sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Kiko Dinucci: música além de rótulos


Por Calila das Mercês,
Enviada especial a São Paulo
Fotos: Rafael Casarini 
(exceto com indicação em contrário)


Contratempos e improvisos. Depois te algumas tentativas e remarcações, combinamos de nos encontrar na estação República, centro da cidade de São Paulo, na catraca de saída do metrô. Uma quarta-feira primaveril, destas de ninguém botar defeito. Tempo ameno, e nada de extremos – nem sol escaldante, tampouco frio ou chuva (ainda bem!).


O dia era cinza, para não variar, diretamente proporcional a quantidade de gente que cruzei pelas ruas. Cidade grande é apelido para São Paulo. E é nesta imensidão de lugar que se esconde aparece Kiko Dinucci, cantor, compositor, músico, enfim, um dos relevantes e corajosos artistas da nova geração. Além de simples e divertido, o Kiko nos mostrou pontos turísticos e lugares interessantes da cidade de São Paulo. Nada de cordas para a nossa conversa, vivemos uma tarde maravilhosa, regada apenas a alguns amigos, histórias e opinião sobre o atual contexto musical.

NR: A entrevista foi realizada em outubro, antes do lançamento do CD MetaL MetaL

Mundo, pra que vim?

Músico que faz cinema
Artista-plástico que canta
Violão que desenha, desanda
Cineasta que pinta
Gravura que compõe música-canção
Chão de São Paulo
Tragicomédia, exagero
Drama em quadrinhos
Arma branca na mão
O Diabo tenta
Se a poesia luzir
Toda arte sopra
Sem olhar a ferramenta
(cinema, HQ, música, gravura, desenho, conversa fiada...)
(Kiko Dinucci – 19 de maio de 2007)



“Office boy, entregador de jornal, operário em fábrica de canudo, em fábrica de papelão, pintor de parede, desenhista copista. Já trabalhei com tudo isso aí. Hoje sou um cara que vive de música. Sobrevivo de música, nem vivo. Não posso reclamar, mas não é fácil”, diz o cantor, compositor e músico Kiko Dinucci, que agora em novembro, lança o seu mais novo trabalho em parceria com Juçara Marçal e Thiago França, intitulado “Metal Metal”, sucessor do “Metá Metá”.

Composições cinematográficas, narrativas, cheias de histórias da vida paulista e paulistana. Quem ouve Kiko Dinucci certamente é transportado, em algum momento, de onde vive para a maior cidade do Brasil. Ele nasceu em São Paulo, mas viveu os primeiros anos em Guarulhos, município que teve o boom industrial entre os anos 50 e 60, junto com o ABC (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano). É a segunda cidade, não capital, mais populosa do Brasil e também está em segundo lugar na captação de Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Mas, a vida cultural ainda é precária, segundo ele. “Guarulhos foi o lugar que cresci. Esta São Paulo romântica que você está vendo, eu conheci aos dez anos de idade. Depois eu comecei andar aqui para ir ao cinema, teatro, estudar, ir à Galeria do Rock comprar discos... Eu tenho uma relação de deslumbre com São Paulo, por causa deste menino guarulhense que vinha passear aqui”, conta o músico que aprendeu tocar violão sozinho quando adolescente. 

DE “METÁ METÁ” A “METAL METAL”




Três ao mesmo tempo, é a tradução mais próxima em língua iorubá da expressão metá-metá, nome do álbum considerado por críticos musicais e blogueiros do segmento como um dos melhores discos de 2011. O CD traz um som particular e irreverente da cultura africana acoplado ao samba. “Em breve, estarei lançando também com a Juçara Marçal e Thiago França o MetaL MetaL, como o próprio o nome já sugere, este nada tem a ver com o Metá Metá, terá um som mais pesado”, afirma Kiko, que no final de outubro postou no Soundcloud a composição "Oya", como uma pequena amostra do disco. 




Gravado em junho de 2012, MetaL MetaL traz consigo doses de punk, metal, free jazz, noize, música africana, latina, brasileira. Segundo os três componentes do álbum, “MetaL MetaL carrega uma ironia em seu nome, uma discussão sobre o que é tocar rock hoje em dia. Contrapondo-se ao gênero, que, muitas vezes se apresenta desgastado, com fórmulas limitadas que se repetem há décadas.” Embora o álbum dialogue com o rock como atitude, eles não deixam o meio urbano, a cidade e o contemporâneo de lado.


Kiko, Jussara e Thiago
Foto: Divulgação

Antes do Metá Metá, Kiko já havia gravado  "Volume I Ep" (2006), com o Bando Afromacarrônico; Padê (2007) em parceria com Juçara Marçal; Pastiche Nagô (2008),  com o Bando Afromacarrônico;  O Retrato Do Artista Quando Pede (2008), com Douglas Germano (com o qual forma o Duo Moviola); Na Boca Dos Outros (2010, com vários intérpretes); e Passo Torto (2011, com Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral). Sempre surpreendendo, por trafegar por vários estilos. “Eu me sinto livre em fazer o que quero. As pessoas ligadas à música poderiam ser mais corajosas. Muita coisa que componho acho fácil e acessível. Eu tenho como regra a surpresa. Eu tenho que surpreender. Quem assistir a um show meu num dia, não vai vê-lo de forma igual novamente, nunca farei a mesma apresentação”, completa.

MAIS FACES                                                                                         

“Acho que foi a primeira coisa e é o que mais conquistei: o prestígio”. Ao tentar definir fama e ídolos, Kiko, que não se acha famoso, recorda momentos da vida e fala em nomes de músicos que o emociona.

“Lembro que na infância, eu vinha aqui com meu pai, aqui na Galeria Metrópoles. Tinha um cinema, que está fechado há mais de 20 anos, assisti a um filme do Luc Besson, Subway, um filme meio hollywoodiano, dos aos 80. Meu pai me pegou no metrô e me trouxe aqui... Adoro cinema, até mais que música, e espero um dia voltar trabalhar com cinema. Minha música é cinema. São cenas. Eu transfiro muito isso pra música. Minha literatura é narrativa”, conta o artista que produziu e dirigiu, em 2010, o longa-metragem Dança das Cabaças - Exu no Brasil, em que fez uma investigação poética sobre a divindade africana Exu no imaginário brasileiro, projeto contemplado pelo FunCultura de Guarulhos-SP.


Maurício Pereira, Ná Ozzetti, André Abujamra, Arrigo Barnabé, Siba, Suzana Sales... “Eu tive essa sabedoria de acumular ídolos viáveis, ídolos com os quais você vai poder tomar um café um dia. São pessoas simples, que eu já me sinto realizado”, explica ao ser questionado sobre os ídolos. “Estes caras para mim são ídolos. São pessoas que me emocionam”. 


Kiko já atuou também como músico na peça teatral Zumbi, de Paulo Fabiano, e no longa-metragem Carandiru, de Hector Babenco. Como artista plástico, desenvolve trabalhos em gravura, desenho e pintura. Ilustrou o livro Salmos de Itaquera, de Fabiano Ramos Torres. 

PROJETOS 

Sobre o futuro, Kiko fala: “Ano que vem vou lançar um disco de punk. O punk pode ser muitas coisas. Quando comecei a escutar samba, percebi que samba é punk. O Cortes Curtos vai ser isso! As letras trarão uma São Paulo meio caótica. Será separado em cidade, desejo, solidão e morte. Estes serão os temas. Serão dois guitarristas, eu e o Rodrigo Campos. Dois sambistas tocando guitarra!”

Quer saber a agenda completa do Kiko? Acompanhe a página dele no Facebook clicando aqui.

2 comentários:

  1. Muito bom conhecer um pouco mais do Kiko. A "matéria" está uma delícia de ler, tanto que chamá-la de "matéria" é até uma indelicadeza para um texto tão leve. Parabéns!

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  2. Texto maravilhoso! Não conhecia o artista, mas já estou pesquisando sobre ele...
    "Sobrevivo de música, nem vivo" - tão Brasil!

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