segunda-feira, 4 de agosto de 2003

Radamés Gnattali, Primeiros Acordes


O maestro e compositor Radamés Gnattali nasceu numa modesta casa da rua Fernandes Vieira, Bom Fim, Porto Alegre, em 27 de janeiro de 1906. Fazia exatamente nove meses que seus pais, Alessandro Gnattali e Adélia Fossati, haviam se casado. Detalhe: o casamento, em 27 de abril de 1905, contou com um concerto vocal e instrumental, regido pelo noivo, e foi seguido por um baile. Alessandro chegara da Itália em 1896, empregando-se como marceneiro em uma oficina. Logo comprou um piano e começou a estudar com seu vizinho César Fossati. Das aulas à convivência com a família foi um passo e daí para o amor entre ele e Adélia, irmã de César, outro. Para que eles tivessem onde morar após o casamento, foi preciso que o pai da noiva, Carlos, os presenteasse com uma residência que possuía, perto da que morava, na Fernandes Vieira, justamente onde Radamés veio ao mundo (abaixo, foto sua quando bebê).

Com seu salário de marceneiro e algum dinheiro ganho com a música, Alessandro conseguiu mudar-se com a família para uma casa própria numa rua paralela, a João Telles, em 1908, quando nasceu o segundo filho, Ernani. A primeira filha, Aída (nascida em 1911), futura pianista, também recebeu, a exemplo dos dois irmãos mais velhos, nome de personagem de ópera do italiano Giuseppe Verdi. O casal ainda geraria o futuro maestro Alexandre, em 1918, e Teresinha, em 1926. Quando a caçula nasceu, Adélia já começava a apresentar problemas de saúde, inclusive com perda de audição.
Com o tempo, Alessandro não precisou mais da marcenaria. Do piano, passou ao fagote. Tornou-se depois professor, regente e presidente do Sindicato dos Músicos de Porto Alegre.

Como se pode notar, a música era uma presença muito forte na casa dos Gnattali. Radamés, aos 3 anos, já tinha seu violino de brinquedo. O violino de verdade também o interessou, tendo ele aulas com a prima Olga Fossati. Ele já começara a estudar piano em casa mesmo, com a mãe, aos 6 anos, mas era só a mestra se distrair para ele escapulir e ir jogar futebol na várzea... Mais tarde, passou a estudar música na Sociedade Italiana da rua João Telles, junto com seus irmãos e primos. Ali, aos 9 anos, Radamés recebeu uma medalha do cônsul da Itália por ter regido uma orquestra infantil. Detalhe: os arranjos interpretados pela orquestrinha haviam sido escritos por Radamés!

Em 1920, deixou a escola regular, passando a estudar só música. A decisão, ousada para a época, teve total apoio do pai, que quis saber dele:

- Então, o que tu queres: continuar os estudos ou ir para o conservatório?

Explique-se: certa ocasião, Alessandro descobriu que Radamés não ia à escola há 15 dias. Assim, Radamés tornou-se o único dos filhos do casal a apanhar. Provavelmente a evasão, aliada às notas obtidas pelo filho (Radamés era gago, numa época em que a prova oral era o principal meio de avaliação. Resultado: só tirava zero!), fizeram com que Alessandro apoiasse fortemente a vocação musical do primogênito. Anos mais tarde, Radamés só podia definir o pai como “um sujeito muito legal”.

Radamés tinha apenas 14 anos, mas o nível que já alcançara lhe valeu o ingresso direto no 5º ano do Conservatório de Música do Instituto de Belas Artes (atual Instituto de Artes da UFRGS). Sonhava em ser um concertista. Quatro anos depois, concluiu o curso e fez seu primeiro recital (foto à direita), a 31 de julho de 1924, no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), no Rio de Janeiro, com peças de Franz Liszt e Wilhelm Friedemann Bach. Quando Radamés fora embarcar no navio que o levaria ao Rio, ouviu do pai o seguinte conselho:

- Vai e esquece que tens família.

(Nesse ponto, Radamés não foi um filho muito obediente: em 1943, um ano depois da morte de Alessandro, considerou que dona Adélia já estava bastante idosa e levou-a, junto com os outros filhos, para o Rio)

Só depois disso é que estreou como concertista em sua terra natal, em 10 de dezembro de 1924, no Theatro São Pedro, com o mesmo repertório executado no Rio. O mesmo Theatro veria a estréia do Radamés compositor, em 17 de setembro de 1930, com “Prelúdio nº 2 – Paisagem” e “Prelúdio nº 3 – Cigarra”. O próprio autor interpretou as peças ao piano.

No final de 1924, Radamés vai veranear em Tramandaí – a rigor, iria descansar, mas o dono do hotel o convenceu a “tocar um pouquinho” para distrair os hóspedes... Nesta temporada, conhece Vera, estudante de piano de São Leopoldo. Os dois se apaixonam e começam a namorar. No carnaval de 1925, Vera é eleita rainha da folia em São Leopoldo, recebendo de presente um hino composto pelo amado. Apesar da oposição dos pais da moça, comerciantes, casaram-se em 1932.

As ligações de Radamés com o carnaval vinham de longa data: na mesma época em que começou no conservatório, formou um bloco, chamado Os Exagerados, onde tocava cavaquinho ao lado de amigos como os irmãos Cosme (o compositor Luiz e o desenhista Sotero), Júlio Grau e outros. Eles eram a base da “orquestra” de seis músicos (dois violinos, violoncelo, contrabaixo, flauta e piano) que tocava valsas, polcas e trechos de operetas, além de canções francesas e italianas, na sala de espera do Cine Colombo, no bairro Floresta, a partir de 1922. Nesse período ainda, participou de serenatas, onde seu instrumento era o violão.

Ainda em 1925, Radamés compôs uma marcha em homenagem ao Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense, com letra de Jorge Jobim. Escritor e diplomata, Jorge pouco tempo depois voltou a residir no Rio de Janeiro com a esposa Nilza, onde nasceu o primeiro filho do casal, Antônio Carlos. Admirador de Radamés desde sempre, Tom Jobim orgulhava-se muito desse parceria entre seu pai natural e seu pai musical - embora, não muito afeito às coisas do futebol, tenha afirmado num depoimento que a marcha era dedicada ao Grêmio Recreativo Porto-Alegrense...

Em 1929, o governo gaúcho recusara a Radamés seu pedido de uma bolsa de estudos. Ainda sonhando em ser concertista, teve momentos de glória na cidade natal, como no Concerto de Propaganda Artística, novamente no Theatro São Pedro, em 9 de julho de 1931, onde interpretou peças para piano de vários compositores, inclusive as suas “Rapsódia Brasileira” e “Ponteio, Roda e Samba” – esta, uma suíte de três peças construídas sobre temas populares (a terceira peça, mais tarde, teria o título alterado para “Baile”, em vez de “Samba”). No mesmo ano, a Sala Beethoven promoveu a Noite Brasileira de Radamés Gnattali e Luiz Cosme, em 21 de outubro, onde Radamés tocou novamente o “Ponteio, Roda e Samba” (alguns autores afirmam erroneamente que a composição estreou neste dia) e acompanhou Emílio Baldino, que cantou “Oração da Estrela Boieira”, e Elsa Tschoepke em “Violão” (ambas as composições com música de Radamés para poema de Augusto Meyer) e “Pra Meu Rancho” (versos de Vargas Neto musicados por Radamés). Ainda, o Quarteto Henrique Oswald (foto à esquerda)(violinos – Luiz Cosme e Carlos Barone, viola – Radamés, violoncelo – Arduíno Rogliano) apresentou “Seresta”.

Para sobreviver, Radamés dava aulas e dirigia um conjunto de câmara, o já citado Quarteto Henrique Oswald (que tivera Sotero Cosme em sua primeira formação). Além da capital gaúcha, o quarteto apresentou-se em Caxias do Sul e São Leopoldo, interpretando Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven. Fora do Rio Grande do Sul, Radamés tocava em cassinos e emissoras de rádio, além de estar sempre fazendo recitais em São Paulo (Conservatório Musical e Dramático, outubro de 1925) e no Rio de Janeiro (Teatro Municipal, 1929). Na verdade, não é correto dizer que Radamés foi para o Rio em definitivo em 1931. Ele apenas deixou de voltar a Porto Alegre...

Na capital federal da época, o músico gaúcho tornou-se o melhor arranjador brasileiro das décadas de 1930, 40 e 50, desenvolvendo uma carreira de sucesso tanto na música de concerto quanto na música popular até falecer, em 1988.

  • Making off do texto: publicado no Brasileirinho em agosto de 2003, foi escrito em 1994 ou 95, época em que, de volta a Porto Alegre após viver 18 anos em Bento Gonçalves (RS), morei no Bom Fim, na mesma rua Fernandes Vieira onde Radamés nasceu (não consegui, porém, descobrir onde era sua antiga casa; não há placa alguma e ninguém sabe nada a respeito). O texto foi encaminhado ao jornal Já Bom Fim, veículo que circulava no bairro e onde volta e meia saíam textos de nomes como Luis Fernando Verissimo. Só foi publicado, porém, anos depois, como "Carta do Leitor" ou algo equivalente, creio que em 1999 ou 2000. Eu morava a uma quadra da Sociedade Italiana, citada no texto. Acredito que eu tenha revisado e ampliado o texto antes de publicá-lo no site - a tirada de Tom Jobim sobre o Grêmio Recreativo certamente ainda não era de meu conhecimento em 94/95.

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