quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Cinema Belém: Tatuagem



Recife, 1978. Clécio Wanderley (Irandhir Santos) é o líder da trupe teatral Chão de Estrelas, que realiza shows repletos de deboche e com cenas de nudez. A principal estrela da equipe é Paulete (Rodrigo Garcia), com quem Clécio mantém um relacionamento. Um dia, Paulete recebe a visita de seu cunhado, o jovem Fininha (Jesuíta Barbosa), que é militar. Encantado com o universo criado pelo Chão de Estrelas, ele logo é seduzido por Clécio. Não demora muito para que eles engatem um tórrido relacionamento, que o coloca em uma situação dúbia: ao mesmo tempo em que convive cada vez mais com os integrantes da trupe, ele precisa lidar com a repressão existente no meio militar em plena ditadura. 

Tatuagem

Direção e RoteiroHilton Lacerda  | Gênero: Drama | Ano: 2013 |  País:  Brasil | Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado | Fotografia: Ivo Lopes Araújo | Trilha Sonora: DJ Dolores | Produção: João Vieira Jr. | Distribuidora: Imovision | Cor: Colorido | Duração: 110 min. |  Classificação etária: 16 anos


Datas e horários das sessões:


De 29/01 a 01/02 (de quarta-feira a sábado) - 19h 
02/02 (domingo) - 17h e 19h
De 05 a 08/02 (de quarta-feira a sábado) - 19h
09/02 (domingo) - 16h30 


Ingressos: 

R$ 8,00 (com meia entrada para estudantes) 

O Cine Líbero Luxardo dispõe de 86 lugares, com espaços para cadeirantes


Cine Líbero Luxardo

Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves | Av. Gentil Bittencourt, 650, Nazaré, Belém, Pará
Informações: (91) 32024321 | cinelibero@gmail.com

Exposição Salvador: Fluxo


Teatro Macapá: Novo Amapá


Música: Agenda de Mariene de Castro em fevereiro


Música: Confira as datas da Brazil Tour 2014 da Brujería


domingo, 26 de janeiro de 2014

Poeta da Semana: Lara Utzig

A Poeta da Semana é Lara Utzig. Nascida em 31 de dezembro de 1992 em Macapá, foi criada no Rio Grande do Sul e voltou para o Amapá na adolescência. Escreve desde os 8 anos de idade. É formada em Letras/Inglês pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), cursando atualmente o técnico em violão erudito no Centro de Educação Profissionalizante em Música Walkíria Lima. Integra a diretoria do grupo de artes integradas Pena & Pergaminho, que se reúne na primeira sexta-feira de cada mês no Centro Cultural Franco-Amapaense. É vocalista, violonista, compositora e arranjadora da banda de folk/experimental popular Desiderare, que lançou pelo blog Som do Norte o EP Caleidoscópio (2012). Também atua como declamadora. 

Sua primeira publicação foi numa antologia de jovens poetas de Lajeado (RS), em 2001. No Amapá, obteve o primeiro lugar no Varal Cultural da Unifap, em 2010. Em 2012, recebeu do grupo Abeporá das Palavras e do governo do Amapá o troféu Equinócio da Palavra, além de participar do e-book Sete Estações Poéticas, organizado por Marvin Cross. Foi incluída em duas publicações da editora Vivara: Antologia do Concurso Nacional Novos Poetas (2012) e Antologia do Prêmio Poetize (2013). Participou das duas edições já realizadas da Feira do Livro do Amapá (2012-13). 

Sua principal temática é o tempo, mas também aborda questões como o amor, a saudade, a morte, a metalinguagem e o preconceito. Veicula sua produção no blog http://mensagemefemera.blogspot.com 

***

REGÊNCIA


Teu nome
Verbo intransitivo
Que cabe em minha boca
Em cada sussurro ao pé do ouvido.

Meu sentimento
Verbo transitivo eterno
Amo, a partir desse momento,
Você: objeto direto.

Necessidade latente assim
Também requer complemento:
Preciso de você, rente a mim,
Com preposições em movimento.

Tu, tão cheia de predicados;
Eu, tão carente de predicativos;
Tu, sujeita a mil pecados;
Eu, conjunto de frases sem sentido.

Nós, oração de mensagens repletas;
Nós, semanticamente perfeitas;
Nós, formas morfológicas completas;
Nós, linguisticamente eleitas.

Sintaxe
Nossa.
Sinta-se...
Minha.
 


PORTA-BANDEIRA DA DOR


A Banda passa bem cedo
E nos perdemos no trio elétrico...
Já não lembramos dos sambas de enredo
Cantados na véspera do desfile estético.
Durante o feriado esquecemos os medos
E aderimos ao festejo eclético,
Enfeitando o corpo com adereços,
Contagiados pelo clima magnético.

As cores e a brincadeira,
A beleza de cada fantasia,
Só me fazem ser porta-bandeira
Das dores que voltarão um dia.
Por ora prosseguem as 'feiras'
Comemoradas com muita folia,
Mas desde já prevejo uma inteira
Destruição na avenida da vida.

Pois de que vale o Carnaval,
O pierrot e a colombina
Se é tudo fugaz e banal?
O confete e a serpentina
Com repetida alegria anual
Se esvaem entre algumas marchinhas.
E como morte, fatal:
Findam na quarta-feira de cinzas...
  

NUDEZ COMPLETA


Algumas têm bigode,
roça e coça
(e Hitler aprova)...

Algumas são uniformes,
fazem cócegas enormes,
mas eu gosto.

Algumas são cabeludas
e a floresta amazônica
me agonia.

Algumas são raspadinhas
e essas, bem lisinhas
são as minhas favoritas...

nada contra pentelhos,
eu até curto poucos pelos,
mas prefiro peladinha.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Especial Tom Jobim 87 anos (3): Tom Jobim, a Glance at His Life and Job

TOM JOBIM:
A GLANCE AT HIS LIFE AND JOB

Student: Glaci Maria Hoffmann de Oliveira
Teacher: Paulo Ramos

INSTITUTO CULTURAL BRASILEIRO NORTE-AMERICANO - Porto Alegre, RS, Brazil
Course: ENGLISH THROUGH POP MUSIC

Bento Gonçalves, RS, Brazil, November 1995

Best thanks to:
Ramos, Paulo. ICBNA teacher and adviser in this projetct;
Gomes, Fabio. Who supported with relevant material on Tom Jobim and Bossa Nova.

Opening

The objective of this project is to investigate a little bit about the career of the most remarkable Brazilian composer, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (Tom), focusing his childhood; first occupations; his presentations in the greatest moment of the Bossa Nova - Rio, August, 1962; his effective performance at the Carnegie Hall - New York, November, 1962, some relevant data about who was in fact "the girl from Ipanema" and, analyse under grammar and literaty aspects the lyrics "How Insensitive".

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (Tom)


(Photo: Ana Jobim)

He was Born on January 25th, 1927, in Rio de Janeiro - Brazil and first met a piano when his step father bought a second hand one to his sister Helena. It was rather old and had some missing keys. The piano was placed in the garage because their house wasn't large enough. Helena didn't pay attention or care to the piano but Tom did.

At the age of twelve he started taking classes with the German Hans Joachim Koellreuter. Later he attended one year the Architeture College but left it to dedicate only to Music. He studied orchestration by himself, listening to records and comparing score.

He was a piano player at night clubs in Rio and his first record happened in the early 50s. In 1954 he had recorded, among others, the Rio de Janeiro Simphony through what people discovered his real and high qualities as a composer.

He became nationaly famous in 1958 with "Chega de Saudade" added to previuos successes like "Foi a Noite", "Desafinado" end "Samba de uma Nota Só" and, more yet because he started composing with Vinicius de Moraes, the songs to the play "Orfeu da Conceição".

His career took international impulse from November 62 ahead, when he performed a well succeeded "Bossa Nova" show at Carnegie Hall in New York where he was already known among many musicians as The composer of 'Desafinado'". After that, he shared his time between NY and Rio. NY most. Recording with many contemporaty singers and musicians from Brazil and USA, includind Francis Albert Sinatra and Sting.

He died in December 8th, 1994 in the Mount Sinai Hospital, near his house in NY, of a heat failure after being submited to a surgery.

Rio, August 1962 - Au Bon Gourmet, restaurant and night club

Tom Jobim and Vinicius de Moraes



Flavio Ramos, a well konwn businessman in Rio has recently bought, remodeled and changed into modern conception the restaurant Au Bon Gourmet which was already famous in Rio thanks to the surname of its customers.

To the opening night, the new owner, exosted by listening to twist and hully-gully everywhere, planned a Bossa Nova show and invited no less than João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes followed by Os Cariocas band. It overcame Ramos' expectations and lasted 45 night performances with permanent full house.

The top of Bossa Nova was there and going on: songs like "Desafinado", "Samba da Bênção", "Samba de uma Nota Só", "Corcovado", "Garota de Ipanema", "How insensitive", "Se Todos Fossem Iguais a Você" among many others.


New York - November 1962 - Carnegie Hall


Carnegie Hall


After the great success at Au Bom Gourmet Tom & Vinicius didn't work toghether enymore but the friendness lated forever between them, indepedant how distant they were.

Many facts which preceded the Brazilian musicians performance at the Carnegie Hall could be compared to a tragedy or a comedy, depending on the corner one analises the facts.

Tom Jobim took part in the large meeting which had the aim to select the best of contemporary Brazilian music unter the managing of Sidney Frey. In the audience, stars like Tonny Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie, Milles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner and Herbie Mann. That meeting would change Tom's career forever.

He was quite nervous and, consequently unconfortable at the moment of his presentation and like other made mistakes but suddenly he stoped, breathed and had the cleverness to re-start from the beggining.

Among the Brazilian people Tom was but the only one who could speak English and he perfectly did it at the end of his performance: "It's my first time in New York and I'm very, very, very glad to be here. I'm loving the people, the town, everything. I'm very happy to be with you." Those words joined to his recognizable talent won the American musician people.


How Insensitive (lyrics)
Song: Antonio Carlos Jobim
Lyrics: Vinicius de Moraes
Translation to English Norman Gimbel

1.How insensitive
2. I must have seemed
3. When she told me that she loved me
4. How unmoved and cold
5. I must have seemed
6. When she told me so sincerely

7. Why she have asked
8. Did I just turn and stare in icy silence
9. What was I to say
10. What can you say
11. When a love affair is over

12.Now she's gona away
13. And I'm alone
14. With a memory of her last look
15. Vague and drawn and sad
16. I see it still
17. All her heartbreak in her last look
18. How she must have asked
19. Could I just turn and stare in icy silence
20. What was I to do
21. What can one do
22. When a love affair is over

How Insensitive - comments

The lyrics tell us about a regretful male who now reflect about his past reaction facing, but not involved with, the end of a relationship.

At lines 4 and 5 he refers to himself as unable one to deal with the situation, when she declared she loved him, line 3, instead he stared wordless.

Through the metaphors "cold and icy silence" he represents the absence of emotion or passion in which now the former love was turned into. "Ice" here is used to replace love which people understand "worm".

We can also observe his complete astonishment don't knowing what to say or what can say - lines 9 and 10, what changes in something suitable to everyone at lines 20-21 "what was I to do, what can one do" at an specific hard moment: "when a love affair is over".

In the third stanza he glances to the past considering that "now she's gone away and I'm alone with the memory of her last look" lines 12, 13 and 14. It reveals the detail that now he's painful for hasn't been, at least, a bit tender with her. Even if he wasn't in love, he feels he could have been friendly, a little, with her.

Considering the structure "I must have seemed" and "She must have asked", line 2 and 18 the vocabulary is very easy. Ordinary adjetives like unmoved, cold, alone, vague and sad are in your everyday conversation, only "drawn" is seldom used.

The girl from Ipanema - who was she?


Helô Pinheiro

It's not true that the song "The girl from Ipanema" was written and composed at a cafe called Veloso and now a days called Garota de Ipanema, on the corner of Vinicius de Moraes and Prudente de Moraes streets, in Ipanema, Rio.

Tom and Vinicius never produced at a public place, neither togehter nor alone. The Veloso were to them a place to share friendship, play and sing, talk and drink, drink a lot of whisky.

Tom composed the melody at his house in Rio and Vinicius wrote the lyrics in his winter houser in Petrópolis. Originally the poem was rather different in meaning and previously destinated to a play under the tittle of "The girl who goes by".

The girl herself was a student who Tom and Vinicius watched numberless times going or coming to/from school, the beach, the dentist, shopping... and who lived nearby the Veloso cause that was his way to go/come everywhere.

Heloisa Eneida Menezes Paes Pinto, called Helô, 15, 1,69 tall, green eyes and long black hair. Sometimes she entered at Veloso to buy cigarretes to her mother. People there held their breathes.

Importan Brazilian and American singers recorded that song. Singer like Pery Ribeiro, Tamba Trio and Claudete Soares in Brazil and Nat King Cole, Peggy Lee and Sarah Vaughan in USA at those times.

Helô herself whistled the tune on her way to the beach. Her father, a hard and conservative Army officer, prohibited the reporters to approuch her, interview and take photos of her. She was already 18 and engaged with a young from a tradicional family when they were told that Helô was, in fact, the girl of the song. Her father and her fiance didn't permit her to accept to invitation of being the simbol of Rio 400 years anniversary. Later, already married they didn't permit her to be the main actress of the movie with the same polemic name of the song.

However, in the May 1987 edition of Playboy Brazilian Magazine, readers from all Brazil could admire in details her plenty generous beauty and sensuality, even 25 years after the cration of the song.

Closing

To finish we can also add he composed over 300 songs, alone or in partnership with famous Brazilian and American lyric writers and also with his family.

"Tone" as he was called by Frank Sinatra belonged to a generation who remarked the nature value and the care people have to take with the earth. He found lyricism everywhere. He played and sang the tree, the bird, the wind, the forest, the wave and the sea, the cloud and the ski, the boat and the whistrle of a train or the flight over the city. Everything could stimulate him to create. More than that he was the composer of the universal love, painful or happy love.

Bibliography

Castro, Ruy. Chega de Saudade. Companhia das Letras, SP, 1991
Echeverria, Regina. Furacão Elis. Círculo do Livro, Rio, 1985.
Vários autores. O Som do Pasquim. Codecri, Rio, 1976.
VEJA (magazine). Editora Abril. - December 14th, 1994.
TIME (magazine). December 19th, 1994.
Martins, Dileta Silveira e Zilberknop, Lubia Scliar. Português Instrumental. Prodil Ltda. Porto Alegre, 1989.
Hornby, A.S. Oxford Advanced Learner's Dictionary of Current English. Oxford University Press, 1989.

Discography

JOBIM Antonio Carlos. Antonio Brasileiro. Globo Columbia. Rio 1994.
SINATRA Frank. Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim. Warner Bros Records Inc. NY 1967.

* Making-off do texto: 

A publicação deste texto se constitui uma dupla homenagem: além de Tom Jobim, na data de seu 87º aniversário, homenageio a memória de minha mãe, Glaci Oliveira, autora do texto e falecida há dois anos, em 10.1.2012. Como se pode deduzir do cabeçalho, o texto foi escrito como um trabalho da disciplina de inglês através da música pop(ular), que ela cursava no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, em Porto Alegre, a uma quadra de onde eu morava de 1995 a 2010, quando vim para Belém. O material citado na bibliografia (à exceção dos três últimos itens) era do meu acervo, bem como o CD de Jobim (o de Jobim com Sinatra foi alugado numa locadora de DVD de Porto Alegre). O texto permaneceu inédito até 2010, quando, depois de eu muito insistir, minha mãe conseguiu localizá-lo junto com o professor que, felizmente, o mantinha guardado, passados quinze anos da realização do curso. A seleção de imagens foi minha, quando da publicação no site Brasileirinho

Quadrinhos Belém: Dia do Quadrinho Nacional


Especial Tom Jobim 87 anos (2): Fora do Tom

Tom Jobim, c. 1959


"Com o sucesso de Chega de Saudade (N.R: LP de João  Gilberto,  1959), Tom Jobim abriu de vez a gaveta (...). Entre meados de 1958 e fins de 1959, ele lançaria canções suficientes para sustentar uma emissora de rádio com tomjobins por 24 horas por dia, se fosse necessário (...). (...) Quem não conhecia Antonio Carlos Jobim, passou a conhecê-lo. E, quem já o conhecia, ficou impressionado: o homem se tornara uma usina de belezas."

Não há exageros no trecho acima, extraído do livro de Ruy Castro Chega de Saudade (Cia. das Letras, 1990), à página 217. A fase inicial da bossa nova registrou mesmo grande produção de Tom, em quantidade e qualidade. Tantas belezas produzidas por tal usina também renderam uma canção irônica como "Fora do Tom", de autoria de Carlos Imperial e gravada por Roberto Carlos em seu primeiro disco, um 78rpm gravado em maio de 1959 e lançado no agosto seguinte pela Polydor. Vamos à letra do samba, recheada de referências a sucessos de Tom na ocasião.

"Não sei, não entendi/ Vocês precisam me explicar/ Seu samba é esquisito/ Não consigo decifrar/ Na escola eu aprendi/ E música estudei/ Mas seu samba ouvi/ Na mesma eu fiquei.// Tentei ouvir a voz/ Que existe nesse seu olhar/ E pra beijar alguém/ Os peixinhos fui contar/ Responda por favor/ Se isto é natural/ Não durmo há mais de um mês/ Por causa de vocês.// Cheguei, sorri, venci/ Depois chorei com a confusão/ No tom que vocês cantam/ Eu não posso nem falar/ Nem quero imaginar/ Que desafinação/ Se todos fossem iguais a vocês."



Vamos ao raio-X:

"A voz que existe nesse seu olhar" se refere a "Este Seu Olhar" ("Este seu olhar/ Quando encontra o meu/ Fala de umas coisas..."), só de Tom, sucesso com Dick Farney (além de ter outras nove gravações em 1959). Contar os peixinhos pra beijar alguém, é lógico, remete a "Chega de Saudade" (Tom - Vinicius de Moraes) - "Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos que eu darei na sua boca..." -, lançada por Elizeth Cardoso em 1958. Já a pergunta "se isto é natural" ironiza "Desafinado" (parceria de Tom com Newton Mendonça, 1958) - "Isto é bossa nova, isto é muito natural..." -, uma das poucas gravações de João Gilberto a chegar à parada de sucessos (a mesma música é fustigada novamente quase ao final, em "que desafinação").

O verso "Por causa de vocês" reproduz, quase igual, o título de uma parceria de Tom com Dolores Duran, "Por Causa de Você", que abria o LP Carícia (1957), de Sylvia Telles. "Cheguei, sorri, venci/ Depois chorei..." brinca com os versos de abertura ("Chegou, sorriu, venceu, depois chorou...") de "Brigas Nunca Mais" (Tom - Vinicius), com quinze registros em 1959, entre eles o de João Gilberto.

Já ao escrever "No tom que vocês cantam/ Eu não posso nem falar", Imperial não tinha como adivinhar, mas antecipou o comentário de Frank Sinatra após gravar "Dindi" (Tom - Aloysio de Oliveira) em 1967 ("A última vez em que cantei tão baixo foi quando tive laringite", cf. Chega de Saudade - o livro -, pág. 415). Também não há como saber ao certo, mas com "Seu samba é esquisito/ Não consigo decifrar", Imperial pode ter tido a intenção de ressaltar a diferença abissal das músicas de Tom Jobim, construídas sobre a harmonia, das de praticamente todos os outros compositores, que se apóiam na melodia (faça o teste: tente assobiar qualquer música de Jobim!). Se realmente era essa sua idéia, Imperial provavelmente foi um pioneiro na observação desse aspecto. E o último verso, "Se todos fossem iguais a vocês", naturalmente goza com o primeiro sucesso da parceria Tom & Vinicius, "Se Todos Fossem Iguais a Você", da trilha da peça Orfeu da Conceição (1956), cuja primeira gravação foi de Roberto Paiva. "Se Todos Fossem..." também é citado por uma flauta no tema da introdução de "Fora do Tom" e no rápido solo.

"Fora do Tom" não fez o menor sucesso na ocasião. Era o lado B do disco, tendo do outro lado uma parceria de Roberto Carlos com Imperial, "João e Maria". Nas duas músicas, o cantor era acompanhado por um conjunto de estúdio, que incluía o violonista Baden Powell. Curiosamente, o arranjo das músicas estava muito dentro do figurino da bossa nova, buscando semelhanças com o que Tom fazia nos discos de João Gilberto. Assim, embora a letra apresente alguém que parecia descartar a bossa nova (ou ao menos as músicas de Tom) como algo que não se pudesse entender, musicalmente o mesmo alguém se rendia completamente ao modelo do criticado.

Pra completar, na gravação Roberto imitou João - aliás, o que já vinha fazendo desde novembro de 1958 na boate Plaza, do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro (ao lado, foto de Roberto na época). Mais aliás: até pouco tempo antes, era exatamente nesta boate que o próprio João dava canjas, acompanhado por Milton Banana à bateria, sendo conferido por músicos como João Donato, Luís Bonfá, Tom Jobim...

Em tempo: até onde sei, Tom jamais fez qualquer menção ao que achou (ou mesmo se tomou conhecimento) de "Fora do Tom".

* Making-off do texto:

Publicado na seção "Raio-X" do Mistura e Manda, no nº 123, de 5.12.2005.  A seção buscava "decifrar" letras que, com o tempo, foram ficando 'datadas' e pouco compreensíveis a quem não detivesse uma série de informações. No total foram 'radiografadas' quatro músicas, as outras três sendo "Eu Queria um Retratinho de Você" (Noel Rosa - Lamartine Babo), "Louco não Estou Mais" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos) e "Camisa 10" (Hélio Matheus - Luiz Vagner). 

Especial Tom Jobim 87 anos (1): Tom e Chico

Tom e Chico, 1978

Tom Jobim e Chico Buarque tinham muito em comum. Ambos nasceram no Rio de Janeiro, iniciaram e abandonaram o curso de Arquitetura, foram tema da Mangueira... Seus pais, Jorge Jobim e Sérgio Buarque de Holanda, ambos escritores, foram amigos. Mas, acima da amizade e da parceria, a música de Tom Jobim é a referência maior para Chico Buarque. Chico disse certa vez: “Tudo o que eu fiz na minha vida foi para o Tom”. Nada mais natural, portanto, que Chico expressasse sua admiração numa música, Paratodos”  (1993):

O meu pai era paulista/ Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Meu maestro soberano/ Foi Antônio Brasileiro.”

Uma coisa curiosa na relação entre Tom Jobim e Chico Buarque. Eles eram grandes amigos, de beberem juntos e jogarem conversa fora horas a fio. Mas na hora de compor havia uma certa cerimônia, que não diminuiu com o passar do tempo. Chico diz que às vezes pegava uma música do parceiro para letrar, ouvia e pensava: “Puxa, estou fazendo uma música com o Tom Jobim!” Já Tom ficava cheio de dedos para procurar Chico. Foi assim quando eles precisavam compor um samba para a Mangueira, que ia homenagear o autor de “Águas de Março no carnaval de 1992. Havia um prazo a cumprir, Tom esperando a letra do samba e Chico nada. Aí Tom pediu ao jornalista Sérgio Cabral para entrar em contato com o parceiro. Quando atendeu Cabral, Chico ficou indignado: “Diz ao Tom para ele deixar de frescura e telefonar para mim”. Finalmente Tom telefonou, Chico se assustou com o prazo apertado, mas felizmente “Piano na Mangueira” ficou pronto a tempo.


Chico e Tom beijam Dona Neuma


Jobim estava acostumado a compor conversando, bebendo, com gente em volta. Quando conheceu Chico Buarque, apresentado pelo produtor Aloysio de Oliveira em 1965, isso mudou. Chico, que precisa se isolar para produzir, ia à casa de Tom, que gravava a melodia numa fita, que era ouvida por Chico inúmeras vezes. Quando sentia que tinha entendido o que o parceiro queria dizer, colocava os versos, cuidadosamente. Uma sílaba por nota, respeitando a melodia. Só levava o resultado quando considerava a música pronta (Chico jamais mostra um rascunho). Diferente dos outros parceiros de Chico, Tom era o único que interferia na letra. Quando gostava do resultado, ia ao piano e cantava a música inteira. Se os versos não fossem do seu agrado, começava a fazer paródias. Ou então ele podia resolver mudar a música...

Tom Jobim tinha um jeito de mostrar a música que muitas vezes podia intimidar um candidato a parceiro. Ele tocava o tema várias vezes, fazia um vocal e se o parceiro demorava, ele colocava algumas palavras, que tanto podiam ser para a música ou gozando da situação. No início, Tom intimidou Chico e a parceria quase afundou. Foi com “Wave”. Tom tocava, tocava, Chico chegou a dizer: “Vou te contar”... e não saiu disso. Mais tarde, Tom comentou numa entrevista: “É, quem acabou tendo que contar fui eu”. Mas sem problema, afinal foi Chico mesmo quem declarou que o melhor letrista de Tom, tirando Vinicius de Moraes, era o próprio Tom.

Vinicius, Tom e Chico


A parceria começou pra valer a partir de uma música instrumental que Tom até já havia gravado, chamada Zíngaro”. O autor imaginava um cigano pobre que tocava numa praça e teria ficado sem seu violino, sem nada. Até essa época (1968), Chico só havia tido como parceiro Toquinho. Mas resolveu encarar, criou outra história, mudou o título e levou a música para Tom, que só dizia “Ótimo, ótimo.” Nascia assim “Retrato em Branco e Preto”.

(Outra música de Tom que mudou de nome após receber versos de Chico foi Amparo”, que virou Olha, Maria”. Vinicius também colaborou na letra.)

Chico começou a carreira em festivais. Tom já não gostava muito, achava sem importância. Tom Jobim só participou em duas edições do Festival Internacional da Canção (FIC), porque a promotora, a TV Globo, pressionava os compositores a se inscrever. Nas duas vezes, o maestro foi envolvido em episódios lamentáveis - e em ambas as ocasiões seu parceiro era Chico Buarque.

Tom e Chico com Cynara e Cybele

Na primeira, em 1968, Tom teve que mandar uma música porque não quis ser do júri. Pediu para Chico escrever versos para “Gávea, um tema instrumental totalmente fora dos modelos de festival. “Gávea” virou “Sabiá, mas os parceiros não tinham a menor esperança na vitória. Chico até viajou na data da eliminatória, indo para sua primeira temporada na Itália. “Na final, Sabiá ganhou, mas levou uma vaia que Tom jamais esqueceu. O público preferia Caminhando”, de Geraldo Vandré, que ficou com o segundo lugar. A vaia era tanta que poucos na platéia conseguiram ouvir o discurso lúcido de Vandré, pedindo ao público que respeitasse os colegas: “Vocês não me ajudam vaiando Jobim e Chico. A vida não se resume a festivais”. No outro festival, o FIC de 1971, a Globo queria a participação de nomes de prestígio e criou uma categoria especial, sem eliminatória. Tom e Chico, ao lado de outros autores, não quiseram participar. Circularam boatos de que os músicos aproveitariam a transmissão ao vivo do festival para protestar contra a censura. Resultado: foi todo mundo preso.

No começo, com “Retrato...” e Sabiá”, Chico estava escrevendo versos para músicas que Tom antes já tinha considerado prontas. Foi só com Pois É” (1968) que Tom passou uma música em primeira mão ao parceiro.


Tom e Chico no programa Chico e Caetano 
 - TV Globo, abril de 1986

Tom e Chico, separadamente, fizeram músicas para muitos filmes. Juntos, porém, apenas dois. Começaram com a música Eu te Amo”, para o filme de mesmo nome dirigido por Arnaldo Jabor, em 1980.

O segundo filme que musicaram foi Para Viver um Grande Amor, que Miguel Faria Júnior realizou em 1983. Uma das músicas que Tom entregou a Chico era da década de 40, uma valsa que fizera como exercício quando começara a estudar piano com Lúcia Branco, e que recebeu o nome de Imagina”. As outras canções dos dois no filme eram “A Violeira” e “Meninos, Eu Vi”.


Patrícia Pillar e Djavan na capa do CD 
com a trilha de Para Viver um Grande Amor

O maior sucesso assinado por Tom Jobim e Chico Buarque foi escrito nos anos 80, também por encomenda. A música originalmente era um tema instrumental do maestro, chamava-se “Bolero e fora feita para o filme Fonte da Saudade (1985), de Marco Altberg, baseado no livro Trilogia do Assombro, de Helena Jobim (irmã de Tom). A música passara a precisar de letra porque fora escolhida para tema da minissérie Anos Dourados, da TV Globo. Chico aceitou a tarefa, mas só concluiu os versos quando o programa já tinha saído do ar. Em sua defesa, ele alega que “a minissérie é que foi precipitada”.






Chico Buarque possui em seu arquivo muitas fitas com melodias de Tom Jobim nas quais ele nunca pôs letra. Nem vai colocar, agora que Tom não está mais aqui. Chico sente falta da discussão, até das paródias, do único parceiro que ele tinha que convencer que a letra estava boa. Algumas destas fitas do arquivo jobiniano de Chico podem ser ouvidas no CD que acompanha o livro Antônio Carlos Jobim - Um Homem Iluminado, de Helena Jobim (Ed. Nova Fronteira, 1996). 

A maior parte das músicas citadas neste texto fazem parte do CD Bate-Boca, gravado pelo Quarteto em Cy com o MPB-4 (PolyGram, 1997).


  • Making-off do texto: Escrito em 2000 para uma disciplina de rádio do curso de Comunicação Social - Habilitação Jornalismo da UFRGS, onde me formei no ano seguinte. Gravado incluindo trechos das músicas citadas, foi ao ar no programa Por Volta do Meio-Dia da Rádio da Universidade (Porto Alegre), espaço destinado a veicular produções dos alunos.. O texto foi publicado originalmente no site Brasileirinho em 2002, possivelmente em dezembro. Anos mais tarde, por iniciativa de uma brasileira residente em Estocolmo, foi traduzido para o sueco (!!!!!) e publicado num site da Escandinávia. 

Especial São Paulo 460 anos: O dia do Quarto Centenário de São Paulo




No dia em que a maior cidade da América do Sul completa 460 anos, vamos recordar as festividades do seu Quarto Centenário.

A preparação das comemorações dos 400 anos de São Paulo iniciou um ano antes, com a criação, pelo prefeito Armando Arruda Pereira, da Comissão de Festejos, uma autarquia com sede na Rua 24 de Maio.

Ianuguração da catedral

No dia 25 de janeiro de 1954, uma segunda-feira, às 8h30, o presidente Getúlio Vargas depositou flores junto ao Monumento à Fundação de São Paulo, no Pátio do Colégio, sob uma fina garoa (pra variar!). Nas praças, tocavam bandas vindas de todo o interior do Estado, enquanto aviões jogavam sobre a cidade uma chuva de triângulos de papel prateado. Às 9h, o arcebispo dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota rezou a missa inaugural da Catedral Metropolitana, na praça da Sé (a construção demorou 40 anos e seu estilo gótico foi alvo de severas críticas de gente como o diretor do MASP, Pietro Maria Bardi, e o jornalista José Tavares de Miranda, que preferiam "algo de caracteristicamente brasileiro"). Nova missa teve lugar no Pátio do Colégio, à noite, oficiada pelo cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara, com a presença de 30 mil pessoas.

(Fabio Gomes)
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Índios no desfile cívico

Dois desfiles marcaram o dia. Às 11h, militares do Exército, Marinha, Aeronáutica e Força Pública marcharam diante da nova Catedral. Após a missa campal, no Anhangabaú, a Banda da Polícia Militar tocou o "Hino Nacional" e teve início a parada cívica, acompanhada por 100 mil pessoas e aberta por uma "comissão de frente" constituída pelo jornalista Assis Chateaubriand e pelo sertanista Orlando Villas-Boas acompanhando índios do Xingu. O cacique botocudo Krumare parou diante do palanque oficial e ofereceu uma borduna ao governador Lucas Garcez. Seguiram-se carros alegóricos, da capital e do interior, representando a indústria, o comércio e a agricultura. A noite encerrou-se com espetáculo de fogos de artifício.


Segundo Fernando Morais, em Chatô, O Rei do Brasil (Cia. das Letras, 1994), a idéia da comissão de frente foi do próprio Chateaubriand, que mandou buscar dois curumins caiapós, Arutsavi e Tofut, de avião, especialmente para o desfile. Ao final do trajeto, na avenida São João, o jornalista, animado pelos aplausos, resolveu voltar pelo mesmo caminho, sem se importar com o fato de que iria atrapalhar os que davam prosseguimento à parada...

(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda - a idéia

Assim como agora, quando comemoramos os 450 anos de São Paulo, em 1954 a festa se estendeu ao longo do ano. Numa conversa num bar paulistano com a cantora Aracy de Almeida e o jornalista Flávio Porto, o radialista Almirante apresentou sua idéia de comemorar o aniversário de Pixinguinha, em 23 de abril, com um programa especial na Rádio Record, com a indispensável presença do próprio. A idéia evoluiu rapidamente: além de Pixinga, seriam convidados também seu parceiro Benedito Lacerda e demais companheiros do extinto programa O Pessoal da Velha Guarda. Aracy ficou de falar com o pintor Clóvis Graciano, presidente do Clube dos Artistas e Amigos da Arte (Clubinho pros íntimos), onde aconteceria a apresentação; Flávio se encarregaria de convidar os jornalistas cariocas. Já a Almirante coube vender o peixe para o proprietário das Emissoras Unidas (mais tarde Rede Record), Paulo Machado de Carvalho, para financiar passagens, cachês e hospedagem dos artistas em São Paulo, em troca da transmissão do show. O empresário concordou em assumir totalmente as despesas do evento que já começava a ser chamado de Festival da Velha Guarda. A TV Record começara suas transmissões em 1953 e proporcionou às Unidas reunir um elenco fabuloso, que atuava tanto no rádio como na TV (nomes fantásticos como Ary Barroso, Elizeth Cardoso, Adoniram Barbosa, Ataulfo Alves, Isaura Garcia, Inezita Barroso e o fenomenal Jorge Goulart, para citar só alguns).

Ao saber dos preparativos, o diretor de relações públicas da Comissão do Quarto Centenário, José Roberto Whitaker Penteado, sugeriu ao presidente da autarquia, o poeta Guilherme de Almeida, a incorporação do evento às comemorações do aniversário da cidade. Guilherme levou a sugestão a Machado de Carvalho e a Almirante, lembrando que o radialista, além de organizador do festival, era também assessor técnico da Comissão.
(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda (2) - a festa!

Um ônibus da Expresso Brasileiro foi mandado ao Rio para buscar os músicos veteranos Pixinguinha, Benedito, Donga, João da Bahiana, Alfredinho do Flautim, Caninha, Patrício Teixeira, Bide da Flauta, Léo Vianna, Bororó, Mozart de Araújo, Mário Cabral, os jovens músicos (16 anos!) Baden Powell e Sidney dos Santos Silva e os jornalistas Sérgio Porto e Lúcio Rangel, entre outros. Muitos foram de trem ou avião - sem contar Jacob do Bandolim, que foi em seu próprio carro. Cada músico e jornalista convidado recebeu de brinde da Record um disco feito especialmente para o festival, com Pixinguinha interpretando à flauta dois choros seus: "Lamentos" (gravação Victor de 1941) e "Chorei" (Odeon, 1942).


A chegada à capital paulista aconteceu no próprio dia 23 de abril, uma sexta, às 15h. Já às 21h, os músicos participaram de um programa que Almirante apresentou contando a vida de Pixinguinha. Programa encerrado, todos foram ao Clubinho, onde a festa foi literalmente até o amanhecer.

Numa crônica, Antônio Maria relatou o que foi o acontecimento: "...Pixinguinha e Benedito Lacerda. Estão tocando juntos, em sax tenor e flauta, a grande melodia de 'Carinhoso'. Ambos beberam e estão no auge do sentimentalismo. Em volta, o silêncio paulista de homens e mulheres que sabem gostar da melhor música do Brasil. (...) Pixinguinha e Benedito estão tocando ao longo de uma madrugada paulista. Era bom que a noite não acabasse agora e fosse do tamanho da imensa lealdade dos homens dignos."

Mas talvez a melhor definição para o que rolou tenha sido da cantora Inezita Barroso: "Meu Deus! Parece um sonho!"

(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda (3) - no teatro e no Ibirapuera

No sábado, 24, nova apresentação, durando mais de três horas, no Teatro Arthur Azevedo (Moóca). Na primeira parte, Blota Jr. apresentou Elza Laranjeira, Luiz Vieira, Inezita, Aracy, Cascatinha & Inhana e o regional de Waldir Azevedo; em seguida, Almirante comandou o espetáculo do Pessoal da Velha Guarda, tudo com transmissão direta da Rádio Record.


João da Bahiana (com o prato), Donga (ao violão),
Jacob Palmieri (ao pandeiro), Alfredinho do Flautim 
e Pixinguinha (ao sax)


O Festival encerrou no domingo, 25, com show no Parque do Ibirapuera assistido por dezenas de milhares de pessoas (o parque, inaugurado naquele ano, se constituía no presente de aniversário que a Comissão de Festejos houvera por bem dar ao povo paulistano). Juntando-se aos artistas que já haviam participado dos dois primeiros shows, compareceram os cantores Paraguassu, Januário de Oliveira e Salvador Correia, o Barraca, além do pandeirista Jacob Palmieri, que integrara em 1919 a primeira formação dos Oito Batutas, onde tocou até 1922 (saiu do grupo porque não tinha como acompanhá-los à França). Aposentado da música e vivendo em São Paulo, Palmieri voltou à ativa naquela tarde, emocionando os antigos companheiros Pixinguinha e Donga. Encerrando o megaevento, todos os violonistas presentes foram regidos por Pixinga em seu arranjo para "A Voz do Violão" (Francisco Alves - Horácio Campos). Em seguida, a música foi cantada por todos os artistas e espectadores - tudo sendo transmitido ao vivo pela Rádio e também pela TV Record.

(F.G.)


Gravado por Thomas Farkas no Ibirapuera


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O Festival da Velha Guarda (4) - nem tudo que é bom dura pouco!

As Unidas foram cumprimentadas publicamente pela Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, cujo presidente, Wandick de Freitas, definiu o Festival como a festividade do Quarto Centenário "que teve maior repercussão em São Paulo", e que "conseguiu tocar mais profundamente o coração de seu povo".

A bem da verdade, o Festival não terminou realmente no Ibirapuera. Durante todo o mês de maio, nas terças, quintas e sábados, Almirante apresentou na Rádio Record o programa O Pessoal da Velha Guarda, sempre com auditório lotado para ver Pixinga. Jacob Palmieri, Paraguassu e Januário de Oliveira participaram de todas as edições.

O extraordinário êxito do evento assegurou a realização de um 2º Festival da Velha Guarda, no ano seguinte.


(F. G.)
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Garoto e o dobrado "São Paulo Quatrocentão"

Uma música que fez muito sucesso na época foi o dobrado "São Paulo Quatrocentão", de Garoto e Chiquinho do Acordeom. O disco vendeu 700 mil cópias, gerando nova gravação, com letra de Avaré e interpretação de Hebe Camargo. Ruy Castro, em Chega de Saudade (Cia. das Letras, 1990), diz que Garoto odiava a música, tendo inclusive sendo pago apenas como instrumentista na gravação e não como autor. Já Henrique Cazes, em O Choro - Do Quintal ao Municipal (Ed. 34, 1998, pág. 94), não só afirma que Garoto recebeu os direitos autorais como apresenta a cifra: cerca de 30 mil dólares. O curioso é que, no parágrafo seguinte, Cazes informa que, nesse período, Garoto alugou um sítio em Areal (RJ), próximo à casa de campo do maestro Radamés Gnattali. Pergunto: se realmente tivesse ganhado tanto, não seria mais natural ele comprar o tal sítio, em vez de alugar?

De qualquer forma, Garoto não teve muito tempo para curtir o sítio, pois morreu em maio de 1955. Aí, segundo Ruy Castro, aconteceu o que o violonista mais temia: as rádios não paravam de tocar "São Paulo Quatrocentão", em sua homenagem...

(F. G.)
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Portela homenageia São Paulo

A Portela desfilou no carnaval de 1954 cantando um samba-enredo com o mesmo nome do dobrado de Garoto: "São Paulo Quatrocentão". A escola obteve o quarto lugar no desfile da Av. Presidente Vargas. Na letra do samba, chama a atenção o, digamos, uso diferente do adjetivo do título: "São Paulo/ Tu és o celeiro da nossa nação/ Por isso mereces teu quatrocentão/ E em tua homenagem nos congratulamos."

(F. G.)
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Outro dobrado

O dobrado, gênero hoje esquecido, é típico de bandas militares, tendo um caráter solene e um tanto nostálgico que, pelo visto, era buscado pelos compositores que cantavam o aniversário da cidade. Mário Zan compôs com J. M. Alves o dobrado "Quarto Centenário", gravado por Carlos Galhardo em disco RCA de 1953. Foi a segunda gravação de uma música de Zan e seu primeiro sucesso.

(F. G.)
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"Perfil de São Paulo"

Da mesma maneira que a TV Record, a gravadora Columbia (depois CBS e hoje Sony) iniciara atividades em São Paulo em 1953 e ia reunindo um elenco fabuloso - embora na época a maioria ainda não tivesse atingido o estrelato, como Cauby Peixoto, Elza Laranjeira, Erlon Chaves, Titulares do Ritmo e Geraldo Pereira. No mês de janeiro de 1954, no auge das comemorações do Quarto Centenário, enfim chegava à gravadora um nome para não deixar dúvidas: Sílvio Caldas. O Caboclinho Querido se mudava de mala e cuia para a Paulicéia, passando a atuar na Rádio Excelsior.

Um belo dia, Sílvio estava no estúdio da rádio, situado na Rua 24 de Maio, quando chegou um rapaz com uma partitura e pediu licença ao seresteiro para apresentar-lhe a música. Localizado um piano, Sílvio pôde escutar "Perfil de São Paulo", que o rapaz, o advogado recém-formado Francisco de Assis Bezerra de Menezes, inscrevera no concurso de músicas que a prefeitura promovia para o Quarto Centenário. Sílvio ganhou o concurso com este samba, lançado em disco Columbia em novembro de 1954.

Bezerra de Menezes continuou na área jurídica, tornando-se mais tarde promotor público em Barretos. Já seu samba continua sendo cantado como um hino não-oficial da cidade: "Aonde estão teus sobrados, de longos telhados e teus lampiões?/ E os moços da Academia, na noite tão fria, cantando canções?/ E sinhazinha delgada pisando a calçada na tarde vadia?/ O tempo tudo mudou, mas não apagou a tua poesia..."

(F. G.)

* Publicado originalmente no Mistura e Manda nº 32 - 19.1.2004,
naturalmente se referindo então aos 450 anos que São Paulo comemorava