domingo, 9 de fevereiro de 2014

Especial 50 anos sem Ary Barroso



Para homenagear o compositor Ary Barroso, falecido em 9 de fevereiro de 1964, mesmo dia em que o Império Serrano desfilava com o enredo em sua homenagem "Aquarela Brasileira" (com o samba-obra-prima de Silas de Oliveira), publicamos aqui uma seleção de notas saídas originalmente no Mistura e Manda do site Brasileirinho. 

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O "baiano" Ary Barroso

Mineiro de Ubá, Ary Barroso (1903-1964) esteve na Bahia pela primeira vez em 1929, como pianista da orquestra Apolo Jazz, dirigida por Napoleão Tavares. Foi a semente de uma paixão pela boa terra que se refletiu em muitas músicas. Algumas delas ajudaram a construir a imagem de baiana que consagrou Carmen Miranda: o batuque “No Tabuleiro da Baiana” (1936), que ela gravou com Luís Barbosa, o samba-jongo “Quando Eu Penso na Bahia” (parceria com Luiz Peixoto, 1937), levado à cera por Carmen e Sílvio Caldas, e o superclássico “Na Baixa do Sapateiro” (1938). O cantor paulista Déo lançou outros dois sambas baianos de Ary: “Iaiá da Bahia”, em 1951, e “Bahia Imortal” (1945, gravado em dupla com Dircinha Batista). A série foi inaugurada com a gravação de “Bahia” por Sílvio Caldas em 1931, seguindo-se “Nega Baiana” (parceria com Olegário Mariano, 1931), lançado por Elisa Coelho e o Bando de Tangarás; “A Baiana Saiu de Espanhola”; e “Faixa de Cetim”, lançado por Orlando Silva em 1942. A gravação de “Quero Voltar à Bahia” em 1961, por Jorge Goulart, aparentemente encerrou o ciclo, mas é possível que existam outros.

Luiz Peixoto, letrista de “Quando Eu Penso na Bahia”, curiosamente, foi o responsável pela “desbaianização” de outro samba, que seria intitulado “Bahia”, com versos de Ary (“Bahia/ Cheguei hoje da Bahia/ Trouxe uma figa de Guiné...”), e que, com a nova letra de Peixoto, virou “Maria” (“Maria/ O teu nome principia/ Na palma da minha mão...”).

(Mistura e Manda nº 4, 30.6.2003)

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O mineiro Ary Barroso 

Ary Barroso enfrentou cobranças de mineiros por cantar mais a Bahia do que Minas Gerais. Ele compôs “Aquarela Mineira” (1950), sem repercussão. A O Estado de Minas, em 1959, Ary queixou-se que a música não fizera sucesso porque os mineiros não quiseram.

Outra música sobre Minas foi “Sinfonia das Montanhas”, composta em 1943, quando narrou futebol para a Rádio Guarani de Belo Horizonte. (Receberia outros convites da imprensa mineira: o jornal Binômio o chamou para entregar troféus aos melhores do ano, em 1959 e 1960). “Sinfonia...” devia entrar no filme americano Brazil (1944), o que não ocorreu. A música não chegou a ser gravada. O filme, com trilha de Ary, tem cenas filmadas em BH e numa fazenda nos arredores, onde os vaqueiros faziam churrasco e usavam bombacha. A crítica brasileira malhou a fita.

1 - Nico Duarte, proprietário do Cassino Ao Ponto;2 - Ary Barroso. Poços de Caldas, 1926.
Temporada em Poços de Caldas, 1926. Ary é o 2 da foto. 
A seu lado, o 1 é Nico Duarte, 
dono do cassino Ao Ponto


Ainda em 43, Ary fez shows com artistas mineiros. Ele já atuara no estado como pianista, em uma excursão iniciada em Santos em 1926 e que ficou em Poços de Caldas por 9 meses, até maio de 1927. Retornaria várias vezes a Poços de Caldas, sempre bem acompanhado – em 1938, com Francisco Alves, Carmen Miranda e Vassourinha; em 1945 (por dois meses), com Sílvio Caldas.


Ary Barroso (anos 40) em Poços de Caldas.
Em Poços de Caldas, 1945


Formado em Direito em 1930, Ary tentara ser promotor público em Nova Resende, mas não se sabe se ele chegou mesmo a ser nomeado ou, tendo sido, desistiu logo, voltando ao Rio de Janeiro. Já em 1962, pensou em se lançar a deputado federal por Minas. À revista Manchete, assim justificou a desistência: “Com que dinheiro iria comprar votos?”

Quando Ary necessitou de albumina humana por estar com cirrose, em 1963, a direção do Pronto-Socorro de BH providenciou-a e conseguiu que o comando da Base Aérea de BH realizasse um vôo em plena madrugada, enviando 3 frascos ao Rio.

Ao que parece, os maiores críticos da baianidade de Ary eram moradores de Ubá, mas isso fica para o outro M&M.

(Mistura e Manda nº 5, 7.7.2003)

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Ary Barroso de Ubá... 



Os mineiros sempre demonstraram admirar Ary Barroso, que correspondia – até documentos ele fazia em Minas, mesmo com décadas de residência no Rio de Janeiro (carteira de motorista, Ubá, 1924; certificado de reservista, Juiz de Fora, 1940)! Pelo jeito, os incomodados pelo amor entre Ary e a Bahia eram os moradores de Ubá.

O último sobrado e onde morava Ary com sua avó Gabriela e com a tia Ritinha. Ubá - Minas Gerais
Sobrado em Ubá onde Ary morou até se mudar para o Rio


Ninguém duvidava que ele gostasse de Ubá. Enquanto cursava Direito, Ary sempre passava lá as férias, inclusive deixando procurador para matriculá-lo no Rio. No carnaval de 1929, os ubaenses esgotavam as edições de O Jornal nas bancas para votar em “Vou à Penha”, samba de Ary que ganhou na votação dos leitores de todo o Brasil (mas não ficou entre os quatro premiados na apuração da comissão de especialistas). Um leitor de Ubá escrevera a O Jornal, manifestando esperar da comissão um julgamento “desprevenido, legítimo e sincero”...

Houve, é certo, uma grande mágoa de Ary com Ubá quando, em 1954, a Câmara de Vereadores recusou-se a dar seu nome a uma rua, quando outras pessoas vivas já haviam recebido esta homenagem. Isso o levou a recusar-se a participar das comemorações dos 100 anos do município, em 1957. As pazes só foram feitas em agosto de 1959, quando o Tabajara Esporte Clube, completando um ano, resolveu homenageá-lo. Uma avenida recebeu seu nome e inaugurou-se um monumento representando uma clave de sol. Ary levou grande comitiva do Rio e ficou seis dias em Ubá, inclusive visitando a Fazenda da Barrinha, onde passava as férias na infância. Por sinal, esta fazenda é o único local de Minas citado nominalmente na “Aquarela Mineira”.


A famosa Fazenda da Barrinha onde Ary passava as férias escolares de fim de ano junto com seus primos que sumiam p'ro mato a caça de brincadeiras para desespero de sua tia Etelvina. Barrinha era sinônimo de Liberdade.
Fazenda da Barrinha


Ary tem outra música, inédita, chamada ... “Ubá”. Uma de suas primeiras composições foi o hino do bloco carnavalesco Ubaenses Gloriosos (1919). Mas, pelo jeito, “não valiam” para os descontentes. Certa feita, Ary estava no bar Vilariño, no Rio, quando uma senhora ubaense mostrou-se indignada por tantos sambas para a Bahia e nenhum para Ubá. Ary respondeu que a conterrânea não tinha razão, pois a cidade era citada no samba “Risque”:

- Preste atenção na letra – disse Ary, passando a cantar: - “Mas se algum dia talvez/ A saudade apertar/ Não se perturbe/ Afogue a saudade/ Nos copos de Ubá...”


Show em Ubá, Minas Gerais - Parte do show demostrando aos estrangeiros atônitos o instrumento "cuíca".
Show em Ubá, 1959 - Ary está em pé à esquerda



...e da Bahia

Ary Barroso compôs ao menos 11 músicas sobre a “boa terra” – além das 10 citadas no Mistura e Manda nº 4, descobri mais uma, “Maria”, samba de 1931 gravado por Leonel Faria homenageando o remelexo da baiana (nada a ver com a “Maria” que Ary fez com Luiz Peixoto. Mania dele de ficar colocando o mesmo nome em várias músicas e dificultando as pesquisas!).

Por essa música e outras como “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”, o compositor mineiro recebeu em junho de 1956 em Salvador o título de Cidadão Baiano. Na Ladeira de São Miguel, junto ao Pelourinho, alunos e professores de universidades promoveram um ato público, com muitos discursos e, claro, a interpretação de alguns sambas baianos de Ary por talentos locais. 

(Mistura e Manda nº 6, 14.7.2003)

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Ary Barroso sem bigode



Quase todas (eu diria quase 100% d)as imagens conhecidas de Ary Barroso mostram-no com bigode.. Nem sempre foi assim, lógico. Ary só passou a usar bigode em 1929, além de ter ficado alguns dias sem ele em 1955 por causa de uma aposta, como conta Sérgio Cabral em No Tempo de Ari Barroso. Ferrenho torcedor do Flamengo, o autor de "Aquarela do Brasil" discutia a favor de seu clube contra o compositor Haroldo Barbosa, adepto do Fluminense, a respeito do Fla-Flu do Campeonato Carioca que seria disputado dali a alguns dias. A discussão ocorreu no bar Vilariño, diante de dezenas de testemunhas que ouviram claramente quando os dois torcedores acertaram o seguinte: se o Flamengo vencesse, Ary rasparia o bigode de Haroldo; mas, se o Fluminense ganhasse, Haroldo é que tiraria o bigode de Ary.

Casamento Yvonne e Ary. Rio, dia 26 de fevereiro de 1930No domingo, o Fluminense surpreendeu, vencendo o favorito Flamengo por 2 a 1. Na segunda, a partir das 3 horas da tarde, muita gente chegava ao Vilariño para ver Ary perder o bigode. Porém, o compositor não aparecia. Às 6 horas, alguém descobriu que ele se escondera na casa das cantoras Dircinha e Linda Batista. Formou-se um corso de automóveis para a residência. Flagrado, Ary resistiu o quanto pôde: argumentou que em poucos dias iniciaria uma temporada ao lado do cantor Ernani Filho na boate Plaza e não poderia estar sem o bigode, uma marca pessoal. Desculpa rejeitada, tentou o último recurso: disse que sua esposa não o aceitaria de cara raspada. Haroldo telefonou para Yvonne, que respondeu: "Casei com Ary, e não com o bigode dele..." (ao lado, foto do casamento, em 1930). Sem outra chance, o rubro-negro aproveitou para fazer um apelo: "Quero que o meu sacrifício fique como uma lição para os jogadores do Flamengo".


O visual de Ary sem bigode foi destaque nos principais jornais do Rio de Janeiro, chegando a merecer uma nota na revista americana Time. E, pelo jeito, o apelo aos jogadores funcionou: o Fla sagrou-se tricampeão carioca naquele ano. A vitória inspirou o samba "Flamengo Tricampeão" (Haroldo Lobo - Ari Cordovil). Gravada por Jorge Veiga, a música não podia deixar de fazer menção ao "sacrifício": "Flamengo já parou de perder por aí/ Eu vi o Haroldo Barbosa/ Fazer o bigode do Ary".

Ary com a cantora Ângela Maria no gramado do Maracanã, festejando o tri campeonato de futebol (anos 53-54-55). Como vereador Ary foi um dos responsáveis do projeto na Câmara, conseguindo os votos da bancada comunista, que resultou na construção do Estádio
No Maracanã, comemorando o tricampeonato
do Flamengo com Ângela Maria

(Mistura e Manda nº 62, 16.8.2004)

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"Nova" viagem de Ary Barroso à Bahia

Um tema recorrente aqui no Mistura e Manda é a relação de Ary Barroso com a Bahia, por dois principais motivos: 1º, a Boa Terra deu origem a memoráveis sambas de Ary (ver notas acima); 2º, uma viagem de Ary a Salvador teria sido a causa da instituição do dia 2 de dezembro como Dia Nacional do Samba (tema do Mistura nº 122 - ver observação abaixo). Por isso, informo aos leitores uma "nova" viagem de Ary à Bahia, em 1933 - nova, obviamente, no sentido de que não é tão conhecida como as de 1929 e 1956. A de 1933, diferentemente das anteriores, não é citada na ótima biografia No Tempo de Ari Barroso, de Sérgio Cabral (ed. Lumiar). Aliás, curiosamente no trecho em que aborda este ano, entre as págs. 126 e 129, Cabral dá conta de que foi um ano de pouca atividade para o autor de "Faceira": teve só seis músicas gravadas e passou meses sem atividades teatrais, seja musicando ou escrevendo peças de teatro de revista.

Bem, talvez seja mais correto falar em pouca atividade no Rio de Janeiro. 1933 iniciou com uma revista de Ary em cartaz no Teatro Alhambra: Brasil da Gente, escrita em parceria com Marques Porto, Gastão Penalva e Velho Sobrinho, estreou em 30 de dezembro de 1932 e saiu do programa em 12 de janeiro. Estrelada por Mesquitinha, contava com Sílvio Caldas lançando o samba de Ary "Segura Esta Mulher". Durante a temporada, o o empresário Francisco Serrador, dono do teatro, convidou Ary a ser o diretor da orquestra da casa. Não era pouca coisa: o Alhambra era um empreendimento ousado de Serrador, já então o dono da Cinelândia. Nos oito anos em que existiu (um incêndio o consumiu em 1940), foi uma das casas de espetáculo de maior prestígio da então Capital Federal. Sua inauguração se dera em 9 de agosto de 1932, com a peça Feitiço, de Oduvaldo Vianna, apresentada pela Cia. Procópio Ferreira. Além de abrigar espetáculos do teatro de revista e do então chamado teatro de comédia (também dito "teatro declamado", em oposição ao "musicado" da revista), o Alhambra também funcionava como cinema. Ali estreou em 29 de maio de 1933 a produção da Cinédia Ganga Bruta, dirigida por Humberto Mauro e protagonizada por Durval Bellini e Déa Selva.

Foi justamente na qualidade de diretor da Companhia de Revistas, Sainetes e Operetas do Alhambra que Ary esteve em Salvador. Aninha Franco informa no livro O Teatro na Bahia Através da Imprensa - Século XX (1994) que a "Companhia do Alhambra apresentou um repertório de primeira, com revistas escritas e musicadas pelo próprio Ary, por Velho Sobrinho e Marques Porto, que fizeram enorme sucesso. (pág. 70)". Onde e quando teria acontecido essa temporada do grupo carioca em Salvador? O local, com certeza, era o Cine-Teatro Jandaya, preferido pelos grupos de passagem pela Bahia, devido à qualificação que lhe deu a reforma de 1931. A data, embora não mencionada por Aninha, não é difícil de deduzir, ao menos aproximadamente. A autora informa que a Cia. de Comédias de Teixeira Pinto "abriu a temporada teatral de Salvador, em 1933, (...), sucedida pela Companhia (...) do Alhambra". No teatro soteropolitano, considerava-se temporada então o período compreendido entre abril e outubro. Após a saída do Alhambra, a Cia. Palmerim Silva-Cecy Medina fez uma "temporada mais longa do que as habituais", dando lugar a Cia. de Espetáculos Modernos, dirigida por Lamartine Babo, em julho. Teria sido então em alguma data entre abril e julho de 1933 esta permanência de Ary na Bahia, possivelmente coincidindo com o período em que o filme Ganga Bruta esteve em cartaz no Alhambra (maio-junho). É certo que em setembro ele já se encontrava de volta ao Rio, pois no dia 15 daquele mês estreou no Teatro Rialto a revista Mossoró, Minha Nega, que escrevera junto com Marques Porto. Com Mesquitinha e Alda Garrido à frente do elenco, a peça ficou duas semanas em cartaz.

Enfim, não foi então dessa vez que Ary Barroso esteve em Salvador num dia 2 de dezembro...

(Mistura e Manda nº 140, 11.7.2006)

OBS: A questão relativa à instituição do Dia Nacional do Samba e sua relação com Ary Barroso foi brilhantemente esclarecida aqui no Jornalismo Cultural por artigo do pesquisador Márcio Gomes. Leia as duas partes do especial:

1ª - texto meu falando das viagens de Ary Barroso à Bahia em 1929 e 1956 - http://vamosfalar-jornalismocultural.blogspot.com.br/2013/12/especial-dia-nacional-do-samba-1.html


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Sobre Ary Barroso, veja também:





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