sábado, 25 de janeiro de 2014

Especial Tom Jobim 87 anos (2): Fora do Tom

Tom Jobim, c. 1959


"Com o sucesso de Chega de Saudade (N.R: LP de João  Gilberto,  1959), Tom Jobim abriu de vez a gaveta (...). Entre meados de 1958 e fins de 1959, ele lançaria canções suficientes para sustentar uma emissora de rádio com tomjobins por 24 horas por dia, se fosse necessário (...). (...) Quem não conhecia Antonio Carlos Jobim, passou a conhecê-lo. E, quem já o conhecia, ficou impressionado: o homem se tornara uma usina de belezas."

Não há exageros no trecho acima, extraído do livro de Ruy Castro Chega de Saudade (Cia. das Letras, 1990), à página 217. A fase inicial da bossa nova registrou mesmo grande produção de Tom, em quantidade e qualidade. Tantas belezas produzidas por tal usina também renderam uma canção irônica como "Fora do Tom", de autoria de Carlos Imperial e gravada por Roberto Carlos em seu primeiro disco, um 78rpm gravado em maio de 1959 e lançado no agosto seguinte pela Polydor. Vamos à letra do samba, recheada de referências a sucessos de Tom na ocasião.

"Não sei, não entendi/ Vocês precisam me explicar/ Seu samba é esquisito/ Não consigo decifrar/ Na escola eu aprendi/ E música estudei/ Mas seu samba ouvi/ Na mesma eu fiquei.// Tentei ouvir a voz/ Que existe nesse seu olhar/ E pra beijar alguém/ Os peixinhos fui contar/ Responda por favor/ Se isto é natural/ Não durmo há mais de um mês/ Por causa de vocês.// Cheguei, sorri, venci/ Depois chorei com a confusão/ No tom que vocês cantam/ Eu não posso nem falar/ Nem quero imaginar/ Que desafinação/ Se todos fossem iguais a vocês."



Vamos ao raio-X:

"A voz que existe nesse seu olhar" se refere a "Este Seu Olhar" ("Este seu olhar/ Quando encontra o meu/ Fala de umas coisas..."), só de Tom, sucesso com Dick Farney (além de ter outras nove gravações em 1959). Contar os peixinhos pra beijar alguém, é lógico, remete a "Chega de Saudade" (Tom - Vinicius de Moraes) - "Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos que eu darei na sua boca..." -, lançada por Elizeth Cardoso em 1958. Já a pergunta "se isto é natural" ironiza "Desafinado" (parceria de Tom com Newton Mendonça, 1958) - "Isto é bossa nova, isto é muito natural..." -, uma das poucas gravações de João Gilberto a chegar à parada de sucessos (a mesma música é fustigada novamente quase ao final, em "que desafinação").

O verso "Por causa de vocês" reproduz, quase igual, o título de uma parceria de Tom com Dolores Duran, "Por Causa de Você", que abria o LP Carícia (1957), de Sylvia Telles. "Cheguei, sorri, venci/ Depois chorei..." brinca com os versos de abertura ("Chegou, sorriu, venceu, depois chorou...") de "Brigas Nunca Mais" (Tom - Vinicius), com quinze registros em 1959, entre eles o de João Gilberto.

Já ao escrever "No tom que vocês cantam/ Eu não posso nem falar", Imperial não tinha como adivinhar, mas antecipou o comentário de Frank Sinatra após gravar "Dindi" (Tom - Aloysio de Oliveira) em 1967 ("A última vez em que cantei tão baixo foi quando tive laringite", cf. Chega de Saudade - o livro -, pág. 415). Também não há como saber ao certo, mas com "Seu samba é esquisito/ Não consigo decifrar", Imperial pode ter tido a intenção de ressaltar a diferença abissal das músicas de Tom Jobim, construídas sobre a harmonia, das de praticamente todos os outros compositores, que se apóiam na melodia (faça o teste: tente assobiar qualquer música de Jobim!). Se realmente era essa sua idéia, Imperial provavelmente foi um pioneiro na observação desse aspecto. E o último verso, "Se todos fossem iguais a vocês", naturalmente goza com o primeiro sucesso da parceria Tom & Vinicius, "Se Todos Fossem Iguais a Você", da trilha da peça Orfeu da Conceição (1956), cuja primeira gravação foi de Roberto Paiva. "Se Todos Fossem..." também é citado por uma flauta no tema da introdução de "Fora do Tom" e no rápido solo.

"Fora do Tom" não fez o menor sucesso na ocasião. Era o lado B do disco, tendo do outro lado uma parceria de Roberto Carlos com Imperial, "João e Maria". Nas duas músicas, o cantor era acompanhado por um conjunto de estúdio, que incluía o violonista Baden Powell. Curiosamente, o arranjo das músicas estava muito dentro do figurino da bossa nova, buscando semelhanças com o que Tom fazia nos discos de João Gilberto. Assim, embora a letra apresente alguém que parecia descartar a bossa nova (ou ao menos as músicas de Tom) como algo que não se pudesse entender, musicalmente o mesmo alguém se rendia completamente ao modelo do criticado.

Pra completar, na gravação Roberto imitou João - aliás, o que já vinha fazendo desde novembro de 1958 na boate Plaza, do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro (ao lado, foto de Roberto na época). Mais aliás: até pouco tempo antes, era exatamente nesta boate que o próprio João dava canjas, acompanhado por Milton Banana à bateria, sendo conferido por músicos como João Donato, Luís Bonfá, Tom Jobim...

Em tempo: até onde sei, Tom jamais fez qualquer menção ao que achou (ou mesmo se tomou conhecimento) de "Fora do Tom".

* Making-off do texto:

Publicado na seção "Raio-X" do Mistura e Manda, no nº 123, de 5.12.2005.  A seção buscava "decifrar" letras que, com o tempo, foram ficando 'datadas' e pouco compreensíveis a quem não detivesse uma série de informações. No total foram 'radiografadas' quatro músicas, as outras três sendo "Eu Queria um Retratinho de Você" (Noel Rosa - Lamartine Babo), "Louco não Estou Mais" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos) e "Camisa 10" (Hélio Matheus - Luiz Vagner). 

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