sábado, 31 de dezembro de 2011

Daniel Piza (1970-2011)


Confesso que listas/ retrospectivas de final de ano me incomodam um pouco. Um pouco porque sempre é questionável, ao se pensar em arte, dizer que A e B foram os melhores (e por que não C? Ou Z?). Mas, principalmente, porque essas listas, invariavelmente, são elaboradas e publicadas com o ano ainda em curso (o ideal seria que saíssem ali pelo dia 3 de janeiro). O modo atual gera um problema técnico: sempre poderá acontecer algo, antes das 23h59 do dia 31 de dezembro, que merecesse ser incluído. Como, por exemplo, o falecimento neste dia 30 de Daniel Piza, uma grande perda para o Jornalismo Cultural deste país. Piza estava em Gonçalves (MG), passando o final de ano com a família, quando sofreu um AVC.

Advogado de formação, Piza desenvolveu sua carreira de jornalista praticamente toda em diários paulistanos - O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil. Como, durante muito tempo, minha atenção, fora a imprensa gaúcha, estava mais voltada para os jornais cariocas (nos anos 80, cheguei a ser assinante do Jornal do Brasil, que recebia pelo Correio com uma média de dois a três dias de atraso, quando morava em Bento Gonçalves, RS), só fui tomar conhecimento do trabalho de Piza quando ele, nos anos 90, revolucionou o caderno cultural da Gazeta Mercantil - a começar pela providência, que hoje parece óbvia, de estender a agenda cultural do caderno para incluir eventos de todo o Brasil, já que o jornal tinha circulação nacional, com impressão simultânea em várias capitais. Também curtia no caderno os textos mais aprofundados e melhor redigidos que a média dos impressos. Mas só vim a saber que era Piza o responsável pela maior qualidade do caderno da Gazeta em 2005, quando li seu livro Jornalismo Cultural, publicado dois anos antes pela editora Contexto, onde, além de abordar teoria e história desta área do Jornalismo, Piza relatou sobre sua própria trajetória, incluindo textos seus comentados quanto à apuração e à redação - o que é muito raro na bibliografia brasileira dedicada ao Jornalismo.

A leitura desta obra, junto a outras recomendadas pela professora Cida Golin (entre as quais destaco Culturas e Artes do Pós-humano, de Lucia Santaella, me foi fundamental para a formulação do curso de Jornalismo Cultural que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo convidou-me a desenvolver e que seria realizado pela primeira vez em outubro de 2005 (seria, porque surgiu outro convite, da Fundação Getúlio Vargas, para eu falar sobre o mesmo tema no MBA de Gerência em Jornalismo que realizava em Belém, em agosto de 2005). O curso, por sua vez, deu origem ao site (hoje blog) Jornalismo Cultural.

Em agosto, publiquei aqui um trecho da entrevista que Piza concedera a Márcia Carvalho, do Diário do Pará (Belém). Em sua homenagem, atualizei há pouco o post, incluindo agora a íntegra da entrevista publicada às vésperas da participação dele na Feira Pan-Amazônica do Livro. Confira: http://vamosfalar-jornalismocultural.blogspot.com/2011/08/daniel-piza-industria-cultural-nao-tem.html

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