no mundo dele, até entendemos suas razões. Esse é o grande diferencial do longa, finalmente temos um antagonista completo, alguém que tenha uma história para nos contar. Para mim, esse é o filme que mais tem carga emocional da Marvel, é intenso do começo ao fim. Os riscos são evidentes, nós não somos enrolados, ele parte logo para a ação, pois aquele evento tem urgência.



É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, porém, ainda assim queremos mais, mais e mais. A transformação de Thor é incrível, o "trio terrestre" tem uma ótima sincronia; uma das peças chaves é a relação entre a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e o Visão (Paul Bettany). O lado ruim é que com tanta informação Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Pantera Negra (Chadwick Boseman) foram os que ficaram mais apagados.

Sei que num filme como este há muito mais a destacar, então fiquem à vontade para ampliar esta lista nos comentários!







terça-feira, 22 de maio de 2018

Comunicação e Democracia

Já não lembro quem me sugeriu a leitura de O Papel do Jornal, de Alberto Dines (1932-2018), que lembro de ter lido aos 15 anos, em 1986. Nesse ano, a Summus Editorial relançou, atualizada, a obra que Dines publicara em 1974. Sem dúvida esta obra pensada a partir da crise do petróleo de 1973, e seus reflexos na disponibilidade de papel no mundo (num tempo pré-digital), e incorporando uma reflexão sobre a trajetória do Jornalismo no Brasil, com destaque ao período a partir de 1962 em que Dines comandou a renovação gráfica e editorial do Jornal do Brasil, foi uma das principais influências que me levaram a prestar vestibular para Jornalismo em 1990. Mais tarde, me habituei a acompanhar seu programa Observatório da Imprensa, transmitido desde 1998 pela TVE-RJ e que eu via na retransmissão da TVE-RS.

Meu único texto mencionando Dines é o que publico a seguir, falando de um congresso de Jornalismo do qual ele participou, em Porto Alegre, há 14 anos. Além de ter acompanhado sua palestra num lotado auditório da PUC-RS, lembro de tê-lo visto pouco depois concedendo uma entrevista no corredor da faculdade. Fiquei ali, a poucos metros, ouvindo respeitosamente o mestre. O texto saiu originalmente no site Brasileirinho nos primeiros dias de agosto de 2004 e - pode-se dizer - contribuiu, de algum modo, para que eu lançasse no ano seguinte o site Jornalismo Cultural, hoje este blog, já que a PUC-RS começara a questionar meus pedidos de credenciamento para a cobertura de eventos como este, já que o Brasileirinho era um site dedicado à cobertura de samba & choro - como se escrever sobre samba impedisse um jornalista de ter interesse em se manter atualizado sobre os principais debates envolvendo Comunicação e Democracia (Aliás, foi nesse congresso que o ex-ministro da Cultura Paulo Sérgio Rouanet qualificou como "um absurdo" o empenho de seu sucessor Gilberto Gil em registrar o Samba como patrimônio imaterial do Brasil, inspirado pela obra de Bernardo Alves. O samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi registrado como patrimônio imaterial do Brasil em 5 de outubro de 2004 e declarado pela Unesco como "obra-prima do patrimônio oral e imaterial da Humanidade" em 26 de novembro de 2005). 


A foto que ilustra o post é de autoria de Ana Paula Oliveira Migliari (TV Brasil/EBC) e mostra Dines em dezembro de 2012. 


***

COMUNICAÇÃO E DEMOCRACIA
(24º CONGRESSO DA IAMCR)


"A sociedade deve educar a comunicação, 
para que a comunicação 
possa informar e educar a sociedade".
(Brazão Mazula, reitor da Universidade
Eduardo Mondlane, Moçambique)


A grande mensagem deixada pelo 24º Congresso da IAMCR (International Association for Media and Communication Research), realizado entre 25 e 30 de julho de 2004 na PUCRS (Porto Alegre) é: comunicação e democracia devem andar juntas no mundo atual. Se não estão ainda, ao menos é uma meta que todos devemos lutar por atingir. Uma democracia mundial, como a definiu o cientista político Paulo Sérgio Rouanet: complementar às similares nacionais, incluindo os Estados, cidadãos e instituições civis. Naturalmente, ele reconhece que uma democracia mundial pode ser um pouco mais difícil na prática do que a democracia ateniense do século 4 a. C., mas é possível reproduzir seu caráter global em âmbito local, onde a comunicação face a face é mais facilmente exercida. O papel da ONU é fundamental para se atingir esse objetivo. Admite:

- Parece utópico falar nisso nesse momento. É uma utopia, sim. Uma utopia realista, concreta, com possibilidade de realizar-se. Nesse momento, ela é inalcançável - e irrenunciável.

A simples existência da democracia, contudo, não é suficiente. O jornalista Alberto Dines, fundador do Observatório da Imprensa, lembrou a queixa do ex-ministro da Cultura da Espanha, o escritor Jorge Semprún, formulada quando integrava o governo de Felipe González, na década de 1990: "A liberdade de expressão é um dos problemas não resolvidos pela democracia". Dines observou que o escritor não descria do sistema em si, apenas chamava a atenção para o fato de que a democracia é mais um processo do que uma situação definida. "A democracia tem nuances, ao contrário do totalitarismo, que é rígido, monolítico". Por isso, acredita que é mais correto falar em "democratização" do que em "democracia".

Na visão de Dines, para chegarmos no Brasil à situação sonhada por Semprún seria necessário se atingir algumas metas. Entre elas destaco: evitar a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos grupos; proibir que ocupantes de mandatos parlamentares sejam donos de meios de comunicação; retirar o Estado do processo comunicativo, impedindo-o de ser anunciante ou proprietário de rádio, jornal e TV; só permitir interferência governamental no processo comunicativo através de emenda à Constituição Federal; estimular a auto-regulamentação da imprensa; estimular a criação de entidades do terceiro setor que debatam a atuação da mídia; estimular todos os meios de comunicação a terem, cada um, seu ombudsman; tornar públicas as dívidas fiscais das empresas de comunicação, para permitir o controle por parte da sociedade. "A mídia deve resistir à tentação de se converter em poder político", arrematou.

A concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos não é um privilégio brasileiro. O espanhol Enrique Bustamante Ramírez (Universidade Complutense de Madrid) observou que, no México, a Televisa detém na prática um monopólio da informação, fortemente aliada ao poder político; já na Espanha, boa parte das empresas do ramo se encontram nas mãos de antigas estatais privatizadas, adquiridas por grupos que no passado apoiaram a ditadura de Francisco Franco; enquanto que, na Itália, tem muita força o grupo de três emissoras de TV do primeiro-ministro Silvio Berlusconi - embora, esclareça Bustamante, apenas essas TVs não seriam suficientes para sustentá-lo politicamente. O professor Joshua Meyrowitz (Universidade de New Hampshire, EUA) informou que a grande mídia americana é dominada por 6 empresas, mas se registra um grande crescimento da mídia alternativa.

Experiências de comunicação democrática

"Se não sabemos como fazer o que pretendemos, 
nossa intenção tem pouca serventia."
(Luis Jesús Galindo Cáceres, antropólogo mexicano)

Bustamante comentou que o potencial democratizante da informação na internet foi comprovado por uma pesquisa realizada na Espanha. A web contrapõe-se ao domínio das grandes redes e tem enorme potencial de intercâmbio horizontal. O professor de Filosofia Renato Janine Ribeiro (Universidade de São Paulo) acredita que "a internet é interessante para criar novos laços sociais. Esse tipo de vínculo sempre é forte". Fernando Kuhn (Universidade Metodista de São Paulo) revelou apenas 35,6% dos usuários da internet falam inglês: "Temos cerca de 1.000 idiomas presentes na rede."

No Brasil, outras alternativas, como as emissoras comunitárias, ainda não alcançaram penetração semelhante às de outros países. As TVs comunitárias, pela lei, só podem operar dentro do sistema a cabo - logo, atingirão no máximo os 7% da população que assina o serviço (na Argentina, esse número chega a 57%). Mas a audiência real das TVs comunitárias sem dúvida não chega perto desses 12 milhões de pessoas, quase todos das classes mais abastadas da população e com um padrão de exigência estética infelizmente distante do permitido pelos escassos recursos das associações comunitárias que obtêm canais. Curiosamente, a mesma lei que criou os canais comunitários "esqueceu" de lhe destinar parte da renda com a assinatura da TV a cabo...

O modelo de rádio comercial no Brasil não favorece a circulação democrática da comunicação. Conforme estudo de Sônia Virgínia Moreira citado por Gisele Sayeg Ferreira (Universidade de São Paulo), existiam no país em 1999 três mil emissoras de rádio, das quais 1.350 (45%) pertenciam a políticos, 750 (25%) a igrejas evangélicas, 300 (10%) a igrejas católicas e apenas 600 (20%) a empresários de comunicação. Em função desse quadro, que é histórico, lutou-se por vinte anos pela legalização das rádios livres no Brasil como uma esperança de democratização dos meios. A regulamentação veio em 1998, mas a realidade ainda está longe do sonhado. Gisele vem pesquisando 22 rádios comunitárias legalizadas da região Noroeste do Estado de São Paulo, onde identifica a reprodução do modelo de transmissão unilateral das grandes redes:

- Essas rádios são vistas como uma oportunidade de investimento para pequenos empresários, que têm vínculos estreitos com as forças políticas, econômicas ou religiosas locais.

Situação semelhante foi identificada por Lúcia Lamounier Sena e Jaqueline Morelo (Centro Universitário Newton Paiva) em rádios comunitárias de Belo Horizonte. De 9 emissoras pesquisadas (nenhuma delas legalizada), apenas 2 podem ser classificadas como realmente comunitárias, tendo origem em associações de bairro ou entidades religiosas; as outras são classificadas como personalistas - ou seja, pertencentes a indivíduos que, por interesse financeiro, conhecimento técnico, vontade ou apenas curiosidade, resolvem criar suas rádios.

- Essa situação mantém a tradição brasileira em considerar os direitos individuais como uma dádiva dos detentores do poder - opina Lúcia.

No meio impresso, uma interessante experiência de jornalismo comunitário vem sendo realizada por Rosana Cabral Zucolo e Ana Cristina Spannenberg, da Faculdade Social da Bahia, junto ao Corte Grande, uma área de ocupação no bairro de Ondina, Salvador. A Faculdade procurou em 2002 três comunidades do Corte - Alto de Ondina, Baixa da Alegria e Pedra da Sereia -, apresentando a idéia de publicar jornais-laboratório feitos pelos alunos de Jornalismo nos quais os moradores pudessem se expressar. Os assuntos a serem abordados nos jornais são sugeridos pelos moradores e debatidos com toda a comunidade, de forma a realmente refletir sua visão de mundo. Inicialmente, foram criados dois veículos, Comunidade Alegria (para a Baixa da Alegria) e Visão do Alto (Alto de Ondina); como se constatou que as pautas e as reivindicações dos dois grupos eram semelhantes, os próprios moradores optaram pela unificação da proposta no Visão do Alto. Em sua edição nº 2 (dezembro de 2003), na matéria Pesquisa revela a comunidade - Quem é e o que pensa o morador do Alto de Ondina? Pesquisa feita pelos estudantes revela o perfil da população que vive no bairro, de Ana Lucia Arouca e Ingrid Carmo, a rodomoça Fabiana Santos Batista elogiava a forma de elaboração da pauta:

- É muito importante sugerir os assuntos que nós queremos ler no jornal, porque somos nós que passamos pelos problemas. E quem convive aqui na comunidade sabe mais a fundo que tipos de problemas são esses.

Infelizmente, a produção do veículo vem enfrentando problemas. Autoridades e representantes de empresas concessionárias de serviços públicos, muitas vezes, deixam de atender os alunos-repórteres por não serem da grande imprensa. Em função disso, o lúcido editorial da edição nº 3 do Visão, intitulado Quem Impede que a Informação Chegue Até Você?, encerra com essa reflexão:

"Esse não é um problema para ser pensado, nem uma cobrança para ser feita apenas por quem é estudante de Comunicação: será que você está sabendo tudo o que é importante como cidadão? Se não está, quem não permite que a informação chegue até você?"


Ações espetaculares: o caso xavante

Outra alternativa aos movimentos sociais que não possuem seus próprios meios de comunicação é buscar chamar a atenção da sociedade por meio de ações espetaculares. Dines alertou para a forma mais terrível do uso dessa prática: o terrorismo, que hoje é totalmente voltado para a repercussão que vai obter nos meios de comunicação - do qual o exemplo mais acabado são os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. "No mundo livre, não há como controlar isso. Só podemos tentar um controle através do debate. Mais violência ou censura não adiantam".

Mas felizmente há entidades que se utilizam de forma pacífica das ações espetaculares, como o Greenpeace, apontou Rennan Lanna Martins Mafra (Universidade Federal de Minas Gerais). Mafra assinalou que as ações devem ser acompanhadas da exposição de argumentos que possam gerar um debate e levar a uma intervenção racional na realidade. Sem argumentos sólidos, as ações apenas seriam contempladas - e esquecidas.

Ações espetaculares também foram utilizadas em 1991 na aldeia xavante de Pimentel Barbosa, para atrair a atenção da antropóloga Laura Graham, relatou Jair Moreira Rodrigues Filho. O cacique Warodi, junto com os anciões da aldeia, planejou uma série de performances que sabia que interessariam Laura. Ela realmente fotografou e gravou em áudio e vídeo os pronunciamentos de Warodi, que sempre os concluía pedindo à antropóloga que levasse suas palavras ao outro lado do oceano. Laura acabou por discutir com a comunidade a importância de criar um arquivo audiovisual para as futuras gerações e - detalhe importantíssimo - incentivou que os próprios xavante operassem a câmera.

Desta forma, a aldeia transcendia a intenção original do projeto Vídeo nas Aldeias, ideado em 1987 pelo CTI (Centro de Trabalho Indigenista), uma ONG. Até ali, o registro da vida indígena era sempre realizado por jornalistas, antropólogos e cineastas não-índios.

Uma interessante forma de uso do vídeo foi sua incorporação ao warã, tradicional reunião dos homens adultos ao amanhecer e ao entardecer que busca soluções de consenso para problemas da aldeia. Quando acontecia de um líder xavante ser chamado a reuniões fora da aldeia, ele se sentia melindrado em decidir algo que não teria passado pelos outros. A gravação da reunião, posteriormente exibida no warã, permitia que todos tivessem conhecimento dos temas debatidos. Na aldeia citada continua havendo apenas um aparelho de TV, de forma que a recepção de conteúdo audiovisual sempre ocorre coletivamente, contribuindo para perpetuar suas tradições.

O vídeo não foi a primeira experiência com tecnologias de comunicação e informação dos xavante. Eles já se utilizavam um gravador - talvez por influência de outro cacique, Mário Juruna, que ficou famoso por registrar promessas de autoridades e chegou a se eleger deputado federal pelo Rio de Janeiro em 1982. O gravador servia para registrar os cantos rituais tradicionais da aldeia, permitindo inclusive sua reprodução fora das cerimônias, e para compará-los com os cantos de aldeamentos vizinhos.

Recentemente, esta aldeia xavante destacou-se por buscar utilizar os modernos meios de comunicação para levar sua cultura ao conjunto da população brasileira, participando de CDs de Milton Nascimento e Sepultura, gravando seu próprio CD, filmando um documentário, expondo fotografias e realizando espetáculos de canto e dança. Desta forma, adaptavam aspectos de sua tradição aos formatos dos produtos culturais aos quais a sociedade está habituada, garantindo que não haveria interferências no caráter xavante da mensagem - talvez a mais ateniense das experiências comentadas neste texto.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Dona Ivone Lara, um desfile de dignidade do Samba



O pianista Leandro Braga afirma que Dona Ivone Lara é uma das maiores compositoras brasileiras. E deixa claro que não se refere apenas ao universo do samba. Braga vê junto dela apenas nomes como Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim, este com certeza o inspirador da frase que tem repetido por onde passe: "A gente (ainda) vai ter um aeroporto com o nome dela".

Braga sabe do que fala. Em 2001, gravou o CD instrumental Primeira Dama, só com melodias da grande partideira da Serrinha (menos uma faixa, justamente a título, feita por Braga em homenagem a ela). Dª Ivone inclusive participou da gravação do disco.

Dito assim, fica difícil acreditar que os dois nunca haviam se apresentado juntos. Pois é, a honra de reuni-los no palco pela primeira vez coube ao projeto Unimúsica - Piano e Voz, desenvolvido em Porto Alegre pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O espetáculo da tarde de 12 de fevereiro de 2004 foi aberto por Braga ao piano, tocando mansamente "Pra Afastar a Solidão" (Dona Ivone Lara - Délcio Carvalho). Em alguns momentos, o pianista chegou a tocar só com a mão esquerda, deixando a direita balançando. Em seguida, um sambão temperado com alguma sutileza: "Tendência", parceria de dª Ivone com Jorge Aragão.

Braga, a partir de seu trabalho com as músicas de dª Ivone, elaborou um método para explicar aos pianistas do país do samba como se toca samba no piano. Parece incrível, mas é difícil mesmo ver um samba bem tocado ao piano, geralmente o intérprete puxa para o choro. Braga atribui o fato à recusa dos pianistas em aceitarem o fato de que o piano é um instrumento de percussão - de cordas, sim, percutidas (o som que ouvimos vem de martelinhos que, acionados pelas teclas, batem nas cordas) -, provavelmente devido ao tradicional desprezo europeu pelo ritmo em detrimento da melodia e da harmonia.

Outro sambão em que Braga não deixou dúvidas a respeito da utilidade de seu método foi "Mas Quem Disse que Eu te Esqueço?" (parceria de dª Ivone com Hermínio Bello de Carvalho). Entre um e outro, momentos de calma para a platéia respirar: Braga apresentou sua homenagem a dª Ivone com "Primeira Dama" - motivo bem sincopado, harmonia explorando as possibilidades do tom menor, num andamento calminho - e na fantasia sobre "Sonho Meu" (clássico dela com Délcio Carvalho), em que ele conseguiu um efeito belíssimo na cadência em oitavas descendentes. Ao final de "Sonho Meu", enfim o momento tão aguardado: dª Ivone Lara surge majestosa no palco, fazendo um vocalise nesse samba que é um dos preferidos dela (e o que eu mais gosto do seu repertório).

Dizer que o público que lotava o Salão de Atos da UFRGS aplaudiu dª Ivone é pouco. A princípio, sim, foram aplausos. Em pouco tempo, a cada samba se sucedia uma ovação, uma apoteose, um culto à grande dama do samba, plena em sua dignidade, cantando com voz forte, clara, firme, afinadíssima, BELA!

O público ainda ficou contido sob a emoção de vê-la enquanto ela apresentou outro clássico, "Alguém me Avisou" (outra da superparceria com Délcio Carvalho). Depois, cantou junto com a dama praticamente todas as músicas: "Enredo do Meu Samba" (parceria com Jorge Aragão), simplesmente de arrepiar; "Nasci para Cantar e Sonhar" (que ela principiou cantando forte, ligando as notas, para repeti-la fraseando meio tom acima), em que ela suspendeu levemente a barra da saia para mostrar que tem muito samba no pé também, dançando ao som das palmas ritmadas da platéia; e o pot-pourri "Acreditar" (sublime) e "Sonho Meu", essa também arrepiando - ah, novamente duas músicas com Délcio.

Dª Ivone quis encerrar com o samba-enredo "Aquarela Brasileira" (Silas de Oliveira), que iniciou com um vocalise, passando a cantar com firmeza, força, beleza. O público não ousava nem respirar nessa hora, que dirá cantar junto. Mas eis que depois do verso "assisti em Pernambuco à festa do frevo e do maracatu", dª Ivone convocou a todos: "Pode cantar, minha gente!" e a partir daí o salão explodiu num coro só: "Brasília tem o seu destaque...".

Quis encerrar, eu disse, pois após esse samba, a grande dama foi aplaudida de pé por mais de três minutos. Para retribuir o carinho recebido, dª Ivone cantou seu primeiro partido-alto, composto quando tinha 12 anos: "Tiê", acompanhada por todo o auditório na voz e nas palmas ritmadas, que a animaram a sambar mais um pouco. Braga alternou os ritmos, forte no refrão e suave nas segundas-partes. Encerrado "Tiê", ambos se retiraram do palco.

O público ainda aplaudiu de pé por mais de dois minutos, pedindo a dª Ivone que voltasse. Ela, porém, não retornou. Eu compreendo. Essa atitude, partindo de um artista jovem, poderia ser vista como pedante, mas depois de 82 anos de pura magia ninguém seria capaz de pensar isso de dª Ivone Lara. A hora que ela passara conosco já nos reconfortou a alma pro ano inteiro.

Noto que, a partir da entrada de dª Ivone no show, pouco falei de Braga. É natural, pois assim correspondo à postura que ele adotou no palco: tocando maravilhosamente os sambas (inclusive dando um show à parte em "Aquarela Brasileira"), mas sempre demonstrando que considerava que o espetáculo era dela. Vinda de um compositor e um arranjador de seu quilate, essa atitude só poderia ser uma homenagem. E era.


  • Making-off do texto - Publicado no site Brasileirinho poucos dias após o show. Foi a segunda e última apresentação que vi de Dona Ivone Lara. Gravei o show num gravador digital, o que permitiu, entre outras coisas, determinar com exatidão quanto tempo o público aplaudiu nas partes finais (houve na época quem chegasse a me perguntar como eu apurara isto - risos). 

  • Já não recordo exatamente da data do show anterior, apenas lembro que foi um evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher no Auditório Araújo Vianna (Porto Alegre), quando ele já contava com a cobertura, inaugurada em 1996. Creio que terá sido em março de 2001.

  • A foto que abre a matéria foi publicada no Correio do Povo no dia do espetáculo, sendo creditada como "Divulgação/CP".

  • Dona Ivone Lara (1921-2018) foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba - a Império Serrano, que desfilou em 1965 com seu samba-enredo "Os Cinco Bailes da História do Rio", parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. Para mim, pessoalmente, é a autora do meu samba preferido desde a infância - "Sonho Meu", parceria sua com Délcio Carvalho, que conheci na gravação de 1978 com Maria Bethânia e Gal Costa.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pantera Negra, um sopro de esperança

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro




Vocês sabem o quanto eu comento aqui sobre a importância da representatividade, não é? E soa até clichê eu voltar nesse assunto ao falar de Pantera Negra, mas o que posso fazer? Pantera Negra é sinônimo de representatividade! Você pode ser adepto do discurso de que: “Já existiram outros heróis negros”. Isso é verdade! Mas com que frequência um filme de Hollywood tem um elenco majoritariamente negro? E vai além disso, esse elenco é inteligente, é poderoso, é rico, não o negro pobre estereotipado... A gente sabe como a mídia representa um negro e quando um longa vai contra tudo isso, não podemos nos calar.

Para não fugir muito da crítica, vamos focar primeiramente nas questões técnicas do filme, ok? Em Pantera Negra vemos T’challa (Chadwick Boseman) se tornando Rei de Wakanda após a morte de seu pai T’chaka (John Kani) em Capitão América: Guerra Civil. Wakanda não é um lugar qualquer, pois simboliza a união entre as raízes e a modernidade, possui também uma tecnologia altamente avançada e uma cultura extremamente rica - além do vibranium que é um dos mais resistentes e poderosos metais da Marvel. Mas nem tudo ocorre como T’challa deseja, um antigo inimigo questiona seu poder e coloca Wakanda em risco. Cabe ao rei achar um jeito de devolver a paz ao seu povo.



O elenco é lindo! Não consigo achar outra palavra para definir. Boseman é um líder nato e está, aparentemente, super se identificando com seu personagem, ele transmite muito bem todas as dúvidas, motivações, tristezas, alegrias, absolutamente todas as sensações que T’Challa está sentindo. A representação feminina também é importante aqui, o longa coloca em tela mulheres fortes, inteligentes, que assumem seu poder. Lupita Nyong’o e Danai Gurira nos mostram uma atuação “power”, principalmente nas cenas de batalha, há em cena um ar de empoderamento inspirador. Letitia Wright é a surpresa do dia, a atriz nos presenteia com uma Shuri - irmã mais nova do protagonista - divertida e carismática, sendo o cérebro, o gênio tecnológico daquele lugar.



Não é difícil ter um elenco elogiado pela crítica, não é? Qual é o maior erro do mundo Marvel? O que eu e quase todos os fãs sempre reclamam? Estrelinha para quem respondeu que eram os vilões. Eles sempre são rasos e servem apenas como um degrau para levantar a moral dos protagonistas. Só que dessa vez não. Michael B. Jordan tem uma base fundamentando, um porquê da sua raiva, do seu rancor, ele intimida com o olhar, a sua ameaça amedronta a todos, o seu passado tem um peso muito especial. Eu posso dizer facilmente e sem medo, que ele é o melhor vilão que a Marvel já criou. Com Andy Serkis isso já não funciona tão bem, mas é inegável a importância de sua participação.

A caracterização de Wakanda funciona de forma eficiente. A fotografia aí vai muito além das belíssimas paisagens, ela está no cuidado com o figurino, a movimentação dos corpos, a ambientação do lugar que mescla perfeitamente o tribal com o avanço tecnológico.  A força da trilha sonora com os tambores, a dança, a construção por completo dos costumes, línguas, de tudo é diferente do que já vimos, sabe? O que eu senti ali? Que a ideia era representar a África e não agradar a América e não tenho nem como expressar a importância disso.

Ryan Coogler possui uma direção firme, sólida que sabe o que quer entregar. A construção da ambientação, caracterização, movimentação da câmera, tudo tecnicamente e perfeitamente alinhado. Mas a sua preocupação foi tão detalhada nisso que as cenas de ação deixaram e muito a desejar, elas quebravam o ritmo de uma forma que incomodava. O roteiro também não teve nada de extraordinário: ele funciona, segue aquela linha de clichês, porém não diminui em nada a beleza do longa.

Como resumir tudo que eu vi ali em uma frase só? Para mim o filme simboliza luta, representatividade, dar exemplo aos jovens negros de que eles podem ser reis, gênios, fortes, ali a gente vê um novo “tipo de padrão”. Sem dúvida alguma, é o filme mais politizado e profundo dos Estúdios Marvel, não tem aquele tom de piadinhas que estamos acostumados a ver, e as cutucadas políticas estão presentes. E se vocês tinham dúvida do poder da representação é só dar uma olhada nos números: com a arrecadação do 3º fim de semana o filme garantiu que a bilheteria americana atingisse US$ 1 bilhão em fevereiro pela primeira vez; foi ainda a terceira produção a atingir mais rápido a marca de US$ 500 milhões nos Estados Unidos. Em um mundo tão mau, ver Pantera Negra nos dá um ânimo, um sopro de esperança, não só no mundo cinematográfico, como na vida real também.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Opinião Cinema: O Touro Ferdinando

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Em 1936, o escritor americano Munro Leaf lançou o livro O Touro Ferdinando (no original, "The Story of Ferdinand"). Sua obra era considerada algo progressista e foi proibida em vários países, como a Espanha na época do ditador Francisco Franco. Em 1938, Walt Disney produziu um curta-metragem com a adaptação do livro, com direção de Dick Richard, que ganhou o Oscar no ano seguinte. Oitenta anos depois, o maior nome da animação brasileira, Carlos Saldanha, volta a adaptar esse clássico da literatura infantil para o cinema, com o estúdio Blue Sky, com o qual ele já produziu animações famosas como a trilogia A Era do Gelo e Rio (leia aqui a crítica sobre Rio 2). E é sobre esta nova adaptação que vamos falar aqui.

O longa começa nos apresentando um Ferdinando pequeno. Um bezerrinho crescendo em um rancho na Espanha, onde touros são criados para lutar nas touradas e aqueles que não são fortes o bastante são vendidos para um abatedouro. No meio disso tudo, vemos que Ferdinando é incomum, ele é contra violência, ama flores. Diferente dos outros, ele não sonha em lutar nas touradas, quer um futuro em paz. Pequeno, ele vê seu pai sair para uma tourada e nunca mais voltar, daí acaba fugindo e encontrando Nina, que mora com sua família em uma fazenda cheia de flores e muito amor, do jeito que ele gosta. Ele é criado ali, cresce e se transforma em um touro grande (beeeem grande) e extremamente dócil. Tudo parece perfeito, até que em um dia, por um equívoco de aparências, a cidade pensa que Ferdinando é uma fera e o manda, adivinhem para onde? Isso mesmo, aquele rancho da sua infância. Onde, junto com o protagonista, reencontramos seus amigos de infância e conhecemos novos animais, com destaque para a cabra Lupe e os ouriços Um, Dois e Quatro (jamais pergunte sobre o Três).


O roteiro de Brad Coperland infelizmente é infantil até demais, a trama principal demora a se desenvolver, o ritmo é bem lento e tudo só é desenvolvido de fato quase no final, o que torna intermináveis as quase 2 horas de duração. A qualidade técnica e narrativa é questionável, ainda bem que visualmente o filme é lindo e os coadjuvantes são hilários.

Aliás, a peça chave dessa adaptação são os coadjuvantes. Cada um com uma personalidade, um jeito diferente, há aqueles que são mais fracos, outros fortes, outros “loucos”, cada animal de certa forma estava quebrando o paradigma que já nasceu com eles, como o cachorro de Nina que é o contrário dos cães dóceis e fofos que queremos. Podemos tirar várias lições deste filme, começando pela tourada que é uma prática que persiste em certos países, depois jogando a ideia dos abatedouros, mostrando que o touro só tem duas opções: ou ir para a tourada ou ir para o abatedouro. E quão distante isso é da nossa realidade?


Porém, o que mais me chamou atenção é a mensagem de aceitação. Ferdinando sabe desde pequeno quem ele é, não importa o que digam, não importa se acham que touros são obrigados a ser durões, Ferdinando não quer ser assim, do começo ao fim ele nos ensina que devemos persistir no que sentimos, que precisamos lutar pela pessoa que somos e aceitar todos, mesmo os que parecem ser mais “esquisitos”. Em um mundo que as pessoas lutam diariamente por sua voz e um espaço, é extremamente importante Saldanha colocar em questão a diferença, ainda mais em uma animação infantil. Ferdinando é cativante, sua força, sua bondade nos mostram que ser diferente é extremamente normal.




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Livro Macapá: Das Declarações de Amor que eu não fiz



A escritora e jornalista Mary Paes lança seu primeiro livro solo neste sábado. O evento terá música, exposição e performances inspiradas nos poemas do livro, com a participação de artistas amigos da autora, além de algumas surpresas.

Sobre o livro, o professor de Literatura e Língua Portuguesa Ezequias Corrêa escreveu:

O novo livro de Mary Paes, Das declarações de amor que eu não fiz, é uma experiência criativa que estabelece outra perspectiva do eu-poético para com suas frustrações, por assim dizer. Engana-se quem pensa que o livro trata de uma lamúria sobre amores que não vingaram, na verdade, o que temos aqui é o extremo oposto disso. Mary Paes promove, através de seus versos, um retorno, uma rememoração ou mesmo uma reinvenção da “vida inteira que podia ter sido e não foi”, a escritora usa sua escrita para reviver o que não foi vivido ou dar um novo fim a uma história cujo final não lhe apraz. Ao proceder desse modo ela dá continuidade a uma tradição poética que existe desde que a Literatura é Literatura. O título do livro é a um só tempo belo e instigante, pois desvela um tema não muito explorado entre os chamados poetas líricos. Neste livro de poemas Mary Paes opta por falar de amores não vividos, de desejos incontidos, de pensamentos que não se concretizaram, porém ao falar de tudo isso a poetisa sul-mato-grossense radicada no Amapá consegue, através de sua escrita fácil, dizer algo ao seu público sem carregar o peso que o próprio tema acarreta. Os poemas são curtos, de formas livres e marcados por um forte apelo erótico, marca registrada da autora que já teve alguns de seus poemas lançados em diversas coletâneas. Mary Paes faz poesia com a mesma intensidade com que ama a vida e a nós cabe apenas apreciar a boa literatura que está sendo produzida por aqui. 

  • O livro cabe na palma da mão, vai confortavelmente dentro de um bolso, não ocupa muito espaço em bolsa, sacola ou mochila - ele permite esta praticidade - é leve, é simples, mas carrega em seu bojo as impressões da autora sobre o sentimento mais inexplicável que existe: o amor. Ela nos vai fazendo breves revelações e aos poucos vai tornando visível as palavras guardadas como quem abre pequenas gavetas, as gavetas do não-dito que, na poesia, encontra o seu lugar, Mary escolheu o agora e decide que está na hora de fazer todas as declarações de amor que não disse. (Adriana Abreu


Serviço

LIVRO "Das declarações de Amor que eu não fiz "
LANÇAMENTO: 3/2/2018, 20h
LOCAL: Avenida Mendonça Júnior - 12H/Altos (próximo à praça de alimentação da Casa do Artesão) 
PREÇO DO LIVRO: R$ 25,00 
Contatos: (96) 98128-5712 \ 99179-4950 (Mary Paes) 
Classificação: 16 anos 
Produção/Realização: Tatamirô Grupo de Poesia

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Opinião Cinema: Extraordinário

Por Bianca Oliveira,
de Macapá





Eu ouvi vários comentários, a maioria dizia que eu deveria assistir Extraordinário - baseado no livro Extraordinário, de R.J. Palacio (pseudônimo da escritora norte-americana Raquel Jaramillo). No começo não conseguia entender o porquê de todo esse alvoroço em torno do filme, imaginei que seria apenas um filme apelativo, só que este não é o caso de Extraordinário. Nos 10 primeiros minutos eu já estava aos prantos, mas calma! Juro que vou ser menos emotiva e mais crítica e vou explicar tudinho sobre esse filme. Vem comigo!

No longa conhecemos um garoto de 10 anos chamado Auggie (Jacob Tremblay), que foi educado em casa por sua mãe Isabel (Julia Roberts). Um dia ela decide que está na hora de ele enfrentar o “mundo” e ir para uma escola. Acompanhamos a trajetória e adaptação de um menino como qualquer outro lutando nesse ambiente escolar, mas ele tem uma diferença: Auggie nasceu com a síndrome de Treacher-Collins, uma má formação facial congênita, e passou por 27 cirurgias que deixaram marcas na sua pele.

Dito assim, parece que estamos falando de um filme chato ou melodramático, porém a grande sacada do diretor Stephen Chbosky é justamente não ir por esse lado, e sim utilizar uma linguagem simples e delicada. Auggie é diferente? Sim. Ele sofre por sua aparência? Sim. Mas até onde isso é tão distante da gente? Não estamos falando da doença, explorando e mostrando uma “incapacidade” extremamente estereotipada; o diretor aproxima a história de seu público, ele aborda de tal forma que dá a sensação de entendermos um pouco do que ele sente. Como não rir ao ver o olhar da criança com o Chewbacca de Star Wars (aliás, essas são as melhores cenas)? Com uma analogia tão simples assim nos ligamos de uma forma fascinante com Auggie.



Mostrar o ponto de vista de quem está em torno de Auggie foi uma sacada de mestre, desde sua mãe que teve que deixar tanta coisa para ajudar seu filho, sua irmã que se sente excluída pelos pais, até seu melhor amigo e a melhor amiga de sua irmã, assim, podemos conhecer a luta de cada um, mostrando suas particularidades e angústias e o quanto são influenciados pelo menino. As subtramas não tiram o foco do personagem principal, mas acabam prejudicando o ritmo; algumas histórias são interrompidas e o desenvolvimento fica cíclico. O roteiro de Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne precisaria ser mais dinâmico, no meio do filme já estamos um pouco cansados.

Entretanto, isso não tira o brilho do elenco. Jacob Tremblay é uma das crianças mais talentosas da atualidade, mesmo que seu personagem exija bastante maquiagem e próteses, o êxito de sua atuação está no olhar, na sua expressão. O seu carisma transborda as telas, seu personagem não está ali para causar piedade em ninguém e sim inspirar e isso é evidente. Julia Roberts é a emoção, a força, a coragem, a atriz é espetacular - todos sabemos - porém nesse papel isso é assustadoramente surpreendente, suas cenas com Tremblay são sensacionais. A personagem de Izabela Vidovic parecia ser imperceptível, uma mera coadjuvante, e foi inesperado o seu crescimento em tela, Vidovic transmite muito bem a melancolia e sutileza de sua personagem; é emocionante o seu amor pelo seu irmão, isso é demonstrado nos pequenos detalhes, olhares e palavras. Diante de tantos mundos Owen Wilson é ofuscado, ele é carismático, competente, atua bem e pronto, faz bem o que se propõe mas nada assim memorável. A brasileira Sonia Braga não fica muito tempo nas telas, ainda assim domina a sua cena, entrega uma avó carinhosa e importante para seus netos.

Extraordinário demonstra que não é preciso ter vários efeitos especiais e uma megaprodução. O filme provoca sentimentos que vão de gargalhadas explosivas a lágrimas incontroláveis. Há um enorme amadurecimento no decorrer do filme, é lindo ver Auggie vencendo seus próprios desafios, encarando o preconceito, superando seus medos. Isso tem uma importância inimaginável, isso é representação, isso é gritar para que milhões de pessoas olhem para os outros, que não rotulem quem tem má formação ou qualquer síndrome como pessoas incapazes, porque eles podem conquistar o mundo!