terça-feira, 22 de abril de 2014

Mistura e Manda: Descobrimento do Brasil

Nesta data, há 514 anos aconteceu o fato que estudamos na escola como Descobrimento do Brasil (se foi ou não acidental, se já havia contatos anteriores dos europeus com nosso país, é outra discussão...).

Sobre esse tema, existe uma monumental série de quatro suítes de Heitor Villa-Lobos (foto) para o filme O Descobrimento do Brasil (Humberto Mauro, 1937). A série tem o mesmo nome do filme e recebeu magistral gravação da Orquestra Nacional da Radiodifusão Francesa, sob regência do próprio Villa, em 1956, lançado pela EMI em 1957.

No carnaval, o descobrimento é citado em "Vultos e Efemérides" (Simeão - Jorge Porqueiro/ Portela, 1958): "Em 22 de abril de 1500/ Nosso gigante vi cair/ Por diante com amor edificou/ Essa grande pátria varonil/ E Portugal ao mundo revelou/ Brasil ô meu Brasil...", e mereceu também dois sambas próprios: "O Descobrimento do Brasil" (Geraldo Babão/Salgueiro, 1962) e "Treze Naus" (Portela, 1969), ambos atribuindo a chegada de Cabral à calmaria, como se estudava então (e por muito tempo) na escola. 

Ainda no carnaval, mas em outro gênero - a marcha -, Cândido das Neves apresentou em 1934 "A Maior Descoberta", gravada por Almirante e Castro Barbosa: "Depois da descoberta do Brasil/ A maior descoberta que se fez/ Foi... foi... foi a mulata/ A mulata que venceu mais uma vez!". Curiosamente, aqui, o autor evitou o uso da expressão consagrada - "descobrimento" -, que por sinal é considerada gramaticalmente incorreta por muitos autores, que recomendam o termo "descoberta".

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Foi seu Cabral

A rigor, Pedro Álvares Cabral tem pouco a ver com a terra da qual tomou posse em nome do rei de Portugal em 1500. Passou só alguns dias aqui, a maioria a bordo, e não participou de outras expedições para cá - aliás, de mais nenhuma, após chegar a Lisboa em 1501 retornando da Índia. O rei Dom Manuel ofereceu-lhe o comando de outra viagem, mas ele recusou e caiu em desgraça na corte.

Nada disso, porém, parece importar para os brasileiros, pois ao longo dos anos o culto e as homenagens ao fidalgo português só têm similar ao de grandes heróis nacionais. Para citar só um exemplo, existem 3 ruas em Porto Alegre com seu nome: rua Cabral, rua Álvares Cabral e rua Pedro Álvares Cabral - sem contar a praça Cabrália!

Na marcha carnavalesca, então, os poderes atribuídos ao almirante são ilimitados. Ele não só foi "quem inventou o Brasil/(...) No dia 21 de abril/ Dois meses depois do carnaval!" ("História do Brasil", de Lamartine Babo, lançado por Almirante em 1934 - atenção: a menção de Lalá é mesmo ao dia 21, e não 22, para acentuar o caráter nonsense da letra). Mais que isso, o descobridor é exaltado por João de Barro pela diversidade de tipos femininos que temos no país hoje: "Quando seu Cabral aqui chegou,/ Só botocudas ele encontrou/ Hoje, há qualquer tipo de mulher/ Viva o Cabral! Tá de colher!" ("Viva o Cabral", gravado por Moreira da Silva em 1953).

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O valioso Cabral

Quando, no começo dos anos 1960, o Tesouro Nacional resolveu colocar a efígie de Pedro Álvares Cabral na nova nota de mil cruzeiros, certamente não imaginou que repercussões isso teria na canção de carnaval. Duas marchas, com nome quase idêntico e lançadas na mesma época, abordavam o valor do navegante.

Uma delas foi "Retrato do Cabral" (Monsueto Menezes - Raul Marques), sucesso de Monsueto no carnaval de 1963: "Se não tem papel/ Pintado com o retrato/ Do Cabral/ O nosso amor acaba mal.// De janeiro a janeiro/ É uma briga sem igual/ A razão da nossa briga/ É o retrato do Cabral."

A outra, "Retrato de Cabral" (Rubem Gerardi - J. Piedade - José Brogogério), com Emilinha Borba, sobre um personagem que todo ano comprava um Cadillac: "Ai, ele é o tal!/ Abre a carteira, é só retrato de Cabral!".

(Mistura e Manda nº 45, 19/4/2004)

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