sexta-feira, 2 de maio de 2014

Opinião: Excesso de referências polui Copa de Elite


Em plena Copa do Mundo de 2014, o camisa 10 da Argentina é seqüestrado às vésperas da semifinal; encontrado, ele joga a partida e sua seleção vai para a final, motivando o papa a vir ao Brasil assistir a decisão - sem saber que há um plano para assassinar o sumo pontífice em pleno estádio! 

Essa é uma das tramas do filme Copa de Elite, comédia dirigida por Vítor Brandt que estreou em 17 de abril nos cinemas brasileiros. Até onde consegui descobrir, se trata da estréia do diretor, que já prepara nova comédia, Vida de Estagiário, baseado nos quadrinhos de Allan Sieber. Eu chego a pensar o que um diretor como o inglês Alfred Hitchcock faria com a trama mencionada (que, isolada assim, até lembra o momento do concerto em O Homem que Sabia Demais); isso de fato eu só posso imaginar. Agora, o que Brandt fez eu já sei: uma grande mistura de referências que acaba por tornar o roteiro (do próprio Brandt, em parceria com Pedro Aguilera) de Copa de Elite truncado e torna cansativa a experiência de assisti-lo. Há até citações completamente dispensáveis para o avançar da trama, como por exemplo, quando na penitenciária um policial se infiltra entre os presos, um destes chama um outro de Johnny e este retruca - Meu Nome Não é Johnny, apenas para fazer uma alusão (ou seria uma piada??) ao filme de Mauro Lima.

O infiltrado é o protagonista do filme, Jorge Capitão (Marcos Veras, do grupo Porta dos Fundos, em seu primeiro papel de destaque no cinema). Foi Jorge quem resgatou o craque argentino, o que fez com que houvesse uma comoção popular que levou à expulsão do então oficial do BOP (o "antigo" BOPE, que, devido à corrupção de diversos agentes, teria  perdido a condição de Especial, e consequentemente a letra E da sigla) - afinal, ao menos para efeitos de comédia, o Brasil é inimigo da Argentina e ponto final. Expulso da corporação, Jorge recebe a visita do repórter Bruno de Lucca (vivido pelo próprio), que vai lhe contar o plano que descobriu visando o assassinato do papa - porém Bruno não consegue revelar quem estaria por trás do plano, pois um palhaço louco invade a casa e mata o repórter. Uma pista que Bruno deixa leva Jorge ao sex shop de Bia Alpinistinha (vivida por outra humorista do "Porta", Júlia Rabello). O nome da personagem é uma natural referência ao filme Bruna Surfistinha, e a ambientação em sex shop remete à série De Pernas pro Ar. Junto a ex-colegas seus que seguem no BOP, Jorge, com o auxílio de Bia, se infiltra primeiro na cadeia e mais adiante no Maracanã para evitar o atentado ao papa.

Pode-se dizer que Copa de Elite tem um argumento muito interessante (as tramas de atentado ao papa e o drama da expulsão de Jorge do BOP, esta naturalmente remetendo à série Tropa de Elite), que não foi plenamente desenvolvido no roteiro, que sofre com tantas referências a recentes filmes nacionais de grande sucesso de bilheteria, o que acaba soando bastante forçado. Basta pensar na localização da origem do conflito de Jorge com o vilão da trama (o palhaço louco que matou Bruno de Lucca e quer acabar com o papa) na convivência de ambos na infância, no interior de um estado brasileiro não citado que pode ser Goiás (já que esta seqüência de flash-back satiriza Dois Filhos de Francisco, Jorge e o vilão seriam a dupla sertaneja infantil Capitão e Pitãozinho). O roteiro não fornece pista alguma de como um ex-cantor mirim goiano veio a se tornar oficial de uma tropa de elite no Rio de Janeiro, o que deixa essa seqüência apenas como uma piada pela piada.

(Parêntese: as paródias não são de forma alguma uma novidade no cinema nacional. Basta pensar em dois clássicos de Carlos Manga, ambos protagonizados por Oscarito nos anos 1950 - Matar ou Correr e Nem Sansão nem Dalila -, ou mesmo em boa parte da filmografia do grupo Os Trapalhões. Também não chega ser novidade que a paródia tenha por alvo filmes nacionais - isso já foi registrado em momentos anteriores de grande sucesso popular, como em releituras de O Cangaceiro, dirigido em 1953 por Lima Barreto, estreladas por Mazzaropi e, ainda que tardiamente, pelos Trapalhões, já nos anos 80. O que me parece novo em Copa de Elite é a profusão, quase compulsão, de satirizar todos os filmes possíveis que foram sucesso recente no nosso cinema, quer essa citação se sustente dentro da trama, quer não. Infelizmente, Brandt e Aguilera pecaram pelo excesso, o que enfraquece o potencial que o filme teria, se expurgados esses excessos).

Cabe ainda falar da música-tema do filme, um arranjo "rapcore" (à la Tihuana) de um dos maiores sucessos de 2013, "Show das Poderosas", da funkeira Anitta, que aliás participa do filme interpretando uma versátil repórter, que cobre para sua emissora de TV qualquer assunto - seqüestro, rebelião em presídio, final de Copa... Se isto soa meio irreal, ao menos Anitta tem o consolo de saber que a nova versão de seu hit caiu como uma luva para Copa de Elite, sendo mesmo um de seus pontos altos.


A cantora Anitta, antes da recente operação plástica,
encarna uma repórter que cobre tudo - 
de pautas policiais a esportes


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