sábado, 14 de setembro de 2013

"Só uma fotinho!"

Reinaldo Gianechini no primeiro dia
do Rock in Rio - 13.9.13

Eu fico imaginando que realmente é difícil alguém que atingiu certo nível de notoriedade conseguir fazer as coisas mais simples do dia-a-dia. Só fico imaginando, porque é improvável que eu fazendo o que faço (escrevendo na internet sobre cultura independente) eu venha a sofrer com o assédio de fãs (risos). Na verdade, a idéia deste artigo é propor uma reflexão a partir de um fato que aconteceu comigo, reforçado por duas publicações recentes sobre o mesmo tema. 

O fato que aconteceu comigo ocorreu perto de 6h30 da manhã do dia 12 de setembro. Eu estava na área de embarque do aeroporto Santos Dumont (Rio de Janeiro), esperando o vôo para Belém, quando vi sentar numa cadeira a uns 50 metros de mim o cantor Milton Nascimento e duas mulheres, uma aparentando meia idade, a outra mais nova. Decidi ir até eles pedindo para tirar uma foto com Milton. 

Me aproximei do grupo com o celular na mão para já deixar evidente minha intenção, logo compreendida pela senhora de meia idade, que já foi me desincentivando - "Ah, agora não! Talvez depois!" Respondi que compreendia perfeitamente, e que se não fosse mesmo possível estaria tudo bem. Pouco depois, a senhora saiu para talvez resolver alguma coisa, e não retornou até que fui chamado para o embarque. Ainda olhei na direção de Milton, mas como ele estava de óculos escuros ficava difícil saber se ele estava de fato olhando para mim. De todo modo, nem ele nem a moça que ficara fizeram qualquer menção de que eu me aproximasse, então segui para meu avião. Resisti à tentação de fazer uma foto "roubada", sem que ele percebesse.

Devo dizer que é muito raro que eu peça foto com celebridades que eventualmente encontre. Acredito que, fora do palco, no dia-a-dia, o artista tem direito a seu sossego. Dois dias antes, por exemplo, havia visto o cantor Danilo Caymmi com um amigo numa cafeteria em Copacabana e não pedi para tirar foto (assim como não o fizera quando vi Danilo na área de café da manhã de um hotel em Salvador onde eu também estava hospedado, em novembro de 2007 - se bem que na época eu não tinha celular que tirasse foto). Então o que me fez levantar e pedir a foto a Milton? Não sei. Talvez o fato de que eu admire mais Milton do que Danilo, mas com certeza a convicção de que (o eventual incômodo) seria "rapidinho". Que me parece ser uma das bases do "direito à foto" que os fãs julgam ter. A outra base é justamente a notoriedade do artista. 

Foi isto que gerou um ligeiro incidente ontem, no primeiro dia do Rock in Rio, conforme noticiado pelo site Ego. Reproduzo aqui a republicação do site 180graus.com, ilustrada com a foto que abre este post:

Gianecchini curte show no meio da galera e se nega a posar com fã
'Entende, por favor. Estamos aqui conversando', disse o ator para uma admiradora

Assim que começou o show de David Guetta, Reynaldo Gianecchini seguiu para a pista com uns amigos - entre eles Ildi Silva e Lucas Malvacini - para curtir a apresentação do DJ.

Durante os poucos minutos que permaneceu na pista, o ator foi abordado por alguns fãs, que tiveram que ouvir um "não" do ator, que se recusou a posar para fotos com seus admiradores.

"Imagina se eu paro para tirar foto com todo mundo? É muito chato", disse ele para uma das admiradoras. Para uma fã mais insistente, Gianecchini tentou explicar: "Entende, por favor. Estamos aqui conversando". Após menos de dez minutos na pista, Giane e seus amigos voltaram para o camarote.

E na edição da revista Época que chegou às bancas hoje, há uma crônica, "A síndrome da foto pelo celular", assinada pelo escritor Walcyr Carrasco, autor da atual novela das nove da TV Globo, Amor à Vida, o que mostra que o assunto está mesmo na ordem do dia. Ele narra momentos de constrangimento pelos quais passou, incluindo duas moças que lhe pediram fotos quando ele, em meio a um evento literário no Rio Grande do Sul, tentava apenas... ir ao banheiro (Tive de implorar: "Tenho de ir ou vou fazer xixi na calça."). Carrasco também relata que foi xingado de "metido a besta" por uma senhora que o encontrou no aeroporto, quando ele estava falando ao telefone. Como ele pediu que ela esperasse, foi brindado com o epíteto. O novelista também arrisca uma explicação para o fenômeno: fãs consideram que alguém conhecido ou famoso tem obrigação de posar. E mais: sorrindo!

O fenômeno, que começou quando os telefones celulares passaram a ter câmeras fotográficas com resolução de imagem ao menos razoável (há cerca de dez anos, mais ou menos), parece não ter data para acabar, já que cada vez temos acesso a equipamentos mais modernos, permitindo fotos de resolução sempre melhor. E, hoje em dia, já com a possibilidade de envio direto para sites e redes sociais como Instagram, Facebook, Twitpic etc. Algo impensável há até quinze anos atrás, quando o máximo de incômodo reservado aos artistas era o pedido de fotos após um show, isso se alguém tivesse conseguido entrar com máquina fotográfica. Isto era proibido, por exemplo, no show que Roberto Carlos apresentou em Bento Gonçalves, RS, em maio de 1993. Quem levou máquina precisou entregar na portaria e só teve o equipamento de volta após o show. Não precisei passar por isso, já que deixei a minha em casa. :) 

Um comentário:

  1. Interessante reflexão! O ser humano sempre buscou modelos de comportamento, dá até pra dizer que, em certa medida, as celebridades de hoje são os deuses e semideuses de antigamente. Vale lembrar também que com o Facebook e afins, todo mundo tem uma certa sensação de "fama", ainda que num círculo reduzido. Postar uma foto com um famoso é o mesmo que se tornar uma subcelebridade, alimentando-se da fama do outro, certamente daria muitos "likes" e certa repercussão a quem postou. Sou totalmente a favor de que os famosos tenham seu direito à privacidade preservado. É preciso saber separar as coisas. Tem momento (e limite) pra tudo. Por outro lado, existem também aqueles famosos que incentivam o tipo de comportamento que desconhece limites. A Beyoncé, por exemplo, dá toalha molhada de suor aos fãs, se isso não é uma forma de reforçar a idolatria, não sei o que é!

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