domingo, 28 de agosto de 2011

Daniel Piza: "Indústria cultural não tem interesse em opiniões contundentes e independentes"


O Diário do Pará (Belém) deste domingo entrevistou Daniel Piza, colunista d'O Estado de São Paulo e autor do livro Jornalismo Cultural. Piza, que virá ao Pará participar da 15ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que acontece de 2 a 11 de setembro, defende que os espaços culturais dos veículos se mantenham criativos e críticos, mesmo que isso não seja de interesse da indústria cultural. Ao mesmo tempo, entende que na internet a crítica ainda não está tão solta quanto seria de se esperar. Leia a seguir a entrevista na íntegra. O texto foi publicado originalmente no Diário do Pará. A entrevista foi realizada por Márcia Carvalho.

P: O Brasil é um país onde a maioria da população não tem acesso a bens culturais. Segundo dados do IBGE/Ipea (2009), apenas 14% da população vai ao cinema – e apenas uma vez por ano. O orçamento para Cultura não chega a 1%, o mínimo recomendado pela Unesco. Por que é revelante falar de cultura na imprensa? Qual a importância de um caderno cultural num país como o Brasil?

R: Naturalmente os cadernos culturais não podem preencher essa vasta lacuna cultural brasileira, que tem a ver com educação, economia e outros fatores históricos. Mas é relevante falar de cultura para as pessoas que têm alguma vida cultural, para que a ampliem e aprofundem, e para atrair jovens com interesse potencial, afinal todos nós fomos um dia incorporados a esse universo. Num país como o Brasil a TV teria um papel preponderante nessa atração, mas infelizmente vemos raros exemplos de jornalismo cultural na TV aberta. Os países mais desenvolvidos são os que têm maior índice de leitura e de consumo cultural, mas é preciso um esforço para que os campos se estimulem mutuamente. Como diz um amigo, é bom também “educar a elite”, ou seja, mostrar às pessoas que têm condições econômicas que cultura não é só verniz e diversão, mas algo que faz repensar valores e caminhos.

P: Nos últimos anos a mídia fundiu cultura e entretenimento. O que isso representou para o jornalismo cultural?

R: A cultura sempre teve um aspecto de entretenimento. Os gregos acompanhavam o teatro na era clássica como hoje os brasileiros acompanham as novelas na TV. Shakespeare era visto num local onde os ingleses elisabetanos também se divertiam com ursos sendo surrados. Mozart lotava casas de ópera em Viena, Beethoven era tão famoso que o paravam na rua para pedir autógrafo. Dickens e Balzac não eram lidos por intelectuais apenas, mas pela classe média urbana. Por outro lado, a dança de um Fred Astaire levava milhões aos cinemas, mas era um produto de arte de alto refinamento. O que cabe ao jornalismo cultural não é tanto separar uma coisa da outra, mas identificar aquelas obras e ideias que vão ficar, que vão transcender a moda e se tornar referências para outras gerações.

P: Qual sua avaliação do jornalismo cultural praticado no Brasil atualmente?

R: Ele ainda é, como escrevi em 2003 no meu livro sobre o tema, preso demais às agendas de eventos e ao culto das celebridades. Ainda temos pouca criatividade nas pautas e nos textos e o espaço da crítica foi banalizado, convertido em breves avaliações impressionistas.

P: Qual o papel da crítica e por que se tornou tão complicado mantê-la nos jornais?

R: A crítica é fundamental na história da civilização, filha do ensaísmo de Montaigne e da mentalidade iluminista. Significou a liberdade de qualquer cidadão de formar sua opinião própria, a partir de interpretações feitas por pessoas dedicadas ao exame de obras e ideias. O jornalismo cultural nasceu com forte teor crítico há mais de 300 anos. Mas ao longo do século 20 a crítica foi se tornando algo com pretensões de ciências exatas e ficando mais e mais ilegível, escrita com jargões, não mais com o velho e bom tom de abordagem ensaística, ao mesmo tempo pessoal e profissional. Além disso, a indústria cultural ganhou muita força e as publicações não souberam resistir e se converteram em caixas de ressonância dessa indústria, a qual não tem interesse em opiniões contundentes e independentes.

P: Com a explosão de sites e blogs na internet e, mais recentemente, das mídias sociais, qual o principal desafio do jornalista que trabalha com cultura, dentro e fora das redações?

R: Minha esperança era que esses espaços mais soltos, anárquicos, permitissem o retorno de uma voz autoral, de um texto menos comprometido, mas por enquanto só há exceções. O desafio dos jornalistas culturais diante dessas novas “plataformas” é manter a seriedade, não se dispersar, já que a leitura em internet tende a ser muito veloz e achista.

P: A produção cultural que se dá fora dos grandes centros (Rio/SP) dificilmente encontra espaço na grande mídia nacional. Existe algum caminho para reverter isso?

R: Em geral a cobertura fora das metrópoles se limita a eventos localizados, como feiras de livros, festivais de teatro e dança, mostras de cinema. Seria importante acompanhar mais a cena real, no dia a dia, e dar voz a criadores que não conseguem chegar às grandes editoras, produtoras etc. Mesmo com a internet, a realidade da maioria dos artistas é a de muita dificuldade para aumentar seu público, exceto fenômenos muito específicos, ligados a fatores nem sempre estéticos. O caminho é pesquisar e ousar.

P: Como melhorar o nível do jornalismo cultural? O que as empresas jornalísticas, mas, sobretudo, os próprios jornalistas da área devem buscar?

R: Há uma questão básica, que a obviedade deveria dispensar, mas não entendo que um jornalista cultural seja inculto. Formação é essencial, e ela deve ser ampla, não apenas focada numa área específica, por mais que sempre nos inclinemos a ficar com dois ou três temas preferenciais. O crítico de cinema é melhor se conhece história, por exemplo. E é só melhorando o nível dos jornalistas culturais que o jornalismo cultural vai melhorar. Ao mesmo tempo, as empresas de comunicação precisam dar mais espaço para a criatividade, a contestação, mesmo que erros seja cometidos.

P: Como será a sua participação no evento?

R: Farei uma palestra sobre Euclides da Cunha, sobre quem escrevi um livro e fiz um pequeno documentário depois de uma viagem em 2009 ao longo do rio Purus, viagem que recriou a que ele havia feito em 1905. A parte amazônica da obra de Euclides ficou esquecida em função da importância de “Os Sertões”, mas também é muito importante pelas questões que antecipa.

P: Como foi percorrer o mesmo caminho de Euclides da Cunha? O que mais surpreendeu ou marcou você durante essa expedição?

R: Muitas coisas me marcaram, e não só os piuns! A hospitalidade dos ribeirinhos, seus problemas em saúde e educação, a sensação labiríntica do rio, o número de índios que Euclides não viu. Ele viu seringais lotados, nós não encontramos nem sequer um ativo. E, claro, fiquei ainda mais consciente do heroísmo daquela expedição, das tantas coisas que Euclides enfrentou para cumprir sua missão demarcatória. Ele não foi um pioneiro apenas nas letras.

P: Você tem vários livros publicados. No seu caso, tornar-se escritor foi uma consequência natural da profissão de jornalista? Acredita que uma atividade complementa a outra?

R: Acredito. Antes mesmo de ser jornalista pensava em ser escritor. Mas nem todo escritor sabe ser bom jornalista e, sobretudo, vice-versa... Escrever livros é outra arquitetura, exige mais método e paciência, além de dar bem menos retorno financeiro... Escrevo livros porque gosto e porque acho que aqueles temas exigiam novas abordagens.

P: O que falta para o Brasil tornar-se de fato um país de leitores?

R: Muita coisa... Como eu disse, o desenvolvimento econômico é um fator fundamental, mas não o único. Na Rússia, por exemplo, a economia está pior e as pessoas leem muito mais. Sinto um desdém geral pela importância de ler no Brasil. Ou melhor, pelo prazer de ler. Todo o esforço deve ser no sentido de combater esse desdém.



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