segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fotografia: Inquietações de Ana Lira

Em texto recente ("O todo é maior que a soma das partes"), relatei como concluí, a partir de reflexões durante a realização da minha exposição As Tias do Marabaixo em Belém (março-abril/17), que uma exposição, além de ser uma reunião temporária de obras de arte é, ela própria, uma forma de arte. Nesse texto, quero falar como aprendi com a fotógrafa pernambucana Ana Lira que uma exposição pode ser muito mais que uma reunião de obras de arte (sejam quadros, fotografias, esculturas) reunidas numa galeria num período X de tempo. 

Conheci Ana anos atrás, durante a realização de um Intercom (Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação) em Belo Horizonte - se não me engano numa palestra sobre pirataria musical na internet (eram os tempos da Napster), em que ao final o palestrante, que não poupara saliva para condenar o que considerava uma prática ilegal, acabou confessando que também baixava seus MP3s...Ana também chegou a me entrevistar para o extinto site Rabisco, de Recife, sobre o interesse em que o Ministério da Cultura teve, na gestão Gilberto Gil, de me incumbir de continuar as pesquisas de Bernardo Alves sobre aspectos indígenas da origem do samba. Mais tarde, foi a Ana que repassei minhas primeiras câmeras fotográficas de filme, duas Zenit, uma delas a que comprei em 1991! (e que, segundo ela me disse pelo chat do Facebook, ainda funcionava em junho de 2015!!!). Enfim, embora não nos vejamos ou falemos com frequência, Ana é uma pessoa que admiro muito, e fiquei muito feliz ao saber que meu retorno a Belém coincidia com uma estada prolongada dela por aqui, em virtude da realização da etapa Norte da itinerância de sua exposição Não-Dito. Contemplada em edital nacional (Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015), Não-Dito ficou em cartaz de 11 de janeiro a 24 de fevereiro de 2017, no MABEU (Museu de Arte Brasil-Estados Unidos), que funciona junto ao CCBEU (Centro Cultural Brasil-Estados Unidos).

O edital garantia a exposição em si e a edição do catálogo relativa à etapa de Belém; porém Ana entendeu necessário ir além e se programou para estar na capital paraense durante todo o período da mostra. Aliás, ela chegou ainda antes, participando de atividades na Associação FotoAtiva perto do Natal do ano passado. 


Ana Lira (de amarelo) conversa
com visitantes da exposição
- 16.2.17


A permanência prolongada da artista na cidade acabou sendo fundamental para a concretização de uma série de atividades paralelas, inserindo a proposta da exposição na comunidade local de uma forma que eu nunca havia visto, nem suspeitava ser possível. Além de algumas oficinas de confecção de máscaras (uma delas aparece na foto ao lado), as principais atividades foram as do chamado "grupo de leitura", que se reunia aos sábados à tarde. Num deles, Ana e a equipe que trabalhou na exposição fizeram uma marcha que saiu da Praça Batista Campos e foi até o MABEU. Em outros sábados, o MABEU foi o ponto de partida para que visitantes da mostra fossem levados até lugares icônicos da capital paraense como o Mercado Ver-o-Peso e o espaço cultural Coisas de Negro, este no distrito de Icoaraci. Em outras ocasiões, o grupo permanecia na galeria, mas debatendo temas que iam muito além da exposição em si. Pessoalmente, não participei de muitos desses encontros, já que desde o final de janeiro voltei a estudar Espanhol, justamente no horário em que eles eram realizados. As ideias de Ana Lira que exponho ao longo do texto vieram desses encontros do MABEU, incluindo uma visitação especial para a imprensa, na véspera da vernissage, e ainda do Café Fotográfico da FotoAtiva de 20 de fevereiro, onde Ana foi a convidada. 

Não-Dito é uma exposição que amplia a proposta do projeto Voto!, que Ana iniciou em 2012 quando desenvolvia imagens para o filme coletivo Eleições: Crise de Representação, que não chegou a ser finalizado. Ana conta que andava pelas ruas do Recife, naquele ano de eleição, pensando: "Se as pessoas sempre manifestam raiva da política, mas seguem votando nos mesmos candidatos, para onde essa raiva está sendo canalizada?". Até que constatou que esta raiva é dirigida ao material de propaganda política, tanto os 'santinhos' (pequenos flyers com foto, nome e número do candidato), quanto os cartazes afixados nas paredes e muros. A partir daí, passou a fotografar materiais onde fosse evidente essa ação deliberada do eleitor em modificar o material original. Conta ela que geralmente primeiro são furados os olhos e rasgada a boca das fotos, seguindo-se depois intervenções variadas. Ao longo do processo, Ana passou a registrar também a ação do tempo sobre o material que, passadas as eleições, permanece esquecido nas paredes, com suas cores sumindo gradativamente (primeiro o vermelho, depois o azul, por fim o amarelo, ficando o cartaz preto-e-branco até que nada mais seja visível). A foto abaixo mostra uma parede onde havia cartazes eleitorais.


Foto da visita de 16.2.17


Depois de circular por cidades do Brasil e também no Porto (Portugal), Voto! teve portanto seu conceito ampliado na exposição Não-Dito, que, segundo a própria Ana, "é uma exposição-plataforma-de-pesquisa-artística criada a partir do Voto!", sendo uma "forma de reintegrar projeto e contexto, ou seja, recolocar as fotografias dos cartazes de propaganda política em diálogo com expressões do cenário que motivaram a sua produção", incluindo trechos do filme Eleições: Crise de Representação e materiais coletados para fim de pesquisa. Em Belém também foi possível ver nas paredes do MABEU diversos panfletos e manifestos distribuídos à população por movimentos sociais, não só do Recife, mas também do Pará. Isso porque, vale frisar, por política Ana entende não apenas a realização periódica de eleições, mas mesmo e até principalmente a expressão direta do próprio povo, via manifestos, marchas e outras formas de reivindicação. 

Outro aspecto que traduz a inquietação de Ana é, na maior parte da mostra, abolir o modelo 'fotografia-impressa-pendurada-na-parede'. Boa parte do espaço do MABEU estava tomada por impressões das fotos dos cartazes políticos em superfícies transparentes de acrílico, nem sempre sendo possível determinar qual seria o lado 'certo' (se é que isso faz algum sentido nesse contexto), e também possibilitando que o visitante se visse refletido na própria imagem contemplada. Em outras galerias onde a mostra foi apresentada, havia paredes de vidro, ampliando ainda mais o conceito, não só permitindo que parte da cidade fosse vista, como também o próprio espaço expositivo tinha seu aspecto modificado  ao longo do dia em função do movimento do Sol. Depois que Ana ressaltou esse aspecto da montagem, no Café da FotoAtiva, voltei ao MABEU para fazer fotos especificamente buscando apreender esse caráter único-transitório-caótico da exposição, contrastando com minha atitude na primeira visita, em que procurei fotografar enquadrando peça por peça, o que acabaria ficando redundante com o próprio catálogo da mostra. Confesso que gostei mais dos resultados dessa segunda sessão. Vou postar algumas fotos de cada dia e convido você a dizer nos comentários qual lhe pareceu melhor, combinado? :)

  • Fotos da primeira sessão - 16.2.17







  • Fotos da segunda sessão - 22.2.17




Os "santinhos" produzidos especialmente para a exposição


  • Em tempo: a fala de Ana no Café Fotográfico me ensejou outra reflexão, mas esta fica para um próximo texto. 


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Será que uma geladeira conectada é algo tão bom assim? (Ovelhas Desgarradas - 11)



Neste quinto e penúltimo texto da série Choque de realidade, deixarei de lado os temas mais densos abordados ao longo da semana, como o sistema eleitoral e a carga tributária de nosso país, para falar de algo mais de nosso dia-a-dia. No caso, de um objeto que está presente na imensa maioria de nossas casas: a geladeira.

Hoje parece que ela sempre existiu, mas sua adoção nas casas norte-americanas tem cerca de um século (data de 1913) e no Brasil não chega a 70 anos (a primeira fábrica de geladeiras no país foi criada em 1947 em Brusque, SC). Em pouco tempo, esse eletrodoméstico se mostrou indispensável à vida moderna, e talvez seja por isso que, quando alguém começa a falar da chamada Internet das Coisas, quase sempre o primeiro exemplo, apresentado como algo genialmente bom é: sua geladeira estará conectada com o supermercado, e avisará os itens que forem acabando, aí o supermercado automaticamente irá repondo, entregando direto em sua casa. Nossa, que legal, não? Hum, pensando bem, talvez não. Ou não tanto.

Só aí nessa ideia "linda" eu vejo vários problemas (e pelo visto só eu vejo, todo artigo que menciona esta futura maravilha é sempre entusiástico). Vamos a eles:
  1. Quem garante que eu vou querer novamente todos os itens que forem se esgotando? Posso ter comprado uma nova marca de margarina para experimentar, e ela não ter me agradado, então por que a compraria novamente? 

  2. Quem garante que eu vou querer novamente os itens esgotados, sempre na mesma quantidade? Posso ter recebido hóspedes durante um feriadão e eventualmente aumentado o consumo de cerveja, mas obviamente não vou precisar de (sei lá) dez engradados toda semana.

  3. E quando eu viajar? Não faz sentido algum encher a geladeira com alimentos que não irei consumir até retornar.

  4. Como seria escolhido o supermercado que me atenderia, considerando que, mesmo nos municípios de médio porte brasileiros, sempre há pelo menos duas redes que concorrem pela preferência dos consumidores? Como eu poderia ter certeza que os preços desta rede que me atenderia seriam sempre mais baratos que os da concorrência?

  5. Que garantia eu teria que os itens que me fossem entregues (no caso de gêneros hortifrutigranjeiros) seriam os melhores disponíveis no estoque? (Quando o sistema de vendas pela internet foi implantado em Porto Alegre, ainda nos anos 90, consumidores reclamavam das folhas de alface rasgadas e dos tomates murchos que recebiam)

  6. E, para piorar a situação: quem foi que disse que tudo o que vende no supermercado é guardado na geladeira? A maioria das frutas (banana, maçã, abacaxi, manga, tangerina etc) fica em travessas na mesa da cozinha. Arroz, feijão, macarrão, sal, açúcar, café, biscoitos são mantidos em sua embalagem ou então em potes ou latas (iremos conectar tudo isto?) E também o supermercado jamais foi um entreposto comercial apenas de venda de alimentos - há os itens de higiene, os de limpeza, material escolar e cada vez mais tudo o que você possa imaginar. Outro dia aqui em Belém vi no supermercado uma moça verificando o preço de... pneus (sim!). 

Ou seja, isto tudo posto, na melhor das hipóteses conectar a geladeira com o supermercado pode diminuir um pouco a necessidade de ir com frequência às compras, mas jamais as poderia eliminar. Então, o tão festejado avanço tecnológico me parece, no mínimo, meio inútil. Na pior das hipóteses, pelo grau e volume de informações sobre os hábitos de consumo de nossas famílias que estaremos entregando a uma empresa privada específica, me soa até perigoso.

  • Making-off do texto - Embora este texto quase tenha encerrado a série Choque de Realidade, foi o que lhe deu origem. O desenvolvi a partir de ideias postadas no Facebook (eventualmente posts meus mais densos se transformam em artigos, como aconteceu com este). Publicado em 23 de abril de 2016, foi meu 40º texto a sair no LinkedIn. Até hoje, foi lido 29 vezes, na maioria por pessoas de Macapá, São Paulo, Brasil e Maringá, A imagem, não creditada, é do Google Images. O tema segue atual, haja vista que hoje mesmo o colunista Guy Perelmuter escreveu sobre "A Internet das Coisas" em sua coluna no Estadão/Economia e Negócios (no link original o conteúdo é exclusivo para assinantes) - e lá está, entre os equipamentos conectáveis citado, a geladeira...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O sistema tributário brasileiro é caótico (Ovelhas Desgarradas - 10)



O título deste quarto artigo da série Choque de realidade não é de minha autoria. Eu o extraí de uma declaração da atual presidente da República, Dilma Rousseff, em entrevista à Rádio Terra, de Goiânia, em 2 de junho de 2010, pouco antes do início da campanha eleitoral ao fim da qual o povo brasileiro lhe concedeu o primeiro mandato. Disse Dilma ao radialista Sandes Junior:

- O sistema tributário brasileiro é caótico, é confuso, não é transparente e ninguém sabe o que está pagando. (reproduzido de reportagem de O Globo)

O tema estava na ordem do dia; o também pré-candidato José Serra, no dia seguinte, criticou que "quem paga mais imposto são os que ganham menos de três salários mínimos". Já o então presidente Luís Inácio Lula da Silva, em discurso no mesmo dia 2, no  encerramento do Seminário de Alto Nível da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), em Brasília, havia feito a seguinte relação entre carga tributária e potencial de investimento social do Estado: 

 - Tem muita gente que se orgulha de dizer: “No meu país, a carga tributária é de apenas 9%”; “No meu país, a carga tributária é (de) apenas 10%”. Quem tem carga tributária de 10% não tem Estado! O Estado não pode fazer absolutamente nada. Está aí, cheio de exemplos para a gente ver. É só percorrer o mundo para a gente perceber que exatamente os Estados que têm as melhores políticas sociais são os que têm a carga tributária mais elevada - o trecho é citado em reportagem de O Globo, reproduzido no site do Sindifisco-RS

De fato, há países com carga tributária superior à do Brasil e que também são conhecidos por assegurarem o bem-estar dos cidadãos (em 2012, enquanto nossa carga atingia os 34,4%, a da Dinarmarca chegava a 49%), o que vem a confirmar o dizer de Lula. Mas o que torna o caso brasileiro beeem diferente é a imensa quantidade de tributos, nas várias esferas de governo (municipal, estadual e federal): em setembro de 2015, outra matéria d'O Globo, reproduzida no site do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) dava conta de que temos em vigor 92 tributos, e ainda se discute a volta da CPMF, que seria o 93º. A já citada Dinamarca tem, entre taxas e impostos, apenas 14. Outra característica brasileira era citada nessa mesma reportagem por Fernando Zilveti, advogado tributarista e professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo: "O Brasil é o país com a maior carga tributária em impostos invisíveis pagos na ponta do consumo".

Esta para mim é a grande questão, que me levou a escrever este artigo. Quando se fala em impostos, muita gente pensa no Imposto de Renda , IPVA ou IPTU - ou seja, aqueles que em algum momento do ano você é solicitado a recolher. Mas a maior parte da carga tributária vem dos impostos que você paga sem sentir, ao fazer compras no supermercado, adquirir uma passagem de avião ou abastecer o carro. Segundo reportagem publicada no iG em agosto de 2014, nada menos de 45% dos brasileiros não sabem que pagam impostos ao ir às compras - mesmo que essa informação apareça discriminada nas notas fiscais. A reportagem reproduzida no site do IBPT informava que no Brasil "os impostos sobre o consumo equivalem a 70% da arrecadação. No Chile, eles são responsáveis por 50,1% da arrecadação, no Japão, por 18%, no México, por 54% e nos EUA, 17,9%, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)" (dados de 2015)

Na mesma matéria o presidente executivo do IBPT, João Eloi Olenike, assim avaliava a nossa carga tributária: 

— Quando se leva em conta o retorno baixíssimo que o brasileiro tem em termos de saúde, educação e segurança, é possível dizer que temos a maior carga tributária do mundo, já que ficamos em último lugar no ranking de benefícios oferecidos à população com esses recursos. O país não tem uma política tributária que taxe o cidadão de acordo com sua capacidade de contribuir. Tem uma política de arrecadação para fazer caixa, que é resultado da ineficiência do Estado em administrar seus recursos. 

A solução para isto tudo? A própria presidente Dilma, enquanto pré-candidata, a revelou aos 400 empresários do Fórum Empresarial de Goiás, repetindo em parte o que dissera à Rádio Terra: 

— Por que ninguém fez a reforma tributária até hoje? Porque é muito difícil. Primeiro, porque tem que alterar a Constituição. O sistema tributário é caótico? É. É confuso e pouco transparente, e ninguém sabe o que está pagando? Também é. 



  • Making-off do texto - Quarto artigo da série Choque de Realidade, publicado em 22 de abril de 2016 (minha 39ª colaboração com o LinkedIn). Foi acessado 29 vezes até hoje, na maioria por leitores de Macapá, Rio de Janeiro, Brasil e Belém, recebendo 1 "gostei". A imagem veio de pesquisa por "caos imagem" no Google Images. Como se sabe, desde a publicação desse texto nenhum esforço foi feito pelo governo brasileiro para simplificar nossa carga tributária ou para transformá-la em mais e melhores serviços para nossa população - muito antes pelo contrário. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

O sistema eleitoral brasileiro é arcaico (Ovelhas Desgarradas - 9)



No texto de ontem da série Choque de realidade, intitulado "Sua Excelência, o Mandato", manifestei minha estranheza com o fato de que a lei brasileira defina que, na linha de sucessão presidencial, o presidente da Câmara dos Deputados venha antes do seu colega do Senado, e também com o que considero excessiva preocupação com o cumprimento de mandatos, o que se traduz na previsão legal de que, mesmo que haja eleição para escolher novo presidente após algum impedimento legal, o novo mandatário deverá se limitar a completar o mandato do que houver sido afastado. 
Talvez essa preocupação em nossas leis (mais especificamente no parágrafo 2º do art. 81 da Constituição Federal) reflita uma preferência por evitar eleições frequentes, o que é compreensível se você pensar num quadro de votação e apuração manual - em especial a apuração, que numa eleição nacional poderia levar meses. Mas isto já poderia ser repensado, especialmente porque em 2016 já iremos realizar a 12ª votação com urnas eletrônicas (a contar de 1996, será a 6ª eleição municipal; houve ainda cinco eleições estaduais e federais, a mais recente sendo em 2014; mais o plebiscito do desarmamento, em 2005). 
Mas, pensando bem, a urna eletrônica está para a antiga urna de pano como a máquina de escrever estava para a pena de ganso - é apenas um meio mais moderno, automatizado, mas que não altera em si a natureza do processo realizado, no caso, a votação em si. A verdade é que o sistema eleitoral brasileiro é arcaico. Não estou me referindo à questão da representatividade política em si (se o ideal seria manter o sistema atual, ou mudar para voto distrital, por exemplo). Estou falando do comparecimento do eleitor brasileiro às urnas. 
Para começar, você se alista junto ao Tribunal Eleitoral do seu estado, que lhe designa uma zona e uma seção eleitorais. A seção eleitoral corresponde a uma sala, geralmente em uma escola, onde você deverá votar (ou ao menos comparecer no dia da votação, já que a própria urna eletrônica possui tecla para registrar voto em branco). Ou seja, no dia da eleição você precisa estar não só em sua cidade, como comparecer dentro do horário de votação à tal sala da tal escola. Se você votar em Porto Alegre, mas estiver em Canoas, não poderá votar. E se estiver em Porto Alegre mesmo, mas votar no Bom Fim e for a uma escola na Tristeza, também não poderá votar. Mas se estiver em Paris no dia da eleição, pode ir à embaixada do Brasil e votar para presidente da República...
Isto talvez fizesse sentido até décadas atrás, mas nos tempos digitais que vivemos é algo completamente irracional. Se podemos declarar Imposto de Renda pela internet, por que não poderíamos votar pela internet? Bastaria lançar no sistema o número do título de eleitor e o voto, e o próprio sistema impediria novos votos com o mesmo título. A apuração seria instantânea, pois o sistema dos TREs e/ou do TSE iria totalizando os votos ao longo do dia, apenas se esperando o momento do final da votação em todo o país para o anúncio dos resultados. Ter um sistema de votações mais ágil permitiria também que os cidadãos brasileiros pudessem ser mais fácil e frequentemente consultados, em forma de plebiscito, sobre grandes decisões nacionais. 
Punições para faltosos - Outro ponto a repensar no sistema eleitoral brasileiro é a infinidade de punições para quem não comparecer à votação. Vou reproduzir a seguir as punições previstas atualmente pelo Código Eleitoral:

"Lei nº 4.737 de 15 de Julho de 1965

Institui o Código Eleitoral.
PARTE PRIMEIRA
INTRODUÇÃO
Art. 7º O eleitor que deixar de votar e não se justificar perante o juiz eleitoral até 30 (trinta) dias após a realização da eleição, incorrerá na multa de 3 (três) a 10 (dez) por cento sobre o salário-mínimo da região, imposta pelo juiz eleitoral e cobrada na forma prevista no art. 367. (Redação dada pela Lei nº 4.961, de 1966)
§ 1º Sem a prova de que votou na última eleição, pagou a respectiva multa ou de que se justificou devidamente, não poderá o eleitor:
I - inscrever-se em concurso ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles;
II - receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou para estatal, bem como fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza, mantidas ou subvencionadas pelo governo ou que exerçam serviço público delegado, correspondentes ao segundo mês subsequente ao da eleição;
III - participar de concorrência pública ou administrativa da União, dos Estados, dos Territórios, do Distrito Federal ou dos Municípios, ou das respectivas autarquias;
IV - obter empréstimos nas autarquias, sociedades de economia mista, caixas econômicas federais ou estaduais, nos institutos e caixas de previdência social, bem como em qualquer estabelecimento de crédito mantido pelo governo, ou de cuja administração este participe, e com essas entidades celebrar contratos;
V - obter passaporte ou carteira de identidade;
VI - renovar matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo;
VII - praticar qualquer ato para o qual se exija quitação do serviço militar ou [do] imposto de renda.
§ 2º Os brasileiros natos ou naturalizados, maiores de 18 anos, salvo os excetuados nos arts. 5º e 6º, nº 1, sem prova de estarem alistados não poderão praticar os atos relacionados no parágrafo anterior.
§ 3º Realizado o alistamento eleitoral pelo processo eletrônico de dados, será cancelada a inscrição do eleitor que não votar em 3 (três) eleições consecutivas, não pagar a multa ou não se justificar no prazo de 6 (seis) meses, a contar da data da última eleição a que deveria ter comparecido. (Incluído pela Lei nº 7.663, de 1988)
§ 4o O disposto no inciso V do § 1o não se aplica ao eleitor no exterior que requeira novo passaporte para identificação e retorno ao Brasil. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015)"
São portanto, oito punições extras, afora as inerentes ao sistema (multa e exclusão), e se estendendo ao campo educacional, profissional, financeiro e mesmo civil (com a proibição de tirar passaporte ou documento de identidade). É um típico caso de punição desproporcional ao 'delito', o que já em 2006 foi objeto de projeto de lei do então senador Marco Maciel. O PLS 244/06 visava acabar com as punições extras, mantendo multa e exclusão, a seu ver suficientes para desestimular as abstenções. Na época da proposta, Maciel afirmou considerar as restrições extras "de constitucionalidade duvidosa", e que chegariam a violar princípios fundamentais do cidadão brasileiro (concordo). As restrições já previstas no Código Eleitoral se aplicariam então apenas aos brasileiros que não estivessem alistados eleitoralmente. Aprovado no Senado em julho de 2010, o PLS 244 foi remetido à Câmara dos Deputados, onde recebeu o número PL 7581/2010 e, após tramitar por comissões, foi considerado em agosto de 2010 pronto para ser submetido à votação no plenário, o que após 5 anos e meio ainda não aconteceu.
De resto, no atual sistema você só será multado se quiser - cabe ao eleitor faltoso procurar o TRE para solicitar a guia para pagamento da multa, o que evidentemente só irá fazer para evitar o rosário de punições previstas hoje na lei; o Tribunal de per si não irá tomar atitude alguma para multá-lo, limitando-se a excluí-lo do cadastro após a terceira falta sem justificativa. 

  • Making-off do texto - Terceiro texto da série Choque de Realidade, foi minha 38ª publicação no LinkedIn,, em 20 de abril de 2016. Ao longo desse praticamente um ano no ar, o artigo foi lido 44 vezes, na maioria por pessoas de Macapá, Belém, Brasil (ou seja, usuários do LinkedIn no país que não informaram sua cidade) e São Paulo. A ilustração, não-creditada, é do Google Images. Excepcionalmente, optei por manter a formatação original do LinkedIn, para ressaltar as citações do Código Eleitoral. Para surpresa nenhuma, este é outro tema que segue passando longe da pauta do Congresso Nacional. 



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sua Excelência, o Mandato (Ovelhas Desgarradas - 8)



Creio que não há quem não tenha passado esta segunda-feira comentando ou ao menos pensando na votação de domingo, 17, na Câmara dos Deputados, que aprovou o pedido de abertura de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A votação, com 367 votos a favor e 137 contra, inspirou este segundo texto da série Choque de realidade, no qual vou falar não diretamente do presente caso em análise no Congresso Nacional, mas sim convidar você a refletir sobre pontos controversos (no meu entender) sobre a linha sucessória presidencial no Brasil. 

A forma de eleição, posse, duração do mandato (atenção para este ponto!) e o que fazer em eventuais vacâncias do cargo de presidente e vice-presidente da República - tudo isso é definido na Constituição Federal em seu CAPÍTULO II - DO PODER EXECUTIVO, SEÇÃO I - DO PRESIDENTE E DO VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA, em especial nos artigos 79 a 83. 

O art. 79 define que "Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente"; já o 80 reza que, impedidos Presidente e Vice, e sendo os dois cargos declarados vagos, "serão sucessivamente chamados ao exercício da Presidência o Presidente da Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o do Supremo Tribunal Federal". Esta interinidade, porém, tem tempo limitado - vou reproduzir na íntegra o art. 81, que é a base do presente artigo:

"Art. 81. Vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.

§ 1º Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.

§ 2º Em qualquer dos casos, os eleitos deverão completar o período de seus antecessores." (grifo meu)

Até aqui, o que é definido em lei. Se é lei, está em vigor, e devemos acatar, sem dúvida. Mas não há mal algum em refletir sobre o que o texto legal dispõe, pois só assim podemos cogitar de sua mudança (ou, se concluirmos que está tudo bem, manter assim). 

O primeiro ponto pelo qual eu manifesto minha estranheza é a linha sucessória definida no art. 80 - porque motivo o presidente da Câmara dos Deputados antecede o do Senado? O Senado Federal representa os Estados brasileiros, ao passo que a Câmara representa a população. Claramente o Senado é a nossa tradução institucional da Câmara Alta de países como Inglaterra e Estados Unidos; o mandato de um senador é de oito anos, ao passo que o de um deputado federal é de apenas quatro. Também, como bem se sabe pelo farto noticiário atual, compete privativamente aos senadores julgar se a presidente da República cometeu ou não crime de responsabilidade. Não seriam motivos bastantes para que primeiro fosse chamado ao exercício interino da Presidência o presidente do Senado, e não o da Câmara?

A única explicação que encontro para isso é de uma sobrevivência, na atual legislação, de um 'fóssil' do período pré-1964. Até então, o Senado Federal era presidido pelo vice-presidente da República (!), que também era eleito de forma separada, e não integrando a chapa do candidato a presidente, como ocorre atualmente. Então, havia momentos, como em 1955, em que o vice (João Goulart) era da mesma aliança que elegeu o presidente (Juscelino Kubitschek); mas também podia acontecer, como em 1960, que o vice eleito (novamente Goulart) fosse da oposição ao presidente escolhido (Jânio Quadros). Qual a motivação disso, ignoro; se a ideia era desestimular uma eventual renúncia de presidente (afinal, isso faria com que ele desse o cargo de bandeja para a oposição), sabemos que a medida não funcionou com o próprio Jânio, que em 1961 renunciou quando seu vice estava em viagem à China (viagem à qual o próprio Jânio o enviou). Mas enfim, até 1961 a linha de sucessão deveria de fato começar pelo presidente da Câmara, porque o Senado era presidido pelo vice-presidente da República (algo que também considero muito estranho, um órgão do Legislativo ser comandado por alguém que não integra nem o próprio órgão, que dirá o mesmo Poder). Não entendo porque os constituintes de 1988 não corrigiram esta distorção na ordem sucessória. 

Mandato - Passemos então ao segundo e principal tema do artigo, o mandato presidencial. Mais exatamente o que eu estarei denominando aqui de 'fixação' (no sentido psicanalítico) no cumprimento do mandato, que se sobrepõe, a meu ver,  a outros aspectos mais importantes, como a própria pessoa eleita, ou seu programa de governo. 

Para começo de conversa, quando se decidiu que determinada pessoa teria um tempo X para governar, seja um país, seja uma cidade? Sabemos que a humanidade começou primeiro se organizando em tribos, que foram evoluindo lentamente para formas monárquicas de governo, com o poder sendo transmitido hereditariamente dentro de uma mesma família (também chamada dinastia), pelo tempo em que ela conseguisse mantê-lo. Creio que a ideia de mandato surge em Roma em 509 a.C., quando a população, revoltada com a tirania do sétimo rei da cidade - Tarquínio, o Soberbo -, o depõe.Os cidadãos decidem então interromper o ciclo de monarcas e instaurar a primeira República da História - em vez de um rei que governaria vitaliciamente, Roma seria comandada por dois cônsules, eleitos anualmente (podendo ser reeleitos, conjunta ou separadamente). A ideia deu tão certo que foi durante a República que se consolidou o que hoje entendemos como Império Romano, em termos territoriais. O Império enquanto forma de governo iniciou em 27 a. C., quando Augusto adotou o título de imperador, culminando um processo de esvaziamento da República que iniciou por volta de 49 a.C., quando o tio de Augusto, Júlio César, começou a acumular poderes, inclusive o de nomear os cônsules (!). 

Dezoito séculos se passaram até que nova experiência de República reintroduz o conceito de mandato - em 1789, George Washington foi eleito primeiro presidente dos Estados Unidos, reelegendo-se em 1792. Por algum motivo, passou-se a considerar que quatro anos é um bom período para um governo - este se tornou também o padrão brasileiro, a partir de 1894. Só em 1946 o Brasil passou a adotar o mandato presidencial de cinco anos.

O único presidente eleito (no caso, indiretamente) para seis anos foi João Figueiredo (1979-85). Seis anos já me parece bastante longo - basta lembra que a partir de 1982, quando houve eleições gerais no Brasil (exceto para presidente), a sucessão presidencial virou assunto permanente (cogitou-se até de criar um ministério especificamente para tratar desta questão!), culminando com a campanha das Diretas-Já em 1984. Tancredo Neves foi escolhido pelo Congresso para suceder Figueiredo, mas quem assumiu foi José Sarney, devido à enfermidade e, posteriormente, o falecimento do eleito.

Durante a elaboração da atual Constituição, Sarney tentou manter o mandato em seis anos, mas acabou aceitando a fixação em cinco anos sem reeleição. Como, porém, a contagem dos cinco anos de Sarney começou em 15 de março de 1985, coube a seu sucessor, Fernando Collor, ser empossado para o mandato mais estranho de nossa História - ele recebeu a faixa presidencial em 15.3.90 para governar até 31.12.94, ou seja, 4 anos, 9 meses e 16 dias! O que acabou não acontecendo devido à sua renúncia no final de 1992 para escapar do impeachment cuja aprovação era iminente no Senado. 

Desde 1997, o mandato presidencial brasileiro é de quatro anos, com possibilidade de reeleição. É comum ouvir, quando se cogita de alguma alteração, que a alternativa a quatro anos com reeleição seria um mandato de cinco anos, sem reeleição. Mais um ponto que considero estranho - afinal, cinco é bem diferente de oito. Mas voltemos para o já citado art. 81, em especial o parágrafo 2º, que determina que, em caso de vacância dos cargos de presidente e vice, deve haver eleição para estes cargos (seja direta ou indireta) e "os eleitos deverão completar o período de seus antecessores."

Completar o período do antecessor me parece ter lógica quando quem assume a presidência é o vice, eleito junto com o titular afastado - seja o afastamento resultante de morte (Getúlio, 1954; Tancredo, 1985) ou de renúncia (Jânio, 1961; Collor, 1992). Mas por que limitar o mandato de alguém que o povo (ou o Congresso) venha a eleger caso não se possa contar, seja por que motivo for, nem com presidente nem com seu vice? Se quem ocupa a presidência sai e assume seu vice, tem-se (teoricamente, ao menos) garantida a manutenção do mesmo programa de governo. Porém em caso diverso, por que não dar à pessoa que venha a se eleger a mesma oportunidade de governar, ou seja, os mesmos quatro anos? Que razão teria motivado nossos constituintes a se aferrar ao cumprimento de um prazo, que passa então a ser mais importante que a pessoa que irá cumpri-lo? 

Não tenho a resposta, apenas posso supor que isso tenha relação com o nosso sistema eleitoral, que considero arcaico - e que será o tema do terceiro artigo da série Choque de realidade. Até lá!



  • Making-off do texto - Segundo texto da série Choque de Realidade, foi publicado em 19 de abril de 2016. Meu 37º texto para o LinkedIn, foi acessado 29 vezes até hoje, na maioria por leitores de Macapá, seguindo-se São Paulo, depois Brasil (ou seja, pessoas que se inscrevem no LinkedIn indicando o país mas não especificando sua cidade) e ainda Belém, com 1 "gostei. A imagem, não creditada, é do Google Images. 
  • Não cheguei a citar no texto, mas houve ao menos uma outra tentativa de estabelecer mandatos entre as experiências de República em Roma e nos Estados Unidos. Foi em Roma mesmo; em 286 d.C., o imperador Diocleciano, que assumira o trono dois anos antes, resolveu fixar o tempo de reinado em 20 anos, findos os quais o imperador (que usaria o título de "Augusto") renunciaria em favor de seu herdeiro (que teria o título de "César"), o que Diocleciano fez, efetivamente, em 305, ao deixar o cargo para seu César, Maximiano. Porém, neste mesmo ano, Maximiano, seguindo orientação do próprio Diocleciano, também renunciou. Seu sucessor, Constâncio Cloro, reinou por pouco mais de um ano (305-306). Outra medida adotada por Diocleciano, a divisão do Império entre as partes do Ocidente e do Oriente, também gerou instabilidade política por algumas décadas, até que em 324 o filho e sucessor de Constâncio, Constantino, tornou-se o único imperador, reunificando o Império (até que ele voltou a ser dividido em 337 pelos seus filhos de Constantino). Enfim, resumindo a ópera: o único imperador que cumpriu a ideia de Diocleciano de exercer um mandato foi ele mesmo, não havendo na experiência uma continuidade como nas outras experiências mencionadas no texto, que de resto já estava bastante grande. 
  • Quanto à questão do vice-presidente presidir o Senado, só depois de escrever este texto soube que foi uma adoção brasileira de um preceito legal norte-americano, ainda vigente por lá (na segunda temporada da série House of Cards, exibida em 2014, Frank Underwood, vivido por Kevin Spacey, aparece em vários episódios presidindo sessões do Senado norte-americano). 
  • No mais, como se sabe, ao longo desses 12 meses nenhum dos pontos que eu mencionei no texto - a ordem de sucessão ou a duração do mandato de presidente eleito após vacância do cargo - chegou a ser analisado ou ao menos cogitado pelos congressistas brasileiros...


quinta-feira, 13 de abril de 2017

O dinheiro não vai se acabar (Ovelhas Desgarradas - 7)



Vou começar a publicar alguns textos opinativos aqui no LinkedIn, numa série que irei denominar Choque de realidade. O objetivo da série é contrapor opiniões minhas a temas que vejo serem considerados consenso atualmente, ou ainda temas que são debatidos sem que (a meu ver) as pessoas levem em consideração todas as variáveis envolvidas. Lembrando sempre que os fatos citados serão elencados para embasar minha opinião, então, a rigor, o que vou dizer é minha opinião, jamais a verdade absoluta (até porque isso seria impossível - risos). OK? Sintam-se convidados a debater nos comentários.

Como primeiro tema, escolhi o tema do fim do dinheiro, que está previsto para breve. Em sua argumentação, os defensores dessa tese comentam que este é um caminho inevitável, tendo em vista a crescente automação das operações financeiras, o amplo acesso a "telefones espertos", que poderiam ser usados como meios de pagamento, e cita-se o exemplo de um país europeu (ora a Dinamarca, ora a Suécia) onde se prevê o iminente fim da circulação de dinheiro em espécie (ou seja, em forma de células ou moedas). 

Mas não preciso ir até a Escandinávia para saber que, se isso vier a acontecer, não será para a nossa geração, ao menos no Brasil. Vou citar para exemplificar transações simples que efetuei neste final de semana na região metropolitana da capital do Pará. No fim da tarde, peguei um ônibus urbano no centro de Belém para ir até a rodoviária, de onde segui para Castanhal, onde fui assistir um show no SESC. O único local onde não tentei pagar com cartão de débito foi o ônibus urbano, eu sabia que precisava ter dinheiro em espécie para isto. Ao chegar ao terminal rodoviário, achei ser interessante fazer um lanche antes de embarcar para Castanhal (pensei que, se o SESC Boulevard, de Belém, não tem lanchonete dentro, o SESC de Castanhal talvez também não tivesse). O restaurante existente no terminal, que aceita cartão, já estava fechado (eram pouco mais de 19h de um sábado...). Das duas lanchonetes abertas, uma aceitava cartão, mas me pareceu que os melhores lanches eram da outra....que não aceita. Ok, o famoso custo de oportunidade, comi melhor mas diminuiu ainda mais o dinheiro em espécie que eu tinha em mãos.

Fome dominada, fui ao guichê da empresa que vende passagem para Castanhal, a qual... surpresa (?), só aceita pagamento em dinheiro! Chegando à cidade, mais uma tentativa de pagamento em cartão malograda: o SESC Castanhal só aceita o pagamento de ingressos para os shows em dinheiro. Constatei, com agradável surpresa, que a unidade citada do SESC possui, sim, uma lanchonete - que só aceita dinheiro. Saindo do show, liguei para amigos que estavam em um bar nas proximidades e iriam me dar uma carona até Belém. Dirigi-me então até um táxi - ao qual nem perguntei se poderia pagar em cartão (afinal, isso é muito raro mesmo) - e com o qual cheguei ao bar.

Resumo da ópera: de quatro situações em que já é possível em alguns pontos do Brasil você pagar com cartão (cinco, se incluir o táxi), não consegui fazer a transação de modo eletrônico em nenhuma delas! 

Já de volta a Belém, hoje, depois de almoçar no shopping (e pagar com cartão), tive dificuldade para comprar nozes num quiosque dentro do próprio shopping, pois a máquina de cartão estava fora do ar por algum tempo. Tentei apelar para o posto do meu banco também dentro do shopping, onde... os NOVE terminais que o banco mantém lá estavam fora do ar. Nesse meio tempo a máquina do quiosque carregou e pude efetuar o pagamento com cartão. 

O que isso quer dizer? Vamos lá:

  1. Não temos ainda, e estamos longe disso, uma total conexão dos pontos comerciais existentes no país com formas de pagamento eletrônico simples como cartões de débito e crédito, o que dirá com smartphones.

  2. Mesmo quando essa conexão total for atingida (o que pode levar, talvez, décadas), sempre podem haver oscilações do sinal e eventual queda na rede.

  3. Um dos obstáculos a essa conexão ser total é o custo da operação - além de pagar encargos trabalhistas e impostos pesadíssimos (a caótica estrutura tributária do país será tema de outro dos Choques de realidade), o empresário paga um percentual por operação à operadora do cartão.

  4. Não custa lembrar também os recentes anúncios das provedoras de internet brasileiras, avisando que não irão manter o acesso à rede ilimitado mesmo nas conexões fixas. A se concretizarem essas ameaças, qualquer planejamento que preveja acesso 24x7x365 à internet deve ser, no mínimo, reavaliado.

  5. Fora isso, há toda uma rede de pontos comerciais informais que não têm interesse em se formalizar, devido à já citada estrutura tributária, e portanto não podem adotar formas de pagamento eletrônico.

  6. E sempre vão haver os locais onde os valores envolvidos não cobrem o custo da operação, e nos quais você seguirá tendo que ter dinheiro em espécie para pagar - o ônibus urbano, o cafezinho na padaria, o lanche na esquina etc etc. Talvez na Dinamarca não se venda castanha do Pará descascada à sua vista na calçada, mas em Belém vende e não me parece que tão cedo o vendedor irá aceitar meios eletrônicos de pagamento para receber os R$ 2 que cobra por pacotinho. 


  • Making off do texto - Meu 35º texto para o LinkedIn foi também o primeiro artigo de uma série de seis que publiquei lá; este saiu em 17 de abril de 2016 e teve até hoje 27 acessos, a maioria de Macapá, seguido por Belém, Brasil (ou seja, pessoas que em seu perfil do LinkedIn afirmam morar no país, sem especificar a cidade) e por fim Campinas, com 1 "gostei" - como se vê, o convite para o debate seguir nos comentários foi solenemente ignorado (risos). A imagem não chegou a ser creditada, mas sem dúvida é "Google Images". O texto sobre o caos tributário, mencionado no item 3, foi o quarto da série. Choque de Realidade foi a última série de textos em sequência que publiquei no LinkedIn (a primeira foi da Campanha Vamos Sonhar Juntos e a segunda foi a disponibilização em capítulos do meu livro Cinema Independente). O pouco volume de acessos me fez reavaliar a ideia de seguir publicando no site (enquanto nesta série Choque de Realidade postei 6 textos em pouco mais de uma semana, publiquei apenas outros 6 textos originais por lá, ao longo dos 6 meses seguintes). 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O horário comercial não faz (mais) sentido (Ovelhas Desgarradas - 6)

Google Images (edição: Fabio Gomes)


Passando outro dia por dezenas de lojas vazias, comentei o fato com alguém, e a resposta veio pronta: Ah, é a crise! Na hora, concordei mas depois fiquei com o assunto na cabeça e acabei concluindo que o que me chamou a atenção, na verdade, é a situação normal do comércio ao longo do ano, independentemente de haver uma crise declarada ou não. Tanto que à véspera de datas como Dias das Mães e Natal, quando as lojas ficam (enfim) cheias, isso sempre vira notícia. O tema ficou alguns dias na minha cabeça, quando cheguei a uma conclusão que não é nova, nem é tão brilhante, e nem mesmo minha: O horário comercial não faz (mais) sentido! (O mais entre parênteses vai ali como atenuante, talvez um dia já haja feito...)

Que a ideia não é minha, é fato. Nos anos 1990, um prefeito de Porto Alegre (se lembro bem, Raul Pont) encaminhou para a Câmara de Vereadores um projeto flexibilizando o horário de funcionamento das empresas sediadas e/ou estabelecidas no município. A ideia por trás do projeto era até singela: o  fato de escolas, indústrias, lojas e repartições públicas iniciarem seu funcionamento em horários muito próximos (entre 7h30 e 9h) é responsável pela lentidão do trânsito nas grandes cidades todas as manhãs, o mesmo se repetindo ao final da tarde, na volta pra casa. Se parte do comércio, por exemplo, passasse a abrir às 15h, essa pressão seria reduzida, com a demanda por deslocamento se distribuindo melhor ao longo do dia. A proposta foi amplamente rejeitada pela opinião pública da capital gaúcha e, até onde recordo, nem chegou a entrar na pauta de votação da Câmara.

Muitas vezes, todos estamos de acordo com a existência de um problema, porém poucos se mostram dispostos a ajudar a construir uma solução.

(Parêntese; talvez a sociedade gaúcha ainda estivesse ressabiada pelo 'calendário rotativo' que o ex-governador Alceu Collares implantara ao tomar posse, em 1991, o qual previa a divisão do alunado estadual em três grupos, um dos quais começaria o ano letivo em março, o segundo em maio e o terceiro em julho, o que faria com que os prédios escolares fossem utilizados o ano inteiro. Implantado sem prévia discussão, o calendário foi alvo de severas críticas e não chegou ao final do governo do próprio criador.)

Fosse ou não um eco da decepção com o calendário rotativo, o fato é que a reação à simples proposta de tornar os horários mais flexíveis evidenciou que, muitas vezes, todos estamos de acordo com a existência de um problema, porém poucos se mostram dispostos a ajudar a construir uma solução.

E seguimos achando normal que todos iniciem trabalho e aulas simultaneamente. Quem trabalha em escritório ainda tem o final da tarde e os sábados para fazer suas compras; já quem trabalha em lojas depende muitas vezes da boa vontade da chefia para poder resolver questões simples do dia-a-dia como ir a um banco, tratar da saúde (sua ou dos filhos), comparecer a uma repartição pública e até mesmo fazer compras em outra loja.  Enquanto isso, o trânsito nas grandes cidades fica cada vez mais congestionado e as lojas continuam vazias praticamente o ano todo. Até quando??



  • Making-off do texto - Publicado em 20 de março de 2016, foi meu 26º texto para o LinkedIn, atingindo até hoje o volume de 85 leituras, a maioria de Macapá, seguindo-se Belém e São Paulo, mais 12 "gostei" e 2 comentários. 











terça-feira, 11 de abril de 2017

Vamos pensar: duas coisas sobre home office (Ovelhas Desgarradas - 5)

Foto: Talita Oliveira


E de repente, não mais que de repente, como diria Vinicius de Moraes, eis que me deparo com inúmeros artigos publicados no LinkedIn e pela internet afora em pleno começo de 2016 falando de home office como se ele fosse a grande novidade do momento; em menor quantidade, aparecem também os que defendem o home office (doravante denominado HO) como a grande solução para uma série de problemas enfrentados tanto por patrões quanto por empregados. 

Enfim, gostaria de dizer neste texto duas coisas sobre HO, baseado em minha experiência com o assunto, que iniciou oficialmente em 2003.
A primeira coisa é que home office de fato é algo muito bom.
Em 2003, saí de um emprego público (era assistente administrativo do Departamento Municipal de Água e Esgotos, autarquia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre), para me dedicar ao jornalismo cultural, mais especificamente ao site Brasileirinho, especializado em MPB, que eu colocara no ar um ano antes. Alugar um escritório nem me passou pela cabeça, pois no apartamento onde morava, de propriedade de minha mãe, havia computador com acesso à internet, telefone fixo e uma biblioteca com aproximadamente 2 mil livros (mais recortes de jornais e revistas) - inclusive uma pesquisadora do IBGE que esteve lá certa vez para apurar meus "hábitos de consumo" (risos) perguntou se ali era mesmo uma residência ou um escritório.... o que confirmava o que minha mãe já dizia desde, talvez, minha adolescência, que meu quarto era um escritório com uma cama. Desde então, nas diversas cidades onde morei ou ao menos passei um tempo considerável (São Paulo, Belém, Macapá e Salvador), sempre optei por alugar imóveis que me permitissem trabalhar no mesmo ambiente de moradia, economizando assim com outro aluguel (de escritório), com gastos e perda de tempo com deslocamentos e, mais recentemente, até com despesas de acesso à internet, já que muitos locadores incluem o wi-fi entre os benefícios ofertados aos locatários. De fato, na maioria das vezes é muito bom você poder trabalhar em sua casa à hora que você quiser, o que nos leva à...
...segunda coisa: trabalhar em home office pode não ser tão bom assim...
...se você não souber controlar seus horários. Lá em 2003, por exemplo, ao assumir o apê de minha mãe como sede do site, caí numa armadilha da qual levei um bom tempo para me dar conta - até porque fui eu mesmo que a armei. Explico: até então, como funcionário municipal, eu só podia me dedicar a meus projetos pessoais à noite e aos finais de semana. Quando tive enfim livre o chamado horário comercial, começava a trabalhar de manhã cedo e avançava a madrugada, acreditando que quanto mais horas dedicasse ao trabalho, mais cedo atingiria meus objetivos. Hoje sei que o sucesso vem de um trabalho feito com qualidade, e não necessariamente da quantidade de horas nele investidas. Eu vivia estressado, com olheiras, mas levei uns bons seis anos para me dar conta de que algo poderia estar errado. Isto só aconteceu quando, ao conversar com uma amiga de outro estado por MSN, ela, que sempre me perguntava o que eu estava fazendo (e eu sempre respondia "trabalhando"), um belo dia fez a pergunta que mudou tudo:
"Mas você nunca tem lazer??"
Aí, como se dizia na época, "a ficha caiu". Me dei conta da quantidade absurda de horas que ficava trabalhando e instituí em minha vida o conceito de ilhas de lazer. Havia na época um programa de jornalismo cultural na Rádio Gaúcha, das 16h às 17h; me habituei a fazer um intervalo nesse horário, me dedicando apenas a ouvir o programa (às vezes tomando chimarrão, às vezes deitado). Desde então mantenho também o hábito de caminhar, em torno de 1h a 2h por dia - nestas últimas semanas da minha atual temporada em Macapá, geralmente a caminhada é ao final da tarde, na orla do Rio Amazonas. Esse é um período bom para "esfriar a cabeça", muitas vezes surge durante o passeio alguma ideia ou a solução para uma questão cuja solução esteja demorando para vir em frente ao notebook. O horário da caminhada acaba coincidindo sim com parte do horário comercial, mas se houver alguma urgência eu posso ser contatado pelo celular ou pelo Facebook. Enfim, é uma prática boa para o corpo e para a mente, recomendo. 

Para fechar o texto, quero falar de outro modelo de HO, que o jornalista e escritor Fernando Morais relatou numa entrevista que li por volta de 1994, e que se referia ao seu processo de escrita da biografia Chatô - O Rei do BrasilPara evitar cair na mesma armadilha que eu, de não parar de trabalhar enquanto estivesse acordado, Morais alugou outro apartamento no mesmo prédio que o seu, se não me engano apenas alguns andares abaixo. Ou seja, diariamente Morais acordava, tomava banho, vestia-se, tomava o café da manhã e, para chegar a seu escritório, pegava...o elevador. A vantagem, apontava ele na entrevista, é que com isso ele conseguia delimitar, tanto para si quanto para seus familiares, quando estava ou não trabalhando. 

Mesmo que os dois casos relatados, o de Morais e o meu, se tratem de profissionais autônomos, acredito que em linhas gerais o que expus acima se aplica também ao modelo que tem crescido mais recentemente (e que, a meu ver, está trazendo um ar de 'novidade' ao HO), que é o de funcionários autorizados pela empresa a trabalharem de casa algumas vezes por semana. Penso que este é mesmo o caminho para o trabalho no século 21, seja você autônomo ou subordinado a uma chefia: saber gerir o seu tempo de acordo com as demandas, sem descuidar da qualidade de vida.


  • Making-off do texto - Este texto, meu 23º para o LinkedIn, foi publicado em 5 de março de 2016 e foi até o final do mês passado meu campeão de audiência por lá - 178 leituras até hoje, a maioria de Macapá, seguidos por Belém e São Paulo, além de 5 "gostei" e 2 comentários. Pela primeira vez, mencionei num texto minha passagem pelo serviço público (que geralmente não cito por não ter ligação alguma com arte & comunicação). Também pela primeira vez, usei o recurso de destacar frases do texto numa espécie de "olho". A foto foi feita pela fotógrafa acreana Talita Oliveira em setembro de 2008, quando estive em Rio Branco ministrando meu curso de Jornalismo Cultural, na semana que antecedeu o Festival Varadouro daquele ano (fazer a cobertura desse festival me inspirou a lançar o blog Som do Norte, no ano seguinte).