quarta-feira, 5 de março de 2014

Mistura e Manda: Depois do Carnaval

Cinzas

Vem do início do cristianismo a idéia de que cada cristão fizesse anualmente um período de jejum de 40 dias, a exemplo do vivido por Jesus no deserto, quando sofreu tentações do demônio. O período, conhecido como Quaresma, teve a Quarta-Feira de Cinzas como marco oficial a partir do século VII. "De cinzas" em função da bênção com as cinzas feita pelo padre na testa dos fiéis. (Saiba mais sobre a data na matéria da Agência Católica de Imprensa em www.acidigital.com/quaresma/cinzas.htm).

Do ponto de vista do Carnaval, porém, a Quarta-Feira de Cinzas sempre foi vista como um fim. Pode ser um fim inevitável, como em "Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira", samba-enredo de Martinho da Vila com o qual a Vila Isabel desfilou em 1984: "Sonho de reis, de pirata e jardineira/ Pra tudo se acabar/ Na quarta-feira/ Mas a quaresma lá/ No morro é colorida/ Com fantasias já usadas na avenida/ Que são cortinas/ Que são bandeiras/ Razões pra vida tão real da quarta-feira."

Esse caráter inevitável também aparece na marcha-rancho "Até Quarta-Feira" (H. Silva - Paulo Alves Sette), gravada por Marcos Moran em 1968, falando do acordo de um casal que, não tendo conseguido se divertir no carnaval anterior, combinava de sair em blocos diferentes: "Se acaso meu bloco/ Encontrar o seu/ Não tem problema/ Ninguém morreu./ São três dias de folia e brincadeira/ Você pra lá, eu pra cá/ Até quarta-feira."

Além de inevitável, a data aparece também como triste em "A Última Orquestra", sucesso de Dircinha Batista no carnaval de 1971: "Nosso amor tão lindo/ Teve seu final/ São as cinzas de um carnaval".

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Luto e renascimento

A palavra "cinza" remete também a luto. Era a partir desse significado que Luiz Carlos Paraná estruturou "Maria, Carnaval e Cinzas", que contava a história da menina "semente de samba e de amor" que morreu "quando a folia/ Na quarta-feira também morria/ E foi de cinzas seu enxoval/ Viveu apenas um carnaval". Roberto Carlos gravou o samba num compacto CBS em 1967.

Outro sentido para "cinza" é profunda tristeza. É assim que a palavra aparece em "Renascer das Cinzas". Martinho da Vila compôs o samba em 1974, para levantar o astral dos componentes da Vila Isabel. A escola ia desfilar com o samba-enredo "Tribo dos Carajás" (Martinho), mas a letra (que falava em um índio que não deixara escravizar) foi considerada subversiva pela censura. Pressionada, a diretoria da escola trocou o tema para uma exaltação à Transamazônica, levando à avenida "Aruanã Açu" (Rodolfo de Souza - Paulinho da Vila). Os componentes reagiram desfilando com indiferença e o resultado foi o último lugar na classificação. A Vila só não caiu para o grupo 2 porque o governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, determinou à Riotur que nenhuma escola desceria naquele ano. Para isso acontecer, foi decisivo o empenho de Martinho - que ainda conseguiu escrever a respeito algo tão belo como "Vamos renascer das cinzas/ Plantar de novo o arvoredo/ Bom calor nas mãos unidas/ Na cabeça um grande enredo/ Ala dos Compositores/ Mandando o samba no terreiro..."

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Ignorando a quarta-feira

Eventualmente, como em "Bloco da Solidão" (Evaldo Gouveia - Jair Amorim), o folião podia estar tão angustiado pela perda de um amor que, para ele, Carnaval e Quarta-Feira de Cinzas não tinham a menor diferença. A marcha-rancho foi gravada por Jair Rodrigues no LP Festa para um Rei Negro (Philips, 1970): "Lá vai meu bloco/ E lá vou eu também/ Mais uma vez sem ter ninguém/ No sábado e domingo/ Segunda e terça-feira/ E quarta-feira vem/ O ano inteiro é todo assim/ Por isso quando eu passar/ Batam palmas pra mim".

Mas essa não é a regra. Quando se fala em não terminar o carnaval na quarta, podia ser por... desatenção, como no samba "Às Três da Manhã" (Herivelto Martins), lançado por Aracy de Almeida em 1946. Laurindo levava a escola para a Praça Onze, sem se dar conta que o Carnaval acabara.

Já em "Ela Desatinou", que Chico Buarque compôs e gravou em 1968, o motivo era a desatenção - ou a alegria mesmo? "Ela desatinou/ Viu chegar quarta-feira/ Acabar brincadeira/ Bandeiras se desmanchando/ E ela inda está sambando// (...) Ela não vê que toda gente/ Já está sofrendo normalmente..."

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Cinzas de outros dias

Grande sucesso do carnaval de 1934 na interpretação de Mário Reis, o samba "Agora é Cinza" (Bide - Marçal) não se refere à Quarta-Feira de Cinzas. Os autores falavam da cinza que ficara depois que a chama do amor fora desfeita pelo sopro do passado. Mas é natural associar com a data os versos "Agora é cinza/ Tudo acabado e nada mais".

Outra música que fala na data, embora não tenha sido escrita para carnaval, é a "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. A letra desta marcha-rancho começa dizendo que "Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas foi o que restou." A tristeza do início progressivamente cede lugar a um crescendo de esperança que vai envolvendo/encantando o ouvinte. Que carnaval era esse que tinha acabado? Muitos autores apontam esta composição de 1963 como premonitória, ao antecipar o clima que o país viveria a partir do golpe militar do ano seguinte. A pensar assim, não é preciso muito para classificá-la como verdadeiramente profética, pois na última estrofe fica claro que o poeta, embora esperançoso, não imagina participar da volta da liberdade: "Quem me dera viver pra ver/ E brincar outros carnavais/ Com a beleza dos velhos carnavais/ Que marchas tão lindas/ E o povo cantando seu canto de paz". Vinicius morreu em 1980, cinco anos antes do fim do regime militar.

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Depois do Carnaval

No Brasil, as resoluções de Ano-Novo costumam ser, ao longo do verão, empurradas para depois do Carnaval. Seria a ocasião ideal, por exemplo, para o lançamento, "num disco voador", do "iê-iê-iê romântico" que Caetano Veloso dizia estar escrevendo em "Não Identificado" (1969).

Um samba de Beto Scala e São Beto, incluído por Jair Rodrigues em seu LP Dez Anos Depois (Philips, 1974), intitulava-se justamente "Depois do Carnaval" e trazia na primeira parte uma série de boas intenções do protagonista: "Depois do Carnaval eu vou criar juízo/ (...) Largar mão da viola, procurar batente/ Preciso urgentemente me regenerar." Boas intenções que não o impediram de, na segunda parte, bater na esposa e ainda dizer a ela que ela ia compreender que era "muito natural"!!!

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Enterro dos ossos

O período imediatamente posterior ao carnaval é chamado de "enterro dos ossos" - principalmente os bailes carnavalescos em clubes no primeiro fim-de-semana da Quaresma. Não lembro de ter ouvido a expressão associada ao desfile das campeãs no sábado. Afinal, que ossos seriam esses, e que relação tem seu enterro com o fim do carnaval?

"Enterro dos ossos" designa duas coisas diferentes. Uma delas é uma reunião festiva íntima, em que se aproveita sobras da festa da noite anterior, com muita dança, comida e bebida. É o que Alexandre Gonçalves Pinto chamava, no livro O Choro - Reminiscências dos Chorões Antigos (1936), de "dobrar o pagode" - ou seja, continuar a festa. Entre os chorões que não dispensavam o enterro dos ossos, Alexandre relaciona Policarpo Flauta, o cavaquinista João Capelani, o violonista Arthur Pequeno e o clarinetista João dos Santos, integrante da orquestra do rancho Ameno Resedá.

Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo (Ediouro, 1969) registra este significado e também o outro:

"Em Corumbá, Mato Grosso, o enterro dos ossos, até 1930, era um préstito carnavalesco, no primeiro domingo depois do carnaval, em que os clubes e cordões mais populares saíam, conduzindo cada qual o seu caixão mortuário. Os foliões, vestindo negro, com a caveira pintada, traziam conjuntos musicais, que executavam músicas fúnebres. Dentro dos caixões havia o farto recheio de galinhas, perus, churrasco, cabrito, aguardente de Tamandaré etc."

* Publicado originalmente no Mistura e Manda nº 88, 
de 14.2.2005

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