quinta-feira, 17 de outubro de 2002

Nelson Cavaquinho


O cantor e compositor Nelson Cavaquinho nasceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1911, sendo batizado como Nelson Antônio da Silva. Faleceu também no Rio em 18 de fevereiro de 1986, poucos dias depois de ver sua escola de samba do coração, a Mangueira, vencer o carnaval.




Nelson e a música eram velhos amigos. O pai dele, Brás Antônio da Silva, tocava tuba na Banda da Polícia Militar. Domingo era dia de música em casa, nos diversos lugares onde a família morou. Em cada novo bairro, Nelson ia recolhendo influências. Na Lapa, teve contato com os malandros e valentes; já na Gávea, conviveu com os chorões, fascinando-se com os tocadores de cavaquinho. Entusiasmado, quis aprender o instrumento, ensaiando sempre... que conseguia algum emprestado.

Desde essa época, Nelson acostumou-se a tocar apenas com os dedos polegar e indicador, hábito que manteve a vida toda. Em certo momento, por volta dos 40 anos, ele mudou do cavaquinho para o violão (embora ninguém tenha tido a idéia de chamá-lo de Nelson Violão por causa disso). Oficialmente, a mudança aconteceu porque o cavaquinho, sendo um instrumento pequeno, não combinaria com um homem de cabelos brancos. O violão imporia mais respeito. A cronista Eneida sabia de uma outra história, chegando a mencionar publicamente o assunto (num disco-depoimento de Nelson gravado no selo Castelinho em 1970), mas o sambista desconversou e, até onde consegui saber, a outra história caiu no esquecimento.

Nelson precisou parar de estudar cedo para trabalhar e ajudar a família. Mas ir à aula realmente não era das paixões do moço, mesmo. O pai descobriu logo que o filho fugia do serviço para ir a rodas de choro, principalmente se quem tocava bandolim era Luperce Miranda. Preocupado, seu Brás falsificou os documentos de Nelson, que de 20 anos passou a ter 21, para que pudesse ingressar na Cavalaria da Polícia Militar. Afinal, ele já era um homem sério: casara algum tempo antes com Alice Neves, numa delegacia, arrastado pelo pai da moça. Um dos presentes de casamento Nelson recebeu antecipado: um sabonete, para que pudesse tomar banho, tal a falta de grana em que estava. O novo policial não gostou muito da história, afinal recém ganhara um cavaquinho de presente e estava compondo muito.

Bem, da noite pro dia Nelson Cavaquinho ficara um ano mais velho, casara e fora incorporado na polícia. Parecia que seus dias de boemia iam ficar no passado. Mas adivinhem em que lugar do Rio ele deveria fazer sua ronda diária? Era nada mais nada menos que o Morro da Mangueira! Desta forma, diariamente, Nelson era obrigado a ir à Mangueira, fazendo a ronda. De bar em bar, conheceu os sambistas e se apaixonou definitivamente pela Estação Primeira, à qual dedicou os sambas “Folhas Secas” e “Pranto de Poeta”, compostos em parceria com Guilherme de Brito.

Até conhecer Guilherme, na década de 50, Nelson fazia sozinho seus sambas. Mas eles chegavam ao disco com um ou dois “parceiros”, aos quais ele vendera parte dos direitos autorais. Era a forma que usava para viver, após deixar a Polícia em 1938 antes que fosse expulso. É difícil saber quem realmente era parceiro de Nelson, até porque ele tinha plena consciência de que vendera porque quis quando precisava e não tinha porque reclamar depois. Seu primeiro sucesso, “Rugas”, foi dividido com Ary Monteiro e Augusto Garcez. Em outro clássico, “Degraus da Vida” (que teve uma gravação fabulosa de Elizeth Cardoso em 1970), Nelson quase some entre os “parceiros” César Brasil e Antônio Braga.

Compor com Guilherme de Brito fez com que os sambas de Nelson Cavaquinho cada vez mais falassem de seus temas preferidos: mulheres, flores e morte. A parceria gerou clássicos como “A Flor e o Espinho” (assinado por Nelson, Guilherme e Alcides Caminha), que inicia com um verso digno de antologia: “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.”

A venda de parte dos direitos desagradava alguns parceiros de Nelson. Foi assim com Cartola. Eles fizeram um samba juntos, Nelson deu uma carona na música e Cartola decidiu manter a amizade, mas encerrar a parceria. O estilo de Nelson Cavaquinho tocar foi assim comentado pelo crítico Tárik de Souza em artigo de 1973 na Folha da Manhã de Porto Alegre: “O estranho violão toca sempre contrário à linha melódica, uma espécie de execução pelo avesso que às vezes lembra harmonizações orientais.” Tárik citava ainda o respeito que os violonistas Egberto Gismonti e Turíbio Santos, de formação erudita, tinham pelo autodidata Nelson Cavaquinho, criador de um estilo que não teve seguidores.

Nelson Cavaquinho gravou apenas três discos solo, incluindo o de depoimento, além de participar outros três dedicados à sua obra. Já no cinema, Nelson atuou em três filmes, em que ele sempre aparecia num bar, com o violão, bebendo e cantando: seu próprio papel na vida. Foi assim nos longas O Casal, dirigido por Daniel Filho em 1975, e Muito Prazer, de David Neves, em 1979. Mas seu grande momento foi o curta Nelson Cavaquinho, que Leon Hirszman filmou em 1970, com Nelson circulando com os amigos pela Mangueira e batendo samba, como ele dizia. Uma forma excelente de lhe dar as flores em vida, como ele pediu no samba “Quando Eu me Chamar Saudade”, mais um da parceria com Guilherme de Brito.



Cartola, Nelson e Juvenal desfilam pela Mangueira

  • Making off do texto - Escrito como roteiro de parte da edição piloto do programa Brasileirinho, que gravei em maio de 2002 para levar às emissoras de rádio de Porto Alegre como amostra do projeto que eu queria levar ao ar; as emissoras não se interessaram e o projeto originou o site Brasileirinho (http://brasileirinho.mus.br/). Inclusive este foi um dos quatro textos que entraram no ar no primeiro dia do Brasileirinho, em 17 de outubro de 2002; o áudio deste texto já esteve no ar no Brasileirinho durante algum tempo. Este artigo é citado no verbete sobre Nelson Cavaquinho na Wikipedia.

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