segunda-feira, 12 de maio de 2014

Opinião: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tem sabor de obra-prima



Enfim assisti neste domingo o aguardado longa de Daniel Ribeiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Numa iniciativa ousada e rara no cinema brasileiro, o diretor baseou seu filme não em uma obra literária, teatral ou mesmo fatos reais, e sim em um outro filme seu - o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, de 2010. Creio ter visto este curta em 2012, numa mostra, e ao terminar de vê-lo já sabia que era um dos melhores filmes que eu tinha visto em minha vida até então. O formato curto a meu ver casou à perfeição com a delicadeza na abordagem do assunto central - a descoberta da (homos)sexualidade de um adolescente cego -, e tão logo eu soube que Ribeiro se dispunha a recontar a própria história, agora num formato maior, temi pela manutenção do clima obtido no curta.

Felizmente meus receios se mostraram infundados, e constatei que Ribeiro atingiu plenamente seu objetivo. Ele teria ficado satisfeito ao ver em pleno domingo de Dia das Mães uma sala lotada de um cinema comercial de Macapá aplaudindo cenas de seu longa, e ouvido uma espectadora que a cada cena mais forte ou mais emocionante se arrepiava e só repetia: Ai meu Deus, ai meu Deus! Sabemos que pela configuração do mercado cinematográfico no Brasil, por mais genial que seja um curta-metragem, ele só conseguirá ser exibido em festivais e mostras de cinema e horários especiais de TVs públicas. Justifica-se assim plenamente que Ribeiro tenha envidado seus esforços para contar para um público mais amplo, num longa, a mesma história do curta.




Em linhas gerais, a história é muito simples. Léo (Ghilherme Lobo) é um adolescente cego que vive da casa para escola e vice-versa, e cada passo seu é monitorado pelos pais, com a ajuda de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim). Com a chegada na escola de um novo aluno, Gabriel (Fabio Audi), Léo descobre em si o despertar de novos sentimentos que desconhecia até então. Giovana se sente deixada de lado (embora ela jamais diga algo, fica evidente que nutria uma esperança romântica em relação a Léo), enquanto Gabriel também passa por um processo semelhante ao de Léo. Em paralelo, a vontade de Léo de fazer intercâmbio no exterior (para fugir ao controle da família), e a vida dos adolescentes em festinhas e acampamentos escolares. 


Giovana  e Gabriel


Um dos grandes méritos do filme é fazer no Brasil uma obra ambientada no universo juvenil que não tem o mínimo resquício da interminável "novela teen" Malhação, armadilha da qual não escapou o recente Confissões de Adolescente. Naturalmente, Léo sofre bullying na escola em função da cegueira, mas em vez de armar tramas diabólicas para se vingar de algozes como o colega Fábio, reage dando uma banana para o preconceito em diversas ocasiões - até porque, além de cego, no decorrer da obra o protagonista se descobre homossexual, gerando aí nova onda de bullying.  Ah sim: pela ousada leveza com que os atores desempenham seus papéis, o clímax supera em muito as recentes investidas globais em temas semelhantes (como o famoso beijo gay de Amor à Vida). 

Outro acerto é que o mesmo trio de atores que protagonizou o curta foi mantido nos mesmos papéis no longa. Mas não pense que Ghilherme, Fábio e Tess tiveram "vida mansa" em função disso, já que mesmo as passagens da história do curta mantidas no longa passaram por uma série de variações - a brincadeira do "sobe" que abre o curta, por exemplo, não existe no longa, e nas duas obras a forma de apresentação de Gabriel à turma é bem diversa. Uma diferença crucial é na cena que Léo, começando a se apaixonar por Gabriel, cheira o moleton que o colega deixa em seu quarto - no curta, Gabriel via Léo fazer isso, ao passo que no longa, não (afinal, há mais tempo para desenvolver a história), o que levava Gabriel (no curta) a depois disso esquecer o moleton de propósito. 

Veja na sequência o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, e mais acima no post o trailer do longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, e não deixe de ver o filme nos cinemas. Recomendadíssimo! 




2 comentários:

  1. Fiquei com vontade de assistir. Achei uma proposta com tema atual, interessante e que muitas vezes é mal abordado.

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    1. Vale a pena assistir, tanto a versão curta quanto a longa são muito boas!

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