domingo, 5 de janeiro de 2014

"Biografia" da Marvel destaca lado empresarial da editora



A notícia, em 2009, da compra da Marvel pela Disney produziu-me um certo espanto, a mim que, desde a infância e até então, conhecia e acompanhava a trajetória destas marcas basicamente enquanto editoras de quadrinhos. Mas lembro, sim, que muita gente ficou sem entender: um blogueiro brasileiro (que não menciono porque não localizei a referência em pesquisa agora no Google) chegou a brincar com o fato, dizendo que esperava ao menos que o Superpateta entrasse para os Vingadores... Enfim, com o tempo se pôde notar que a Disney não agira como tantas empresas, que compram outras para fechá-las, e sim manteve a Marvel como sempre fôra (ao menos em linhas gerais, claro). Mas sempre fiquei com essa dúvida, de como a Marvel se sentia não mais sendo dona de seu nariz, e tendo que responder à Disney.

Foi só agora, ao ler a edição brasileira de Marvel Comics - A História Secreta, de Sean Howe (tradução de Érico Assis, editora Leya, 2013, 560 págs), que eu descobri que a Marvel nunca foi dona de seu nariz. A editora sempre foi um braço quadrinístico de um esquema empresarial que a abrangia, desde 1939 quando, ainda como Timely Comics, lançou o primeiro Tocha Humana (que não é o mesmo do Quarteto Fantástico) e Namor, o Príncipe Submarino; a Timely pertencia à Magazine Managemente Company, fundada por Martin Goodman (1908-92). Goodman era casado com Jean Davis, prima de Stanley Martin Lieber (1922-), que todos conhecemos como Stan Lee (o uso do pseudônimo para escrever quadrinhos visava preservar seu nome real para suas sonhadas futuras incursões na "literatura séria", como romances, o que jamais aconteceu). 

Lee trabalhava já há 21 anos na Timely em 1961, quando a empresa estava perto de fechar, pois suas revistas de terror e western não atraíam o público. Foi então que Lee, junto com o desenhista (ou "artista", como Sean Howe prefere) Jack Kirby (1917-94), criou o Quarteto Fantástico. A mesma dupla também foi responsável pelo surgimento de Thor, Hulk e X-Men. Com Steve Ditko, Lee criou  na mesma época o Homem-Aranha e, com Don Heck, o Homem de Ferro - tudo isso em pouco mais de dois anos, até 1963. São estes, somados ao anterior Capitão América (criado em 1940 e incorporado aos Vingadores em 1964), o que se pode chamar de "núcleo duro" da Marvel, seus personagens de maior sucesso até hoje, cujo surgimento revolucionou os quadrinhos, processo que Sean Howe descreve com riqueza de detalhes. E então, no auge desse primeiro sucesso editorial, vem em 1968 a surpresa da venda da Marvel (novo nome da Timely, adotado em 1962) para a Perfect Film, holding que tinha em seu portfólio uma empresa distribuidora de quadrinhos. Mas nem sempre os donos do nariz da Marvel (antes da Disney, obviamente) eram do ramo: durante boa parte da década de 1990 (quando, aliás, esteve às portas da falência), a Marvel pertenceu a Ronald Perelman, presidente da fabricante de cosméticos Revlon. 

Os Vingadores resgatam o Capitão América, em 1964
(texto de Stan Lee, arte de Jack Kirby)

Embora conclua o arco de sua narrativa bem próximo da data da publicação (chega a mencionar o lançamento do filme Os Vingadores, em maio de 2012), Howe não chega a detalhar o dia-a-dia da Marvel no atual período Disney, ao contrário do que faz ao longo da obra, que neste ponto é bastante indicada para quem quer conhecer a fundo como funciona a indústria editorial, mais especificamente de quadrinhos, nos Estados Unidos, muito diferente da que temos no Brasil. O fato de se tratar de uma "biografia" não-autorizada lhe permite, eventualmente, fazer juízos de valor (como chamar Ike Perlmutter, dono da Marvel de 1998 a 2009, de "mão-de-vaca"). Mas, no geral, ele descreve de um modo o mais das vezes imparcial a transformação de uma editora pequena, que alcançou o sucesso a partir do período 1961-63, para uma grande empresa cuja presença perene de diversos personagens no imaginário mundial enseja um número infindo de licenciamentos, que muitas vezes foram o principal, se não único, interesse das empresas que se revezaram na posse da Marvel. Chegou-se ao cúmulo, nos anos 90, de a empresa desativar seu departamento editorial, sendo suas histórias, exceto X-Men e Homem-Aranha, terceirizadas para a Image Comics, dos ex-artistas da Marvel Jim Lee e Rob Liefeld). 


Outra falha, afora a lacuna acerca da atual fase Disney, é o fato de a obra praticamente não ter imagens, afora uma foto do autor na orelha, um anúncio da revista Marvel Comics nº 1, de 1939, e uma pequena foto reunindo Stan Lee e Jack Kirby nos áureos tempos, bem no final da narrativa. Não vi na edição brasileira menção ao fato da edição original ser ou não ilustrada. Imagino que, talvez, pela obra não ser autorizada pela Marvel, a Harper Collins, editora do original americano, não tenha se empenhado em negociar com a Marvel direito de reprodução de imagens das HQs clássicas citadas. 

Mas estes detalhes não chegam, é claro, a tirar o prazer da leitura da obra, que Howe recheia de frequentes referências ao que ocorria no universo ficcional em cada época, destacando o surgimento e as principais mudanças pelas quais passavam os heróis Marvel e suas respectivas identidades secretas. E não só no Universo Marvel, aliás - é muito saboroso para um aficionado de HQs descobrir que a clássica série de TV do Batman (ABC, 1966-68), com seu visual camp e seu viés humorístico, se inspirou nas histórias da fase inicial do Homem-Aranha, onde seu alter ego, Peter Parker, tinha uma família (a tia May, de Peter, inspirou a tia Harriet, de Bruce Wayne - OBS: leia nota ao final do texto), e soltava piadinhas nas lutas contra vilões como Duende Verde e Dr. Octopus.


A trágica cena envolvendo o Homem-Aranha, Gwen Stacy e o Duende Verde. Arte de Gil Kane e John Romita.
O Duende Verde lança Gwen Stacy para a morte,
na clássica história de 1973 escrita por
Gil Kane e desenhada por John Romita que 
marcou para sempre a vida do Homem-Aranha
- e de todos nós



  • Nota: Diferentemente do que o autor do livro afirma, a Tia Harriet do Batman não foi inspirada na Tia May do Homem-Aranha. De acordo com Lincoln Nery em Batman - A Trajetória (Clube de Autores, 2012), a tia de Bruce Wayne fez sua primeira aparição nos quadrinhos, na década de 60, e de lá ganhou as telas na série da ABC. (Atualização em 20.6.17)

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