segunda-feira, 7 de abril de 2014

Post nº 900: Segunda parte de Ninfomaníaca fica abaixo da qualidade da primeira

A primeira parte de Ninfomaníaca estreou com um certo atraso em Belém, compensado com a permanência da fita por quase um mês em cartaz na cidade. Já a segunda parte, se chegou a Belém apenas uma semana depois da estréia nacional, não durou mais que sete dias em cartaz - de 20 a 27 de março. Quando estive na capital paraense no dia 28, já não havia como apreciar o filme em tela grande. Assim, acabei recorrendo a uma amiga que me conseguiu uma cópia das duas partes em CD-R (que alguém passou a ela dizendo que era a versão não-censurada, porém é a mesma que esteve nos cinemas brasileiros). Não costumo comentar aqui filme que não vi em cinema, a não ser que ele não tenha sido exibido comercialmente, mas neste caso creio que cabe abrir uma exceção à regra. 

Isto posto, devo dizer que, se a segunda parte do filme do dinamarquês Lars von Trier está longe de ser uma má obra, o certo é que ela não repete a qualidade da primeira parte. Boa parte da simpatia que o assim chamado Volume 1 desperta repousa no frescor da interpretação da atriz Stacy Martin, que faz a protagonista Joe quando jovem. Já o Volume 2, ao seguir um caminho mais cronológico, com poucos flashbacks, acaba nos privando da presença de Stacy já aos 20 minutos de projeção (fora um breve flashback quase ao final, repetindo cena do começo da própria segunda parte). Felizmente tempo suficiente para que Stacy protagonize uma das cenas mais hilariantes da série - a que Joe e Jerôme (Shia LaBeouf) estão num restaurante e ele aposta cinco libras para cada colher que ela consiga inserir na vagina (o que me fez lembrar a cena de Invasão de Privacidade onde Sharon Stone, também em um restaurante, tira sua calcinha durante o jantar e a entrega a William Baldwin). 

Após os 20 minutos, a ação dá um salto no tempo, Stacy é substituída em cena por Charlotte Gainsbourg, a quem até então só víamos narrando a história para o solitário Seligman, vivido por Stellan Skarsgård.  Uma novidade nesta nova parte é que agora Joe confronta Seligman - em especial seu hábito de relacionar tudo o que ela conta a obscuros problemas matemáticos ou a artefatos em desuso, algo que ela aceitava sem pestanejar no Volume 1. Ao questionar porque Seligman não se excita com suas narrativas picantes, Joe acaba arrancando dele a confissão de ser um virgem, nunca tendo estado com uma mulher. "Nem com um homem", ele logo se apressa em acrescentar. Isso faz com que durante quase todo o restante da história Seligman fique mais na defensiva, julgando menos o que Joe conta.

E o que Joe conta é bem mais pesado que as dificuldades em administrar os numerosos amantes, o que tanto a atormentava na primeira parte. Sem conseguir sentir prazer desde o final do filme anterior, a personagem, agora já morando junto com seu amado Jerôme e com o filho que tiveram, Marcel, é autorizada pelo marido a ter outros parceiros sexuais -  o que, evidentemente, em pouco tempo acaba precipitando o fim da relação, com o marido abandonando-a e levando junto o filho, que ela jamais voltou a ver. Por ocasião do fim do casamento, porém, não era com amantes que Jerôme deveria se preocupar, e sim com as idas de Joe numa espécie de consultório onde K. (Jamie Bell) é procurado por mulheres que buscam serem... espancadas! Sim! Ao menos para Joe, o sado-masoquismo acaba sendo a única fonte para que ela volte a sentir prazer (foto abaixo). 


Charlotte Gainsbourg como a Joe adulta


Mas, num corte abrupto como os que caracterizavam a primeira parte, de repente somem as sessões sado-masô e Joe está num consultório de fato, onde uma médica a encaminha a um serviço semelhante aos Alcoólicos Anônimos, naturalmente neste caso voltado para viciadas em sexo. Ela chega a ficar 26 dias sem transar, mas acaba rompendo com o novo tratamento e aí, na guinada mais sem lógica da série, passa a se dedicar a extorquir devedores, tendo L (Willem Dafoe) como mentor. Mesmo que o diretor consiga fazer a ação evoluir daí para se chegar à cena que abre o filme anterior - onde Joe, com sinais visíveis de espancamento, é encontrada num beco por Seligman -, esta virada parece pouco verossímil. 

A falta de um nexo causal entre as sequências (fora, naturalmente, a lógica maior da busca de Joe pelo prazer no sexo, que norteia o filme inteiro) pesou bastante para que eu considere esta segunda parte inferior à primeira. Não há também no elenco escalado para a segunda parte ninguém cuja presença na tela equivalha à aparição de Uma Thurman como a Senhora H do Volume 1. No balanço geral, considero que Ninfomaníaca é uma obra inquietante, que faz pensar, sim (afinal, como bem observa Seligman, se Joe fosse homem será que alguém consideraria seu vício por sexo... um vício?), e que tem bons momentos, a maior parte dos quais concentrados em seu Volume 1

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