segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Gaita no Sul = Sanfona no Nordeste

A sanfona foi criada na Europa por C. Buffet em 1827 e chegou ao Brasil entre 1836 e 1851, através dos imigrantes alemães do Rio Grande do Sul. Na época, o instrumento já era chamado "gaita" no Sul, como até hoje. A gaita passou a ser considerada o instrumento ideal para acompanhar bailes, substituindo o violão e a rabeca, de pouco volume sonoro, e dispensando até cantor. Os italianos, a partir de 1875, além de trazerem mais gaitas, também começaram a fabricá-las aqui. A primeira fábrica de gaitas no Brasil foi criada pelo casal Cesare Arpini e Maria Savoia no final do século 19 no atual município de Santa Tereza, na Serra gaúcha. Outras fábricas aparecem em seguida em Garibaldi, Caxias do Sul e Bento Gonçalves.

O surgimento da primeira gravadora gaúcha, a Casa A Elétrica, em 1913, em Porto Alegre, possibilita a gravação dos primeiros solos de gaiteiros como Moisés Mondadori (que usava o nome artístico Cavaleiro Moisé) e Lúcio de Souza.

Em 1939, o catarinense Pedro Raymundo (1906-73) forma em Porto Alegre o Quarteto dos Tauras, com o qual se apresenta no rádio e excursiona pelos estados do Sul em 1943. Desfeito o conjunto, Raymundo segue para o Rio de Janeiro, onde se destaca em programas de calouros e emplaca o primeiro sucesso: "Adeus Mariana". Raymundo projeta no país a figura de gaiteiro gaúcho e influencia o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989) a valorizar a cultura nordestina, lançando o baião em 1946.

Luiz Gonzaga

Gonzaga é o maior fruto da difusão da gaita pelo Nordeste do país, onde é chamada sanfona, depois da Guerra do Paraguai (1864-1870). A integração do instrumento às festas populares no Nordeste foi idêntica à do Sul. Havia bailes de quinta a domingo todas as semanas, com sanfoneiros requisitados como Januário dos Santos, pai de Luiz Gonzaga. Além de tocar, Januário consertava e afinava sanfonas, tendo sempre diversos instrumentos em casa. Luiz começou a tocar escondido quando o pai saía para os bailes; Januário descobriu mas acabou aprovando: ao ver que o menino levava jeito para a música, pediu que ele o auxiliasse na afinação e em seguida, com apenas 12 anos, Luiz passou a viajar com o pai para animar bailes.

O lançamento do baião nos anos 1940 gera uma moda de sanfona pelo país, com a criação de diversas academias de acordeom mantidas pelo gaiteiro (e fabricante) Mário Mascarenhas em várias capitais brasileiras. A sanfona figurou até na gravação do primeiro rock brasileiro, "Enrolando o Rock" (Betinho - Heitor Carrillo), por Betinho e Seu Conjunto (1957). A sanfona só entrou em declínio como instrumento preferido da música popular a partir da bossa nova, em 1958, substituída pelo violão.

Curiosamente, enquanto nas outras regiões do país a sanfona era muito admirada, no Sul acontecia o inverso. Os costumes típicos do interior não eram considerados válidos pelos habitantes da capital gaúcha, que buscavam alinhar seu gosto pelo das metrópoles mundiais. Foi portanto com muita dificuldade que se conseguiu realizar um Baile Gauchesco no Teresópolis Tenis Club, em Porto Alegre, a 20 de setembro de 1947, durante a Ronda Crioula que marcou o nascimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Também não foi fácil encontrar músicos que tocassem músicas típicas gaúchas. A solução foi contratar a bandinha do maestro Ernani Mendes e reforçá-la com o acordeom do taxista Pedroso.

A gaita não tardou a retomar seu posto de instrumento preferido do povo gaúcho, a partir da criação dos primeiros CTGs (Centros de Tradições Gaúchas), em 1948, e do surgimento de diversos festivais nativistas (o primeiro, em 1971, sendo a Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana). Em 1977, o compositor gaúcho Radamés Gnattali escreveu um "Concerto para Acordeão, Tamboras e Orquestra de Cordas", especialmente para seu conterrâneo Chiquinho do Acordeão, promovendo assim a entrada desse instrumento eminentemente popular nas salas de concerto.

Radamés Gnattali (à flauta) com Chiquinho ao acordeon,
mais Garoto (violão) e Billy Blanco (pandeiro)

Sendo a sanfona uma criação do século XIX, fica a dúvida a que instrumento exatamente se referia o escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral que chegou à costa brasileira em 1500. Pero Vaz de Caminha cita duas vezes o termo "gaita" em sua carta, mas o mais provável é que se tratasse de um tipo de uma flauta doce, parecida com um pífaro, que em Portugal é chamada, justamente, de "gaita" (por sinal, uma palavra árabe).

Existem dois tipos básicos de sanfona: a com teclado de piano - chamada acordeom, acordeona, acordeão ou cordeona; e a gaita-ponto, com botões no lugar das teclas, também denominada gaita-de-botão. O instrumento também tem diversos outros nomes, como concertina, harmônia, harmônica, fole (ou gaita-de-foles) e realejo.

  • Making off do texto - Escrevi o artigo acima a convite de uma editora de Jundiaí (SP) em 2003, ou 2004, junto com outro texto sobre o tambor. Se lembro bem, a idéia era lançar um livro sobre musicalidade nordestina, daí o foco em sanfona e tambor. De todo modo, nunca mais ouvi falar do tal livro, optando por publicar o texto no site Brasileirinho em 2004, e no e-book Ouvindo o Nordeste em 2007. O texto também acabou me rendendo um convite para participar de um filme rodado por alunos de cinema da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Porto Alegre; gravei meu depoimento em 7 de abril de 2005. Dirigido por Fernando Basso,  o filme a princípio se chamaria Botoneras (numa referência às gaitas de botão, ou gaitas-ponto), porém estreou no Cine Santander (também em Porto Alegre) a 13 de junho de 2007 como Trilhas de Gaitas, numa sessão única, conjunta com outros curtas produzidos na PUC-RS.  Foi a primeira vez que me vi numa tela de cinema! Cheguei a comentar com o diretor, por e-mail, que estranhei me ver tão tenso na tela, eu que achei estar tão à vontade na hora da gravação... Não fiquei sabendo de exibições posteriores. 

4 comentários:

  1. Como assim Luiz Gonzaga difundiu o uso da sanfona no Norte? Ele é de Pernambuco, que fica no Nordeste, e a sanfona é muito usada no forró, baião e etc que são típicos do Nordeste. A Cultura do Norte é bem diferente da nordestina. Assim como o Sul não é igual ao Sudeste ou Centro-Oeste. Daqui a pouco vão dizer que Ariano Suassuna viveu numa tribo indígena ou que João Cabral de Melo Neto falou sobre o os igarapés de Manaus em Morte e Vida Severina??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tem razão, Anônimo, o termo "Norte" estava empregado de forma errada no texto no começo do 4º parágrafo, embora o que eu quisesse dizer ali não era propriamente a atual região Norte (formada por Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), e sim algo mais "genérico", digamos, em oposição ao termo "Sul" que aparece no mesmo trecho. É quase uma licença poética, como o uso do termo "Sul maravilha", que vi empregado pela primeira vez por baianos, referindo-se não ao Paraná e Santa Catarina, mas sim a São Paulo e Rio de Janeiro.

      Não custa lembrar que no tempo em que Luiz Gonzaga foi morar no que hoje é o Sudeste, a divisão do Brasil em regiões era diferente da atual (Rio e Bahia eram parte da extinta região Leste, e São Paulo pertencia à região Sul). E o termo mais utilizado por paulistas e cariocas para se referir a habitantes do atual Nordeste era "nortistas".

      O termo "nortista" na acepção atual de nordestino foi inclusive usada por Patativa do Assaré em "A Triste Partida", que deu título a um LP de Luiz Gonzaga lançado em 1964. Depois de abrir a letra falando em Nordeste, Patativa se refere mais adiante três vezes a "nortista" e chega a falar duas vezes em "Norte", numa delas opondo o termo a "Sul", como eu havia feito na versão original do meu texto.

      Excluir
  2. Verdade,sendo filha de sanfoneiro Severino Januario,irmão de Luiz Gonzaga conversando com amigos que queriam saber da introdução da sanfona no nordeste.O povo nordestino só foi reconhecido quando começaram a falar sobre preconceitos,e meu tio lutou muito por isso,pois o dito popular realmente era ``Norte``lugar e paraíba como pessoa.qualquer pessoa que fosse do norte ou nordeste eles chamavam assim.Fulano tem um paraíba te chamando.Indicando que seria destas regiões.Gostaria muito de saber mais detalhes sobre a vinda da sanfona específicamente no nordeste.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nina, tudo bem? Agradeço pela visita e pelo comentário.

      A maior parte das informações sobre Gonzaga e a sanfona no Nordeste eu localizei no livro de Dominique Dreyfus, "Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga", da Ed.34. Desconheço texto, de livro ou revista, que fale especificamente do instrumento.

      Excluir