domingo, 23 de março de 2014

Poeta do Mês: Odara Rufino (4)

Minha mãe, a mulher de Lot


Anjos bateram em minha porta
e os homens das minhas cidades
queriam voar com eles.
Meu pai Lot, fez uma oferta
ofereceu minha virgindade
mas os homens queriam os anjos.

Tivemos que fugir para a montanha
tivemos que destruir nosso passado
como se destrói uma teia de aranha.

Íamos ser salvos
se não olhássemos para trás.
Meu pai não olhou,
eu e minha irmã não olhamos
mas minha mãe olhou
e olhou o fogo comer os homens
olhou seu jardim e a nossa casa,
sentiu vontade de voltar,
sentiu vontade de salvar as cidades
com um balde de água.

Minha mãe olhou para trás
porque esqueceu
seu vestido preferido,
seu batom predileto,
no guarda-roupa.
Olhou porque queria voltar
para lavar a louça.
Olhou para trás, porque lembrou
que eu esqueci o meu livro de poemas
na escrivaninha de mármore.
Olhou para trás por revolta
por não ter volta
por achar Deus um bárbaro.

Minha mãe olhou para trás
e virou estátua de sal.
Minhas cidades foram
destruídas por Deus
com fogo e enxofre,
com raios de sol.

Tivemos que carregar
a estátua de sal até a nova casa.
Minha mãe olhou para trás
mas não íamos deixá-la para trás.

Até hoje tenho saudade da minha mãe
tenho saudade da minha infância
em Sodoma e Gomorra
tenho saudade do Mar Salgado.
Tenho saudade de passar as manhãs
brincando na varanda, na gangorra,
na escada e no pecado.

Até hoje eu me jogo aos pés da estátua
até hoje eu sofro com essa quimera
até hoje penso que o feitiço se desfará
e que minha mãe voltará a ser doce como era.

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