quarta-feira, 30 de abril de 2014

Especial Dorival Caymmi 100 anos

 
Estátua de Dorival Caymmi 
na praia de Copacabana 
(Rio de Janeiro)
(Fotos: Fabio Gomes)

O dia em que Baden "entregou" Caymmi 

Dorival Caymmi sempre cantou a praia, logo deve gostar dela, certo? Talvez não. Quando esteve em Porto Alegre para sua última apresentação, em 15 de junho de 1999, no Theatro São Pedro, o violonista e compositor Baden Powell (1937-2000) "entregou" o baiano, antes de tocar "A Lenda do Abaeté":

- O Caymmi é um compositor que dedicou todas as músicas dele - quase todas, né? Quase todas - ao mar. (canta) "O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito" e tal, né? E por aí tem... (canta) "É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar..." Eu perguntei: "Caymmi, que história é essa de agora ' É doce morrer no mar?' Como é esse negócio de morrer afogado 'doce'? Essa história você vai contar pra outro, Caymmi!". Não é que ele diz assim: "Não, Baden, isso foi um amigo meu, que no meu tempo ele falava assim, disse que era doce morrer no mar e eu coloquei na música. Mas se você souber... eu nunca fui no mar!" (risos da platéia) E é verdade. O Caymmi nunca foi à praia. Bem, ele já tirou fotografias pra capa de disco (risos), essa coisa, mas o Caymmi não freqüenta praia não, ele não gosta. Ele mora em Minas Gerais, no rio das Ostras, não tem nada a ver com mar, é serra e tal. É, casa de ferreiro, espeto de pau. Ele ficou como homem do mar, parece até que ele pesca, jangada... Que nada, ele não faz nada disso. (gargalhadas gerais)

(Mistura e Manda nº 2, 16/6/2003)

***


Praça Caymmi, em Salvador


O Churrasco do Caymmi 

Nos anos 80, o maestro Radamés Gnattali gravava um disco e convidou o compositor Dorival Caymmi para participar. O baiano chegou no estúdio com o violão, que logo largou num canto. Os dois em seguida combinaram como iniciariam “Marina”, mas Radamés ainda quis verificar alguns acordes ao piano. Enquanto aguardava, Dorival cofiou os cabelos brancos e anunciou:

- Em janeiro a gente vai fazer um churrasco.

- Ah, é? – respondeu Radamés, interessado, ao que Caymmi acrescentou:

- Eu tenho preparativos para altas misérias!

- Aonde?

- Ah, no mundo!

(Mistura e Manda nº 8, 28/7/2003)

***

Busto na Praça Caymmi, em Salvador

O que é que as baianas têm?

Em 1836, o chefe de polícia de Salvador, desembargador Antônio Simões da Silva, solicitou ao administrador do Real Teatro de São João, tenente-coronel Inácio Accioli de Cerqueira e Silva, que cancelasse as apresentações da atriz Joana Januária de Sousa Bittencourt, que dançava lundu nos intervalos das peças. O motivo: a dança do lundu era considerada indecente e imprópria para a assistência em família, devido às contorsões que fazia Joana Bittencourt - aliás, mais conhecida do público da época como Joana (ou JoaninhaCastiga, em função do sucesso que alcançava ao interpretar a cançoneta "Castiga, Meu Bem, Castiga", que começava com os versos "Se quiser casar comigo,/ Há de ter segredo em tudo" e, como refrão, "Castiga, castiga, seu preto aqui está!".

A música não era nova: Joana já a cantava com seu marido apelidado Ciri (sicGordo na Casa da Comédia, em Recife, em 1824; nesse caso a interrupção das apresentações se deu por outro motivo: a tentativa de independência de províncias do Nordeste, que queriam criar a Confederação do Equador.

Enfim, Simões da Silva não aceitou os argumentos de Cerqueira e Silva e castigou Joana com a proibição. Aí aconteceu o esperado: os espectadores abandonaram o teatro; antes que ficasse definitivamente no vermelho, o empresário resolveu suspender a temporada. Em outubro de 1836, tendo assumido a chefia de polícia Francisco Gonçalves Martins, Cerqueira consultou-o sobre a possibilidade de apresentar lundus, pois assim o solicitavam diversos grupos amadores que procuravam a casa. Martins manteve o veto às danças "imorais".

Em 1837, Cerqueira insistiu, propondo um acordo: considerando que as famílias compareciam em peso aos dramas, os lundus seriam cantados então apenas nos intervalos das farsas. Martins consultou o presidente da província, que apoiou a decisão de seu subordinado: as danças deveriam ser impedidas de qualquer maneira, porque as executantes excediam sempre o estabelecido. Disse Martins que não sabia o que é que as atrizes baianas tinham, que não se continham dentro dos limites por ele fixados. A questão se resolveu por si: em novembro, começou na Bahia a Sabinada e nem lundus, nem dramas, nem farsas puderam ser apresentados no São João por muito tempo.

É curioso notar que a expressão que o chefe de polícia usou antecipou em um século o tema do samba de Dorival Caymmi "O que é que a Baiana Tem?" (1938). E certamente Dorival ao compor não pensou em polícia: conforme entrevista sua à revista Vamos Ler! de 30 de dezembro de 1943, a idéia do samba ocorreu ao encontrar, entre coisas guardadas em casa, uma antiga gravura representando baianas com o vestido, os balangandãs e todos os enfeites autênticos: "Querendo divulgar como eram minhas patrícias do passado, criei o samba".

E Joana, como ficou? A proibição não parece tê-la abalado. Sempre incluída no rol dos maiores artistas da Bahia, ela teve uma carreira relativamente longa: na década de 1850, trabalhou na companhia de Germano Francisco de Oliveira, no Teatro São Luís, no Maranhão, onde esteve novamente em 1863, já como contratada da Companhia Furtado Coelho, ao lado de grandes atores como Eugênia Câmara e o também baiano Xisto Bahia.


Avenida em Itapuã, Salvador





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