sexta-feira, 21 de março de 2014

Debates na Fortaleza São José de Macapá discutem memória e identidade cultural

Fotos: Angela Carvalho


O Museu Fortaleza São José de Macapá comemora nesta semana seus 232 anos de inauguração, realizando uma série de eventos, entre eles o ciclo de debates e palestras Memórias e Identidades Culturais. Acompanhei três destes momentos.


Ontem à tarde, o escritor e tradutor Nilson Moulin (em pé na foto acima) falou sobre Graciliano Ramos, falecido a 20 de março de 1953, ou seja, há exatos 61 anos. Mulan comentou a trajetória do "velho Graça" desde os tempos de infância, passando pelo cargo de prefeito de Palmeira dos Índios (AL), onde sua vocação literária foi descoberta - num caso único no Brasil, quiçá no mundo - por meio dos relatórios financeiros do município que ele redigia com raro brilho. Foi dedicada especial atenção ao período da prisão de Graciliano, por conta da Intentona Comunista de 1935, durante a ditadura de Getúlio Vargas (o chamado Estado Novo), traçando-se um paralelo com a ditadura militar iniciada em 1964. Mulan destacou ainda a preocupação de Graciliano com a educação - o mestre alagoano chegou a ocupar o cargo de inspetor de ensino, e desde os anos 1930 já demonstrava preocupação com questões educacionais que ainda hoje nossa sociedade não solucionou. O palestrante também traçou um comparativo entre as trajetórias de Graciliano e de seu contemporâneo italiano Cesare Pavese. Uma pena o público muito reduzido para o evento (cerca de 10 pessoas), mas enfim, quem foi aproveitou muito bem!




Hoje pela manhã, mais duas palestras. A primeira, com o escritor e sociólogo Fernando Canto (em pé, à direita, na foto acima), tratou do engenheiro italiano Henrique Galuccio, autor do projeto da Fortaleza, a quem o palestrante considera um verdadeiro gênio. Canto começando traçando um panorama da época em que Galuccio viveu em Macapá, a década de 1760: o rei português Dom José I, coroado em 1750, mas o governo de fato era exercido pelo Marquês de Pombal, que expulsou os jesuítas do Brasil. Um acontecimento marcante foi também o terremoto de Lisboa, em 1755. No Brasil, um destacamento português foi mandada para o atual Amapá para se encontrar com outro destacamento, esse espanhol, que saiu da região do Rio Negro (atual Estado do Amazonas) para demarcar os novos limites das terras sul-americanas que cabiam a cada reino pelo Tratado de Madri, o que não chegou a acontecer porque os dois destacamentos jamais se encontraram. 

A construção de um grande forte junto à foz do rio Amazonas visava garantir a segurança do extremo Norte da colônia, e como de hábito a missão coube a um estrangeiro (junto com Galuccio trabalharam na construção outros italianos, um inglês e um alemão). Canto apresentou evidências de que Galuccio já exercia a função desde 1762, e não 1764 como sempre se acreditou, por esta ser a data do lançamento da pedra fundamental da fortaleza pelo governador do Grão-Pará Ataíde Teive. Galuccio seguiu trabalhando na construção até morrer, em 1769, de malária. Mas, por sua vontade, teria saído antes; Canto relatou as inúmeras tentativas do italiano de sair da construção, nem que fosse para poder ver a família, que trouxera de Portugal para Belém. Mas nem isso lhe foi concedido. De todo modo, Canto acredita que se não houvesse morrido de causas naturais, Galuccio poderia ter tido o mesmo destino que o império chinês dava à época a seus engenheiros militares: eram decapitados ao final da construção, para que não pudessem revelar segredos militares a Estados inimigos. Aliás, Canto referiu que em 19 de março de 1782 não aconteceu de fato uma inauguração da Fortaleza, e sim o abandono das obras. 

Homem culto que citava Virgílio (poeta romano do século I, também nascido em Mantova, terra de Galuccio) em suas cartas - nas quais jamais mencionou Deus ou qualquer santo, observou Canto -, Galuccio esteve na mira do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como (Santa) Inquisição, que esteve em Belém de 1763 a 1769 para investigar casos de heresia. O engenheiro foi acusado de "estar poetando"; segundo Canto, nenhum poema seu chegou aos dias de hoje. Tudo indica que Galuccio tenha sido sepultado em Macapá, mas não há referências quanto ao local.  


Em seguida, Piedade Videira (ao centro da foto acima) falou de seu livro Batuque, Folias e Ladainhas. A palestrante começou recordando sua infância no bairro do Laguinho, onde desde cedo percebeu uma contradição: embora no seu dia-a-dia vivenciasse a sabedoria viva das benzedeiras, do marabaixo, do batuque, e diversas outras influências afros em nossa cultura, não via isso refletido nos currículos da escola, que não lhe trouxe nenhuma referência positiva aos negros. O que não a impediu de perceber que a educação seria a porta para buscar alcançar uma melhor qualificação, uma forma de ajudar sua família, de origem humilde (seu pai era trabalhador braçal, sua mãe lavadeira) e mais ainda um meio de começar a transformar esta situação. 

Em 2007, fazendo doutorado na Universidade Federal do Ceará, Piedade resolveu estudar a aplicação da Lei 10.639, que tornou obrigatório nas escolas brasileiras o estudo de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, promulgada quatro anos antes, chegando então à Escola Estadual José Bonifácio, situada na área quilombola do Curiaú, Zona Norte de Macapá. Esta instituição já trabalhava com os conteúdos definidos pela lei antes mesmo dela ser promulgada - em 2000, os professores iniciaram o projeto Canto de Casa, preocupados por perceber que os alunos, na maioria negros, sempre que iam se representar graficamente não pintavam os desenhos, como se sua pele fosse branca. A partir da criação da lei, o Canto de Casa evoluiu para o Eu Mostro a Minha Cara.

O sucesso do trabalho com conteúdos africanos e afro-brasileiros na José Bonifácio, com evidentes reflexos no rendimento escolar e na auto-estima dos alunos, porém, ainda está longe de ser regra nas escolas em geral. A professora Rosália, que atua na José Bonifácio e na Secretaria de Educação do Estado, relatou que em visita a uma escola particular de Macapá encontrou um aluno que desconhecia completamente a existência do marabaixo. Comentou também que só das escolas públicas se cobra a implantação do previsto na Lei 10.639, enquanto nas particulares o mesmo não ocorre, o que faz com que todas estas, hoje, desrespeitem a Lei, já que fora fixado um prazo de dez anos para que as escolas comecem a ministrar aos alunos os conteúdos relativos a História e Cultura Afro-brasileira e Africana. O prazo acabou em 2013. 

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