quarta-feira, 3 de julho de 2013

Entrevistão: Sertanília

Por Calila das Mercês,
de Salvador

Cheiro de sertão, de África, de maracatu, de samba. Gosto de vento no rosto, de viagem, de céu e de gente. Som de saudade, de amores, de vida que segue. O grupo Sertanília está numa fase bastante promissora. O grupo, formado em  2010 por Aiace Félix (vocalista), Anderson Cunha (viola) e Diogo Flórez (percussão), faz uma música inspirada na sonoridade das manifestações musicais do sertão brasileiro. Confira a entrevista que Aiace e Anderson concederam com exclusividade para o Jornalismo Cultural.  

Jornalismo Cultural: Como surgiu a ideia de criar um grupo com o sertão como ponto de partida acoplado a outras vertentes musicais?

Anderson Cunha: Eu senti que era hora de realizar um trabalho voltado às minhas raízes, mas claro que junto vem toda a bagagem da minha história na música. Então a gente percebe a influência da música mineira, do rock, e da música erudita.

Anderson Cunha

Aiace Félix: Montamos o Sertanília em 2010. Na época, eu e Anderson já trabalhávamos juntos há uns três anos no estúdio dele, o Attitude, onde gravávamos alguns jingles. A partir daí ficamos amigos. Ao mesmo tempo, Anderson estava envolvido na produção de um filme sobre os chefes dos reisados de algumas cidades do sudoeste baiano. Acho que o nome do filme era “Tudo tem um Tempo”, mas ele ainda não foi lançado. A partir dessa pesquisa pro filme, Anderson me falou da vontade que ele tinha de cantar algo relacionado a manifestações como essa dos ternos de Reis, manifestações que fazem parte dessa cultura sertaneja, que cantasse seu povo, de onde ele veio. O Sertanília nasceu daí.

JC: Vocês têm alguma banda inspiradora? Algum cantor? 


Anderson: Elomar foi a principal motivação na formação do Sertanília que a princípio seria um grupo de câmara pra interpretar as obras dele. Com o tempo é que fomos tomando outras direções e ficamos mais pesados musicalmente. Aí, apareceram outras inspirações como Renata Rosa, Cordel do Fogo Encantado e Xangai. Eu tenho uma influência muito forte de alguns artistas que é perceptível na música do Sertanília como Michael Hedges, Gilberto Gil e Lenine.

Aiace: Somos influenciados o tempo inteiro pelo que vem sido produzido no Brasil ou fora dele. Nos reconhecemos em muita coisa, até pela própria mistura que é a música brasileira. O sertão que usamos como ponto de partida pra nossa música é muito maior musicalmente e culturalmente do que nos é mostrado pela grande mídia, e é diretamente influenciado pela música africana, a música indígena, a portuguesa e a música árabe.  Então somos diretamente influenciados por tudo isso. Até por isso, o grupo português Madredeus é uma influência pra nós. Claro que nos identificamos muito com o foi/é produzido aqui como Elomar (que é fundamental para a construção do Sertanília), Xangai, Quinteto Armorial, Cordel do Fogo Encantado e tantos outros. Isso tudo além do que cada um do grupo traz em sua formação musical individual. 


Aiace Félix

JC: Como vocês formaram o grupo? 

Anderson: Eu e Aiace somos amigos e nos conhecemos em gravações em estúdio. Fizemos uma gravação meio que descompromissada para a internet, mas foi tão bem recebida que a coisa acabou tomando uma proporção maior. Daí, tivemos algumas formações até chegarmos à formação atual, eu, Aiace e Diogo. Ao vivo, completam a banda Mariana Marin, João Almy, Raul Pitange e Massumi.

Aiace: Eu e Anderson somos amigos há um tempo. Nos conhecemos em 2007 através dos meninos da banda baiana Quarteto de Cinco. Diogo chegou  no grupo no final de 2010, quando voltamos da nossa primeira viagem internacional (fomos pra Portugal e lá fizemos nossa primeira apresentação enquanto grupo e com uma formação  um pouco diferente da atual). Já o conhecia da UFBA, onde eu e Diogo fazemos o curso de graduação em Música (eu faço Canto Popular e Diogo, Percussão), mas não tínhamos uma relação muito próxima. Diferente do que aconteceu com o Anderson, minha amizade com Diogo surgiu através do Sertanília.

JC: Vocês são todos soteropolitanos?

Anderson: Eu e Massumi somos de uma região chamada Alto Sertão que é o Sudoeste da Bahia, mais próxima de Minas. O restante do grupo é de Salvador.


Show no Largo do Pelourinho 
- Salvador, fevereiro de 2013

JC: Vivem de música ou têm outra formação?

Anderson: Sim, todos nós, de alguma forma, vivemos de música. Exceto eu e Mariana, todos têm a carreira ligada à Faculdade de Música da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Aiace: Eu e Diogo fazemos o curso de graduação em música pela UFBA. Antes de partir pra faculdade de música eu até tentei o curso de Direito, mas não tive muito sucesso... Não me realizei no curso e saí no 2º ano pra tentar a faculdade de música. 

JC: Como surgiu o contato com os artistas pernambucanos? E com Xangai, Bule-Bule, Terno de Reis do Riacho da Vaca?

Anderson: Em Pernambuco, foi na raça mesmo. Ligamos pro Huggo Linns que é produtor musical da Renata Rosa e o convidamos pra produzir as gravações que seriam feitas em Recife. Até então, não nos conhecíamos. A partir desse contato muitas portas se abriram e chegamos ao pessoal do Cordel, Emerson e Nego e também ao Gilú que é uma referência em percussão em Pernambuco. O Xangai é um amigo já há algum tempo, já tínhamos gravado juntos e foi mais fácil. Eu já tinha gravado Bule-Bule também e quando mostrei o projeto e fiz o convite ele aceitou na hora. O Terno do Riacho da Vaca já foi mais complicado. Eles moram numa localidade ainda sem os hábitos e costumes da vida urbana. E também sem a velocidade do nosso dia-a-dia. Então tivemos que fazer uma viagem até lá, porque não tem telefone, o único jeito de se comunicar é por recado da rádio. Com calma, explicamos o processo, em que consistia a gravação, o pagamento dos direitos etc... Depois fizemos outra viagem pra gravar. Foi muito gratificante.


Show de lançamento do CD Ancestral
- Pelourinho, agosto de 2012

JC: Qual o objetivo do projeto Ancestral? Por que este nome?

Anderson: É nosso primeiro disco. Nosso cartão de visita. Pretendemos com ele ter o maior alcance possível de um trabalho independente como é o nosso. Sabemos das dificuldades de ter espaço, mas estamos batalhando pra divulgá-lo o máximo possível. Entramos em algumas listas dos 100 melhores da MPB de 2012, isso já nos deixou muito realizados. O nome é uma referência às nossas pesquisas pra fazer o disco. Conhecemos localidades com ternos de reis com mais de 200 anos de idade na mesma família, recolhemos músicas, cantigas, cirandas sem registro, tudo por tradição oral, de pessoas com até 97 anos que diziam que seus avós já cantavam aquilo. É um trabalho de descoberta de Brasil que pouca gente conhece.


Aiace: Nós trazemos como inspiração pro nosso som, manifestações culturais que são muito antigas e que remontam um sertão que é anterior ao de Luiz Gonzaga, com tradições que vieram de Portugal, que foram também diretamente influenciadas pelos árabes, e que aqui se misturaram à cultura africana e indígena. Por isso o nome do disco: é um som carregado de ancestralidade nas manifestações que estudamos, nas letras, nos temas que são abordados e nos arranjos. É tudo feito com muito cuidado e carinho. Reisados, ladainhas, sambadas e cocos são exemplos de manifestações que nos influenciam. 
Acho que é muito difícil pro músico conseguir traduzir tudo o que ele quer com seu som... queremos tudo e nada ao mesmo tempo! Mas em linhas gerais, acho que um lance importante que tem rolado com a gente é a identificação e o reconhecimento do som, chamando atenção pra uma música que não é comumente associada à Bahia e, principalmente, a Salvador. 
Infelizmente nós não vivemos em um ambiente tão democrático e por mais que alguns “mitos” estejam perdendo espaço (vide a crise do axé) ainda é muito comum associar e restringir a música baiana apenas ao axé e ao pagode, reduzindo toda a música produzida na Bahia apenas ao que tem o apoio midiático. Dessa forma, mostra-se apenas a música litorânea enquanto que o que é produzido no interior do estado cai no desconhecimento dos próprios baianos. Por isso, geralmente quando a gente toca, seja na Bahia ou fora dela, comumente nos perguntam: Vocês são de Pernambuco, não é? O mais estranho é ver que os próprios baianos desconhecem a sua própria cultura. Quando nós falamos de onde somos e de onde nos inspiramos é como se eles se reconhecessem na nossa música e se autodescobrissem naquele momento. Como bem disse Milton Nascimento:  “Ficar de frente para o mar e de costas pro Brasil não vai fazer desse lugar um bom país”.


Anderson Cunha e Xangai
no show de agosto de 2012

JC: Por que trabalhar com música? Qual o sentido dela para vocês? De quem são as composições?

Aiace: Por que não trabalhar com música?! Quem vive sem música? Eu nunca me vi longe dela. Comecei a falar muito cedo... daí pra começar cantar foi um pulo!  Com um ano e oito meses já cantava coisas do Caetano Veloso. A infância e a adolescência foi bem em cima disso, cantando e me descobrindo cantora. Sempre tive a certeza de que queria cantar, mas a dúvida durante a saída do ensino médio – pensando na insegurança financeira - era conciliar com outra profissão ou não. Tentei o Direito, mas deu tudo errado! Não me encontrei e resolvi, finalmente, fazer o certo: tentar a faculdade de música. As composições autorais do grupo são de Anderson e apenas uma delas, “Ciranda do Fim do Mundo”, é uma parceria do Anderson e do Juliano Holanda, compositor pernambucano.

Anderson: Exceto as regravações, todas as composições são minhas. Falando por mim, eu faço música porque não sei fazer nada mais na vida. Com o tempo cria-se uma relação de necessidade, onde você se encontra, se acalma nos momentos difíceis, expurga seus demônios, resolve suas aflições, externa sua alegria... e o legal é que depois você percebe que outras pessoas também, de alguma forma, são tocadas pelo que você fez.


JC: O que vocês querem transmitir para as pessoas com este trabalho?

Anderson: O trabalho do Sertanília carrega um questionamento da vida mergulhada na sociedade de consumo e suas consequências. No sertão que pesquisamos, grandes empresas mineradoras chegaram mudando dramaticamente a vida das pessoas. Mudando hábitos e costumes que compõem a identidade do povo da região, levando o consumo exagerado, e, principalmente, retirando pessoas de suas localidades na região rural, o que faz com que elas tenham que se adaptar à vida urbana da pior forma possível. Num momento em que tanto se fala em sustentabilidade, deixamos de aprender com uma sociedade que vive de forma sustentável há séculos em harmonia com a terra e inventamos fórmulas irreais de crescimento sustentável pra justificar o lucro e a atuação dessas empresas. Esse é o questionamento maior em nosso disco e o que tentamos sensibilizar as pessoas que escutam.



JC: Vocês têm outro projeto em vista?

Anderson: Temos alguns projetos que, por conta das ocupações do Sertanília não tivemos tempo de tocar adiante. Eu e Aiace pensamos em futuramente gravar nossos trabalhos independentes, mas ainda não temos tempo.


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