segunda-feira, 21 de abril de 2014

Mistura e Manda: Tiradentes

Exaltação a Tiradentes

Hoje, dia 21, completam-se 222 anos do enforcamento do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o Mártir da Independência. O culto à memória do herói iniciou depois de 1889, pois durante o Império não convinha ao regime lembrar alguém que quisera um país livre... com regime republicano. Já para a nascente República era ótimo apresentar-se como coroamento da idéia dos inconfidentes mineiros de 1789 e não mais uma quartelada qualquer - sem contar que, como quem mandara matar Tiradentes foi o governo de Portugal, não se constrangia ninguém dentro do país. Por tudo isso, já em 1890 o dia 21 de abril foi decretado feriado nacional, junto com 15 de novembro.

Painel "Tiradentes", de Cândido Portinari (1949)

De acordo com levantamento feito pela psicóloga francesa Monique Augras em seu livro O Brasil do Samba-Enredo (FGV, 1998), Tiradentes foi o vulto nacional mais citado em sambas-enredo no período em que as escolas de samba eram obrigadas a abordar temas da História nacional (1948-75). 

Mas foi só uma vez que o herói teve uma homenagem exclusiva: foi no bicampeonato do Império Serrano, em 1949, com o antológico "Exaltação a Tiradentes" (Mano Décio da Viola - Penteado - Estanislau Silva): "Joaquim José da Silva Xavier/ Morreu a 21 de abril/ Pela independência do Brasil/ Foi traído e não traiu jamais/ A inconfidência de Minas Gerais". 

Mano Décio tinha especial apreço pelo alferes, pois já no ano anterior apresentara, junto com Silas de Oliveira, nada menos que 3 sambas sobre ele. A escola preferiu apostar no tema "Antônio Castro Alves" (Altamiro Maio - Comprido). Mas 49 foi o ano de "Exaltação a Tiradentes", apresentado por Mano Décio e Penteado num ensaio que arrebatou a escola. Estanislau entrou na parceria porque, tendo ouvido o samba, foi a Madureira pedir autorização para divulgá-lo no asfalto. Desta forma, foi o primeiro samba-enredo que sobreviveu ao desfile, sendo gravado por Roberto Silva apenas como "Tiradentes" e voltando a fazer sucesso no carnaval de 1955.

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Tiradentes em outros sambas

Tiradentes figura também em diversos enredos que buscam enumerar uma série de fatos históricos, como "Seis Datas Magnas" (Althair Prego - Candeia/Portela, 1953): "Foi Tiradentes o Inconfidente/ e foi condenado à morte/ 30 anos depois o Brasil tornou-se independente/ Era o ideal de se formar um país livre e forte"; "Três Épocas do Brasil" (Vila Isabel, 1966): "Por um ato de heroísmo/ Foi sacrificado o nobre Tiradentes"; "Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão - Do Morro Cara de Cão à Praça Onze" (Waldir 59 - Candeia/Portela, 1965): "Não devemos esquecer o mártir Inconfidente/ O heróico Tiradentes". 

Em alguns sambas, sua presença na letra se justificava por ser um enredo voltado para lutas libertárias, como "Movimentos Revolucionários e a Independência do Brasil" (ala dos compositores do Império Serrano, 1961): "Tiradentes sonhou com a nossa libertação/ Morreu defendendo o direito da nossa nação"; e "História da Liberdade no Brasil" (Aurinho da Ilha/Salgueiro, 1967): "Tiradentes, Tiradentes/ O herói inconfidente, inconfidente/ Domingos José Martins/ Abraçaram o mesmo ideal". Mas o alferes podia ser citado apenas a pretexto de simples menção a seu Estado natal, como em "O Vale do São Francisco" (Cartola - Carlos Cachaça/Mangueira, 1948): "...a terra do ouro/ berço de Tiradentes/ Que é Minas Gerais."

Ainda na linha dos sambas enumerativos, talvez o mais curioso seja "Vultos e Efemérides" (Simeão - Jorge Porqueiro), com o qual a Portela foi bicampeã em 1958: "Em 22 de abril de 1500/ Nosso gigante vi cair/ Por diante com amor edificou/ Essa grande pátria varonil/ E Portugal ao mundo revelou/ Brasil ô meu Brasil/ Tiradentes o mártir inconfidente/ O pioneiro do Brasil independente/ Da Inconfidência Mineira/ Pela página brasileira..."

Tão significativa presença no imaginário carnavalesco tornava Joaquim José presença obrigatória no "Samba do Crioulo Doido" (Stanislaw Ponte Preta, 1967), sátira ao gênero: "Chica da Silva/(...) obrigou a princesa (Leopoldina)/ A se casar com Tiradentes// La la la la la/ O bode que deu vou te contar// Joaquim José/ Que também é da Silva Xavier/ Queria ser dono do mundo/ E se elegeu Pedro II..."

(Mistura e Manda nº 45, 19/4/2004)

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