sábado, 25 de janeiro de 2014

Especial Tom Jobim 87 anos (1): Tom e Chico

Tom e Chico, 1978

Tom Jobim e Chico Buarque tinham muito em comum. Ambos nasceram no Rio de Janeiro, iniciaram e abandonaram o curso de Arquitetura, foram tema da Mangueira... Seus pais, Jorge Jobim e Sérgio Buarque de Holanda, ambos escritores, foram amigos. Mas, acima da amizade e da parceria, a música de Tom Jobim é a referência maior para Chico Buarque. Chico disse certa vez: “Tudo o que eu fiz na minha vida foi para o Tom”. Nada mais natural, portanto, que Chico expressasse sua admiração numa música, Paratodos”  (1993):

O meu pai era paulista/ Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano/ Meu maestro soberano/ Foi Antônio Brasileiro.”

Uma coisa curiosa na relação entre Tom Jobim e Chico Buarque. Eles eram grandes amigos, de beberem juntos e jogarem conversa fora horas a fio. Mas na hora de compor havia uma certa cerimônia, que não diminuiu com o passar do tempo. Chico diz que às vezes pegava uma música do parceiro para letrar, ouvia e pensava: “Puxa, estou fazendo uma música com o Tom Jobim!” Já Tom ficava cheio de dedos para procurar Chico. Foi assim quando eles precisavam compor um samba para a Mangueira, que ia homenagear o autor de “Águas de Março no carnaval de 1992. Havia um prazo a cumprir, Tom esperando a letra do samba e Chico nada. Aí Tom pediu ao jornalista Sérgio Cabral para entrar em contato com o parceiro. Quando atendeu Cabral, Chico ficou indignado: “Diz ao Tom para ele deixar de frescura e telefonar para mim”. Finalmente Tom telefonou, Chico se assustou com o prazo apertado, mas felizmente “Piano na Mangueira” ficou pronto a tempo.


Chico e Tom beijam Dona Neuma


Jobim estava acostumado a compor conversando, bebendo, com gente em volta. Quando conheceu Chico Buarque, apresentado pelo produtor Aloysio de Oliveira em 1965, isso mudou. Chico, que precisa se isolar para produzir, ia à casa de Tom, que gravava a melodia numa fita, que era ouvida por Chico inúmeras vezes. Quando sentia que tinha entendido o que o parceiro queria dizer, colocava os versos, cuidadosamente. Uma sílaba por nota, respeitando a melodia. Só levava o resultado quando considerava a música pronta (Chico jamais mostra um rascunho). Diferente dos outros parceiros de Chico, Tom era o único que interferia na letra. Quando gostava do resultado, ia ao piano e cantava a música inteira. Se os versos não fossem do seu agrado, começava a fazer paródias. Ou então ele podia resolver mudar a música...

Tom Jobim tinha um jeito de mostrar a música que muitas vezes podia intimidar um candidato a parceiro. Ele tocava o tema várias vezes, fazia um vocal e se o parceiro demorava, ele colocava algumas palavras, que tanto podiam ser para a música ou gozando da situação. No início, Tom intimidou Chico e a parceria quase afundou. Foi com “Wave”. Tom tocava, tocava, Chico chegou a dizer: “Vou te contar”... e não saiu disso. Mais tarde, Tom comentou numa entrevista: “É, quem acabou tendo que contar fui eu”. Mas sem problema, afinal foi Chico mesmo quem declarou que o melhor letrista de Tom, tirando Vinicius de Moraes, era o próprio Tom.

Vinicius, Tom e Chico


A parceria começou pra valer a partir de uma música instrumental que Tom até já havia gravado, chamada Zíngaro”. O autor imaginava um cigano pobre que tocava numa praça e teria ficado sem seu violino, sem nada. Até essa época (1968), Chico só havia tido como parceiro Toquinho. Mas resolveu encarar, criou outra história, mudou o título e levou a música para Tom, que só dizia “Ótimo, ótimo.” Nascia assim “Retrato em Branco e Preto”.

(Outra música de Tom que mudou de nome após receber versos de Chico foi Amparo”, que virou Olha, Maria”. Vinicius também colaborou na letra.)

Chico começou a carreira em festivais. Tom já não gostava muito, achava sem importância. Tom Jobim só participou em duas edições do Festival Internacional da Canção (FIC), porque a promotora, a TV Globo, pressionava os compositores a se inscrever. Nas duas vezes, o maestro foi envolvido em episódios lamentáveis - e em ambas as ocasiões seu parceiro era Chico Buarque.

Tom e Chico com Cynara e Cybele

Na primeira, em 1968, Tom teve que mandar uma música porque não quis ser do júri. Pediu para Chico escrever versos para “Gávea, um tema instrumental totalmente fora dos modelos de festival. “Gávea” virou “Sabiá, mas os parceiros não tinham a menor esperança na vitória. Chico até viajou na data da eliminatória, indo para sua primeira temporada na Itália. “Na final, Sabiá ganhou, mas levou uma vaia que Tom jamais esqueceu. O público preferia Caminhando”, de Geraldo Vandré, que ficou com o segundo lugar. A vaia era tanta que poucos na platéia conseguiram ouvir o discurso lúcido de Vandré, pedindo ao público que respeitasse os colegas: “Vocês não me ajudam vaiando Jobim e Chico. A vida não se resume a festivais”. No outro festival, o FIC de 1971, a Globo queria a participação de nomes de prestígio e criou uma categoria especial, sem eliminatória. Tom e Chico, ao lado de outros autores, não quiseram participar. Circularam boatos de que os músicos aproveitariam a transmissão ao vivo do festival para protestar contra a censura. Resultado: foi todo mundo preso.

No começo, com “Retrato...” e Sabiá”, Chico estava escrevendo versos para músicas que Tom antes já tinha considerado prontas. Foi só com Pois É” (1968) que Tom passou uma música em primeira mão ao parceiro.


Tom e Chico no programa Chico e Caetano 
 - TV Globo, abril de 1986

Tom e Chico, separadamente, fizeram músicas para muitos filmes. Juntos, porém, apenas dois. Começaram com a música Eu te Amo”, para o filme de mesmo nome dirigido por Arnaldo Jabor, em 1980.

O segundo filme que musicaram foi Para Viver um Grande Amor, que Miguel Faria Júnior realizou em 1983. Uma das músicas que Tom entregou a Chico era da década de 40, uma valsa que fizera como exercício quando começara a estudar piano com Lúcia Branco, e que recebeu o nome de Imagina”. As outras canções dos dois no filme eram “A Violeira” e “Meninos, Eu Vi”.


Patrícia Pillar e Djavan na capa do CD 
com a trilha de Para Viver um Grande Amor

O maior sucesso assinado por Tom Jobim e Chico Buarque foi escrito nos anos 80, também por encomenda. A música originalmente era um tema instrumental do maestro, chamava-se “Bolero e fora feita para o filme Fonte da Saudade (1985), de Marco Altberg, baseado no livro Trilogia do Assombro, de Helena Jobim (irmã de Tom). A música passara a precisar de letra porque fora escolhida para tema da minissérie Anos Dourados, da TV Globo. Chico aceitou a tarefa, mas só concluiu os versos quando o programa já tinha saído do ar. Em sua defesa, ele alega que “a minissérie é que foi precipitada”.






Chico Buarque possui em seu arquivo muitas fitas com melodias de Tom Jobim nas quais ele nunca pôs letra. Nem vai colocar, agora que Tom não está mais aqui. Chico sente falta da discussão, até das paródias, do único parceiro que ele tinha que convencer que a letra estava boa. Algumas destas fitas do arquivo jobiniano de Chico podem ser ouvidas no CD que acompanha o livro Antônio Carlos Jobim - Um Homem Iluminado, de Helena Jobim (Ed. Nova Fronteira, 1996). 

A maior parte das músicas citadas neste texto fazem parte do CD Bate-Boca, gravado pelo Quarteto em Cy com o MPB-4 (PolyGram, 1997).


  • Making-off do texto: Escrito em 2000 para uma disciplina de rádio do curso de Comunicação Social - Habilitação Jornalismo da UFRGS, onde me formei no ano seguinte. Gravado incluindo trechos das músicas citadas, foi ao ar no programa Por Volta do Meio-Dia da Rádio da Universidade (Porto Alegre), espaço destinado a veicular produções dos alunos.. O texto foi publicado originalmente no site Brasileirinho em 2002, possivelmente em dezembro. Anos mais tarde, por iniciativa de uma brasileira residente em Estocolmo, foi traduzido para o sueco (!!!!!) e publicado num site da Escandinávia. 

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