sábado, 25 de janeiro de 2014

Especial São Paulo 460 anos: O dia do Quarto Centenário de São Paulo




No dia em que a maior cidade da América do Sul completa 460 anos, vamos recordar as festividades do seu Quarto Centenário.

A preparação das comemorações dos 400 anos de São Paulo iniciou um ano antes, com a criação, pelo prefeito Armando Arruda Pereira, da Comissão de Festejos, uma autarquia com sede na Rua 24 de Maio.

Ianuguração da catedral

No dia 25 de janeiro de 1954, uma segunda-feira, às 8h30, o presidente Getúlio Vargas depositou flores junto ao Monumento à Fundação de São Paulo, no Pátio do Colégio, sob uma fina garoa (pra variar!). Nas praças, tocavam bandas vindas de todo o interior do Estado, enquanto aviões jogavam sobre a cidade uma chuva de triângulos de papel prateado. Às 9h, o arcebispo dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota rezou a missa inaugural da Catedral Metropolitana, na praça da Sé (a construção demorou 40 anos e seu estilo gótico foi alvo de severas críticas de gente como o diretor do MASP, Pietro Maria Bardi, e o jornalista José Tavares de Miranda, que preferiam "algo de caracteristicamente brasileiro"). Nova missa teve lugar no Pátio do Colégio, à noite, oficiada pelo cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara, com a presença de 30 mil pessoas.

(Fabio Gomes)
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Índios no desfile cívico

Dois desfiles marcaram o dia. Às 11h, militares do Exército, Marinha, Aeronáutica e Força Pública marcharam diante da nova Catedral. Após a missa campal, no Anhangabaú, a Banda da Polícia Militar tocou o "Hino Nacional" e teve início a parada cívica, acompanhada por 100 mil pessoas e aberta por uma "comissão de frente" constituída pelo jornalista Assis Chateaubriand e pelo sertanista Orlando Villas-Boas acompanhando índios do Xingu. O cacique botocudo Krumare parou diante do palanque oficial e ofereceu uma borduna ao governador Lucas Garcez. Seguiram-se carros alegóricos, da capital e do interior, representando a indústria, o comércio e a agricultura. A noite encerrou-se com espetáculo de fogos de artifício.


Segundo Fernando Morais, em Chatô, O Rei do Brasil (Cia. das Letras, 1994), a idéia da comissão de frente foi do próprio Chateaubriand, que mandou buscar dois curumins caiapós, Arutsavi e Tofut, de avião, especialmente para o desfile. Ao final do trajeto, na avenida São João, o jornalista, animado pelos aplausos, resolveu voltar pelo mesmo caminho, sem se importar com o fato de que iria atrapalhar os que davam prosseguimento à parada...

(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda - a idéia

Assim como agora, quando comemoramos os 450 anos de São Paulo, em 1954 a festa se estendeu ao longo do ano. Numa conversa num bar paulistano com a cantora Aracy de Almeida e o jornalista Flávio Porto, o radialista Almirante apresentou sua idéia de comemorar o aniversário de Pixinguinha, em 23 de abril, com um programa especial na Rádio Record, com a indispensável presença do próprio. A idéia evoluiu rapidamente: além de Pixinga, seriam convidados também seu parceiro Benedito Lacerda e demais companheiros do extinto programa O Pessoal da Velha Guarda. Aracy ficou de falar com o pintor Clóvis Graciano, presidente do Clube dos Artistas e Amigos da Arte (Clubinho pros íntimos), onde aconteceria a apresentação; Flávio se encarregaria de convidar os jornalistas cariocas. Já a Almirante coube vender o peixe para o proprietário das Emissoras Unidas (mais tarde Rede Record), Paulo Machado de Carvalho, para financiar passagens, cachês e hospedagem dos artistas em São Paulo, em troca da transmissão do show. O empresário concordou em assumir totalmente as despesas do evento que já começava a ser chamado de Festival da Velha Guarda. A TV Record começara suas transmissões em 1953 e proporcionou às Unidas reunir um elenco fabuloso, que atuava tanto no rádio como na TV (nomes fantásticos como Ary Barroso, Elizeth Cardoso, Adoniram Barbosa, Ataulfo Alves, Isaura Garcia, Inezita Barroso e o fenomenal Jorge Goulart, para citar só alguns).

Ao saber dos preparativos, o diretor de relações públicas da Comissão do Quarto Centenário, José Roberto Whitaker Penteado, sugeriu ao presidente da autarquia, o poeta Guilherme de Almeida, a incorporação do evento às comemorações do aniversário da cidade. Guilherme levou a sugestão a Machado de Carvalho e a Almirante, lembrando que o radialista, além de organizador do festival, era também assessor técnico da Comissão.
(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda (2) - a festa!

Um ônibus da Expresso Brasileiro foi mandado ao Rio para buscar os músicos veteranos Pixinguinha, Benedito, Donga, João da Bahiana, Alfredinho do Flautim, Caninha, Patrício Teixeira, Bide da Flauta, Léo Vianna, Bororó, Mozart de Araújo, Mário Cabral, os jovens músicos (16 anos!) Baden Powell e Sidney dos Santos Silva e os jornalistas Sérgio Porto e Lúcio Rangel, entre outros. Muitos foram de trem ou avião - sem contar Jacob do Bandolim, que foi em seu próprio carro. Cada músico e jornalista convidado recebeu de brinde da Record um disco feito especialmente para o festival, com Pixinguinha interpretando à flauta dois choros seus: "Lamentos" (gravação Victor de 1941) e "Chorei" (Odeon, 1942).


A chegada à capital paulista aconteceu no próprio dia 23 de abril, uma sexta, às 15h. Já às 21h, os músicos participaram de um programa que Almirante apresentou contando a vida de Pixinguinha. Programa encerrado, todos foram ao Clubinho, onde a festa foi literalmente até o amanhecer.

Numa crônica, Antônio Maria relatou o que foi o acontecimento: "...Pixinguinha e Benedito Lacerda. Estão tocando juntos, em sax tenor e flauta, a grande melodia de 'Carinhoso'. Ambos beberam e estão no auge do sentimentalismo. Em volta, o silêncio paulista de homens e mulheres que sabem gostar da melhor música do Brasil. (...) Pixinguinha e Benedito estão tocando ao longo de uma madrugada paulista. Era bom que a noite não acabasse agora e fosse do tamanho da imensa lealdade dos homens dignos."

Mas talvez a melhor definição para o que rolou tenha sido da cantora Inezita Barroso: "Meu Deus! Parece um sonho!"

(F. G.)
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O Festival da Velha Guarda (3) - no teatro e no Ibirapuera

No sábado, 24, nova apresentação, durando mais de três horas, no Teatro Arthur Azevedo (Moóca). Na primeira parte, Blota Jr. apresentou Elza Laranjeira, Luiz Vieira, Inezita, Aracy, Cascatinha & Inhana e o regional de Waldir Azevedo; em seguida, Almirante comandou o espetáculo do Pessoal da Velha Guarda, tudo com transmissão direta da Rádio Record.


João da Bahiana (com o prato), Donga (ao violão),
Jacob Palmieri (ao pandeiro), Alfredinho do Flautim 
e Pixinguinha (ao sax)


O Festival encerrou no domingo, 25, com show no Parque do Ibirapuera assistido por dezenas de milhares de pessoas (o parque, inaugurado naquele ano, se constituía no presente de aniversário que a Comissão de Festejos houvera por bem dar ao povo paulistano). Juntando-se aos artistas que já haviam participado dos dois primeiros shows, compareceram os cantores Paraguassu, Januário de Oliveira e Salvador Correia, o Barraca, além do pandeirista Jacob Palmieri, que integrara em 1919 a primeira formação dos Oito Batutas, onde tocou até 1922 (saiu do grupo porque não tinha como acompanhá-los à França). Aposentado da música e vivendo em São Paulo, Palmieri voltou à ativa naquela tarde, emocionando os antigos companheiros Pixinguinha e Donga. Encerrando o megaevento, todos os violonistas presentes foram regidos por Pixinga em seu arranjo para "A Voz do Violão" (Francisco Alves - Horácio Campos). Em seguida, a música foi cantada por todos os artistas e espectadores - tudo sendo transmitido ao vivo pela Rádio e também pela TV Record.

(F.G.)


Gravado por Thomas Farkas no Ibirapuera


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O Festival da Velha Guarda (4) - nem tudo que é bom dura pouco!

As Unidas foram cumprimentadas publicamente pela Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, cujo presidente, Wandick de Freitas, definiu o Festival como a festividade do Quarto Centenário "que teve maior repercussão em São Paulo", e que "conseguiu tocar mais profundamente o coração de seu povo".

A bem da verdade, o Festival não terminou realmente no Ibirapuera. Durante todo o mês de maio, nas terças, quintas e sábados, Almirante apresentou na Rádio Record o programa O Pessoal da Velha Guarda, sempre com auditório lotado para ver Pixinga. Jacob Palmieri, Paraguassu e Januário de Oliveira participaram de todas as edições.

O extraordinário êxito do evento assegurou a realização de um 2º Festival da Velha Guarda, no ano seguinte.


(F. G.)
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Garoto e o dobrado "São Paulo Quatrocentão"

Uma música que fez muito sucesso na época foi o dobrado "São Paulo Quatrocentão", de Garoto e Chiquinho do Acordeom. O disco vendeu 700 mil cópias, gerando nova gravação, com letra de Avaré e interpretação de Hebe Camargo. Ruy Castro, em Chega de Saudade (Cia. das Letras, 1990), diz que Garoto odiava a música, tendo inclusive sendo pago apenas como instrumentista na gravação e não como autor. Já Henrique Cazes, em O Choro - Do Quintal ao Municipal (Ed. 34, 1998, pág. 94), não só afirma que Garoto recebeu os direitos autorais como apresenta a cifra: cerca de 30 mil dólares. O curioso é que, no parágrafo seguinte, Cazes informa que, nesse período, Garoto alugou um sítio em Areal (RJ), próximo à casa de campo do maestro Radamés Gnattali. Pergunto: se realmente tivesse ganhado tanto, não seria mais natural ele comprar o tal sítio, em vez de alugar?

De qualquer forma, Garoto não teve muito tempo para curtir o sítio, pois morreu em maio de 1955. Aí, segundo Ruy Castro, aconteceu o que o violonista mais temia: as rádios não paravam de tocar "São Paulo Quatrocentão", em sua homenagem...

(F. G.)
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Portela homenageia São Paulo

A Portela desfilou no carnaval de 1954 cantando um samba-enredo com o mesmo nome do dobrado de Garoto: "São Paulo Quatrocentão". A escola obteve o quarto lugar no desfile da Av. Presidente Vargas. Na letra do samba, chama a atenção o, digamos, uso diferente do adjetivo do título: "São Paulo/ Tu és o celeiro da nossa nação/ Por isso mereces teu quatrocentão/ E em tua homenagem nos congratulamos."

(F. G.)
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Outro dobrado

O dobrado, gênero hoje esquecido, é típico de bandas militares, tendo um caráter solene e um tanto nostálgico que, pelo visto, era buscado pelos compositores que cantavam o aniversário da cidade. Mário Zan compôs com J. M. Alves o dobrado "Quarto Centenário", gravado por Carlos Galhardo em disco RCA de 1953. Foi a segunda gravação de uma música de Zan e seu primeiro sucesso.

(F. G.)
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"Perfil de São Paulo"

Da mesma maneira que a TV Record, a gravadora Columbia (depois CBS e hoje Sony) iniciara atividades em São Paulo em 1953 e ia reunindo um elenco fabuloso - embora na época a maioria ainda não tivesse atingido o estrelato, como Cauby Peixoto, Elza Laranjeira, Erlon Chaves, Titulares do Ritmo e Geraldo Pereira. No mês de janeiro de 1954, no auge das comemorações do Quarto Centenário, enfim chegava à gravadora um nome para não deixar dúvidas: Sílvio Caldas. O Caboclinho Querido se mudava de mala e cuia para a Paulicéia, passando a atuar na Rádio Excelsior.

Um belo dia, Sílvio estava no estúdio da rádio, situado na Rua 24 de Maio, quando chegou um rapaz com uma partitura e pediu licença ao seresteiro para apresentar-lhe a música. Localizado um piano, Sílvio pôde escutar "Perfil de São Paulo", que o rapaz, o advogado recém-formado Francisco de Assis Bezerra de Menezes, inscrevera no concurso de músicas que a prefeitura promovia para o Quarto Centenário. Sílvio ganhou o concurso com este samba, lançado em disco Columbia em novembro de 1954.

Bezerra de Menezes continuou na área jurídica, tornando-se mais tarde promotor público em Barretos. Já seu samba continua sendo cantado como um hino não-oficial da cidade: "Aonde estão teus sobrados, de longos telhados e teus lampiões?/ E os moços da Academia, na noite tão fria, cantando canções?/ E sinhazinha delgada pisando a calçada na tarde vadia?/ O tempo tudo mudou, mas não apagou a tua poesia..."

(F. G.)

* Publicado originalmente no Mistura e Manda nº 32 - 19.1.2004,
naturalmente se referindo então aos 450 anos que São Paulo comemorava

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