sábado, 28 de dezembro de 2013

Cidade Cinza e o direito de grafitar



Por Calila das Mercês,
de Salvador

Por que o grafite em São Paulo não é visto como arte? Por que é preferível manter paredes cinza ao invés de imagens coloridas e lúdicas que representam o cotidiano dos cidadãos, que os inspiram ou questionam? O que é entendido pelos gestores como limpeza urbana? Cidade Cinza, documentário dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, lançado este mês, com ajuda do site de crowdfunding Catarse, traz como foco a discursão sobre o grafite e o embate com a prefeitura da cidade.

“Você acha isso bonito? Você acha que isso é arte?”, é o que pergunta um agente da prefeitura defronte a um muro grafitado e é efusivo ao dizer que “é eles (os artistas) pichando e a gente cobrindo”. 



OsGemeos, Nunca, Ise, Finok, Zefix, Nina, entre outros, são mais que simples grafiteiros, são artistas que gostariam de expor a sua arte na cidade onde vivem e serem respeitados. Alguns deles são conhecidos por seus trabalhos expostos em museus e galerias de outros países, mas no Brasil acabam não tendo a mesma recepção. O documentário é muito bem montado e completa-se ao ser somado a trilha sonora inédita de Criolo e Daniel Ganjaman. Confira o trailer:

O longa-metragem Cidade Cinza expõe a miopia cultural, mostra-nos que estamos muito atrasados nos quesitos política cultural e ainda no planejamento urbano. Cidade muito cheia, muito veloz, porém muito desorganizada e desagregadora. Por que grafitar não é arte e é visto como poluição? É mais uma pergunta que ainda não foi respondida. 

Cinema: A experiência de sentidos de Azul é a cor mais quente


Por Calila das Mercês,
de Salvador

O polêmico filme francês “Azul é a cor mais quente” (La vie d’Adèle, 2013), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes estreou no Brasil em dezembro e ganhou repercussão de críticas nos principais jornais de circulação nacional e revistas e sites especializados no assunto.

Dirigido por Abdellatif Kechiche, o filme foi baseado em uma HQ de Julie Maroh, Le Bleu est une couleur chaude. Um dos motivos pelo qual o filme chama atenção é a duração das cenas de sexo explícito entre Adèle e Emma, interpretadas por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, respectivamente.

 Azul é a cor mais quente conta a história de Adèle que, na adolescência, percebe o desejo por outra garota. O que é interessante no filme é o retrato de como os adolescentes europeus se comportam diante dessa situação, que não difere da atitude, por exemplo, de ambientes escolares no Brasil.

O filme tem duração de três horas e, mesmo assim, o roteiro não perde fôlego. Apresenta planos e enquadramentos que se aproximam de uma história em quadrinhos, funcionando como uma espécie de diário da protagonista.



O enredo ganha a cor azul quando Emma, ainda estudante de Belas Artes, entra na vida de Adèle, tornando-se seu grande amor. Esse evento traz a reflexão de outro aspecto interessante, que é a relação familiar. De um lado, uma família aberta, sem conservadorismo, diante da identidade sexual de Emma, e do outro uma família conservadora que não possibilita um diálogo pautado na sinceridade.

Relações de interesse, sentimentos, poder, conveniência e lealdade são assuntos que também são explorados no longa, além da questão sexual que parece ser o único viés do filme, o que não é verdade. Assistir a “Azul é a cor mais quente” é uma experiência única.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dois sucessos teatrais voltam a cartaz no Rio de Janeiro em janeiro

  • À Beira do Abismo Me Cresceram Asas

Texto: Maitê Proença (baseado em pesquisa e ideia de Fernando Duarte). Direção: Clarice Niskier e Maitê Proença, com supervisão de Amir Haddad. Elenco: Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz

O texto tem como ponto de partida histórias reais colhidas em diferentes asilos do Brasil. A partir daí, criaram-se novos histórias, ideias, conceitos, costurou-se suspense com magia, brotou a dramaturgia, surgiu a peça e nasceram Terezinha e Valdina. Valdina (Clarisse Derzié Luz), de 80 anos, parece levar o dia a dia com otimismo, sem nostalgias, mas não se engane, ela carrega um grande segredo. Terezinha (Maitê), de 86, é de temperamento carrancudo ainda que bem resolvido. 

Foto: Paula Kossatz

Local: Teatro Carlos Gomes – (Praça Tiradentes, s/nº - Centro) 
Telefone: 21-3005-41014
Bilheteria: quarta a domingo, das 14h às 20h
Valor: R$ 50,00
Horário: quinta a sábado, às 20h, domingo, às 19h
Capacidade: 685 lugares
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos
Gênero: comédia dramática
Temporada: de 9 de janeiro a 2 de fevereiro (exceto dias 23, 24, 25 e 26/1)

  • Gonzagão, a Lenda
Texto e direção: João Falcão. Elenco: Marcelo Mimoso, Laila Garin, Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros.


Marcelo Mimoso
(foto: Silvana Marques)

Vencedor do Prêmio Shell 2012 de Melhor Música e de Melhor Produção no 7º Prêmio APTR, o espetáculo “Gonzagão – A Lenda”, de João Falcão, faz nova temporada no Rio de Janeiro. O diretor João Falcão evitou qualquer didatismo na construção do texto, optando por uma abordagem teatral, não enciclopédica, que fica explícita logo no início da peça, quando uma trupe se apresenta para contar a “lenda do Rei Luiz”, história iniciada “no sertão do Araripe lá pelos idos do século 20”. O espetáculo conta com mais de 50 canções, entre elas “Cintura fina”, “O xote das meninas”, “Qui nem jiló”, “Baião”, “Pau-de-arara” e sua mais célebre criação, “Asa branca”. 


Local: Teatro João Caetano (Praça Tiradentes s/n - Centro - Rio de Janeiro)
Temporada: De 9 a 26 de Janeiro.
Horário: Quinta, sexta e sábado às 20h. / Domingo às 19h
Ingresso: R$20,00 (inteira)/ R$10,00(meia)
Classificação: 12 anos
Duração: 80 minutos
Capacidade do Teatro: 1.127 lugares
Telefone do teatro: 21 2332-9257 
Horário de funcionamento da bilheteria: Terça a domingo, das 14h às 18h (para vendas antecipadas), ou até a hora do espetáculo para sessões do dia.

Balé Teatro Castro Alves dança Manoel de Barros

Por Calila das Mercês,
de Salvador



A delicadeza das miudezas, a grandiosidade das meninices: difícil não encontrar inspiração no poeta mato-grossense Manoel de Barros. Sua reinvenção de ambientes, saiu, em 2013, das páginas de livros para ocupar palcos diversos no último espetáculo do tradicional Balé Teatro Castro Alves.

Há 30 anos existente no cenário cultural da Bahia, o Balé encontrou na simplicidade de Manoel de Barros possibilidades de compor a arte, “transpondo sentidos, com um olhar ingênuo, lúdico, quase infantil, mas, ao mesmo tempo, mais astuto e sincero.”

A coreografia da apresentação é de Jomar Mesquita e Rodrigo de Castro, com direção artística de Jorge Vermelho.

A última apresentação do Balé em 2013, que aconteceu no Teatro Castro Alves (Salvador) no dia 21 de dezembro, reuniu um público reduzido, considerando a capacidade da casa. O que não tira em nada o mérito da montagem, que mescla os sentidos possíveis da dança com o teatro e a música. Os dançarinos recitam, cantam, contam anedotas, mas protagonista é a emoção possibilitada pela dança, reinventada e reproduzida pela magia de clássicas músicas da MPB e boleros.


Um singelo toque ao coração com a sublimidade de todos os objetos de cena. “...Ou isso” marca e abre ao espectador a possibilidade de sonhar um novo ano, tal qual a magia de um pequeno inseto quando descoberto por uma criança.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A urgência musical de Ney Matogrosso


Por Calila das Mercês,
de Salvador 

Um artista "Atento aos sinais". Do tempo, da modernidade, do humano. Assim eu definiria Ney Matogrosso. Um performer musical que permanece no imaginário dos brasileiros desde a sua rápida passagem pelo grupo Secos & Molhados na década de 70 e, hoje, aos 72 anos lança o atualíssimo disco Atento aos Sinais (2013)(capa acima).

Depois dos aclamados "Inclassificáveis" (2008), "Beijo Bandido" (2009) e "Beijo Bandido Ao Vivo" (2011), Ney Matogrosso dá continuidade a esse fluxo de registrar importantes composições com sua marcante e afinada voz no novo disco. Produzido por João Mário Linhares e Sacha Amback, e dirigido e arranjado pelo último, o trabalho apresenta a contemporânea "Rua de Passagem" (veja o clipe ao final do post), composta por Arnaldo Antunes e Lenine, e mescla tradicionais composições de autores como Paulinho da Viola e Itamar Assumpção com músicas de Pedro Luis (parceiro de outros trabalhos de Ney), Vitor Ramil, Dani Black e Criolo, entre outros novos compositores.




Nessa evidente urgência de recortar o seu tempo através da música, Ney, que sempre foi atemporal, ou talvez à frente de qualquer tempo, continua fazendo um trabalho musical poético e político, que não está apenas Atento aos Sinais, mas atento ao outro, à vida, que "todo mundo tem direito igual", como diz um dos versos de "Rua da Passagem".

Performance, irreverência e poesia. Marcas de um cantor que não carrega somente o estado de origem no nome, mas a perfeita mostra da música popular brasileira de qualidade.


Assista o documentário De Minas a Noel, de 1987

Neste dia de Natal, disponibilizamos aqui no blog a íntegra do documentário De Minas a Noel, produzido em 1987, ano do cinquentenário da morte do Filósofo do Samba. O vídeo, inicialmente pensado para ser um trabalho acadêmico da cadeira de Teoria Literária do curso de Letras da Faculdade de Muriaé, interior de Minas Gerais, pelas então alunas Ana Cristina Rodrigues, Carla Cristina Amaral, Luciane Machado, Marília Lopes e Wanda Lucia Aguiar, é hoje um documento precioso, tendo em vista que reúne depoimentos de dois contemporâneos de Noel, ambos já falecidos - o compositor João de Barro, o Braguinha, seu parceiro, e o pianista Alcyr Pires Vermelho -, além de grandes nomes da MPB como Chico Buarque e Ruy Faria, que à época integrava o MPB-4, que naquele ano homenageava Noel com o show Feitiço Carioca. 

O vídeo inicia com um esboço biográfico de Noel, apresentado pelas autoras num parque em Muriaé, e encerra com Ana Cristina conduzindo o espectador a um passeio pelos lugares do Rio de Janeiro ligados à vida e obra de Noel Rosa, como os Arcos da Lapa e as calçadas musicais de Vila Isabel.

O material, após ser apresentado como trabalho de aula, ficou guardado com as autoras até 2008, quando minha amiga professora Vânia Correia Pinto, também de Muriaé e residente no Rio de Janeiro, comentou comigo a respeito de sua existência. (Vânia é a responsável pelo Projeto Brasileirinho, que trabalha com alunos de Filosofia do ensino médio conteúdos desenvolvidos a partir do CD Brasileirinho, de Maria Bethânia). Como eu demonstrei interesse, Vânia me colocou em contato com Ana Cristina, que fez uma cópia em CD-R do antigo VHS e me enviou pelo Correio.

Imediatamente pedi autorização de Ana Cristina e suas antigas colegas para disponibilizar o material no YouTube e também em meu site Brasileirinho, e também para exibições públicas. Cheguei a fazer cinco sessões do filme em Porto Alegre: três sessões comentadas em 2008 no auditório da loja Manlec (onde na época realizei um ciclo de palestras sobre figuras da música brasileira, inclusive Noel Rosa), e mais duas em 2009. A primeira, no primeiro sábado de maio, para alunos da Oficina de Samba e Choro do Santander Cultural, seguida de apresentação de cantores e instrumentistas da Oficina. Em setembro de 2009, fiz outra sessão comentada dentro do projeto Cultural Movies do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano. No YouTube, a maioria dos vídeos tem poucas visualizações, algo em torno de 700 a mil e poucas, com exceção da entrevista com Braguinha, a recordista com mais de 13 mil views até agora. Imagino que o número possa aumentar, em função de hoje eu ter (com um indesculpável atraso...) enfim agrupado os 8 vídeos em uma playlist, que é o que você poderá assistir logo a seguir.

Alguns trechos do filme estão um pouco comprometidos pela ação do tempo sobre a fita VHS, mas creio que não chegam a atrapalhar a fruição do material. Ao menos isto não aconteceu nas cinco exibições públicas já realizadas, nem foi relatado nada neste sentido com mais de cinco anos e meio de veiculação no YouTube. 




São executadas na trilha sonora as seguintes músicas:





  • "Homenagem a Noel" (Moreira da Silva) Moreira da Silva, PolyGram, 1979
  • "Choro" (Noel Rosa) Luiz Otávio Braga, Henrique Cazes e Caola Eldorado, 1983
  • "Conversa de Botequim" (Vadico - Noel Rosa) Moreira da Silva, Odeon, 1966
  • "Três Apitos" (Noel Rosa) MPB-4, Philips, 1974

  • "Feitio de Oração" (Vadico - Noel Rosa) executada por Alcyr Pires Vermelho ao piano (inédita)
  • "Com que Roupa?" (Noel Rosa) 
  • executada por Alcyr Pires Vermelho ao piano (inédita)
  • "Laura" (Alcyr Pires Vermelho - João de Barro) 
  • executada por Alcyr Pires Vermelho ao piano (inédita)
  • Na Pavuna" (Almirante - Homero Dornelas) cantada à capela por João de Barro 
  • (inédita)
  • "Prato Fundo" (Noel Rosa - João de Barro) 
  • cantada à capela por João de Barro (inédita)
  • "Feitio de Oração" (Vadico - Noel Rosa) intérpretes não-identificados
  • "Feitiço da Vila" (Vadico - Noel Rosa) Aracy de Almeida
  • "Fita Amarela" (Noel Rosa) Aracy de Almeida
  • segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

    Divulgada a capa do CD Bem que Podia, da Poeta Amadio



    Esta é a capa do primeiro CD da Poeta Amadio. Intitulado Bem que Podia, o disco, que reúne poemas recitados e musicados, tem lançamento previsto para março de 2014. Gravado em Porto Velho e Boa Vista de janeiro a agosto deste ano, o CD tem produção artística de Fabio Gomes (o editor deste blog) e produção fonográfica de Luis Paulo Pinheiro e Thiago Maziero (ambos integrantes da banda Kali e os Kalhordas). Todos os músicos da banda 'Kalhordas' participaram de algum modo do CD, a começar pela vocalista Kali Tourinho, que canta na faixa-título, da qual é co-autora. Também participaram das gravações, entre outros, o poeta Binho (que teve seu "Lero com o Leitor" incluído no CD),  os cantores Gioconda Trivério e Rômulo Oliveira e o músico Vitor Piani, além de Ana Gabriela e Hugo Pereira, integrantes da banda Jamrock. A capa é um trabalho do designer paulista Leandro Carvalheira, sobre foto de autoria de Ronaldo Nina. 

    Além de "Bem que Podia", o disco inclui dois poemas de Amadio já musicados: "Vê se Vê", parceria com Giovani Viecilli, e "A Reta, a Curva e os Bairros da Cidade", parceria com Thiago Maziero.  No total, o CD tem 13 faixas, incluindo uma vinheta em que Amadio interpreta um hai kai de Eliakin Rufino e uma faixa-bônus, "Sobre o Acaso", fonograma que abre o primeiro CD de Kali e os Kalhordas, ...E a Primavera Chega, lançado em 2012.

    Foi a proximidade de Amadio com a banda Kalhordas que fez com que a artista e seu produtor Fabio Gomes optassem, ao buscar um público mais amplo para sua arte, por fazer um CD e não um livro, como seria o mais comum. "Há hoje um bom público interessado em ouvir poesia em saraus e recitais", revela Fabio Gomes. "Só em São Paulo, onde Amadio mora desde maio, se estimam em centenas os eventos semanais dedicados à poesia falada". Evidentemente, não se descarta a ideia de publicar os poemas de Amadio em livro. "Mas isto não deve acontecer antes do final do ano que vem, até lá nossa prioridade é trabalhar o CD".

    A finalização e prensagem do CD devem ser viabilizados através de uma campanha de financiamento colaborativo, a ser anunciada em breve. O disco será lançado pelo selo do Som do Norte, do qual Poeta Amadio é artista exclusiva.

    Acompanhe notícias da Poeta Amadio e leia seus poemas no blog http://poetaamadio.blogspot.com.br 


    Especial Dia Nacional do Samba (2)

    Márcio Gomes Batuqueiro Depois de relembrar - e descartar - as duas principais versões sobre o porquê do Dia Nacional do Samba ser comemorado em 2 de dezembro (releia a primeira parte do nosso Especial), chegou o momento de compartilhar com vocês o artigo inédito e esclarecedor escrito por Márcio Gomes, ritmista, produtor e pesquisador, de Juiz de Fora (MG).

    Feliz Dia Nacional do Samba!

    (Fabio Gomes)

    ***

    A VERDADE SOBRE O DIA DO SAMBA
    Márcio Gomes

    Todo ano surge na imprensa uma série de afirmações inverídicas sobre a origem do Dia do Samba, comemorado em dois de dezembro. A mais comum delas é a de que o compositor Ari Barroso teria visitado Salvador pela primeira vez em um dia dois de dezembro e, em função disso, a Câmara Municipal daquela cidade teria criado a data comemorativa. Com o objetivo de esclarecer a origem do Dia do Samba, trago aqui a verdade, fruto de exaustiva e documentada pesquisa. 

    Vamos lá: entre os dias 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962 foi realizado no Palácio Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, o Primeiro Congresso Nacional do Samba, evento patrocinado pela Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES), pela Associação Brasileira das Escolas de Samba (ABES), pela Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, pelo Conselho Nacional de Cultura e pela Ordem dos Músicos do Brasil. Na presidência do Congresso estava o folclorista Edison Carneiro; na vice-presidência estavam Ary Barroso, Araci de Almeida, Almirante, José Siqueira, Pascoal Carlos Magno, Paulo Lamarão e Servan Heitor de Carvalho; na secretaria-geral estava Jota Efegê. Do Congresso resultou a Carta do Samba, elaborada por Edison Carneiro, a qual menciona, em sua página 6, que “Foi sancionada lei estadual declarando o dia 2 de dezembro Dia do Samba, à base de projeto apresentado, nesse sentido, pelo deputado Frota Aguiar”. Ao mencionar a sanção da lei, a Edison Carneiro contava, antecipadamente, com a aprovação do Projeto de Lei n° 681, de 19 de novembro de 1962 (publicado no Diário da Assembleia Legislativa do dia 20 de novembro de 1962), que em seu artigo 1° dispõe: “Fica o dia 2 de dezembro oficialmente considerado como o Dia do Samba”. Todavia, apesar de aprovado em plenário, o projeto foi vetado pelo então governador Carlos Lacerda, que apôs decisivo despacho em sua negativa formal: “Não há razão para considerar outro Dia do Samba além dos três já dedicados à nossa festa popular, em que ele é exaltado espontaneamente pelo povo, sem a interferência do Poder Público”.  O veto do Governador foi posteriormente rejeitado pelo Plenário, com o voto de vinte e nove deputados, transformando-se na Lei n° 554, de 27 de julho de 1964. Assinada no dia 29 de julho pelo deputado Vitorino James, presidente da Assembleia, ela foi publicada no Diário Oficial do Estado da Guanabara, no dia 7 de agosto de 1964.

    Paralelamente, o vereador soteropolitano Luiz Monteiro da Costa apresentou, na Câmara Municipal de Salvador, em 3 de outubro de 1963, o projeto de lei n° 164/63, que “institui o Dia do Samba, manda preservar as características da música popular e dá outras providências”. Em seu projeto, o vereador menciona explicitamente, em seu artigo 2°, o Primeiro Congresso Nacional do Samba e a respectiva Carta do Samba nele aprovada. Menciona ainda, no parágrafo único daquele artigo, que as comemorações do Dia do Samba em Salvador naquele ano de 1963 serão em homenagem ao compositor Ary Barroso “após a entrega do título de ‘Cidadão da Cidade de Salvador’ que lhe concedeu a Câmara Municipal de Vereadores da Cidade de Salvador” (estranhamente, a própria Câmara Municipal, em resposta a consulta por mim formulada, diz não ter conhecimento da concessão desse título; a biografia do compositor mineiro escrita por Sérgio Cabral também não faz qualquer menção a essa homenagem, destacando, sim, um título que lhe foi concedido, de “Cidadão Baiano”, em junho de 1956, por iniciativa de estudantes e professores universitários). O que se sabe é que em 18 de novembro de 1963, data da assinatura pelo Prefeito de Salvador da Lei n° 1.543, resultante da conversão do citado Projeto de Lei, Ary Barroso encontrava-se internado na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, gravemente enfermo e desenganado pelos médicos, não podendo ter comparecido em Salvador para festejos e homenagens. Provavelmente a homenagem proposta pelo vereador Luiz Monteiro da Costa, especificamente para aquele ano de 1963, seja explicada pelo estado de saúde de Ary Barroso, que viria a falecer pouco tempo depois, no dia 9 de fevereiro de 1964.

    Como se vê, tanto a Lei Estadual n° 554/64, do Estado da Guanabara, quanto a Lei Municipal n° 1.543/63, da Cidade de Salvador, surgiram a partir da Carta do Samba, aprovada no Primeiro Congresso Nacional do Samba, mencionando-a explicitamente. Assim, a criação do Dia do Samba é, sem sombra de dúvidas, fruto daquele Congresso. Destaque-se que o II Congresso Nacional do Samba, realizado em novembro de 1963 no Estado da Guanabara, traz em seu boletim de encerramento nova menção ao dia 2 de Dezembro como Dia do Samba dizendo textualmente: “Nas escolas de samba da Guanabara e nos redutos principais do samba, nessa data, o samba será festejado com o repicar de tamborins, com o ‘roncar’ das cuícas e com uma alvorada de 21 batidas no ‘surdo’. O tão esperado Dia do Samba também será comemorado pelas emissoras de rádio que apresentarão programas com gravações de nossa consagrada música popular”. Com efeito, a partir de 1963 o Dia do Samba passou a ser comemorado em algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Santos. Com o passar do tempo, essas comemorações alcançaram abrangência nacional, com a realização de rodas de samba, shows e outras solenidades.

    Vê-se que nenhum dos dois diplomas legais acima citados se propõe a instituir um Dia Nacional do Samba: eles criam o Dia do Samba, cada um dentro das suas respectivas competências, procurando contribuir com o que foi definido no I Congresso Nacional do Samba. Posteriormente, no dia 2 de dezembro de 1983, por iniciativa do vereador santista Adelino Rodrigues, foi sancionada e promulgada pelo prefeito Paulo Gomes Barbosa a Lei n° 4.581/83, que instituiu o Dia do Samba em Santos, tornando oficial uma comemoração que já vinha acontecendo há vinte anos.

    Inexiste assim qualquer lei de âmbito federal que institua o Dia NACIONAL do Samba, diferentemente do gênero musical “choro”, objeto da Lei n° 10.000, de 4 de setembro de 2.000, resultante do PLS n° 39/99, de autoria do senador Artur da Távola, que instituiu o dia 23 de abril como o Dia Nacional do Choro. Temos, sim, alguns projetos de lei na Câmara Federal, que criam o Dia Nacional do Samba, mas nenhum deles foi até hoje objeto de votação pelo plenário. Curiosamente, um deles, em plena contramão, propõe que a comemoração se dê no dia 05 de abril, data do natalício de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga. O certo é que, independentemente disso, o Dia Nacional do Samba é hoje uma data consolidada, correspondendo à expectativa daqueles que firmaram a Carta do Samba no longínquo dia 2 de dezembro de 1962.

    Fontes:
    a)  Carta do Samba, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, Ministério de Educação e Cultura;
    b)  Diário da Assembleia Legislativa, Estado da Guanabara;
    c)  Diário Oficial do Estado da Guanabara;
    d)  Câmara Municipal de Salvador;
    e)  Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira vol. 2; de Jota Efegê;
    f)   O Samba Santista em Desfile, de Jota Muniz Júnior;
    g)  Portal de Atividade Legislativa do Senado Federal;

    h)  Portal da Câmara Federal.



    domingo, 1 de dezembro de 2013

    Sarau Literário em Feira de Santana reúne novos escritores e poetas feirenses

    Por Calila das Mercês,
    de Salvador


    Poesia, música, dança, cultura e arte. Para encerrar o ano com chave de ouro, a Sociedade dos Poetas Quase Vivos e a Editora Nova Letra realizou no dia 28 de novembro, quinta, uma noite de lançamentos e despedidas. A última edição de 2013 do Sarau Literário aconteceu no MAC - Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana, Bahia, reunindo um público interessado não apenas nas artes literárias, mas também em música e arte.

    O evento contou com a presença de escritores e poetas feirenses: Gleide Gavim, Lia Sena, Luciano dos Anjos, Thiago El-Chami - que lançou ‘Glosares’ pela editora do MAC. A música instrumental ficou por conta de Amanda Queiroz, Caroline Lopes, Janille Santos e Sara Matos Brasil, que tornaram o ambiente ainda mais aconchegante. O momento propiciou uma breve apresentação dos escritores, que contaram um pouco sobre os trabalhos e as experiências vividas na área literária, além de curiosidades e peculiaridades de quem escolhe como vida o mundo literário.

    Em alguns momentos o público foi surpreendido por declamações performáticas através do radialista Elsimar Pondé, do poeta Weslley Almeida, do escritor Jefferson Moura, das atrizes Keu Costa e Lene Costa e da bailarina Laísa Melo. A produção foi do Projeto Diálogos Artísticos. 


    O Sarau Literário é uma evolução do Café Literário realizado no ano de 2012 pela Editora Nova Letra e pela Sociedade dos Poetas Quase Vivos. Hoje, o Sarau reúne escritores consagrados e iniciantes para palestrarem e divulgarem seus trabalhos, com o objetivo de difundir e democratizar a literatura entrelaçando e dialogando com outras linguagens artísticas em Feira de Santana e região. 

    Especial Dia Nacional do Samba (1)

    Anualmente, o Brasil comemora em 2 de dezembro o Dia Nacional do Samba. O que pouca gente sabe é o real motivo da comemoração ser nesta data. Eu conhecia duas versões, uma ligada a Ary Barroso (foto à direita), outra ao samba "Pelo Telefone", e escrevi a respeito no Mistura e Manda em 2005. Ao longo do tempo, a versão ligada ao "Pelo Telefone" praticamente caiu em esquecimento, enquanto a relacionada a Ary Barroso segue firme e forte. De todo modo, no texto de 2005 eu refutei as duas, e concluí, meio peremptoriamente, que não havia como saber a verdade sobre a questão. Felizmente, alguém leu e não se conformou com minha sombria conclusão - trata-se do pesquisador Márcio Gomes, de Juiz de Fora (MG), a quem conheci ao participar da Semana do Samba em Salvador, novembro-dezembro de 2007. Nesta semana Márcio me enviou um artigo que escreveu que esclarece definitivamente a questão. 

    Vamos então fazer o seguinte: hoje publicamos meus textos sobre a possível ligação do Dia do Samba com as versões conhecidas, e amanhã, justamente o dia 2, teremos aqui o inédito texto de Márcio Gomes. (Fabio Gomes)

    ***
    Dia do Samba - as versões


    Nesta semana, comemoraremos, no dia 2 de dezembro, o Dia Nacional do Samba. Mas por que exatamente nesse dia? Bom, há duas versões a respeito.

    A mais conhecida diz que, na primeira viagem de Ary Barroso à Bahia, assim que ele botou o pé lá, um vereador propôs uma lei declarando aquele dia como o Dia do Samba na Bahia. A partir do ano seguinte, a data foi adotada pelo país todo.


    Outra quer fazer crer que esta seria a data da gravação do primeiro samba, "Pelo Telefone", de Donga e Mauro de Almeida.

    ***

    Dia do Samba (2) - o mistério

    Lamento, mas devo informar que ambas as versões só podem ser consideradas como lenda.

    Em relação à mais conhecida: a primeira viagem de Ary Barroso à Bahia foi em 1929, em janeiro, não em dezembro. Em março ele já estava de volta ao Rio de Janeiro. Ele ainda não era conhecido a ponto de dar margem a uma homenagem deste porte. Outra viagem conhecida de Ary à Bahia foi em 1956, no mês de junho. Ambas são mencionadas no livro de Sérgio CabralNo Tempo de Ari Barroso (Ed. Lumiar, s/d): à pág. 47, o mês da viagem de 1929; à pág. 49, trecho de carta do compositor escrita do Rio de Janeiro no início de março de 1929; sobre a viagem de 1956, em que Ary recebeu homenagem, ver pág. 358. Lógico que ele até pode ter ido outras vezes, mas ninguém consegue dizer em que ano teria se dado essa viagem que inspirou a lei. Além disso, a lenda incorre num erro crasso: vereador só pode legislar no município, de sorte que ou foi um vereador que propôs a lei para Salvador, ou foi um deputado estadual que a postulou para o Estado da Bahia. (A respeito das relações de Ary Barroso com a Bahia, leia os Mistura e Manda nº 4 e o nº 6!)(Obs: em julho de 2006, localizei no livro da pesquisadora Aninha Franco O Teatro na Bahia Através da Imprensa - Século XX, de 1994, informação sobre outra viagem de Ary Barroso à Bahia, em 1933, cuja data pode ser estimada entre os meses de abril e julho - novamente, não era dezembro...)

    Quanto à outra, o samba "Pelo Telefone", sucesso no carnaval de 1917, foi gravado originalmente em janeiro daquele ano, apenas como instrumental, pela Banda Odeon, e a seguir, em fevereiro, pelo cantor Bahiano e o conjunto da Odeon. O registro do samba na Biblioteca Nacional, no Departamento de Direitos Autorais, foi solicitado em 6 de novembro de 1916, com adendo do autor no dia 16. O registro foi emitido em 27 de novembro. A partitura foi impressa em 16 de dezembro. Como vemos, nada com o dia 2 de dezembro. Além de tudo, não custa lembrar "Pelo Telefone" NÃO FOI o primeiro samba composto, nem ao menos gravado. Existem referências ao samba na imprensa de Recife desde 1837, e gravações comprovadas desde 1913, tanto no Rio quanto em Porto Alegre, pelo menos. O valor histórico de "Pelo Telefone" é de ter sido o primeiro samba a fazer sucesso no carnaval.

    Enfim, não há como saber por que o dia 2 de dezembro é o Dia Nacional do Samba. Mas, enfim, que bom que alguém resolveu dedicar um dia ao samba!!!!!

    (Fabio Gomes - Mistura e Manda nº 122 - 28/11/2005)