sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Especial #Vinicius100Anos: Porto Alegre & Vinicius de Moraes


Em 9 de novembro de 2007, participei da Sexta-feira Cultural do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, que homenageava Vinicius de Moraes. Foi muito agradável poder debater com a psicanalista Rosane Marocco (que conheceu pessoalmente o poeta, com quem por diversas vezes dividiu a mesa do lendário bar carioca Antonio's), diante de uma platéia que demonstrou, com o grau de atenção que nos dedicou, o quanto apreciou o que falamos.

Eu gosto de, em ocasiões assim, levar para o público um fato novo, ou ao menos um ângulo novo de visão sobre fatos já conhecidos relacionados com o homenageado. Isso parecia quase impossível em se tratando de Vinicius, mas posso dizer que consegui.

Em uma palestra que fiz sobre Vinicius há alguns anos, situei o início de sua transformação na viagem que fez com o escritor americano Waldo Franck em 1942. Percorrendo o Nordeste, conhecendo, além das lindas praias do litoral, a seca e a miséria do sertão, Vinicius começa a deixar de lado não só suas antigas posições políticas (diria depois que saíra do Rio um direitista e voltara esquerdista). Progressivamente vai se desfazendo do formalismo herdado da formação ultraconservadora e reforçado pelos circuitos sociais que freqüentava em função de suas principais atividades (a poesia e a carreira diplomática), tornando-se uma pessoa cada vez mais avessa às convenções, buscando viver com mais liberdade (o que foi decisivo para que ele encarasse com naturalidade tornar-se um letrista e depois um cantor popular, o que chocou seus antigos amigos).

Pois bem: a novidade é que Vinicius poderia não ter feito essa viagem com Franck, caso tivesse atendido um convite de Erico Verissimo para mudar-se para Porto Alegre e trabalhar na Editora Globo. Ruy Castro, ao organizar o livro Querido Poeta, que reúne a correspondência de Vinicius, estabeleceu "agosto ou setembro de 1942" como data provável da carta a Erico em que Vinicius lamenta não poder atender o convite, pois em breve sua esposa, Tati, daria à luz seu filho Pedro; além disso, preparava-se para ser promovido a cônsul, definindo-se como "presíssimo ao Rio, posto que temporariamente". A viagem pelo Nordeste não chegava a ser uma ruptura como seria a vinda para o Sul, pois era considerada "a serviço". Franck, que já estivera com Vinicius no Rio, solicitou ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, que o poeta fosse seu cicerone na viagem que planejara, e houve a concordância oficial.

Obviamente, é difícil imaginar se a mudança interna de Vinicius deixaria de acontecer caso ele tivesse vindo para Porto Alegre e não para o Nordeste em 1942. Considero que o mais provável é que ela poderia demorar mais, mas encontraria outro momento para aflorar.



  • Publicado no Mistura e Manda nº 173, de 11 de novembro de 2007. A palestra citada no terceiro parágrafo foi realizada em 2004. 

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