quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Literatura: Palavras - Alóvena, ebaente


Das palavras que a gente usa (lê, escreve) em geral não sabemos muito. Aprendemos que o móvel não muito grande com encosto onde sentamos chama "cadeira" e pronto, nos basta para não o confundirmos com um banco ou um sofá. Desde quando ou quem teve a idéia de chamar a esse móvel "cadeira", jamais saberemos. Quando muito um dicionário etimológico vai dizer que a palavra vem do grego "cathedra", e o caminho incluiu a forma latina "cathedram", mas as questões que apontei permaneceriam sem resposta.

Este não é o caso, porém, de "alóvena" e "ebaente". Estas palavras foram criadas em 1937 por Vinicius de Moraes na cidade fluminense de Itatiaia, "no sítio de Octávio de Faria, ali a meio caminho entre Campo Belo e a cachoeira de Marombas", ao escrever a "Elegia Lírica" publicada em 1943 no livro Cinco Elegias, numa edição financiada por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Octávio de Faria.

No poema, Vinicius fala da amada e da forma como tenta lidar com a paixão que sente:

"Não quero dizer nem que te adoro
Nem que tanto me esqueço de ti
Quero dizer-te em outras palavras todos os votos de amor jamais sonhados
Alóvena, ebaente
Puríssima, feita para morrer…"


As palavras foram retomadas por Manuel Bandeira (ao lado) ao escrever sobre as cinco elegias - seu comentário sobre o livro intitulou-se "Coisa Alóvena, Ebaente"; tenho esse texto na edição da Poesia Completa e Prosa de Vinicius, organizada por Afrânio Coutinho para a Nova Aguilar em 1986, que não informa quando Bandeira teria publicado seu comentário. Chega-se a mencionar a publicação de um texto de Bandeira com o nome de "Cinco Elegias" na edição de 1958 da Poesia e Prosa de Vinicius, pela (velha) Aguilar.

Seria este "Cinco Elegias" de Bandeira outro nome do "Coisa Alóvena, Ebaente"? Pode ser, embora neste caso a publicação no livro de 58 seria com certeza uma republicação de texto saído anteriormente, pois Bandeira alude a "um livro de seus [de Vinicius] últimos poemas em edição que será ilustrada por Carlos Leão", o que "Vinicius de Moraes anuncia para breve". Não é difícil identificar que Bandeira se refere a Poemas, Sonetos e Baladas, livro de Vinicius efetivamente ilustrado por Carlos Leão e lançado pela Gaveta (sic!) em 1946. "Coisa Alóvena, Ebaente" é, portanto, anterior ao lançamento de Poemas, Sonetos e Baladas. Além do título, Bandeira usou-as para arrematar o primeiro parágrafo:

"Naturalmente, estas cinco elegias vão escandalizar muita gente (a ausência de poesia em certas pessoas dá pena). Vai haver choro e ranger de dentes. Não são elegias aliás: são elégias. Coisa alóvena, ebaente."
Enfim, eis aí um caso raro de palavras com paternidade, local e data de nascimento indiscutíveis, além de um importante registro de primeiros usos. Talvez o que seja difícil é estabelecer o significado exato que Vinicius e Bandeira a elas quiseram dar, mas será que aí já não estaríamos querendo demais, não?



Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, 
Manuel Bandeira, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos 
- Rio de Janeiro, 1966


* Publicado originalmente no blog

Nenhum comentário:

Postar um comentário