domingo, 14 de outubro de 2012

Exposição Salvador: 50 faces da discriminação sexual


Por Calila das Mercês, de Salvador
 “Eu amo meu país, mas meu país não me ama. Eu morreria para defender a liberdade do meu país, mas meu país não faria o mesmo por mim. É uma mentira, minha vida é uma grande mentira em um país que me faz sentir o tempo todo que eu deveria estar envergonhado, porque sou um homem com sentimentos por outros homens e não por mulheres... Este é o meu crime...” S. 27 anos. Damasco, Síria 
Etiópia

“Minha família disse claramente o que pensava das “pessoas como eu”. Minha mãe me explicou que elas eram doentes. Meu irmão me disse uma vez que ele queria que Deus pudesse matar todas elas. Ouvi-los dizer isso foi extremamente doloroso. Eu me sinto terrivelmente em conflito comigo mesmo atualmente: eu não tenho sido capaz de conciliar a minha espiritualidade com a minha sexualidade.” N. 32 anos. Porto da Espanha. Trinidad e Tobago.

Verdadeiros gritos sofridos. Assim são as 50 fotografias com seus respectivos desabafos que fazem parte da exposição fotográfica “Condenados – no meu país, minha sexualidade é um crime, aberta no dia 3 de outubro no Centro Cultural dos Correios em Salvador. Resultado da pesquisa do jornalista e fotógrafo francês Philippe Castetbon (à esquerda), a mostra  revela o cotidiano difícil dos homossexuais que vivem nos 80 países nos quais este tipo de relação é condenada.
Rostos escondidos, testemunhos fortes e leis que condenam. Philippe, em sua pesquisa sociológica, através da internet e de forma aleatória, criou uma relação de confiança com homens de diferentes países do mundo onde ser homossexual é considerado crime, e em alguns casos com pena de morte. “Estes homens estão condenados ao terror, mentira, humilhação, exclusão, prisão e violência, fuga ou morte. Vivendo em regime de opressão e perseguição, a internet tornou-se um escape. Nesse espaço de liberdade temporária, eles podem encontrar conforto, conversar com os seus pares e afins, quebrar a solidão, e talvez se apaixonar”, afirma Philippe, também curador da mostra. O medo de ser reconhecido e discriminado, além de perder seus direitos civis e até a própria vida, predomina em todas as histórias.
Guiana

“Este projeto, iniciamos ano passado e Salvador é a segunda cidade da América Latina que trouxemos depois de percorrer por diferentes cidades da Europa. Este é um tema muito importante para ser discutido na comunidade latino-americana. o foco principal deste evento são os direitos humanos. É fundamental trazer este debate para a sociedade brasileira, até como proposta de resgate da tolerância”, conta Dario Gularte, um dos produtores do evento. 
A assessora de comunicação dos Correios, Ana Nery, acredita que “é uma contribuição fundamental que os Correios dão para a construção de um mundo melhor, com as pessoas protagonistas dos próprios destinos, com responsabilidade social, a fim de construir uma sociedade mais fraterna, mais igualitária, respeitando os direitos individuais de cada pessoa”.

Pela lei, no Brasil, a homossexualidade não é crime desde 1831, mas de janeiro a junho deste ano, foram registrados, segundo a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), 165 homicídios de gays, travestis e lésbicas. O número é 28% maior do que de igual período do ano passado. A Bahia ocupa, de acordo com a pesquisa feita através de noticiários de jornais, o terceiro lugar com 14% dos homicídios homofóbicos, ficando em primeiro e segundo lugar, respectivamente os estados de São Paulo (19%) e Paraíba (15%), de acordo com o levantamento. A entidade afirma que há subnotificação em sua base de dados, por levar em conta só o que saiu na mídia, e diz que os números reais devem ser maiores.

A mostra foi considerada "chocante!" pela pedagoga Simone Amorim, uma das visitantes. "Eu me identifiquei com alguns depoimentos e vi algumas pessoas que passaram por coisas muito piores do que eu. Em 80 países, ser gay é crime, é como se fosse algo abominável. É triste ingerir isto! Em todos os lugares, deveríamos ter eventos como este. É uma forma de mostrar para as pessoas que sofrem que elas não estão sozinhas. É importante destacar que, apesar de tudo, aqui no país há um avanço. Hoje a gente tem uma parcela significante de simpatizantes. São através da luta responsável, passeatas conscientes, paradas gays que avançaremos mais”.
Paulette Furacão, Philippe Castetbon e Dario Gularte

Nos meses de outubro e novembro, será realizado um ciclo de debates no local, com convidados especiais, dando continuidade à proposta da exposição, além do lançamento do livro que carrega o nome do evento. “Esta exposição mostra como o LGBT é de verdade, como ele se sente. Tiram da invisibilidade estas questões que são internas para que a gente possa estar discutindo”, afirma Paulette Furacão, representante da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos Bahia.
Serviço
Exposição “Condenados – no meu país, minha sexualidade é um crime”
Local: Centro Cultural Correios Salvador - Praça Anchieta s/nº – Pelourinho – Centro Histórico de Salvador (BA)
Horário: de segunda a sexta, das 10 às 18 horas; sábado, das 8 às 12 horas
Entrada: franca
Recomendação etária: 14 anos 
Visitação: de 4 de outubro a 16 de novembro de 2012
Lançamento do livro “Condenados – no meu país, minha sexualidade é um crime”: dia 18 de outubro, às 16h
 Ciclo de debates:
1º debate: dia 18 de outubro, às 16h – “Os Direitos Humanos e a homossexualidade no Brasil e no mundo”, com Gustavo Bernardes (Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal) e Paulette Furacão (Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos Bahia).
2º debate: dia 25 de outubro, às 16h – “Saúde física e psíquica das minorias sexuais”, com Eduardo Barbosa (Ministério da Saúde) e Javier Angonoa (Consultor da Iniciativa Laços Sociaids – parceria UNAIDS e Governo do Estado da Bahia).
3º debate: dia 01 de novembro, às 16h - “O papel social da arte”, com Luiz Mott (antropólogo, historiador e fundador do Grupo Gay da Bahia) e Angela Elisabeth Lühning (UFBA / Fundação Pierre Verger).

6 comentários:

  1. Excelente reportagem!!!

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  2. Sim, interessante. Uma reportagem que ainda não vi, e que sairia original seria a do assédio que os heterossexuais sofrem por parte dos gays, o que é uma violência constrangedora e que causa muito asco.

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  3. Agradeço a visita, Camila e Marcos.

    Marcos, agradeço também a sugestão, no caso este blog é cultural, ou seja, aborda os temas comportamentais através de sua manifestação nas artes, como é o presente caso. Você saberia indicar alguma obra (filme, peça, livro etc) que aborde esse tema?

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  4. Fábio,

    Não conheço o assunto, só comentei por indicação de outro blogue. Vi que você também escreve sobre Noel, tenho a Discografia Completa do cara, feita por Omar Jubram para a Funarte, e a biografia feita pelo João Máximo e Carlos Didier; tinha a biografia feita pelo primo de Noel, Jacy Pacheco, mas presenteei um professor com a referida obra.

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  5. Muito bom o texto.
    Fui conhecer essa exposição e o que vi foi realmente sem palavras. Fiquei muito tocada, triste por aqueles seres humanos tratados de forma tão vergonhosa.
    Vale a pena conferir.

    Parabéns pelo site.

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    1. Obrigado pela visita e pelos comentários, Simone, volte sempre!

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