domingo, 2 de fevereiro de 2014

Post nº 800: Joe e Jordan

 Naomi (Margot Robbie) tenta conter o ímpeto de
Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) em O Lobo de Wall Street


Joe e Jordan não se conhecem (até onde sei) e, afora um improvável crossover entre os universos de Ninfomaníaca - Vol. 1 e O Lobo de Wall Street, irão continuar sendo desconhecidos um para o outro. Mas posso garantir que os mais recentes filmes de Lars von Trier e Martin Scorcese, respectivamente, têm mais em comum do que possa parecer à primeira vista.  

Por essas coisas da vida, coincidiu que vi os dois filmes, um após o outro, na mesma sala, inclusive, na quarta passada, 29/1, num cinema de shopping aqui em Belém. Contrariando o que se poderia esperar, havia bem mais gente para ver um filme-cabeça dinamarquês (a sala estava praticamente lotada) do que para ver um exemplar do cinemão norte-americano (a sala devia ter metade da lotação no começo, e foi se esvaziando progressivamente - talvez nem todos tenham atentado para o fato de que era uma fita com 3h de projeção). Um resumo rapidão pra quem não viu:

  • em Ninfomaníaca, Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de meia idade, narra a Seligman (Stellan Skarsgård), um homem que a socorreu após um assalto, sua iniciação sexual (nesta fase, a personagem é vivida por Stacy Martin) e sua juventude marcada pela ninfomania.

  • em O Lobo de Wall Street, Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) conta sua ascensão de jovem corretor em Wall Street à fortuna construída por meio da venda a clientes ricos de "ações-tostão" (de pequenas empresas fora do pregão), combinada com sonegação fiscal e apetite irrefreável por sexo e drogas.

Os dois têm, portanto, uma característica que infestou o cinema brasileiro da chamada "Retomada" (anos 1990): um personagem-narrador. Von Trier justificou melhor o uso deste recurso: Joe decide contar sua história a Seligman, no intuito de que este concorde com sua visão auto-depreciativa - ela se julga merecedora de castigo em função de ter manipulado sexualmente inúmeras pessoas. Já o filme de Scorcese mostra, principalmente no início, Jordan falando diretamente para o espectador, recurso que é abandonado ao longo do filme, com eventuais retomadas; tem-se a impressão que, na dúvida entre ter um filme todo narrado ou um sem narração alguma, Scorcese decidiu fazer um híbrido (o que não seria problema maior, se isto contribuísse de modo positivo para o resultado final, o que não ocorre. Não chega a estragar o prazer de ver o filme, mas é sim uma aresta que poderia ter sido aparada). 

Von Trier não chega a explicar quem é Seligman, o homem que encontra Joe desacordada em meio à neve e a leva para casa. Apesar de seu nome, Seligman, significar "o feliz" em hebraico, ele esclarece (mais de uma vez, aliás) que não é judeu. Embora eu conheça pessoas de sobrenome Seligman em Porto Alegre, o personagem deixa claro que este é um prenome. Assim, como numa reunião de grupos de mútua ajuda como os Alcoólicos Anônimos, por exemplo, duas pessoas dividem uma conversa sobre adicção sem saberem seus respectivos sobrenomes. Pode-se deduzir que Seligman mora sozinho (afinal, chega com uma mulher desconhecida em casa, com quem conversa por dias a fio, sem interferência alguma) e cultiva hábitos no mínimo curiosos, como a audição de Bach ainda em gravador cassete (o que pode indicar que a ação "atual" não seria nos dias de hoje), curiosidades matemáticas como os números de Fibonacci, e a leitura de manuais de pesca (todos esses elementos acabam sendo relacionados, seja por Seligman, seja por Joe, à compulsão sexual dela). Embora Joe demonstra que quer o repúdio de seu ouvinte à sua vida desregrada, ele se nega a julgá-la, afirmando que ela pode ter contribuído com a felicidade de muitas daquelas pessoas. 

Já em O Lobo..., fica difícil entender a quem se dirige a narração (e  o porquê da suspensão dela em boa parte do filme) de Jordan e o que ele pretende com ela, pois, assim como Joe, Jordan não se poupa de revelar em minúcias tudo o que considera ter feito de mais abjeto, incluindo o arremesso de anões (!) ao alvo em pleno escritório de sua corretora de valores (eis aí uma sequência totalmente dispensável). Jordan não tenta disfarçar, por exemplo, que sua ascensão começa de fato quando sua primeira esposa, Teresa (Cristin Milioti), lhe sugere vender ações-tostões para ricos, o que ninguém fazia até então, e que após ficar milionário desenvolvendo esta idéia, ele simplesmente troca Teresa pela amante Naomi (a estonteante Margot Robbie) - e morar junto com Naomi, e depois se casarem, não era impecilho, a seu ver, para seguir freqüentando garotas de programa (o que não significa que ele tivesse rejeitado a nova esposa, ele apenas queria transar com ela e também com as garotas de programa!). 

Há também um certo jogo dos diretores com a história de seus protagonistas. Embora Joe queira o desprezo de Seligman por sua vida de excessos sexuais, Von Trier mostra sua compulsão de forma até simpática, em especial no Capítulo 5, onde o grande número de amantes é relacionado com as polifonias de Bach. Ao passo que, mesmo que Jordan não fique se condenando nos trechos em que há narração, Scorcese deixa muito claro que um caminho como o seguido pelo corretor não poderia levar a um bom lugar. Notável neste aspecto é a seqüência onde Jordan e seu sócio Donnie (Jonah Hill) ingerem um medicamento vencido há 15 anos (!) e sofrem delírios e paralisia parcial - com a patética cena de Jordan literalmente ir rastejando até seu carro e dirigir sabe-se lá como até em casa. Só esta seqüência diz mais contra o consumo de drogas do que inúmeras campanhas governamentais. 

Outro ponto em comum entre as duas obras é o final abrupto de seqüências importantes em cada uma. Em Ninfomaníaca, o Capítulo 3 ("Senhora H") mostra Joe começando a enfrentar problemas com o grande número de amantes que vinha mantendo. Esperando A para o jantar, ela decide terminar seu romance com H, blefando que, como ele não havia ainda deixado a esposa, tudo estava acabado entre eles. Ele vai embora e, qual não é a surpresa de Joe, retorna com a esposa (Uma Thurman, sensacional!) e os três filhos pequenos, oficializando assim sua separação! Embaraçada com a situação, Joe chega a dizer aos garotos: "Meninos, eu não amo o pai de vocês!", mas nada parece adiantar. O impasse piora com a chegada de A... embora esta seja disparada a melhor cena do filme, em especial pela participação de Uma, Von Trier passa para o Capítulo 4 sem dar um desfecho para o imbroglio Joe-H-A. 

A seqüência em aberto de O Lobo... é na parte em que Jordan e Donnie levam as esposas para a Itália de navio (eles não poderiam deixar os Estados Unidos de avião, pois o FBI já estava investigando aqueles ganhos enormes e continuados na bolsa), mas ao chegar lá Naomi descobre que sua tia Emma (Joanna Lumley) morreu em Londres. Detalhe: recentemente Jordan usara a tia da esposa como "laranja" para uma de suas contas na Suíça. Ele tinha que ir então, com urgência, para a Suíça resolver isto, embora não pudesse revelar para a esposa, que logicamente queria ir a Londres para o funeral - e não desembarcar em Mônaco e ir de carro até a Suíça.... Fosse como fosse, o capitão do navio informa que não havia como navegar no Mediterrâneo naquela noite, devido à previsão de fortes ondas. Jordan manda ignorar e seguir em frente, o que os leva a enfrentar uma terrível turbulência, da qual só escapam por serem socorridos por um navio italiano (dentro do qual aparecem comemorando terem se salvo e até dançando)... e em seguida corta para todo mundo já de volta a Nova York, sem comentário algum sobre como ficou a conta na Suíça!

Somando os prós e contras, vale sim muito a pena ver os dois filmes. Talvez Scorcese pudesse ter tentado ser um pouco mais conciso, já que 3h me parece de fato ser uma metragem exagerada. Ou seguido o exemplo de Von Trier, que fatiou seu Ninfomaníaca, com 5h30 de duração, em duas partes (que foi ainda mais retalhada pelos produtores, com a ciência do diretor, para tirar as seqüências mais "fortes", num filme que, no Brasil, não escaparia de modo algum da censura para 18 anos. Só ficou uma cena mais forte, um close em penetração, isso já no Capítulo 5. O restante me parece condizente com a história e a proposta). A segunda parte de Ninfomaníaca deve estrear nas telas brasileiras ainda neste semestre.


Ninfomania polifônica - Joe com F e Jerôme, 
e alguém tocando Bach

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