domingo, 19 de janeiro de 2014

Especial 32 anos sem Elis Regina

Parece mentira, mas neste domingo se completam já 32 anos desde que Elis Regina nos deixou - acabei de ver este vídeo no YouTube, em que ela interpreta "Tatuagem" de uma forma que daria até pra supor que Chico Buarque e Ruy Guerra teriam escrito a canção pensando nela, e fora os figurinos um pouco datados, é como se tudo estivesse acontecendo agora, e não em 1976.


Para lembrar a presença de Elis, resolvi reunir neste post todos - eu disse todos - os textos que já escrevi sobre a cantora gaúcha, publicados originalmente no site Brasileirinho. Ao final do post, links para textos que já haviam sido incluídos anteriormente aqui no Jornalismo Cultural. 

1 - Entrevista: NELSON MOTTA, autor do livro Noites Tropicais, e o legado de ELIS REGINA (2000)

“Olha, eu digo entre brincando e sério, cada vez que um cara vem me mostrar uma fita com uma artista, uma cantora nova, eu falo: ‘Pô, cada cantora nova que aparece, a Elis Regina tá cantando melhor, cê já reparou?’. É brincadeira, mas é verdade, porque ela se transformou num padrão de excelência. Ela tá cantando cada vez melhor mesmo, ela é um ponto de referência pra todas as cantoras de várias gerações que tão redescobrindo a Elis, também, e ela é uma personalidade fascinante. Eu dediquei 30, 40 páginas do meu livro a Elis Regina e ainda foi pouco. Tive o privilégio de conviver com a Elis desde que ela chegou no Rio até a morte dela, fui produtor da Elis, uma artista extraordinária, uma personalidade, um grande personagem humano
(Making-off: gravado em Porto Alegre, quando Nelson Motta foi autografar Noites Tropicais na Feira do Livro. Incluído no programa-piloto que deu origem ao site Brasileirinho, em maio de 2002)

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Elis e Chico em seu único show juntos - 1974

Elis encontra Chico

O primeiro encontro de Elis Regina com Chico Buarque, que contei na abertura do Sanatório Geral, ocorreu provavelmente no começo de 1965, quando a cantora selecionava repertório para seu primeiro LP na Philips, Samba Eu Canto Assim. Um amigo de Elis, João Evangelista Leão, lhe falou de um amigo seu que tinha músicas interessantes, que ela devia ouvir e certamente escolheria alguma para o disco. Elis aceitou e João combinou com Chico para este ir ao apartamento dela. O que João não contou a Elis era da enorme timidez de Chico. Hoje ele até usa essa fama a seu favor, para escapar de situações que o constranjam, mas na época a coisa era séria mesmo.

Elis ouviu a campainha tocar, foi atender e deu de cara com alguém com o violão na mão, parado, mudo.

- Você é o amigo do João, né? O Chico? - quis saber Elis, depois de algum tempo de silêncio.

- É, sou - admite Chico.

- Então, entra aí.

Chico sentou no sofá da sala e ficou abraçado ao violão, como se temesse que Elis fosse arrancá-lo. Não abria a boca. Elis contou certa vez que os dois ficaram duas horas nessa situação (acho difícil, a duração de sua paciência era menor). De qualquer forma, após um grande tempo mudos, Elis comentou, já um pouco irritada:

- Bom, o João disse que você tinha umas músicas pra me mostrar.

- É - murmurou Chico.

- Então faz assim: tem um gravador de rolo aí, você grava algumas músicas e outra hora eu escuto e te digo alguma coisa, tá bom?

Dito isso, Elis levantou-se e foi pra cozinha, deixando Chico sozinho na sala. Chico deixou registradas algumas composições e saiu sem se despedir.

Poucos dias depois, João liga pra Elis, querendo saber o que ela achara das músicas. Resposta:

- Ah, João, não dá. Esse seu amigo não fala nada, não vou gravar nada desse cara não.

- Mas, Elis, as músicas... Você ouviu?

- Eu não, o cara é muito chato.

Meses depois, Elis não pôde reclamar quando Nara Leão lançou Chico gravando "Olê Olá" e "Madalena Foi pro Mar"...

(Felizmente, Elis depois reviu seus conceitos e legou à posteridade gravações irretocáveis como "Atrás da Porta", de Chico e Francis Hime, e "Tatuagem", de Chico e Ruy Guerra)

(Mistura e Manda nº 57, 12/7/2004)
(Sanatório Geral foi um evento realizado na Cia. de Arte Café, Porto Alegre, em 9 de julho de 2004, comemorando com certo atraso os 60 anos de Chico Buarque, com apoio do jornal Vaia e do site Brasileirinho. A convite de bandas que participaram do evento, fiz uma fala de abertura, abordando alguns aspectos da obra de Chico e contando passagens pouco conhecidas de sua vida, como esta acima)

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Tom Jobim e Elis - 1974


Bloqueios de Elis

O possível veto que Tom Jobim teria feito a Elis Regina na gravação do LP Pobre Menina Rica (CBS, 1964) foi um dos temas da entrevista de 1993 do maestro ao programa Roda-Viva (TV Cultura), reapresentada na segunda, 27. Um dos entrevistadores citou uma frase que, segundo Ruy Castro, Tom teria dito na ocasião: "Essa gaúcha ainda está cheirando a churrasco". Tom desconversou, alegando gostar de churrasco...

Na verdade, quem "vetou" Elis foi ela mesma, pois não conseguiu cantar durante o teste. Ao longo da vida, Elis passou por várias situações de bloqueio, sempre associadas a grandes passos na carreira. Quando foi fazer esse teste, em 1964, Elis estava morando há apenas dois dias no Rio de Janeiro e viu-se diante de um projeto que reunia pesos pesados da música brasileira, como Tom, Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Também foi assim em 1952, quando, com 7 anos, foi até a Rádio Farroupilha (Porto Alegre) participar do programa Clube do Guri e não conseguiu cantar nem falar. Ela só recebeu uma nova oportunidade 4 anos mais tarde e aí não só cantou como em pouco tempo passou de secretária do programa a contratada para o elenco fixo da emissora.

O último bloqueio Elis conseguiu superar em tempo. Foi em 19 de julho de 1979, ao participar do Festival de Montreux (Suíça). Ela não chegou a ficar sem voz, mas o nervosismo a dominou durante o início do show, como fica claro em seu disco Montreux Jazz Festival (lançado em 1982). Felizmente, ela recuperou-se durante a apresentação e encerrou o espetáculo ovacionada.

(Mistura e Manda nº 82, 3/1/2005)

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Elis, 60 anos

Na quinta, 17, Elis Regina faria 60 anos. Embora façam 23 anos que nos deixou, ela parece que "está mais viva do que nunca", como falou Nelson Motta, na entrevista que me concedeu em 2000. Três exemplos:

1 - Sua popularidade, longe de declinar, vem aumentando consideravelmente entre jovens que nem eram nascidos quando ela morreu.

2 - Um cantor ou cantora que hoje resolva interpretar qualquer música que Elis gravou sabe que a comparação é inevitável.

3 - Dois dos compositores que ela mais gravou, Milton Nascimento e Ivan Lins, afirmaram várias vezes que continuam compondo para ela. Milton, inclusive, numa entrevista à TV Cultura disse que sonhou diariamente com Elis durante anos seguidos, a partir daquele fatídico 19 de janeiro.

(Mistura e Manda nº 92, 14/3/2005)



Elis e Milton Nascimento

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Elis, 60 anos (2)

Elis Regina recebeu no decorrer da semana do seu 60º aniversário homenagens à altura de sua cidade natal (Porto Alegre) e do veículo onde iniciou a carreira (o rádio). A Rádio Gaúcha, emissora onde Elis assinou seu primeiro contrato como profissional, em 1959, abriu as comemorações com uma edição especial do Gaúcha Entrevista já na segunda, 14, com as presenças dos radialistas Glênio Reis e Ari Rego. Na quarta, 16, foi a vez do jornalista Juarez Fonseca retornar ao programa com Glênio. Lô Borges, que foi lá na quinta, 17, para divulgar seu show no Abbey Road, também aproveitou para falar da única vez em que falou com Elis - encontraram-se por acaso no estúdio da EMI, no dia em que ela gravou "Trem Azul". Glênio Reis culminou as homenagens com uma edição especial do Sem Fronteiras, no sábado, 19, com apresentação de músicas inéditas homenageando a cantora maior, compostas especialmente para o programa por Paulo de Freitas Mendonça e Raul Quiroga, entre outros, além de depoimento gravado de Jerônimo Jardim e as presenças de Ari Rego, Guilherme Braga e Sérgio Napp. Napp aproveitou para anunciar que foi obtido patrocínio para a criação do Acervo Elis Regina na Casa de Cultura Mário Quintana. O memorial deve ser inaugurado em outubro.

Destaco ainda o programa da TVE Frente a Frente, na quinta, 17, com Ari Rego contando o início da carreira de Elis no Clube do Guri da Rádio Farroupilha em 1957. Na emissora de rádio da Fundação Cultural Piratini, a FM Cultura, coube a mim a agradabilíssima tarefa de falar da carreira de Elis e de sua permanência na mente das novas gerações, no programa Estação Cultura, também na quinta, 17.

(Mistura e Manda nº 93, 21/3/2005)

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Apelidos de Elis

Engana-se quem pensa que o apelido de Elis Regina era "Pimentinha". Pelo que sei, algumas pessoas até se referiam assim à cantora quando ela não estivesse presente, o que não torna isso um apelido - que é uma forma carinhosa, criada ou não a partir do nome da pessoa, de se dirigir a alguém. Ela detestava essa alcunha, cuja criação é atribuída ao poeta Vinicius de Moraes.

Também tem o seguinte, né: quem tem um nome curto como "Elis" não precisa de apelido. Mesmo assim, quando ela chegou a São Paulo, em 1965, foi apelidada de "Lilica" pelo cantor Ciro Monteiro. Esta foi a forma como a família passou a chamá-la em casa, como revelou no programa MPB Especial (TV Cultura) que gravou em 1973.

Seja como for, sua rejeição ao apelido "Pimentinha" já estava superada (ou foi apenas deixada de lado?) em 1979, quando Elis convidou Rita Lee para participar de seu especial na TV Bandeirantes . A ex-mutante compôs especialmente para o programa a música "Doce Pimenta", que as duas cantaram juntas.

(Mistura e Manda nº 112, 1/8/2005)


Rita Lee e Elis - 1979

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Comemorando os 61 anos de Elis

Se viva estivesse, a cantora Elis Regina completaria 61 anos na sexta, 17. Completaria? Ela está mais viva do que nunca, ao menos para seus admiradores. Foi o que disse o diretor da Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre), Sérgio Napp, ao falar no evento comemorativo promovido pelo Acervo Elis Regina, mantido pela CCMQ.

Aberto em setembro, pela primeira vez o Acervo promoveu um evento valorizando a imagem de sua homenageada. Além da fala de Napp (à qual voltaremos), os presentes puderam ouvir Tribo Brasil, Karine Cunha, Darcy Alves e Luciano Fortes interpretando músicas consagradas na voz de Elis (ah, ia esquecendo, os funcionários do Acervo também quiseram homenagear Elis, cantando).

A Tribo Brasil trouxe versões muito boas de "Upa, Neguinho" (Edu Lobo - Gianfrancesco Guarnieri) e "Canto de Ossanha" (Baden Powell - Vinicius de Moraes), seguindo a linha melódica dos arranjos originais, mas colocando pitadas bem-humoradas de inovação - como transformar o vocalise final de "Upa, Neguinho" em "tri-pra-cantar" (observação pra quem não é gaúcho: "tri" é uma gíria local pra definir uma coisa que impressiona bem, que é muito boa.. enfim, que é muito tri!) No caso, parece uma redução de "tri a fim", ou seja, o grupo manifestava que estava muito empolgado com a idéia de cantar no aniversário de Elis (a empolgação se transmitiu ao público ao ouvi-los!).

Karine repetiu, em voz e violão, a sua bela versão de "Essa Mulher" (de Joyce, faixa-título do LP de Elis de 1979), que cantara na véspera no Foyer do Theatro São Pedro, acompanhada pelo piano de Bethy Krieger. Karine consegue uma proeza, mantendo a voz segura num trecho em que a própria Elis tinha dificuldade, no verso "Seca o bar".

Darcy Alves, com seu vozeirão característico, interpretou corretamente clássicos de Lupicínio Rodrigues (apenas um dos quais efetivamente gravado por Elis, "Cadeira Vazia", parceria com Alcides Gonçalves), acompanhando-se ao violão. Já Luciano não esteve muito bem nas suas versões de "Águas de Março" (Tom Jobim), da qual apenas lembrou a primeira parte, e "As Curvas da Estrada de Santos" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos) - tudo bem que seja uma música difícil, afinal as únicas gravações dela que entraram para o inconsciente coletivo são de Elis e do próprio Roberto, inegavelmente dois dos (para mim os dois) maiores intérpretes que este país já produziu, mas a dificuldade do trajeto deve ser avaliada antes de se tomar a estrada...

Em seu pronunciamento, Napp contou aspectos pouco conhecidos da trajetória de Elis, a que ele teve acesso por sua amizade com a cantora. Eles se conheceram em 1963 quando, ainda estudante de Engenharia, ele já compunha e foi à casa dela no IAPI levar-lhe algumas músicas (uma delas, "Meus Olhos", entrou no LP O Bem do Amor, que Elis gravou em 1963 na CBS). No ano seguinte, com Elis já instalada no Rio de Janeiro, Napp, ao visitá-la, presenciou sua negociação com a Odeon, que disputava com a RCA Victor o novo contrato de Elis, que não queria seguir na CBS. Poucos dias depois, ao retornar a Porto Alegre, Napp soube que ela fechara com a Philips. A versão da biógrafa Regina Echeverria no livro Furacão Elis dá conta de que ela já viajara ao Rio com convite da Philips, embora ainda devesse um disco à CBS.

O diretor da casa também relatou a dificuldade que é ampliar o acervo. Os filhos de Elis não chegaram a doar nenhum material ou objeto da artista. Ainda sobre família: corre na CCMQ a lenda de que dona Ercy Carvalho Costa, a mãe de Elis, teria visitado o Acervo incógnita, só se descobrindo o fato devido à sua assinatura (ou uma assinatura muito parecida com a sua) no livro de visitas do espaço (livro que tenho o orgulho de ter inaugurado!). O acesso a material de TV é restrito. Como nenhuma afiliada gaúcha de rede nacional de TV pode ceder material gerado pela sede (ou seja, a RBS TV não pode disponibilizar nada que tenha sido produzido pela Rede Globo), o que se tem nesse sentido é muito pouco, com destaque para algumas entrevistas que Elis concedeu ao Jornal do Almoço.

Falando em vídeos: com certeza eles foram o destaque da programação da sexta. Os trabalhos iniciaram num horário bastante impróprio para um dia útil (15h!!), com o especial Elis Regina Carvalho Costa (produzido pela Globo em 1980 e lançado em DVD pela Trama em dezembro como Grandes Nomes). Nesse programa, com repertório do show Saudade do Brasil, ficou evidente como o acesso à informação desfaz mitos. Certamente muitos já ouviram falar que, nesse especial, o motivo de Elis chorar copiosamente ao cantar "Atrás da Porta" (Francis Hime - Chico Buarque) era sua recente separação do músico César Camargo Mariano. No DVD, fica claro que ela não conseguiu se conter por pouco antes ter feito outra música que também mexia bastante com o emocional, "Essa Mulher", na qual por duas vezes quase chorou. Em sua vida pessoal, é certo, Elis recentemente se separara de César, o que não a impediu de ser profissional e contratá-lo para dirigir o show e o disco Saudade do Brasil e tocar no programa, do qual ele foi o convidado. Atuando oculto por uma cortina, como os outros músicos, durante quase todo o programa, César foi chamado por Elis ao centro do palco para acompanhá-la ao piano em "Modinha" (Tom Jobim - Vinicius de Moraes) (aqui ela superou lindamente a dificuldade técnica que enfrentou ao gravar essa música no LP Elis e Tom) e "Rebento" (Gilberto Gil).

Depois dos shows e da fala de Napp, a festa seguiu com a exibição do vídeo do show de Elis no Festival de Montreux em 1979 e uma raríssima relíquia dos arquivos tantas vezes incendiados da TV Record: a premiação de Elis como vencedora da Bienal do Samba (1968) cantando "Lapinha" (Baden Powell - Paulo César Pinheiro), acompanhada dos Originais do Samba e do próprio Baden ao violão - ao final, outros artistas, como Ciro Monteiro, engrossaram o coro.

A lamentar MESMO, apenas a grave falha da Comunicação da Casa, que não só divulgou o nome do grupo Tribo Brasil como Trio Brasil (certo, eles são três, mas o nome é Tribo!), como ainda incluiu no release, não se sabe como & por quê, um debate entre Napp e o jornalista Juarez Fonseca - o convite a Fonseca nem chegou a acontecer, revelou Napp.

Outros eventos devem acontecer em breve no Acervo; Napp anunciou para setembro uma grande apresentação para assinalar o primeiro ano do espaço.

(Mistura e Manda nº 133, 20/3/2006)
(Pouco tempo depois do Acervo ter sido inaugurado, doei-lhe um CD-Rom contendo todos os textos que eu já havia escrito sobre Elis - ou seja, a maioria do que consta neste post. Havia um terminal de computador disponível para quem quisesse pesquisar algum item do acervo, que ficava com uma proteção de tela qualquer, e eu doei meus textos imaginando que o material pudesse ser utilizado ali. Até onde sei, isto jamais aconteceu. As últimas lembranças que tenho do local são de uma série de shows aos domingos com artistas locais, intitulado "Arte para Elis" - lembro de ter comparecido ao de Karine Cunha, em 14 de junho de 2009. Os shows eram autorais, embora boa parte do público saísse de casa esperando ouvir releituras de sucessos de Elis. Ah, sim: algum tempo após a inauguração, alguém arrancou as páginas antigas do livro de visitas, reiniciando do zero as assinaturas, de modo que minha primazia dançou)





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