sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Especial #Vinicius100Anos: Ciumeira no Botequim


O poeta Vinicius de Moraes era muito ciumento em relação a seus parceiros musicais. No final dos anos 1950, ele procurava evitar a todo custo que Tom Jobim conversasse mais com Ronaldo Bôscoli, temendo uma "traição"... Mais tarde, quando seu parceiro mais constante era Toquinho, Vinicius alertou ao jovem violonista:

- Parceria é como casamento, só que sem sexo.

Era difícil, porém, ao poeta evitar que Toquinho compusesse com outros parceiros. Até porque, durante parte dos anos 1970, Vinicius tinha contrato com a Philips, enquanto Toquinho permanecia na RGE, onde lançou um LP solo, Boca da Noite (1974), além do disco Botequim (1973), em que canta com Marlene as músicas que escreveu para duas peças de Gianfrancesco Guarnieri, em parceria com o autor: Castro Alves Pede Passagem (1971) e Botequim (1973). A primeira se valia do pano de fundo da campanha abolicionista promovida pelo poeta baiano no século 19 para alfinetar a ditadura; já na segunda, retratava-se a omissão e a cautela que o regime militar provocava na população (tudo com muito sutileza).

Nas duas peças e no disco, a questão do ciúme autoral esteve muito presente. Guarnieri, no texto da contracapa do LP, relatava o ciúme que sentira quando Toquinho escreveu em poucos minutos a letra de "Canção do Medo" e mais ainda quando resumira em poucos versos o que Guarnieri não conseguia dizer na canção que encerra o disco: "Bobeou, Não Vai Entender". Na última frase, Toquinho fala da "traição": "Agora eu peço perdão ao Vinicius de Moraes/ Por essa traição com um cara que é demais/ Um bom parceiro, poeta fora de série,/ Um ator tão badalado: Gianfrancesco Guarnieri."

Já na peça Castro Alves Pede Passagem, Toquinho tentou prevenir-se da ciumeira convidando Vinicius para fazer a letra da "Modinha" - que o Poetinha fez à maneira do próprio Castro Alves, com versos como: "Mulher, abre a tua janela/ Aqui vela o teu trovador/ Que em prantos soluça/ Os seus últimos cantos/ Ao nosso amor." A um pedido de Toquinho a Guarnieri, esta música foi escolhida para abrir a peça. Mais tarde, em depoimento a seu irmão, João Carlos Pecci, para o livro Toquinho - 30 Anos de Música (Maltese, 1996), o violonista revelou que a estratégia dera certo:

- Guarnieri ficou contente e o pouco ciúme (de Vinicius) que restou se diluiu em algumas doses de uísque...

** Publicado originalmente no Mistura e Manda nº 79, de 13 de dezembro de 2004

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