quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Altamiro Carrilho (1924-2012)(2)



O ETERNO JOVEM ALTAMIRO



Num bar da Alemanha, Altamiro Carrilho e Johann Sebastian Bach estão sentados a uma mesa, cada um com seu canecão de cerveja, conversando animadamente. Certa hora, o flautista brasileiro resolve falar ao mestre alemão sobre o choro, que, em suas palavras, deu origem aos demais “42 ritmos genuinamente brasileiros registrados pelo maestro Guerra Peixe, fora os 25 que os baianos inventam todo dia”. Bach mostrou-se vivamente impressionado com tudo isso, e quando Altamiro lhe revelou sua intenção de aproveitar fragmentos de músicas de Bach em uma composição, o mestre não se fez de rogado:

- Está tuto muinto bem, pode usar meus músicas no seu chorrô!

É assim que Altamiro explica o nascimento de sua composição “O Eterno Jovem Bach”, a partir dessa autorização obtida em sonho. Confesso que me falta um conhecimento mais profundo da obra de Johann Sebastian para reconhecer os tais fragmentos, mas é possível notar um certo clima barroco no choro, aquele maneirismo setecentista – e com muito menos voltinhas!

O aproveitamento da obra (e/ou do clima delas) de Bach por compositores brasileiros não é nenhuma novidade. Nosso maior letrista, Vinicius de Moraes, colocou versos em “Jesus, Alegria dos Homens”, dando-lhe ainda um andamento de marcha-rancho e um novo título, "Rancho das Flores". Heitor Villa-Lobos fez uma série célebre de nove “Bachianas Brasileiras”, enquanto Paulinho Nogueira, mais modesto, compôs várias “Bachianinhas”. Este tipo de integração entre o repertório popular e o de concerto é saudável e freqüente.

O que não é freqüente (mas é saudável!) é um flautista popular atuar junto a uma orquestra solando um concerto de Wolfgang Amadeus Mozart. Como Altamiro fez, com a Orquestra Unisinos regida por Roberto Duarte, interpretando o “Concerto nº 1 em Sol para Flauta e Orquestra”, dias 24 de agosto de 2003 na Unisinos (São Leopoldo – RS) e 27 no Teatro da AMRIGS (Porto Alegre – RS). Altamiro tocou esse concerto a primeira vez em 1972, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nessa apresentação do dia 27, Altamiro incluiu na cadência do final do 2º movimento citações de “Brasileirinho” (Waldir Azevedo), “Urubu Malandro” (Louro) e “Tico-Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu), enquanto um solo no 3º movimento incluiu “Prenda Minha” (tema popular gaúcho) e “Hino Nacional Brasileiro” (Francisco Manuel da Silva – Osório Duque Estrada). Ainda com a orquestra, tocou Pixinguinha: “Ingênuo”, “Rosa” e “Carinhoso” (no qual regeu o coral da platéia). Pixinga foi lembrado ainda com a “Fantasia sobre ‘Carinhoso’” que Altamiro compôs em 1973, na noite em que o autor de “Um a Zero” foi convocado para tocar flauta no céu. A “Fantasia...” traz o tema principal em vários andamentos, entremeado ao tema secundário, que entra mais como citação.

O concerto ainda teve Patápio Silva, com um trecho de “Primeiro Amor” em que Altamiro mostrou grande fôlego, e com “Zinha”, tocada duas vezes – na primeira, o flautista encerrou a polca com notas bem agudas, provando o domínio pleno de seu instrumento.

  • Making off: este comentário foi publicado no site Brasileirinho no final de agosto de 2003, pouco depois do concerto de Porto Alegre. Motivou o envio do seguinte e-mail de Altamiro:

Olá, Fábio! Tudo ótimo! Bela matéria. Há uma outra letra feita sobre "Jesus, Alegria dos Homens", de autoria do saudoso Miguel Gustavo, usando o andamento de marcha-rancho. Era um jingle da Banha Rosa. Um abraço musical. Altamiro Carrilho

  • Posteriormente, o flautista me comentou que encomendou tradução do texto para o francês e o alemão, passando a enviá-lo junto com seu currículo sempre que havia solicitações de contratantes do exterior. :) 


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