segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Canto da Sereia

Após o lançamento do livro Noites Tropicais (2000), o escritor e produtor Nelson Motta (foto ao lado) recebeu inúmeros convites para palestras. Para ele foi um prazer redescobrir o Brasil depois de 10 anos nos Estados Unidos. Não tinha definido ainda seu próximo projeto, quando recebeu um pedido de sua mãe, dona Xixa:

- Meu filho, escreve ficção. 

Pedido anotado, Nelson foi passar o carnaval na Bahia e se fascinou. Ao voltar ao Rio de Janeiro, falou desse fascínio durante um almoço com Patrícia Melo, que adaptava Noites Tropicais para a televisão. Patrícia lhe deu o mote:

- Escreve sobre isso. Assassinato, um detetive baiano...

Nelson foi para casa e escreveu O Canto da Sereia – Um Noir Baiano (Ed. Objetiva). Como é normal acontecer, depois que as coisas estão no papel o escritor adota um olhar “externo” e começa a questionar sua produção: Sereia era nome de cantora? Por que não, se tem Madonna? Depois, deu-se conta que Sereia era um achado: essa figura mitológica de origem grega (metade mulher, metade peixe) na Bahia é associada com Iemanjá.

O próprio autor define, em rápidas pinceladas, o tema central da obra:


- Um marqueteiro e um produtor musical pegam uma garota desconhecida e em dois anos constróem uma superstar.

Ou seja, mesmo escrevendo ficção pela primeira vez, Nelson estava percorrendo um universo muito familiar:

- O livro expõe as entranhas do mundo do disco, do jabá. Poucas vezes se expôs tanto o show business. O jabá é um horror, um crime, um abuso sobre o consumidor, sob o ponto de vista moral, social e cultural. O presidente de uma gravadora me contou que seu diretor de marketing pagava jabá para as rádios e recebia comissão das rádios! Ganhava dos dois lados!

Isis Valverde como Sereia
na minissérie da TV Globo (2013)

Falar de música na Bahia hoje remete, inevitavelmente, ao tema da axé music, que virou moda, e, segundo o experiente produtor, “toda moda vira chatice. Daniela Mercury e Carlinhos Brown ficam envolvidos por muita porcaria. A moda é criada para sair de moda. Algo faz sucesso, todos imitam e tudo fica muito nivelado.”

Mesmo assim, considera que o carnaval baiano é melhor que o carioca:

- O carnaval do Rio é fascista, espreme o desfile para a TV. Na Bahia é democrático, todos cantam, se alegram. A variedade musical da Bahia bate a do Rio.

O escritor Luís Augusto Fischer, em debate reunindo Nelson e o jornalista Ruy Carlos Ostermann, realizado em Porto Alegre em 16 de novembro de 2002 (do qual extraímos as declarações incluídas neste artigo), disse enxergar reflexos do tema da peça Roda Viva, de Chico Buarque, n’O Canto da Sereia. Nelson discorda:

- As carreiras na música popular na década de 60 e nos anos 2000 são muito diferentes. No meu livro, um publicitário, Tuta Tavares, cansa de vender produtos dos outros e cria Sereia como um produto seu.

O agente literário de Nelson quer que O Canto da Sereia vire filme, mas já sabe que não tem o apoio do autor: “Eu não ambiciono. Evitei a tentação do cinema.”

Sua idéia, desde o início, era fazer uma literatura pop, sem pretensões literárias, para entreter as pessoas mesmo.

- Fiz duas páginas falando, como se fosse para um estrangeiro, como é o carnaval, o trio elétrico. Mais que isso enchia o saco, o leitor foge. Não quis vender macumba de turista. Não gosto de livro que em cinco, dez, quinze páginas não acontece nada. Um saco. Gosto de livros que são considerados “de segunda” (categoria), com tramas elaboradas. Recomendo John Grisham. A literatura de entretenimento é dificílima, bem como a música popular de sucesso. Quero sempre levar o leitor até o próximo parágrafo.

E o cenário ser a Bahia era fundamental neste processo:

- Tambores, terreiros e candomblé convivem na Bahia com celular e internet. Todos estão em rede: na rede de deitar ou na internet... O ancestral se integra com a tecnologia. O trio elétrico é alta tecnologia de entretenimento. Dentro do trio tem camarim, chuveiro, gerador. É um hardware. Na Bahia tudo se mistura. O terreiro de candomblé é um centro social, exige sacrifício. Mãe Marina (personagem do livro) era universitária, falava inglês, curtia som pop. O candomblé pode ser responsável pela liberdade sexual e harmonia social na Bahia, aumenta a tesão e diminui a tensão.

Entre as coisas o fascinam na Bahia, destaca o que define como dengo viril:

Antônio Carlos Magalhães e Dorival Caymmi têm o dengo viril. O cara revira os olhinhos, mas é supermacho – só tem na Bahia!

Eles, bem como outros baianos famosos, são incluídos na trama, numa liberdade criativa assim justificada pelo autor:

- Usei pessoas reais com parcimônia, mas elas não têm fala. Como fazer algo sobre o carnaval da Bahia sem Gilberto Gil, Daniela, Caetano?

A ligação de Nelson com a Bahia vem de longa data:

- Jorge Amado foi meu encontro com a literatura, aos 12 anos, logo após Monteiro Lobato. Gabriela, Cravo e Canela me marcou para sempre. Em 1966, ganhei o Festival Internacional da Canção com “Saveiros” (parceria com Dori Caymmi), inspirado em Jorge Amado e Dorival Caymmi. Apesar da minha expectativa com a Bahia, não me decepcionei. Tenho grandes amigos baianos: João Gilberto, Caetano Veloso, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Mãe Menininha do Gantois, Daniela Mercury... A Bahia é meu carma, minha sina.

Cumprindo sua sina, Nelson já começara na época deste debate a produzir Daniela, “acho que vai ser um salto na carreira dela”. O primeiro fruto dessa parceria foi o CD Eletrodoméstico (BMG), lançado no programa MTV Ao Vivo em março de 2003.


** Making off do texto: Publicado no site Brasileirinho em 2003, a partir das anotações que eu fizera no dia do debate sobre o livro no ano anterior. O livro foi adaptado pela TV Globo para uma série estrelada por Isis Valverde, a ser exibida de 8 a 12 de janeiro de 2013.

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