domingo, 11 de agosto de 2013

Opinião: O triste fim da revista Bravo!



Por Calila das Mercês,
de Salvador

Poucas vezes comprei a revista Bravo!. Quando não comprava, lia algumas matérias, esporadicamente, pela internet. Apesar das matérias principais serem interessantes, a grande maioria destacava peças de teatro, por exemplo, que eu não teria oportunidade de assistir, por se tratar de montagens em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Fiquei de todo modo triste com a notícia, no início do mês, do fechamento, vem em mente a quantidade de pessoas que pode ficar desempregada, ainda mais se tratando do mercado de comunicação, que, se me permitem e me perdoam, é um mercado prostituído há um bom tempo. Para quem gosta, vale a pena ler a última edição - apesar da crise, ela deve esgotar. Brasileiros, no geral, tem um quê de saudosistas. 


Para uns uma revista de cultura e arte, para outros uma revista de cultura e arte elitista. Não importa os achismos, a verdade é que a Abril Mídia divulgou oficialmente o fim da revista BRAVO! em todas as plataformas – formato físico e digital. Prestes a completar 16 anos, a revista padece de problemas financeiros, chegando ao fim com a edição de nº 192.

Segundo o, ainda, editor-sênior e redator-chefe da revista, Armando Antenore, que trabalhou na publicação agosto de 2005 e julho de 2013, a revista foi lançada em 1997, numa editora de pequeno porte e já extinta, a D’Ávila, e só em 2004 migrou para o grupo Abril. Quando chegou à seara dos Civita, desfrutava de prestígio, mas padecia de má saúde financeira. Não sei dizer quanto dava de prejuízo à época. Só sei que, na Abril, o quadro não se alterou substancialmente, mesmo quando o título adotou uma linha editorial um pouco mais pop, um pouco menos 'cabeça' que a de origem”, conta Antenore, no seu texto publicado via Facebook após o anúncio do fechamento divulgado pela Abril.

Com a notícia do fechamento da revista, várias perguntas ficam pairando como, por exemplo: será que a BRAVO! tinha leitores? Será que com a popularização da internet as pessoas deixaram de ler a revista? A revista tinha poucos anunciantes? Afinal, o que causou o triste fim da BRAVO!? Ainda segundo o editor-sênior, a revista, de fato, nunca gerou lucro para o grupo Abril, a mesma operava no vermelho. Comparada a revistas de massa do próprio grupo Abril, o número de vendas da BRAVO! era baixo. “Mas, considerando que o título se voltava para um nicho relativamente restrito, o da alta cultura mais sofisticada, as cifras não parecem tão ruins. Em geral, BRAVO! falava sobre manifestações artísticas que, mesmo se destacando pela qualidade, não atraíam público quantitativamente significativo. A revista dedicava quatro, seis, oito páginas para filmes como Tabu, do português Miguel Gomes, exposições como a retrospectiva de Waldemar Cordeiro no Itaú Cultural, livros como O Erotismo, de Georges Bataille, peças como A Dama do Mar, de Bob Wilson, e espetáculos de dança como Clarabóia, de Morena Nascimento. Procure saber quantas pessoas viram tais filmes, mostras e espetáculos ou leram tais livros. Cinco mil, 10 mil, 20 mil? Como BRAVO! poderia ter zilhões de leitores se o universo que retratava não tem zilhões de consumidores?”, questiona Antenore. 

Ao abrir uma edição qualquer da revista, editada pelo grupo Abril, é observável uma publicação distinta dos famosos “cadernos 2” ou “cadernos de arte e cultura” dos jornais. Matérias bem escritas, fotografias e editoração impecáveis, pautas sugestivas e atraentes. Uma revista interessante, fato, mas que não se adequa a massa, não tem público para sustentá-la. Uma fatia pode até ler, mas não terá condições de transitar no “mundo” tão sugestivo da BRAVO! Outro questionamento dos leitores é a ênfase apenas aos eventos e programações do eixo Rio-São Paulo. Por que a revista não expandiu para o resto do país? Será que somente nestas duas cidades tem arte e cultura “de primeira classe”? 

As mídias sociais não fizeram apenas com que a BRAVO! perdesse seus leitores, mas de uma forma geral, todos os jornais e revistas perderam. Logo, este não seria o motivo do fim. Outro aspecto que encarecia a revista era a impressão, pois o formato e o papel eram incomuns no mercado. De fato, a revista possuía poucos anúncios, porque para leitores da “alta cultura”, anunciantes deveriam ser mais perspicazes. Segundo os publicitários, o leitor de revistas do gênero, por serem mais críticos, tende a não comprar muito. E muita gente que lê a revista, nem sempre está disposta a pagar pelos eventos ou sair mesmo de casa. Motivos internos e externos? Mesmo se reduzindo a quantidade de páginas – de 114 para 98, mudanças no projeto gráfico, ações para aumentar a receita publicitária, não se evitou o “sangramento” que culminou com o fechamento. 

Antenore nos seus agradecimentos aos leitores e funcionários que colaboraram com a revista, desabafa: “Gostaria que a edição de agosto não fosse a última de BRAVO! Entristeço-me com o fim da publicação porque aprecio muitíssimo a arte. Filmes, livros, peças, músicas, instalações, pinturas, balés e quadrinhos me ensinaram mais sobre viver do que a própria vivência. No entanto, não bancarei o viúvo rancoroso. Não lamentarei a baixa escolaridade do brasileiro, o pragmatismo dos publicitários e dos patrões, o advento da revolução digital. Tampouco abdicarei de minhas responsabilidades frente aos erros e acertos da revista. Fiz e ainda faço parte do complexo jogo em que a mídia se insere. Procuro encará-lo com amor, senso crítico e serenidade. Nem sempre consigo, mas...

A verdade é que, parafraseando Antenore, a mídia tradicional precisa se reinventar, e logo! A BRAVO!, do grupo Abril, mostrou a sua fragilidade e fechou. Quantas e quantas já não saíram de cena? Quem será a próxima?

***

Nota do editor - Eu também nunca fui leitor assíduo da Bravo!, bem como também não o era o colunista do site Digestivo Cultural, Rafael Rodrigues, que publicou seu texto sobre a revista na sexta (http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=3815&titulo=O_fim_da_revista_Bravo!). Não é nada, não é nada, já temos aqui três pessoas altamente interessadas e envolvidas com cultura (Rafael, Calila e eu) que seriam o público-alvo da revista, mas não a liam com freqüência - o que dizer então do "público em geral"?
Alguns fatores que me afastavam da revista:

1) o foco demasiado em Rio e São Paulo, já citado pela Calila;

2) uma certa visão defasada do que é cultura (vejam que o depoimento citado de  Armando Antenore em momento algum cita manifestações populares tradicionais ou de periferia, por exemplo), que acabava desaguando em episódios como a abordagem preconceituosa na capa dedicada a Zeca Pagodinho (grafado com um ponto de interrogação! - Zeca Pagodinho?, como se houvesse algum problema em um sambista ser capa de revista cultural brasileira) ;


3) a insistência da revista em, sendo mensal, publicar uma agenda de eventos que não raro chegava defasada às bancas (você pegava a revista lá pelo dia 20 e a maioria dos shows já havia acontecido, por exemplo. Isso poderia ser concentrado no site, e não no impresso); 

4) o próprio nome em si não ajudava muito, ao reproduzir uma saudação européia comum após notáveis desempenhos de cantores líricos ou instrumentistas eruditos, não sendo comum seu uso por brasileiros.

Enfim, evidente que eu preferia que a revista tivesse revisto a tempo algumas dessas posições e seguisse viva, informando, difundindo cultura e gerando empregos.  (Fabio Gomes, de Macapá) 

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