segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Peça Salvador: Éramos Gays

Por Calila das Mercês, de Salvador
Fotos: Divulgação



Éramos gays / Éramos gays / Éramos um recheio de um bombom francês / O mote, o devaneio de um poeta inglês / Éramos gays...
Este é um trecho de uma das 16 canções do musical Éramos Gays,  o primeiro a ser produzido na Bahia em parceria com a Broadway, e que estreou em Salvador no dia 11 de janeiro. 

A peça, com texto da escritora e dramaturga baiana Aninha Franco e direção geral do norte-americano Adrian Steinway, mistura a linguagem do teatro dos Estados Unidos com a música da Bahia.  Aninha conta que a ideia de se fazer este musical é antiga e partiu de uma piada nos anos 1980 que acabou virando o tema do roteiro. 

A produção de musicais é ainda novidade no cenário baiano. Samba, forró, axé e até arrocha ganham versões no espetáculo que conta a história de 400 gays que alugaram um Boeing 747 e decidiram passar um fim de semana em Nova York. No meio do Atlântico, os motores falham e Alice Kate, um dos gays que estavam a bordo, decide fazer uma promessa para São Sebastião. Se fosse salva, ela entraria em um armário e nunca mais olharia para homem nenhum. Passada a tormenta, Alice sobrevive e tenta cumprir o prometido ao se enclausurar no armário. A aventura começa quando seus amigos se juntam para tirá-la do armário. 

"Não acho que é um tema polêmico. Acho que é um tema oportuno. Esse é o segundo musical de uma trilogia que começou com Os Cafajestes e termina com As Cachorras”, conta Aninha Franco, que tem planos de escrever outros musicais.


O espetáculo narra a história da sexualidade desde a Grécia Antiga até o Stonewall Day. No enredo surgem discussões acerca da intolerância, da diversidade e da liberdade de expressão. Éramos Gays se configura como uma combinação de humor, música, dança e diálogos inteligentes.

A espectadora  Fernanda Mendes se surpreendeu com a peça: “Eu não imaginava que fosse encontrar algo tão criativo, interessante e divertido. Fui assistir completamente às cegas, e nem ao menos esperava que fosse ser um musical. Foi uma surpresa muito agradável encontrar atores tão bons e uma peça tão bem produzida.”

 “Participar de um projeto da envergadura de Éramos Gays é um desafio e uma oportunidade rara porque ele amplia meus horizontes ao me colocar em contato com profissionais vindos de outras culturas. Foi um aprendizado extraordinário", afirma Jorge D'Santos, 25 anos, um dos atores da peça. "Posso dizer que todo o processo provocou uma reviravolta em minha formação e trajetória profissional, espero que a Bahia esteja se abrindo para esse nicho de mercado. E com muito estilo". Além de Jorge, o elenco é composto por mais cinco atores:  João Paulo Souza, Mario Bezerra, Felipe Velozo, Amaurih Oliveira e Daniel Rabello. Em cena, os artistas dançam, cantam e interpretam um texto revestido de muito humor.


A autora comenta: “A reflexão do musical é atual, completamente contemporânea. Estamos discutindo o agora, afinal ainda existem homens e mulheres no armário, não é? Estamos falando da humanização, da necessidade do ser humano estar bem com ele mesmo, independente da época que as cenas se passam, essa é uma montagem que vem pra provocar reflexões profundas acerca de todos nós, homens, mulheres ou gays". 

A direção musical é de Gerônimo e as coreografias do espetáculo são assinadas por Jim Cooney, um dos coreógrafos oficiais do musical Glee e famoso por seu trabalho na Broadway.

“Todo trabalho é difícil, mas a dança me ensinou a superar toda e qualquer dificuldade", comenta Jorge D'Santos. "Sempre estudei separadamente teatro e dança, juntar as três linguagens ao mesmo tempo foi o grande desafio desse trabalho, mas paralelo a isso tem o meu tesão em fazer musical, o que me conduziu o tempo todo no processo. É o meu primeiro de muitos que eu quero e vou fazer! Sinto-me pleno ao executá-lo, parece que estou descobrindo um vício! É uma delicia de desafio!”

Para o espectador Cícero Sena, jornalista, o musical foi surpreendente. “Eu gostei da forma como eles misturaram a história do que pensa sobre sexualidade com um texto divertido. Os atores falam, cantam, dançam, fazem tudo ao mesmo tempo, é um trabalho com bastante energia. 




Bastidores

O norte-americano Adrian Steinway, que mora no Brasil há 25 anos, comentou que o espetáculo será apresentado na cidade de San Diego (Califórnia, EUA). "Por enquanto, a montagem foi vendida somente para San Diego, mas a nossa intenção é fazer uma tour internacional", conta o diretor que afirma que o espetáculo aborda a humanidade, além de ter uma temática bastante tranquila e não ofensiva. No Brasil, há um convite para uma temporada do musical em São Paulo, no segundo semestre. 

O ator Amaurih Oliveira, 24 anos, conta o quanto é gratificante participar deste musical e destaca alguns trabalhos realizados em sua carreira que já tem 9 anos. “Comecei a atuar aos 15 anos de idade, lembro como se fosse hoje, fiquei sabendo de um teste para uma peça intitulada Amigas de Breves e longas Datas, me inscrevi e passei, dai não parei mais de atuar. Todos os trabalhos marcam, cada experiência lhe ensina alguma coisa, fiz muita coisa boa com o Teatro Popular de Ilhéus, grupo qual fui integrante por três anos, peças como A Vida de Galileu, do Bertolt Brecht, Cabaré da Raça com o Bando de Teatro Olodum, mas o que vem me marcando atualmente é o Éramos Gays”, conta o ator que também participou recentemente do seriado exibido pela TV Globo em 2012, Como aproveitar o fim do mundo.

Uma bateria de ensaios com o coreógrafo Jim Cooney, com duração média de oito horas por dia, fez parte da rotina de preparação do grupo de atores.


“É uma delicia participar do musical, nos divertimos muito, acredito que se nós estamos alegres no palco, vamos levar alegria para o público, é um desafio, cantar, dançar e atuar não é tarefa fácil (risos). Não foi convite, fui selecionado numa audição que envolveu mais de cem concorrentes", comenta Amaurih. "As dificuldades existem para serem superadas, tivemos muitos ensaios, discutimos bastante sobre o texto com a autora, refletimos sobre os personagens, o Adrian Steinway foi e é bastante delicado com a gente, é muito bom ver que existem diretores que respeitam o espaço individual do ator”.

Jorge D’Santos, que além de ator é bailarino e coreógrafo, explica que o trabalho do ator nunca pode parar. “É como uma árvore que a cada dia nasce algo novo, planta, nasce, cresce, reproduz, chega o momento da colheita e um dia morre para nascer novamente. Durante esse processo, a árvore muda de cor, ganha vida, interage com o espaço, da frutos, flores, cheiros... Assim é o processo de atuar... Nunca pára, está em constante movimentação. Tenho o costume de estar o tempo todo futucando, bulindo e buscando qual é a atmosfera e o universo dos meus personagens, isto consequentemente traz crescimento e potencialização do trabalho em cena”, afirma Jorge, que também, durante cinco anos atuou com bailarino da cantora Daniela Mercury acompanhando-a por diversas turnês dentro e for a do Brasil.

Ficha técnica:

Texto: Aninha Franco
Direção geral: Adrian Steinway
Direção musical: Gerônimo
Coreografias: Jim Cooney
Preparação vocal: Kiara Sasso, Ricardo Nunes e Marcus Carvalho
Assistente de direção: Jorge Santos
Assistente de coreografia: Jason Sparks
Produção executiva: 8 Bisz 

Até o dia 28 de abril | Sextas, sábados e domingos
Teatro Módulo - Pituba | 20h

Sextas: R$ 40,00 (inteira) | R$ 20,00 (meia)
Sábado e Domingo: R$ 50,00 | R$ 25,00

Ingressos na bilheteria do teatro 

3 comentários:

  1. Texto muito bem escrito e que realmente leva o leitor a ter vontade em prestigiar a peça, além é claro, de nos fazer enxergar o quanto o teatro baiano tem evoluido nos últimos anos. A Bahia, o Brasil, e o mundo precisam conhecer a verdadeira Bahia, que é Carnaval e acarajé também, mas não só isso.

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  2. Já tava morrendo de vontade de ir ver o musical, agora eu vou correndo! Ótimo texto!!!

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  3. Eu já fui duas vezes e a peça está bem retratada na matéria, o conceito é esse, discutir o homosexualismo nas mais distintas esferas e épocas, sua abrangência e influência também na cultura, artes e filosofia. O chamado à Alice, para sair do armário, é o chamado para todos os homos que não conseguem sair dos seus "armários", por alguma razão. O apelo é para quem é, isso é muito importante citar, em nenhum momento há uma indução ao homosexualismo. Portanto, fora às questões dos aprisionamentos intelectuais, religiosos e familiares que deixam pessoas sem se assumirem, vem o recheio da boa trilha musical aliada a uma coreografia fantástica, contagiante! No mais se prepare para sair com uma das "músicas chicletes" no ouvido, cantarolando até mais tarde! Parabéns turma!

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