sábado, 8 de fevereiro de 2014

Especial 50 anos sem Ary Barroso: Ary Piano Barroso


Neste domingo, 9 de fevereiro, completam-se 50 anos desde que Ary Barroso foi tocar piano no céu. Para homenageá-lo, publicaremos amanhã uma seleção de notas a seu respeito publicadas no Mistura e Manda. 

E para abrir os trabalhos, postamos hoje um texto comentando um show que vi em São Paulo há 11 anos, com o repertório do CD Ary Piano Barroso, do pianista Ricardo Camargos, que já havia traduzido para as teclas brancas e pretas a obra de Pixinguinha e Cartola e que desde então (de acordo com o Dicionário Cravo Albim) não mais lançou nenhum disco. Não lembro exatamente se era um show de lançamento, embora o CD houvesse saído naquele mesmo ano, mas a produção de Ricardo não tinha o CD para vender ao final do espetáculo, razão pela qual pude adquirir apenas o (excelente) Piano Pixinguinha (1995).  

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RICARDO CAMARGOS: ARY PIANO BARROSO


O pianista Ricardo Camargos, de formação clássica, trabalha há mais de 30 anos com a música popular, tendo integrado o grupo O Fruto ao lado do guitarrista Victor Biglione. Recentemente, tem se dedicado a visitar a obra dos grandes mestres com olhos (e dedos) de pianista, trabalho que já resultou nos CDs Piano Pixinguinha (1996) e Piano de Cartola (1999) e que agora prossegue com o disco Ary Piano Barroso, em mais uma merecida homenagem ao centenário compositor. Foi com o repertório desse trabalho que Ricardo fez um belo espetáculo no Auditório SESC Av. Paulista (São Paulo), em 3 de novembro de 2003, acompanhado por Mike Ryan ao flugelhorn e trompete e o veterano percussionista Ovídio Brito, que nesse dia tocou pandeiro.

O grande momento do fim de tarde foi o arranjo de Ricardo para o samba-jongo "Na Baixa do Sapateiro". Após iniciar com ênfase no grave e acordes quadrados ao piano, pontuados aqui e ali pelo trumpete, a interpretação do grupo assumiu um ritmo mais vivo na segunda parte da música, com um excelente solo de Mike. Em seguida, Ovídio fez um solo de pandeiro, acompanhado discretamente por Ricardo ao tamborim, tudo se encaminhando para um final em que o piano fez belas variações sobre a melodia.

Além de bom pianista e arranjador, Ricardo conduziu bem o espetáculo, convidando o público a cantar junto sucessos consagrados, como "Risque" (escolhida para o bis), "Pra Machucar meu Coração", "Folha Morta" e "Camisa Amarela" (a preferida de Ricardo) e lembrando histórias engraçadas, a maioria relativa ao programa de rádio Calouros em Desfile, que Ary comandou de 1936 a 1961.

O pianista comparou Ary Barroso a Heitor Villa-Lobos no amor pelo Brasil, na valorização que ambos sempre fizeram do país e na excelência como compositores. Lamentou que a memória de Ary esteja dispersa: as partituras que ele fez para filmes americanos só se encontram em Hollywood; a família de Ary tem algumas fitas que o compositor deixou, mas sem uma preservação adequada; fora o que já não tem mais como ser recuperado mesmo. Exemplo? Ricardo tocou o "Choro Brasileiro nº 3" (uma bela composição, com tema alegre, bem cadenciada na segunda parte, com piano bem sacudido e bons contrapontos do flugel). Pois bem: onde estão os "Choro Brasileiro nº 1" e "Choro Brasileiro nº 2"? Ninguém sabe. Ricardo só chegou ao nº 3 porque ele foi gravado no LP Encontro com Ary (1956) e o fonograma foi relançado pela Editora Abril em um fascículo da coleção História da Música Popular Brasileira.

Na pesquisa que desenvolveu para selecionar o repertório, Ricardo descobriu outras pérolas pouco conhecidas ou completamente ignoradas do público, casos de "Sambando na Gafieira", em que o piano brilhou nas excelentes passagens de ritmo vivo para lento, com boa base rítmica do pandeiro de Ovídio e do agê empunhado por Mike; "Nega Baiana", que iniciou com pandeiro e agê, o piano integrando-se bem balançado, com um solo surpreendentemente mais calmo; e "Minha Mágoa", valsa executada nesse dia no SESC apenas pelo piano. Lenta, algo nostálgica, era definida pelo próprio autor como "uma valsa à moda antiga". Em "Minha Mágoa", chama a atenção o emprego em larga escala das voltinhas ao final dos compassos que eram uma marca registrada de Ary - não tantas, porém, a ponto que ele tivesse de mudar seu nome para Ary Barroco... 

Também cheia de voltinhas era a música mais antiga do repertório: "Vou à Penha", primeiro samba de Ary gravado, por Mário Reis, em 1928. A boa base melódica do piano recebeu uma bela contribuição da harmonia feita pelo trompete.

O grande clássico do repertório de Ary Barroso, "Aquarela do Brasil", logicamente não podia ficar de fora. O tema foi apresentado por Ricardo em um sintetizador, acompanhado pelos floreios do flugel. Na parte em que corresponde aos versos "Ouve essas fontes murmurantes", os músicos passam para, respectivamente, piano e trompete, esse conduzindo mansamente a melodia, aquele fazendo os contracantos, com leve marcação do pandeiro. Súbito, uma pausa, e todos caem no samba, inclusive com alguns compassos só com percussão, pois Ricardo empunhara o tamborim e Mike o agê. Só um reparo em relação a "Aquarela": o pianista denominou seu arranjo como "suíte rítmica"; creio que "fantasia" exprimiria melhor. Ao menos pra mim, pra mim, pra mim, pra mim...

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