terça-feira, 20 de agosto de 2013

Cinema: Flores Raras, ou a arte de perder


Por Calila das Mercês,
de Salvador

Tinha lido uma coisa ou outra a respeito de Elisabeth Bishop, mas nada muito aprofundado. Um tempo atrás comecei a me interessar por suas poesias e sua história. Incentivada por Raquel Galvão, comecei a ler “Poemas Escolhidos de Elisabeth Bishop”, organizado por Paulo Henriques Britto, em edição da Companhia das Letras. O livro reúne alguns poemas publicados em vida e outros póstumos, incluindo os que ela escreveu sobre o Brasil, e traz alguns relatos sobre a vida da poeta. Soube no ano passado que Bruno Barreto estava produzindo o filme sobre a história de amor de Bishop e Lota de Macedo Soares, achei ousada a proposta, mas ainda assim mantive-me otimista. (Ultimamente, não estava tendo sorte ao assistir filmes!) Lota, uma arquiteta à frente do seu tempo. Bishop, uma artista com sensibilidade tão aguçada a ponto de escrever a cada linha somente o necessário. Não há exagero nas memórias, no amor, na natureza que se acoplam nas suas composições poéticas. O que há muito, certamente, é a inclinação, o que alguns preferem chamar de dom. Ambas artistas, cada uma mestre na sua área. 


Duas mulheres, uma grande história de amor e sensibilidade artística: Flores Raras. A trama começa com Elisabeth Bishop lendo algumas linhas de um poema para seu amigo, o escritor Robert Loewe, que diz se tratar de um poema ainda inacabado. Ela então decide viajar, como se fosse atrás de inspiração para terminar os versos incompletos. O que mais tarde, digo, depois de anos, tornou-se o famoso One Art ("A arte de perder", na tradução em português - ver ao final do post). 

Embora seja uma história de amor entre duas mulheres, o filme não traz como tema a homossexualidade. É “a arte de perder” que aparece como temática central de Flores Raras. O filme do cineasta Bruno Barreto, baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas, de Carmem Lúcia de Oliveira, apresenta a história da poeta norte-americana (uso poeta ao invés de poetisa, pois ela é considerada uma das melhores poetas americanas do século 20, independente do sexo) Elisabeth Bishop, interpretada pela australiana Miranda Otto, e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, vivida pela atriz Glória Pires.



"Não queria fazer um filme sobre uma artista torturada. Queria uma história de amor que você se emocionasse", afirmou Bruno Barreto, em entrevista. E completa, “Minha mãe (a produtora Lucy Barreto) comprou os direitos e aceitei dirigir, mas durante muito tempo pensei no que seria o tema. É um filme sobre perdas. Baseia-se numa inversão dramatúrgica, a mulher forte que vai se enfraquecendo (Lota) e a fraca que termina por impor sua força (Elizabeth)”, diz o diretor.

O que se vê são atuações muito boas, um elenco integrado, seleto e com o inglês afiadíssimo. Pelo menos 90% do filme é falado em inglês. Bishop, vivida por Miranda Otto, mostra-se uma escritora confusa, arredia, frágil, alcoolista, mostrando todo o lado emocional e complexo da personagem. Glória Pires surpreende, rouba a cena, como alguns diriam, está sublime, segura durante todo o filme, sua personagem é divertida, persuasiva, cheia de “tiradas” inteligentes e bem humoradas. Além das protagonistas, destaco o papel de Mary interpretada por Tracy Middendorf. Inicialmente, Mary era a mulher de Lota, com quem desejava ter um filho. 



Doses de drama e de tristezas. Lota começa grande e termina pequena. Bishop inicia-se pequena e termina grande. Uma grande virada! Inversão de papéis. (Bem, estas são minhas observações!) Cabe ao espectador assistir e opinar sobre o filme que contém diálogos riquíssimos para quem quer conhecer uma fatia da história destas duas mulheres. O que posso adiantar, é que quem assistir o filme, em exibição em todo o Brasil, estará diante de uma fotografia muito bem feita, verá o Rio de Janeiro das décadas de 50 e 60 e uma trilha sonora sucinta e precisa. A política não ficaria de fora, pois se trata de um período de mudanças neste contexto no Brasil. 

***


One Art

Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.



One Art (A arte de perder)

Tradução de Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


2 comentários:

  1. Bravo!
    Eu assisti o filme no dia da estreia, 16/08 e recomendo.
    O que mais me chamou atenção foi o discurso de Elizabeth sobre o Brasil. A alegria do brasileiro as vezes beira o exagero.

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  2. Obrigado pela visita e pelo comentário, Simone. De fato, há muita gente exagerada por aí...

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