sábado, 7 de abril de 2012

Recomendamos: Exposição Guerra e Paz - Portinari (SP)


Você tem ainda duas semanas para ir ver (ou rever, conforme o caso) a exposição Guerra e Paz, em cartaz no Memorial da América Latina (São Paulo). O evento, inaugurado em 6 de fevereiro, o dia do cinquentenário da morte de Cândido Portinari, se constitui numa rara (raríssima!) oportunidade para o público brasileiro apreciar os painéis Guerra e Paz, que o artista pintou entre 1952 e 1956 e que desde 1957 se encontravam no edifício-sede da ONU, em Nova York. Ou seja, tratam-se das obras-primas do maior artista plástico brasileiro, numa visitação com acesso gratuito. Literalmente imperdível.

O acesso é facílimo, se você for de metrô desça na Estação Barra Funda, basta atravessar a rua pela passarela em rampa e você já desce dentro da área do Memorial. Se for de ônibus, o ponto final também é junto da estação do metrô. O horário de visitação é das 9 às 18h, de terça a domingo, até 21 de abril.


Painel Guerra, antes da restauração

Em 2010, a ONU anunciou uma reforma em seu prédio. O diretor-geral do Projeto Portinari, João Candido Portinari, filho do artista, percebeu a oportunidade única de realizar um antigo sonho: trazer os painéis ao Brasil para sua completa restauração. A autorização foi concedida e os imensos quadros (cada um tem 14x10 m) foram restaurados à vista do público em atelier aberto entre os meses de fevereiro e maio de 2011 no Palácio Gustavo Capanema (Rio de Janeiro) - um prédio que já era ligado à história de Portinari. Ali funcionava na década de 1930 o então Ministério da Educação e Saúde, que recebeu do artista azulejos na parte externa e pinturas sobre os ciclos econômicos do Brasil (borracha, ouro, café...) na parte interna.

O local no Memorial onde se encontram atualmente os painéis também já tem relação antiga com Portinari. Guerra e Paz estão no chamado Salão Tiradentes, que abriga os painéis Tiradentes, adquiridos em 1970 pelo Governo de São Paulo do colégio em Cataguases que os encomendara em 1949. Para não interferir na apreciação dos painéis da ONU, as pranchas que formam o Tiradentes estão cobertas enquanto durar a atual exposição. (Já fica a dica: mais adiante, retorne ao Memorial para ver o painel e os diversos estudos que estão ali em exposição permanente. Na mesma sala, e agora também cobertos, existem azulejos do artista argentino radicado na Bahia Carybé. Vale a visita.)

Outro espaço, a Galeria Marta Traba, tem expostos cerca de 100 estudos preparatórios dos painéis (a maioria do Guerra), inclusive as únicas maquetes coloridas em que se podem ver as obras inteiras (veja abaixo uma das maquetes do Guerra). A galeria também tem inúmeros recortes de jornais da época (onde descobri, por exemplo, que os primeiros nomes em que Portinari pensou para as obras foram Destruição e Confraternização), falando inclusive do problema de saúde que acometeu o artista na época deste trabalho: o envenenamento que ele sofria por causa de alguns componentes das tintas (e que acabou por vitimá-lo, em fevereiro de 1962, aos 58 anos). Inicialmente, achou-se que o problema era uma reação alérgica, porém como ele seguia apresentando sangramentos os médicos acabaram por localizar o real problema. Foi então que um médico disse a Portinari: "Você não pode mais pintar" e ele respondeu (ou pensou em voz alta?): Estou proibido de viver!

Maquete do Guerra

Felizmente para nós, Portinari optou por seguir vivendo-e-pintando, nos legando estas duas obras-primas. Pode-se dizer que, em Guerra e Paz, o artista fez uma síntese de sua obra. Podemos ver, em Guerra, por exemplo, as mães súplices com filhos mortos presentes na série Retirantes; já em Paz, são perceptíveis os meninos de Brodósqui, cidade paulista onde o pintor nasceu em dezembro de 1903. Os estudos expostos mostram que Portinari chegou à síntese como um processo de trabalho, e não como uma determinação a priori - se Guerra pouco se alterou ao longo dos quatro anos de preparação, Paz teve várias versões até que Portinari se decidiu a colocar na tela a infância do menino Candinho.

Outra dica: se puder, vá visitar a exposição durante a semana. De terça a sexta, o visitante pode permanecer o tempo que quiser no Salão Tiradentes. A cada 30 minutos, é exibido um vídeo sobre os painéis. Já aos sábados e domingos, o acesso é limitado a 20 minutos, o tempo entre uma exibição do vídeo e outra.

Há outros três vídeos na galeria Marta Traba, exibidos em sequência ininterruptamente, num total de 20 minutos, mostrando a história dos painéis e de sua restauração. Já na Biblioteca Latino-Americana, são projetadas todas (eu disse todas) as obras do artista - cerca de 5 mil! Para ver tudo, são necessárias nove horas (as monitoras da exposição me falaram que já houve quem assistisse a projeção inteira!). Para quem não tiver tanta disposição, as obras constam do Catálogo Raisonné à venda também na Biblioteca, em livro (5 volumes) ou em CD-Rom.

Painel Paz, restaurado

Volto a dizer: a mostra é imperdível. Depois de São Paulo, só estão confirmadas outras duas exposições, em Tóquio e Oslo, e de lá os painéis retornam à ONU, onde a possibilidade de pessoas como nós entrarmos para vê-los é nula.

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