quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Trecho do livro Senhora de todos os passos, de Carlos Correia

A PRIMEIRA PARTE DESSES IDOS

Ainda no Nordeste...

Quando era por volta de 1920...

Como nasci? Da poeira. Costumo repetir e repetir: nasci da poeira. Sim, houve o parto. Houve o vir do ventre. Mas para a vida inteira que me gestou, nasci da poeira. Guardo como certidão de tal fato o dizer daquele que me criou e me fez pronunciar a palavra pai. João Xavier. Era ele quem contava. Foi quando baixou o poeiral seco sem fim, ocre-carmim... Foi quando baixou aquele pó do sem tempo que ele viu vindo pela estrada a velha negra, cabelos nuvados de tão brancos. A velha com a criança no colo. Menina bronze nua. Uma estrada qualquer no entorno perdido entre a pernambucana cidade de Garanhuns e o desconhecido... Contava ele: o carro que dirigia – o Ford de Bigode – pareceu ficar mais lento sem desaceleração qualquer. Ele grudado ao volante. Alma grudada num inexplicável nó na garganta. E, por entre a poeira, aquela imagem, a imagem daquelas duas tão cheias de nada. A velha e uma menina no colo. Feito fosse uma dessas estátuas de procissão. A menina? A menina era eu. A velha? Minha avó. É só o que sei. Não foi o carro que se aproximou daquelas duas lassidões. Foi o destino que estreitou o afastamento. Estreitou, estreitou. Até que o automóvel lento freasse. Lento parasse rente à velha com a menina no colo.

- Está indo para onde, minha tia? – Foi a pergunta do motorista que mais tarde muito de minha vida dirigiria.

O que sei é que a resposta da mãe de minha mãe se fez seca:

- Oxi... – Penso que o enxergar preso na inexatidão – Tô pra num sabê dadonde vim, moço... O que dirá pra donde vô...

- E o que foi que houve, senhora?...

- Minha fia... – Suponho... Apenas suponho que o sol infindo tenha feito cintilar o resto de choro que havia nos olhos da negra anciã – Minha fia, mãe dessa menina... A bichinha morreu parindo, moço... Eu tô que num sei de mais nada... Num sei que caminho tinha atrás de mim... Num sei pra donde leva o caminho que vai pra acolá...

Sei também que ali, dentro do carro, João Xavier sentiu – de algum modo sentiu – que a vida lhe estava abrindo as pernas e dando à luz algum novo.

- Quer alguma ajuda, minha tia?

Suponho... Apenas suponho: houve a poeira do infinito no olhar que a velha deu para o motorista...

E, num ato mecânico, gerado talvez pela dor do oco... Num ato mecânico, ela estendeu os braços e ofereceu a menina para o homem. Eu... para aquele que me fez pronunciar a palavra pai... Dando olhar de infinito para o estranho, minha avó me deu.

Tudo isso assim conto porque suponho...

Imagino que João me recebeu em seus braços muito mais por desentendimento que por querer intentado. Ele em seu colo me recebeu. Diria mais tarde que me amou como filha naquele instante exato. Naquele instante exato...

Nada disseram. A velha e o motorista. Nada. Fitaram-se um pouco mais e o resto veio. Minha avó foi. João Xavier ficou. A poeira a subir e a velha de brancos cabelos – nuvados – a ir. A partir. Engolida pelo coisa alguma. Devorada pelo ocre-carmim. Foi-se ela. Foi-se. Sumiu.

E aquele que, a partir dali teria que ser meu pai, tomado pelo não se entender. Ele não entendia a si mesmo. Por que aceitara receber aquela criança? Por quê?

Foi-se minha avó. Para nunca, nunca mais.

E para a casa de João Xavier eu fui.

Eu?

Esse eu quem sou?

Sacudo-me a rir...

Estou com a cabeça apoiada no colo de minha filha, as costas esparramadas no chão frio... Ao meu redor, uma procissão. Um Círio a esperar que eu lembre... De tudo...

Então, explico. Essa quem sou?...

Maria. O nome que receberia de João. Maria. A do rumo dessa história que já iniciei a lhes conceder...

Maria.

Dos mil caminhos... Senhora de todos os passos...

2 comentários:

  1. Muito lindo o texto do Carlos Correia. Parabéns.

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  2. Fernando, agradeço em nome do Carlos seu comentário, valorizado por vir de quem vem, um grande nome das letras amapaenses.

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