terça-feira, 5 de novembro de 2013

Escritora Állex Leila lança Chuva Secreta na Bienal do Livro da Bahia

Por Calila das Mercês,
de Salvador

Baiana de Bom Jesus da Lapa, Állex Leilla é autora de Urbanos (contos), resultado do prêmio para autores inéditos da BRASKEM, em 1997. Publicou, ainda, Obscuros (contos); Henrique (romance), O sol que a chuva apagou (novela) e Primavera nos ossos, romance premiado pelo Programa Petrobras Cultural e publicado, em 2010, pela Editora Casarão do Verbo. Também em 2010, ganhou o 20° Concurso de Contos Luiz Vilela, com o texto Felicidade não se conta (que também faz parte de Chuva Secreta). Seu texto Não se esqueça de pisar firme no coração do mundo foi selecionado para a antologia Wir sind Bereit. Junge Prosa aus Brasilien, da editora alemã Lettrétage, lançada na Feira de Frankfurt deste ano. É graduada e mestra em Letras pela UFBA e doutora em Estudos Literários pela UFMG, e também professora de Literatura Portuguesa na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).



Aqui, ela fala um pouco sobre literatura e seu mais novo livro Chuva Secreta que será lançado este sábado, 9 de novembro, às 19 horas, na Bienal do Livro da Bahia.

Calila das Mercês - Como foi o seu encontro com a literatura? Quando percebeu que existia uma escritora em você? 

"Primavera nos Ossos" (romance), Ed. Casarão do Verbo, 2010.
Állex Leilla - Desde pequena, sempre gostei muito que lessem pra mim e depois, quando fui alfabetizada, ler também era uma grande fonte de prazer. Me lembro de inventar em cima das histórias lidas, mudando personagens, motivos ou passagens que não me agradavam. Por exemplo, na história da "Pequena sereia", de Hans Christian Andersen, eu mudava o fato de o príncipe não ficar com ela em virtude de já ser comprometido e estar de casamento marcado com uma princesa. Eu mudava essa passagem e colocava pra ficarem juntos, os três! Na minha cabeça, não era impedimento e então, me lembro que numa das versões, eu resolvia assim: ele fica com essa segunda, quarta e sexta, e com a sereiazinha às terças, quintas e sábados. No domingo, ele vai correr na floresta! Pronto. Ficava muito feliz quando resolvia isso. Em outras versões, punha o príncipe gay (na verdade, a gente falava "viado" quando criança), porque assim estaria justificada a razão de ele não ficar com a sereiazinha. Isso me ocupava tardes inteiras e vários cadernos escolares, porque eu copiava todas as partes da historinha até chegar naquela parte de que não gostava, para só então mudá-la. Era uma coisa muito séria pra mim, eu me dedicava com a seriedade das crianças a resolver àquelas questões. Certa feita, uma professora estranhou aquelas cópias e me disse que eu deveria escrever minhas histórias a partir de onde não gostava, que não era necessário copiar o que o outro autor escreveu. Esse episódio ficou marcado em minha cabeça, creio que foi ali que tive consciência de que seria escritora. 
"Urbanos", contos, 1997

Calila das Mercês - Este ano você participou de uma série de eventos, como a Feira de Frankfurt, a Flica em Cachoeira, agora, a Bienal da Bahia. Que significado tem isso pra você? O que tem achado destes grandes encontros?

Állex Leilla - Esses eventos já são consagrados e movimentam a cena literária, fazem circular o livro e a ideia da leitura de modo muito mais eficaz do que qualquer campanha oficial. Para o autor, faz com que saiamos de nossos universos particulares e conheçamos leitores, público em geral, outros autores, editores, agentes, distribuidores, livreiros, tradutores, jornalistas, professores e demais envolvidos com o mercado de livros; nos faz ver que somos apenas uma ponta, talvez o pontapé inicial de todo esse processo. Por vezes é bom circular nesses espaços, até pra diminuir a vaidade, porque nos damos conta de que é tanta gente escrevendo! Tanto autor em melhores condições, em condições iguais ou piores que você...! Então, eu vejo como encontros significativos em todos esses aspectos. 

Na Feira de Frankfurt o público é mais restrito, composto de muitos editores, agentes e tradutores, porque é uma feira de negócios, só é aberta ao público no último dia. É um espaço onde se compram e se vendem direitos, projetos, se estabelecem parcerias etc. Claro que a gente se bate com muitos autores também, sobretudo nessa de 2013 que foi o ano em que o Brasil foi homenageado e a União levou 70 autores em sua comitiva. A propósito, eu não fui como autora oficialmente convidada pelo governo federal, mas nos batíamos com esses autores mesmo assim. Gostei imensamente de Frankfurt, de tudo: da cidade, da paisagem, da educação das pessoas, do transporte excelente, dos restaurantes, dos preços muito em conta da comida, bebida e serviços em geral; e da feira, gostei muito da receptividade dos agentes e tradutores, alemães e estrangeiros, são profissionais e gentis ao mesmo tempo. 

A Flica (Festa Literária de Cachoeira, BA) é uma festa literária internacional e faz jus ao termo, porque tem uma programação muito vasta, é baseada em mesas de debates, em que autores do Brasil e de fora se encontram pra discutir temas pertinentes. Ficamos numa vitrine e, ao mesmo tempo, parece um bate-papo no sofá da nossa casa, pois o calor e interesse da plateia rapidamente nos deixa muito à vontade. A Flica é organizada por um grupo de pessoas jovens, mas extremamente competentes, pessoas bacanas e atentas às reações do público. Vemos que eles também estão interessados, que se divertem, que se emocionam, que vivem aquilo, não são meros organizadores negociando literatura! Além de ser realizada numa cidade linda e histórica, ao contrário da Flip, em Paraty (RJ), a Flica é gratuita pro público, que visivelmente agradece a isso, pois comparece e se manifesta das mais diferentes formas. É realmente uma FESTA! 




A Bienal do Livro da Bahia tem um perfil que mistura Frankfurt e Flica, é mais "negócio", digamos assim, porém, sem deixar de ter espaço pro autor (o Café Literário, por exemplo) e diversas atrações voltadas ao público. As bienais sedimentam o mercado de livros no País, muitas vezes permitem que crianças e adolescentes tenham contato pela primeira vez com o livro, pois há promoções de vale-livro e também estimulam as excursões escolares, em que os professores levam alunos, por vezes muito pobres, que nunca tiveram oportunidade de manusear, ler e ter um livro. Já participei do Café Literário duas vezes, do Espaço Jovem uma vez e dessa vez estarei lançando um livro no espaço da editora Casarão do Verbo, que editou meu último romance também.
         
Calila das Mercês - O que pensa sobre o atual mercado editorial baiano?

Állex Leilla - Vou fazer apenas uma exposição das condições gerais desse mercado, pois o que penso é meio indecente pra publicar! Bem, vejo que esse mercado baiano está crescendo em termos de editoras, pois já temos editoras aqui que apresentam qualidade suficiente, em suas produções, pra concorrer com as grandes, seja do eixo Rio-São Paulo ou de outros lugares do mundo - a exemplo da Casarão do Verbo, cujas edições são belíssimas, da P55 e da Solisluna, que publicam além de literatura e ensaios, livros de arte com altíssimo padrão de qualidade. Há uma política estadual, através da Secult e da Fundação Pedro Calmon, que promovem edições e estimulam essas boas editoras. 

Não saberia falar mais como são esses editais porque não posso participar, pois é vetada a participação de funcionários públicos neles, todavia, vemos que muitos autores baianos têm seu primeiro livro publicado em edição de qualidade muito por causa desses editais e da profissionalização das editoras baianas. Mas essa mesma expansão não pode ser observada em relação a outros aspectos importantes que circundam o livro. 



Por exemplo: os distribuidores são escassos, nossos livros se restringem aos lançamentos e raramente são vistos fora da Bahia; as revistas literárias inexistem, os espaços dos jornais dedicados à literatura e ao livro em geral são cada vez menores; as TVs locais dificilmente se interessam em colocar em sua pauta a produção literária baiana, exceto se envolver alguma polêmica ou se estiver dentro da dobradinha com a música ou outras artes mais populares; as livrarias e sebos de rua também são escassos, e as livrarias dos shoppings tendem a uma padronização dentro da qual o autor baiano não tem muita chance de aparecer, pode até estar lá na prateleira, mas quem vê? De quem se chama atenção? Não temos agências literárias, que fariam essa mediação entre autor, livraria e público. Então, ainda é um mercado tímido nesses últimos aspectos.



"Do outono" e outros poemas - poesia, In: "Tanta poesia", 2006

Calila das Mercês - Chuva Secreta é um livro de contos, o anterior é romance. Dois romances, três livros de contos e uma novela compõem a sua obra. Qual a sua relação com o gênero poesia? Pretende escrever algum livro que coloque a poesia em primeiro plano?

Állex Leilla - Gosto imensamente de poesia e me considero uma leitora singular desse gênero: capto rapidamente a alma poética, percebo nuances que muitos leitores, alguns até poetas profissionais, não percebem e considero uma dádiva viver ao lado de um poeta que muito admiro - meu marido João Filho. Adoro ler poesia, descobrir poetas e costumo mensurar o grau de complexidade de uma cultura pelos seus poetas. Não gosto de usar a palavra pra qualquer um. Evito usá-la mesmo pra pessoas conhecidas e/ou amigas que escrevem poesia, mas a meu ver não são bons poetas. Nesse sentido, minha visão é conservadora, acho que a poesia é o maior gênero literário, acho que poeta realmente tem um diferencial enquanto ser humano e artista, e não concordo com a ideia moderna de relativizar a poesia e tirar a "aura" dos poetas! Sou das antigas e realmente acho a poesia sagrada. Mas não sou poeta. Até escrevo textos que considero "pedaços poéticos". São impressões poéticas, digamos que o conteúdo seja poético, mas não alcançam a forma de um poema, ou seja, não tenho "forma" poética e não fiquei satisfeita com nenhuma das tentativas que fiz de escrever poesia, por isso, não tenho nenhum plano nesse sentido. No romance que ora escrevo há um personagem poeta, tive de escrever alguns "poemas" pra "ele" a fim de compor certas passagens do livro. Acho que ficaram bonzinhos, mas é só.



"Henrique", romance, ed. Domínio Público, 2001

Calila das Mercês - Chuva Secreta é um livro instigante só pelo título. Traz nove histórias relacionadas com as diferentes estâncias da chuva: forte, fina, rente, inclinada. Por que a escolha desse enfoque tão direto com a chuva? O que ela significa pra você?

Állex Leilla - Esse livro tinha inicialmente 13 contos, mas depois reduzi a 11, por não estar satisfeita com dois deles. Eu queria trabalhar com a imagem da chuva porque é algo que me captura muito, queria usá-la enquanto um fenômeno da natureza que estimulava crises nos sujeitos ou repercutia de forma positiva em suas crises já instaladas. Não sabia qual título usar, mas sabia que tinha a ver com chuva. Quando João Filho leu o livro disse "Chuva Secreta", o que achei perfeito, pois faz essa ligação entre "o de fora" (a chuva) e o "de dentro" (a subjetividade dos personagens). 

O que liga as histórias é a relação que se faz entre as confissões e ações dos sujeitos e o tempo molhado, que a meu ver conduz a um entranhamento, a uma subjetividade maior. A chuva em geral nos põe dentro de casa, se for chuva fria, nos obriga ao agasalho, à proteção. Entretanto, é quando ficamos mais reflexivos e até mais poéticos. A ideia do livro é justamente fornecer uma coreografia pra chuva que cai e nos isola, os personagens usam o tempo chuvoso enquanto metáfora de descobertas íntimas.

O livro ficou uns dois anos na editora, e quando a Casarão do Verbo decidiu publicá-lo, tive de reler conto por conto a fim de não deixar passar aquilo que considero "fora do espírito do livro". Na versão final, cortei mais contos, chegando ao formato de 9, que considerei mais redondinhos, "inseridos" na ideia central do livro. Sou leitora de grandes contistas, como Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti, Lygia Fagundes Telles, Ricardo Ramos e Caio Fernando Abreu. Aprendi com eles a pensar o livro de contos como uma unidade, não como simples reunião de contos. Então, sempre penso na ideia central do livro, um eixo temático e formal sobre o qual se pode ir encaixando as histórias. As histórias de Urbanos, meu primeiro livro de contos, estão ligadas pela ideia de flashes urbanos, pequenos momentos em que a câmera abre e fecha uma intimidade nas ruas de Salvador. Obscuros gira em torno da morte e da perda. 

Tenho, por exemplo, um livro de contos inédito em que os personagens todos têm em comum uma sensibilidade enorme e uma dificuldade de lidar com os extremos de alegria e tristeza, ganhos e perdas, típicos da vida humana, por isso, eles são densos e, ao mesmo tempo, delicados. Daí eu roubei de Herbert Vianna a metáfora do "elefante" (que ele usa maravilhosamente na música "Dois elefantes", do disco Bora Bora, dos Paralamas do Sucesso). Ou seja, são personagens "elefantes", belos, mas densos. E as histórias passam isso. Esse livro ganhou menção honrosa em 2002, no Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira da revista Cult (a vencedora foi Tércia Montenegro, a meu ver merecidamente, pois é realmente a melhor autora contemporânea brasileira de sua geração - sou um pouco mais velha que ela), mas permanece inédito.

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