terça-feira, 22 de abril de 2014

Opinião: Exposição Portinari: Trabalho e Jogo peca na qualidade das reproduções exibidas

Estive há pouco na abertura da exposição Portinari: Trabalho e Jogo, que reúne 25 reproduções de obras do artista em técnicas variadas, e fica aberta até 30 de maio no Shopping Amapá Garden (Macapá). Os quadros ocupam um trecho de corredor do shopping, nas proximidades na Livraria Nobel. Há um espaço interativo, onde aos finais de semana visitantes (em especial o público infantil) podem criar suas próprias releituras da obra do mestre paulista.

Um ponto positivo da mostra é o recorte incomum na produção de Cândido Portinari, do qual comumente se apresenta apenas a produção pictórica, em especial em óleo e têmpera - os famosos quadros Café, Guerra, Paz, Mestiço, o painel Tiradentes, a série Retirantes... Nenhum deles está na presente exposição. Privilegiou-se a produção de Portinari feita para livros (ilustrações para uma edição especial de Menino de Engenho, de José Lins do Rego) ou neles inspirada (há vários desenhos da série Dom Quixote, baseada no clássico do espanhol Miguel de Cervantes) e bem como gravuras, águas-fortes, entre outras técnicas geralmente pouco associadas ao nome de Portinari, que para o grande público foi "só" um pintor.

Mas, se tem isso de positivo, há que se fazer algumas ressalvas à mostra atualmente em cartaz. Há falhas, - pequenas, é verdade - na identificação das obras. Mostram-se, por exemplo, duas versões de "O namoro do menino de engenho", obra feita para o citado livro de José Lins, sem se especificar que uma foi a publicada no livro, e a outra descartada pelo próprio Portinari. Também penso que não faz sentido que uma exposição de um Portinari tenha um cartaz feito com modelo de programa de computador (imagem acima).

Porém a grande falha da mostra é na qualidade das reproduções exibidas. Se a qualidade das gravuras e águas-fortes é aceitável, por se tratar de obras originalmente produzidas em preto-e-branco, no caso das obras coloridas (como uma tela de "Baianas" retirantes dos anos 40,  a única sem identificação) isso se torna um grande problema, que se transforma num grave problema em relação à já citada série Dom Quixote. Trata-se de uma série de desenhos produzidos pelo artista em 1956, quando, tendo sido diagnosticado o começo de seu envenenamento pelas tintas que usava (e que acabou por por matá-lo em 1962, aos 58 anos), Portinari passou a usar preferentemente o lápis de cor. A reprodução em cartaz esmaeceu e chapou todas as nuances de cores dos originais. E não se pense que o problema é inerente à opção por réplicas. Vi na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, talvez ainda nos anos 1990, uma exposição da série Dom Quixote completa, acompanhada por poemas de Carlos Drummond de Andrade também sobre a obra de Cervantes,  toda de reproduções, nas quais era possível ver a mesma gama de cores que saíram do lápis de Portinari havia então mais de 40 anos. Por que não se buscou a mesma qualidade de reprodução na atual mostra?

Desta feita, a mostra se faz recomendável apenas a quem não tenha maior contato com a obra do mestre de Brodósqui, ou conheça apenas as tais telas mais famosas (Café, Guerra, Paz etc.). A partir daí, creio que, tendo o interesse despertado, o público possa procurar aprofundar seu conhecimento da obra do artista em livros ou na internet - e, esperamos, em futuras exposições com réplicas melhores ou mesmo com os originais (como aconteceu este ano mesmo em Belém).

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