sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Especial #Vinicius100Anos: Vinicius entre Orfeu e Dionísio



O poeta Affonso Romano de Sant'Anna revelou, na palestra Vinicius: Dilaceramento entre Orfeu e Dionísio, proferida em 6 de dezembro de 2005 durante o 24º Seminário Brasileiro de Crítica Literária na PUCRS (Porto Alegre), que uma questão o intrigava: sendo Vinicius de Moraes (1913-1980) um poeta popularíssimo até hoje, por que é tão pouco lido? E Vinicius é um grande poeta, um dos raros escritores brasileiros tão conhecidos no país quanto no exterior, mas o que o público em geral conhece de sua obra são alguns sonetos e as letras de música. A maioria das pessoas não lê suas poesias, principalmente as da primeira fase.

Para entender as causas desse fenômeno, Sant'Anna recorreu a princípios de psicanálise, aplicados de modo não-ortodoxo. No seu entender, esse recurso é plenamente válido, pois, ao escrever, um autor exprime em seu texto não apenas seus próprios desejos como também os do imaginário coletivo - sem o que a obra não teria a menor possibilidade de circulação na sociedade.

A primeira vez em que Sant'Anna utilizou a psicanálise para analisar a obra de Vinicius foi no ensaio "Vinicius de Moraes: a fragmentação dionisíaca e órfica da carne entre o amor da mulher única e o amor por todas as mulheres", no livro O Canibalismo Amoroso, publicado originalmente em 1984. Nesta obra, Sant'Anna também emprega a interpretação interdisciplinar nas artes, como fez no anterior Música Popular e Moderna Poesia Brasileira, outra obra em que Vinicius é uma figura destacada, e como voltou a fazer no recente Desconstruir Duchamp: Arte na Hora da Revisão.

Sant'Anna lembrou que, em entrevista a Otto Lara Resende no Jornal da Globo, Vinicius comentou que chegou a ir a seis sessões de análise com Iraci Doyle, abandonando o tratamento. Quer dizer: é possível que o próprio analisado não aprovasse o recurso.

Ou talvez aprovasse, afinal o próprio Vinicius admitiu no prefácio à sua Antologia Poética (1954) que dividia sua obra em duas fases: uma transcendental, plena de misticismo; outra cotidiana, mais ligada à materialidade. Isso remete à figura psicanalítica chamada clivagem, explica Sant'Anna:

- É o que primeiro chama a atenção na poesia de Vinicius. É um "eu" dividido permanentemente, dilacerado permanentemente.

Um bom exemplo disso é o poema "Desde Sempre", que faz parte do livro de estréia de Vinicius, O Caminho para a Distância (1933). Nele, o poeta está no cinema tentando prestar atenção no drama de amor que se passa na tela, mas é incomodado pelo som de um casal namorando nas poltronas atrás dele. Então, diz o final do poema,

"Sem poder tapar os ouvidos./ Num impulso fujo, vou para longe do casal impudico/ Para somente poder ver a imagem./ Mas é tarde. Olho o drama sem mais penetrar-lhe a beleza/ Minha imaginação cria o fim da comédia [do casal] que é sempre o mesmo fim/ E me penetra a alma uma tristeza infinita/ Como se para mim tudo tivesse morrido."

- É um texto intrigante. A angústia que o poeta confessa indica a clivagem. Ele se afasta do casal, mas, vejam, "já é tarde". Ele continua ligado à cena real. Ou seja, ele não podia suportar as duas cenas juntas, mas não consegue fruir uma sem a outra.

Sant'Anna atribui isso à rígida formação católica de Vinicius:

- Essa é uma marca permanente em sua obra. Vinicius é um indivíduo que está sempre buscando conciliar seus contraditórios.

O motivo central da poesia do autor - a mulher - varia constantemente. Ora ele busca apenas uma, inalcançável, como em "Invocação à Mulher Única", ora o poeta quer se dividir entre muitas musas, como no "Poema para Todas as Mulheres" (detalhe: os dois foram publicados no mesmo livro, Novos Poemas, de 1938).

(Esse dilaceramento e a vontade de o poeta se dividir entre várias mulheres aparecia já numa das primeiras músicas de Vinicius a serem gravadas: o fox-canção "Loura ou morena", parceria com Haroldo Tapajós, gravada pelos Irmãos Tapajós em 1932:

"Se por acaso o amor me agarrar/ Quero uma loira pra namorar/ Corpo bem feito, magro e perfeito/ E o azul do céu no olhar/ Quero também que saiba dançar/ Que seja clara como o luar/ Se isso se der/ Posso dizer que amo uma mulher.// Mas se uma loura eu não encontrar/ Uma morena é o tom/ Uma pequena, linda morena/ Meu Deus, que bom/ Uma morena era o ideal/ Mas a loirinha não era mau/ Cabelo louro vale um tesouro/ É um tipo fenomenal/ Cabelos negros têm seu lugar/ Pele morena convida a amar/ Que vou fazer?// Ah, eu não sei como é que vai ser.../ Olho as mulheres, que desespero/ Que desespero de amor/ É a loirinha, é a moreninha/ Meu Deus, que horror!/ Se da morena vou me lembrar/ Logo na loura fico a pensar/ Louras, morenas/ Eu quero apenas a todas glorificar/ Sou bem constante no amor leal/ Louras, morenas, sois o ideal/ Haja o que houver/ Eu amo em todas somente a mulher")

Outra figura psicanalítica que Sant'Anna identifica em poemas como "A Volta da Mulher Morena" (de Forma e Exegese, 1935) é a neurose. Já nos versos iniciais ("Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena/ Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo/ E estão me despertando de noite."), o poeta convoca sua confraria para o livrar de seu objeto de desejo, que deve ser mutilado (além de cegá-la, ele pede que cortem seus lábios e seus peitos, que suas pernas murchem, até concluir com um "Dai morte cruel à mulher morena!"). Outras mulheres são convocadas para ajudá-lo, mas com estas - a jovem camponesa e a branca avozinha, que simbolizam pureza, e a aventureira do Rio da Vida, ou seja, a prostituta - o poeta saberia como lidar. O mesmo não se dá com a mulher morena, que, por despertar desejo, deve ser morta.

- A gente lê isso como algo ambíguo. É o que eu chamo no ensaio de ternura canibal. Há os canibais que devoram a presa em seguida e há os que a envolvem ternamente - mas desde esse momento a presa já está perdida.

A ternura canibal se revelaria também em poemas como "Receita de Mulher" - "As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental (...)".

- A gente lê e acha engraçado, mas é uma receita, é como se fôssemos preparar um prato. É canibalismo, é uma devoração, feita com amor.

O momento em que, para Sant'Anna, a ternura canibal fica mais evidente é neste trecho de "Elegia ao Primeiro Amigo" (de Cinco Elegias, 1943):

"Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente/ E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha alma/ Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera./ Na verdade, sou um homem de muitas mulheres com todas delicado e atento/ Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água/ Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim/ Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível/ Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher/ Mas com singular delicadeza. Não sou bom/ Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado/ Porque dentro de mim mora um ser feroz e fraticida/ Como um lobo.(...)"

Já em "A Mulher na Noite" (também de Forma e Exegese), tudo se assemelha a um pesadelo: o poeta está imóvel, quando surge uma mulher, cuja presença desperta desejo e desencadeia uma série de desgraças (formigas, cobras, lobas, chuva torrencial) que se abatem sobre o poeta. Ao final, quando este se levanta, constata que "...não havia mais vida na minha frente." Igualmente, em Ariana, a Mulher (1936), há esta figura feminina total, única, responsável por todos os dramas, da qual o poeta não tem como fugir.

(Talvez tenha sido por isso que, na entrevista citada concedida a Otto Lara Resende, Vinicius, ao ser perguntado sobre de que tinha medo, respondeu:

- Tenho um pouco de medo de mulher.

Otto, espantado, redarguiu:

- Mas você tem demonstrado uma certa maestria nesse terreno.

- Não sei se é maestria - replicou Vinicius.)

Além da psicanálise, Sant'Anna propõe recorrer a arquétipos para analisar a obra de Vinicius. Ela está repleta de mitos gregos - a começar pelo personagem-título da peça Orfeu da Conceição (1956).

- Orfeu aparece em alguns poemas. Essa figura e o culto órfico são fundamentais para se entender a poesia de Vinicius, não só o teatro dele. Orfeu realiza o esforço de buscar a unidade, através da reunião em torno do canto. Isso se reflete na busca da mulher única, e também no próprio exercício da poesia, uma tentativa de unir os fragmentos e dar-lhes um sentido único.

Dionísio também é encontrado na obra de Vinicius. Mito ligado à origem do teatro e do carnaval, sua presença remete à fragmentação, opondo-se à unidade de Orfeu. Este está relacionado com a "Invocação à Mulher Única", enquanto aquele com o "Poema para Todas as Mulheres".

Outro mito identificável é Narciso, o jovem que se apaixona por seu reflexo na água - o que remete ao duplo, à imagem. Nem sempre a aparição de Narciso é nomeada, mas Sant'Anna a relaciona a menções à imagem do poeta em espelhos. Há uma segunda versão, menos conhecida, do mito de Narciso, que teria uma irmã gêmea (o que, além da questão do duplo, introduz uma idéia de androginia). Tanto numa como noutra versão, Narciso estaria diretamente ligado à questão da clivagem, já abordada.

Édipo também é fundamental na poesia de Vinicius, que se comporta como um menino frente à grande mãe. As palavras "seio" e "leite" são abundantes em sua obra - por exemplo, estão em "Invocação à Mulher Única", "Poema para Todas as Mulheres", "A Volta da Mulher Morena", "Receita de Mulher", "Elegia ao Primeiro Amigo" e "Ariana, a Mulher", apenas para ficar nos poemas citados até aqui.

Em Ariana, a Mulher, há também a presença da hierogamia - a união do humano com o divino. Existente ainda na poesia de Manuel Bandeira e citada freqüentemente na mitologia grega, a hierogamia tem um correspondente na religião cristã, com o Espírito Santo descendo sobre Maria para a concepção de Jesus.

Ainda relacionada à religião, Sant'Anna identifica a questão do sacrifício:

- Uma idéia que perpassa a poesia de Vinicius é que o amor dele está em trânsito. Como no "Soneto da Mulher ao Sol" (do Livro de Sonetos, 1957): "Uma mulher ao sol sobre quem me debruce/ (..) e [que] ao me sentir ausente/ Me busque novamente - e se deixa a dormir/ Quando, pacificado, eu tiver de partir...". Enquanto o homem está em trânsito, a mulher, que é estável, definitiva, deve ser sacrificada ao amor do homem. Isto ficaria visível, por exemplo, no título da peça Cordélia e o Peregrino (1965): o homem é o peregrino (está em trânsito), já o nome da mulher (Cordélia) remete a cordeiro, o animal sacrificado na Páscoa judaica. A obra poética de Vinicius tem essa constante, é como uma grande peça de teatro onde a mulher deve sempre ser sacrificada ao amor do homem, que passa. Isso também está nas letras de música: ele diz que a mulher deve perdoar sempre (ex: "Samba da Bênção", parceria com Baden Powell).

O fato de Sant'Anna considerar a mulher "estável e definitiva" na obra de Vinicius não significa que ele a veja como estática, porém. Há numerosas referências à capacidade da mulher modificar o ambiente pela sua simples presença (como no já citado "A Volta da Mulher Morena") ou, melhor ainda, à sua passagem (por exemplo, em "A Mulher na Noite" e "Soneto da Mulher ao Sol", além de "A Mulher que Passa", de Novos Poemas, 1938). Isso se reflete também em letras de música, como "Quando Tu Passas por Mim", parceria com Antônio Maria, 1953, e em "Garota de Ipanema" (parceria com Tom Jobim, 1962)

Concluindo a palestra, Sant'Anna ressalvou:

- Tudo isso não torna Vinicius um "poeta abominável", ao contrário. Ele teve o mérito de ir a fundo nessa questão, jogar seu inconsciente na mesa, escrever como se (Sigmund) Freud nunca tivesse existido.

Ainda: o machismo pode ser considerado uma característica da época, assim como a própria questão da ternura canibal, que se traduziria na vida pessoal de Vinicius através de seus 9 casamentos. Contemporâneos de Vinicius, como o poeta chileno Pablo Neruda (seu amigo pessoal) e o pintor espanhol Pablo Picasso também casaram várias vezes - Neruda 8, Picasso 7:

- Picasso era um devorador de mulheres, era até cruel.

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