domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mistura e Manda: Iemanjá, rainha das águas

Duas capitais brasileiras, Porto Alegre e Salvador, param neste dia 2 de fevereiro para homenagear Iemanjá, a rainha das águas. Na capital gaúcha, a festa oficialmente é de Nossa Senhora, com participação intensa de representantes dos cultos afro. A comemoração neste dia ocorre devido ao sincretismo da orixá com duas invocações de Nossa Senhora: em Salvador, Nª Srª do Rosário; em Porto Alegre, dos Navegantes. 


Iemanjá é bastante cultuada nas cidades portuárias, em razão de reinar sobre as águas, favorecendo a pesca. É a ela que o pai pescador recorre na canção praieira "Promessa de Pescador" (Dorival Caymmi): "Senhora que é das águas/ Tome conta de meu filho/ Que eu também já fui do mar/(...)/ Quando chegar seu dia/ Pescador véio promete/ Pescador vai lhe levá/ Um presente bem bonito/ Pra dona Iemanjá". Já em "Arrastão" (Edu Lobo - Vinicius de Moraes) - onde é chamada também por outro de seus nomes, Janaína - a atuação da orixá é decisiva para o sucesso da pesca: "Nunca jamais se viu tanto peixe assim".

Além da pesca (e do amor, como veremos a seguir), os fiéis acreditam na proteção da deusa para ajudar a progredir na vida. Inclusive ajudando o Carnaval carioca a evoluir desde a Praça Onze - "As africanas, que fato original/ Iemanjá, Iemanjá,/ Enriquecendo o visual", exaltava o samba-enredo "Bum Bum Paticumbum Prugurundum", campeão de 1982 pelo Império Serrano, de autoria de Beto sem Braço e Aloísio Machado.

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Iemanjá, deusa do amor

Não fica muito claro qual foi a graça alcançada pelo personagem de "Dois de Fevereiro" (Dorival Caymmi): "Escrevi um bilhete a ela/ Pedindo pra ela me ajudá/ Ela então me respondeu/ Que eu tivesse paciência de esperá// O presente que eu mandei pra ela/ De cravos e rosas, vingou". Mas dá pra imaginar que fosse uma questão de amor, pois a deusa tem especial influência no assunto.



O amante de "Morena do Mar" (Caymmi), para enfeitar a amada, leva a ela "as conchinhas do mar/ As estrelas do céu (...)/ E as estrelas do mar/ (...) As pratas e os ouros/ De Iemanjá".

Sua ajuda para o amor era invocada no afro-samba "Canto de Iemanjá" (Baden Powell - Vinicius): "Se você quiser amar/ Se você quiser amor/ Vem comigo a Salvador/ Pra ouvir Iemanjá". 

Sendo ela tão bela e poderosa, não é raro os homens por ela se apaixonarem e quererem viver esse amor na plenitude, mesmo que seja preciso gestos extremos: "Vou me atirar, beber o mar/ Quero morrer pra viver/ Com Iemanjá" ("Sargaço Mar", de Caymmi). Já em "Sexy Iemanjá" (Pepeu Gomes - Tavinho Paes), música de abertura da novela Mulheres de Areia (TV Globo, 1993), o clima era bem diferente: toda a noite a deusa vinha à praia para encontrar-se com seu amado, não exigindo dele maiores sacrifícios. Mas, se fosse preciso, ele estava disposto a tudo: "Se ela me chamar, eu vou vou vou vou..."

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Moças, não desafiem Iemanjá!

Iemanjá pode auxiliar nos amores entre humanos, mas não vá uma moça querer um rapaz de quem a deusa tenha se enamorado. Esse ela leva pra junto dela, no fundo do mar, e nunca mais aparece, e dele se diz que "Fez sua cama de noivo/ No colo de Iemanjá" ("É Doce Morrer no Mar", Caymmi - Jorge Amado).



Toquinho e Vinicius, em "A Bênção, Bahia", ou não pegaram bem a coisa ou tinham uma visão mais romântica do colo: "Olorô, Bahia,/ Nós viemos pedir sua bênção, saravá!/ Hepa he, meu guia/ Nós viemos dormir no colinho de Iemanjá". 

O pretexto da fúria da orixá pode ser a ausência da namorada na festa: como "no dia dois de fevereiro/ Maria não brincou na festa de Iemanjá/(...) Aí, Iemanjá pegou e levou/ O moço de Maria para o mar" ("Maria Vai com as Outras", Toquinho - Vinicius).

Realmente, quando Iemanjá se apaixona, mulher nenhuma pode querer enfrentá-la. No samba-obra-prima "Contos de Areia" (Romildo - Toninho), a moça que amava um canoeiro que foi pra Iemanjá chorou tanto que fez nascer "toda tristeza que tem na Bahia".

Com tudo isso, era natural que a mulher temesse pela volta do pescador Mané, em "Iemanjá" (Gilberto Gil - Othon Bastos): afinal, "Iemanjá é rainha/ É bonita, é mulher". Mas a orixá dessa vez permitiu sua volta: "Lá vem a jangada voltando do mar/ Trouxe pouca pesca, mas Mané voltou/ Salve Nossa Senhora/ Salve Nosso Senhor".

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Outros dias de festa

Existem festas para Iemanjá em outros dias, como no Ano-Novo, com a famosa queima de fogos de artifício na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Na música "De Ouro e Marfim", Gilberto Gil fala dessa festa como uma "homenagem/ De coração/ Ao grão-mestre dessa ordem/ Venerável da canção/(...)/Curumim da mata virgem/ Antônio Carlos Jobim". E o saúda como a um pai em iorubá: "Ê, babá, ê, babá, ê/ Antônio Carlos Jobim".

* Publicado no Mistura e Manda nº 34 - 2.2.2004

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