quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Espetacular Homem-Aranha 2: sobram efeitos, falta roteiro



Dizer que "sobram efeitos e falta roteiro" em O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro não deixa de ser uma frase de efeito (com o perdão da redundância), mas também é uma verdade. O diretor da nova série do herói aracnídeo, Marc Webb (cujo sobrenome, curiosamente, tem apenas um 'b' a mais o diferenciando da palavra inglesa para teia), pelo visto, derrapou na mesma dificuldade que seu antecessor, Sam Reimi, diretor da trilogia em que Tobey Maguire vivia o Aranha: não conseguiu tornar fluida uma história com três vilões (quando Reimi incorreu nesse erro, em Homem-Aranha 3, de 2007, acabou levando ao fim da série). Os vilões da vez são Electro (que acabou no subtítulo do filme), Duende Verde e Rhino. Para sorte do Aranha (e nossa), cada um enfrenta separadamente o herói, mas nem assim a história flui satisfatoriamente na tela na metragem um pouco exagerada de 2h21.




 Aranha vs Electro

O primeiro vilão acaba sendo o mais crível do filme, com origem e motivo para odiar o Homem-Aranha mais justificados, e também o agraciado com as melhores sequências de efeitos especiais - as duas batalhas Aranha x Electro são de fato de tirar o fôlego. Mesmo lidando com um vilão que está longe de ser um dos maiores arquiinimigos do Aranha nos quadrinhos, Webb e o roteirista James Vanderbilt souberam tornar interessante a história do obscuro funcionário da Oscorp Max Dillon (Jamie Foxx), que simplesmente teria projetado toda a rede elétrica da cidade de Nova York (ok, é um filme, né?), mas mesmo assim dentro da empresa era tratado como um zé-ninguém, até que, mandado fazer um conserto na rede elétrica após o expediente, cai num tanque com enguias (ou seja, cobras elétricas) e tem seu corpo transformado numa espécie de sugador de energia elétrica, passando a ter a pele (ou algo equivalente) azul e a se chamar Electro. Quando ainda era apenas Max, o Aranha o salvou de ser esmagado por um carro, o que fez com que Max passasse a idolatrar o herói. Já na nova identidade, Max é encontrado pelo Aranha em Times Square, cercado pela polícia. Enquanto o Cabeça de Teia negociava a rendição de Electro, um policial atira neste, fazendo com que Max passe a odiar o Aranha (que no seu entender estava mancomunado com a polícia). 

O segundo vilão, o Duende Verde, é apenas o maior rival de todos os tempos do Aranha nos quadrinhos e já esteve em dois filmes da série anterior. Aqui, ocupa um papel pra lá de secundário, e ainda com uma importante alteração em relação às HQs: neste filme, é Harry Osborn (Dane DeHaan) quem se torna o Duende, e não seu pai Norman (Chris Cooper). Norman, apenas citado no primeiro filme desta nova série, aparece numa breve cena com Harry, onde o informa da doença que é a maldição da família (a hiperplasia retroviral) e em seguida morre, vitimado por ela. Harry, com apenas 20 anos, assume o comando da megacorporação Oscorp, mas enfrenta a resistência dos diretores nomeados pelo pai, todos bem mais velhos, que acabam por afastá-lo do cargo, a pretexto de ter acobertado o acidente com Max, acontecido dentro da empresa. Aliando-se a Electro, Harry consegue coagir seu principal opositor no conselho da empresa a injetar nele, Harry, um veneno de aranha geneticamente modificada (resultado das experiências de Richard Parker, pai de Peter, o alter-ego do Homem-Aranha). Aí se dá uma grande falha no roteiro: o laboratório explode e o diretor escapa, enquanto o veneno da aranha reage com o sangue já alterado de Harry, transformando-o no Duende - simultaneamente a isso, uma porta secreta se abre na parede, revelando um traje de Duende Verde, com planador pronto para sair decolando (deduz-se que isso havia sido preparado por Norman, mas como ele poderia ter certeza que seria o filho a encontrar esse arsenal? E quanto tempo aquilo ficou ali parado?). Mas do momento em que Harry se transforma até que ele saia atrás do Aranha (do qual queria se vingar pois o herói se recusara a ceder seu próprio sangue para Harry,  que acreditava que isto o curaria; a recusa do Aranha foi por temer que Harry morresse ou sofresse um sério dano - o que, de algum modo, acabou acontecendo) passa-se muito tempo, sem que se explique onde estava e o que Harry como Duende esteve fazendo esse tempo todo. Ele só alcança o Aranha após o final da segunda luta deste com Electro. E aí, novo momento sem explicação no roteiro: ao se aproximar do Aranha perto de uma unidade da Oscorp Power, vê o herói conversando com Gwen Stacy (que ele, Harry, sabia ser a namorada, ou melhor, um rolo de Peter Parker) e apenas baseado nisso, conclui que Parker é o Aranha!! Uau! 

O resto é história: o Duende captura Gwen, o Aranha o enfrenta, e isso causa a morte de Gwen. Dali em diante, o Duende some (até porque Parker, ante a morte da amada, resolve aposentar o Aranha, decisão que dura cinco meses) e, numa das poucas cenas onde Harry ainda aparece, comenta que "a doença vem e vai", não ficando muito claro se, quando está melhor, continua a ser o Duende ou mesmo se lembra da identidade do Aranha (nos quadrinhos, Norman Osborn alternava lucidez e loucura, e só recordava que Parker era o aracnídeo quando a insanidade o dominava). 

Outra coisa que fica "no ar" é se Electro morre ou não após a grande batalha com o Aranha (a segunda, nas proximidades da Oscorp Power). Parece que sim, mas também parece que é a Electro/ Max que Harry comenta do vai-e-vem da doença, quando consegue a evasão de um presidiário russo (que o Aranha enfrentara no começo do filme, numa eletrizante sequência onde há um engavetamento de mais de uma dezena de carros da polícia de Nova York). O russo ganha uma armadura e adota o nome de Rhino; sua ação aterrorizando a população leva Parker a se decidir pela volta do Aranha. O filme acaba em meio ao confronto dos dois, quando o Aranha prende uma tampa de bueiro em sua teia (qual fosse o escudo do Capitão América) e se prepara para atacar o oponente - e ai começam a subir os créditos! 

Tirando as batalhas contra Electro, o melhor do filme acaba sendo mesmo a química entre Peter e Gwen (mais uma vez vivida com brilho e graça por Emma Stone, a melhor namorada de Homem-Aranha de todos os tempos). A foto abaixo é da cena em que, tendo eles terminado o namoro (pela enésima vez porque Peter achava que ele ser o Aranha poderia colocar a vida dela em risco - o que acabou por se confirmar, como já mencionamos), Gwen propõe que sejam amigos, e aí ambos passam a enumerar "regras sérias" para que isso desse certo, como por exemplo ele jamais dizer que ela estava incrível, ou ela dar uma coçadinha no nariz....Ao final da cena, Gwen revela que pode ir estudar na Inglaterra, e mais adiante, pouco antes da batalha final contra Electro, Peter diz que está disposto a ir para lá com a amada (afinal, "lá também há crimes, e ainda nem pegaram Jack o Estripador"...).


Peter e Gwen

Emma Stone fará falta na terceira parte da série (sim, um novo filme já está anunciado para 2016). Espera-se que a nova obra esclareça esses pontos que ficaram sem resposta nesta segunda sequência:

- Harry continua a ser o Duende? Ele lembra a identidade do Aranha?

- Electro morreu ou não? Se não morreu, com quem Harry arquiteta a transformação do ex-presidiário em Rhino?

- A Felícia que é secretária de Harry na Oscorp é ou não Felícia Hardy, a Gata Negra, originalmente inimiga e posteriormente parceira do Aranha? (A escalação da atriz Felicity Jones para o papel indica para mim que não, já que a Felícia Hardy dos quadrinhos é loira, aliás nos anos 80 com o cabelo branco mesmo nas HQ publicadas pela Abril).

Outra pergunta deve ficar sem resposta: tudo bem, pelas anotações que encontrou na Oscorp, Harry descobriu que Richard Parker, quando trabalhava na empresa, fez experiências com aranhas (aliás, a Oscorp parece mais um zoológico, no filme anterior o dr. Curt Connors fazia teste com lagartos, e neste vimos as enguias que acabaram transformando Max em Electro...). Mas como ele soube ou deduziu que o Homem-Aranha surgiu a partir da mordida de uma dessas aranhas modificadas por Richard?????

Fora isso, espero que Vanderbilt e Webb tenham resolvido sua obsessão pela história dos pais de Peter, praticamente inexistentes nos quadrinhos, mas que de algum modo "dão o tom" dessa nova série de filmes do herói. Este segundo filme abre com um prólogo desconectado do resto da história que mostra Richard (Campbel Scott) e sua esposa Mary (Embeth Davidtz) sendo sequestrados num avião, que acaba por ser destruído em luta do casal com um dos sequestradores (donde se deduz que todos morreram). Aliás, como na história Peter tem hoje 20 anos (a mesma idade de Harry), e seu pai sumiu quando ele ainda era criança, esta cena deve ter se passado por volta de 2000, então me impressiona que Richard tivesse um notebook (!) pelo qual acessava a internet a bordo de uma aeronave (!!!) - mesmo nos Estados Unidos, isso só passou a ser possível muito recentemente (mais um furo do roteiro, Vanderbilt!). Ao longo da fita, Richard aparece novamente em dois vídeos que gravou especialmente para o filho - um deles Peter descobre numa antiga estação desativada de metrô, a Roosevelt, de cuja existência ele passa a saber após decifrar uma intrincada charada deixada pelo pai em suas anotações. Na antiga estação, Peter acaba por trazer à superfície um vagão de metrô aparentemente dos anos 1940 - mas com luz funcionando, e computador a bordo reluzindo de novo para exibir um vídeo onde Richard diz que Peter é a melhor coisa de sua vida. Claro que isso é um grande motivador para a vida de Peter, mas da forma como aparece soa tão forçado quanto Harry encontrar o "kit Duende Verde" no laboratório da Oscorp....

Enfim, a nova série do Aranha tem bons momentos, mas nenhum dos filmes ainda conseguiu superar o que considero a melhor aventura do aracnídeo nas telonas - o Homem-Aranha 2, de 2004, cujo vilão é o Dr. Octopus (Alfred Molina). 

13 comentários:

  1. '''e ainda com uma importante alteração em relação às HQs: neste filme, é Harry Osborn (Dane DeHaan) quem se torna o Duende,'' cara, vc se enganou isso não é alteração alguma nos quadrinhos o Harry se torna o Duende verde.... ja vacilou

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    1. Caro anônimo, o Harry até pode eventualmente ter assumido a identidade do Duende em algumas HQs, mas historicamente o Duende arqui-inimigo do Aranha era Norman Osborn, pai do Harry, isso é notoriamente sabido.

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  2. '' E aí, novo momento sem explicação no roteiro: ao se aproximar do Aranha perto de uma unidade da Oscorp Power, vê o herói conversando com Gwen Stacy (que ele, Harry, sabia ser a namorada, ou melhor, um rolo de Peter Parker) e apenas baseado nisso, conclui que Parker é o Aranha!! Uau! '' cara tu é ruim pra caralho numa analise do filmes, o harry sabia da extrema proximidade do peter com o aranha, ao ponto de pedir a peter que consiga uma gota de sangue do aranha, e depois disso ver o aranha conversando com a gwen e deduzir que o aranha é o peter é totalmene plausivel considerando a esperteza do harry em sacar as coisas aff

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    1. Caro Anônimo, sustento a minha posição: há uma forçação do roteiro neste ponto de 'vejo Aranha com Gwen - sei que Gwen é rolo do Peter - logo, Peter é o Aranha'.

      Era mais fácil ele ter deduzido isso na própria visita que o Aranha lhe fez para negar a gota de sangue (pela altura do Aranha, a própria voz, mesmo que abafada pela máscara...)

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  3. A armadura do duende verde não aparece do nada, ao descobrir que aquele "cubo" dado por Norman Osborn continha vários projetos, Harry abre uma janela no "computador" e vê o traje, ouvindo suas especificações. Ao saber a função do traje, ao se transformar no duende verde, ele rapidamente recorre a ele, o qual "cura", seus danos e o prepara para a batalha contra o homem aranha. E o elecro explode no fim da segunda luta. O homem misterioso que aparece conversando com Harry após a luta que acarreta a morte de Gwen, é chamado de " Mr. Fears" pelo "Jarvis" da Oscorp. Juntos, combinam o que provavelmente pode ser a formação do sexteto sinistro.

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  4. E Max Dillon não projetou a rede da cidade toda, e sim a rede da Oscorp que tem como função abastecer a cidade toda. São duas coisas bem diferentes.

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    1. Sim, são duas coisas bem diferentes. De todo modo, o que eu lembro de ouvir o Max falar foi que projetou a rede da cidade toda.

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  5. Acredito que quem provavelmente visitou Harry na prisão foi Wilson Fisk, o "Rei do Crime".

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    1. pode ser, mas de todo modo isso não fica muito claro

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  6. Obrigado pela aula anônimo... Da próxima vez convida ele para te ajudar Fábio.

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  7. E só para constar o pai é o Duende verde e o filho assume ser o Duende Macabro, pelo menos nos quadrinhos

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  8. Tanto no cinema quanto nos quadrinhos, Harry Osborn nunca foi o Duende Macabro. Foi sim, nos quadrinhos e na série anterior do Aranha no cinema, o segundo Duende Verde.

    A Wikipedia lista oito Duendes Macabros e Harry Osborn não está entre eles - https://pt.wikipedia.org/wiki/Duende_Macabro

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