sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Show Belém: Orquestra Rumpilezz


Nesta sexta, 23 de setembro, o Palco Sunset do Rock in Rio será aberto pela Orquestra Rumpilezz, do maestro baiano Letieres Leite, a cujo show assisti aqui em Belém no Teatro Margarida Schivasappa no dia 13, a convite do produtor Alex Pinto. Apesar de já ter visto muitas citações ao trabalho da orquestra, em especial através de releases que recebo da Bahia, confesso que jamais havia procurado escutar o som do grupo.

Pelo nome não era difícil deduzir que a base deveria ser o jazz combinado a percussão de raiz africana (o que no nome da banda fica fortemente sugerido pelos termos "rum", "pi" e "lé", os três tambores do candomblé). Mas não são estes os únicos elementos do som da Rumpilezz. Aqui neste vídeo em que ela toca "Temporal", a última antes do bis em Belém, fica clara uma influência cubana, em especial no ataque inicial dos sopros.

Um dos pontos altos do show é a apresentação de "O Samba Nasceu na Bahia", antecedida por demonstrações, feitas pelos percussionistas, de células de samba duro, samba afro do Ilê Ayê e cabila. A execução desta música certamente ultrapassou os dez minutos de duração. Cheguei a cronometrar o número seguinte ("Aláfia"), que teve pouco mais de sete minutos, porém dei preferência a apreciar o som da Rumpilezz e os arranjos cheios de sutilezas e mudanças a todo tempo que são a marca de Letieres à frente da orquestra.

No repertório, predominam faixas do CD que a Rumpilezz gravou em 2009, e que a rigor o maestro nem chega a reger de fato no show. Imagino que isso se deva à coesão do grupo e mesmo ao próprio tempo na estrada executando as mesmas músicas. (Não se enxergue aqui nenhum reparo à atitude do maestro, que é também o autor das músicas e criador dos arranjos. Ou seja, o tempo todo o que ouvimos era Letieres Leite). Houve dois momentos em que Letieres atuou à vera como regente: na inédita "Das Arábias" e ao final do bis, em que pediu aos executantes de sopro que ficassem à beira do palco, ora dispostos lado a lado, ora organizados em semicírculos, e comandando as infinitas modulações e variações de andamento. Um primor!

Já no camarim, Letieres revelou que este final foi um presente ao público de Belém, que se mostrou muito atento e receptivo à ousadia sonora da Rumpilezz. Abriu assim a longa conversa que teve com as cantoras paraenses Iva Rothe e Aíla, da qual participei, motivo pelo qual aliás não entrevistei formalmente o maestro, pois Iva ia perguntando praticamente tudo o que eu pretendia saber. Letieres contou ter criado a orquestra há 6 anos, e me surpreendeu ao dizer que não tem estudo formal de arranjo ou regência - espanto maior quando eu soube que ele já compõe as músicas escrevendo essa infinidade de nuances e variações nos arranjos!

Depois de participar, na adolescência, de um grupo de percussão montado na escola onde fazia o 2º grau, só voltou a tocar aos 19 anos, optando pela flauta (entre uma coisa e outra, dedicou-se à pintura). Com um ano de prática, já acompanhava artistas na noite de Salvador, o que o levou a ser arranjador de Daniela Mercury. Seu desempenho atraiu a atenção de Ivete Sangalo, então vocalista da Banda Eva e já pensando numa carreira solo. Ivete negociou com Daniela o "passe" de Letieres, que assim começou a escrever os arranjos do repertório solo de Ivete, sem que ninguém soubesse, de modo que quando ela saiu da Eva pôde de imediato trabalhar o novo repertório. Letieres só deixou o trabalho com Ivete há questão de três meses, quando o crescente sucesso da Rumpilezz acabou impossibilitando que o maestro conseguisse dar conta, simultaneamente, da intensa agenda de trabalho da cantora (o maestro chegou a se emocionar quando recordou o momento em que comunicou seu afastamento a Ivete). Afora a Rumpilezz, o principal trabalho de Letieres hoje é a direção musical de Mariana Aydar - deixou evidente seu entusiasmo com o CD Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo, dela, recém-lançado, em que todos os arranjos são dele.

A apresentação da Rumpilezz hoje no Rock in Rio é ao lado de Mariana e da banda Móveis Coloniais de Acaju.


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