terça-feira, 17 de junho de 2014

Especial Chico Buarque 70 Anos (1): Bigode, censura e ditadura

Nessa quinta-feira, 19 de junho, o artista brasileiro Chico Buarque completa 70 anos. Para homenageá-lo, irei republicar aqui no Jornalismo Cultural essa semana os textos que escrevi a respeito de sua vida e obra, com direito a um que outro detalhe que eu até mencionei em palestras mas que segue inédito em letra-de-forma. Enfim, vamos  logo trocando em miúdos que a banda vai passar, e eis o malandro na praça outra vez. 

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O Bigode do Chico

Esta eu fiquei devendo ao participar da homenagem a Chico Buarque promovida pelo Litterata Espaço Cultural Livraria e Café (Porto Alegre, 1/4/03). Anunciei que falaria sobre o bigode que o compositor cultivou na década de 1970, mas isto acabou não ocorrendo. Então, saldando a dívida:


Chico aparece com bigode na capa de seis LPs (Construção, 1971; Caetano e Chico Juntos e ao Vivo, 1972; Chico Canta, 1973; Sinal Fechado, 1974; Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo, 1975; e Meus Caros Amigos, 1976). Foi uma época de intensa luta de Chico contra a Censura que os ditadores de plantão impunham à sociedade brasileira. Mesmo recorrendo a alguns artifícios - como adotar o pseudônimo Julinho da Adelaide em alguns sambas, ou entregar para a Censura a relação das músicas a serem cantadas nos espetáculos com alterações nos títulos (o que garantiu, raras vezes, a apresentação de "Cálice", rebatizada como "Pai") -, ficou difícil para Chico segurar a barra e ele chegou a passar nove anos sem fazer show (depois desse com Bethânia, só voltou aos palcos em 1984).

Tá, e o bigode? Pois é. Acredito que Chico o usou nesse período de repressão como uma alusão à Censura. O bigode representaria uma tarja sobre sua boca, uma tentativa de silenciá-lo. Basta ver que, no disco de 1978 (intitulado apenas Chico Buarque), em que ele pôde gravar até "Apesar de Você", ele já está sem bigode - para sempre.

Uma das últimas aparições de Chico com o bigode,
em 1978, no especial Os Fados Tropicais de Chico
Buarque, gravado para a RTP (Portugal)



(Mistura e Manda nº 1, 9.6.2003)

(Making-off: Minha primeira palestra fora de um ambiente escolar e sem estar atrelada a algum lançamento de livro meu foi a abertura de um show com várias bandas tocando clássicos e sucessos de Chico. Aí você pode me perguntar: "Palestra abrindo show?? Isso acontecia em Porto Alegre nessa época??", e eu responderei: "Não, era algo absolutamente incomum, mas felizmente pra mim aconteceu três vezes, e em duas delas o tema era Chico" (na outra, falei de Pixinguinha). Não sei de mais nenhum jornalista que tenha sido convidado para fazer algo semelhante na cidade nesse período. Esta nota no primeiro Mistura e Manda foi respondida por um leitor, conforme publicamos abaixo.)

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Ainda o bigode do Chico 

Eu já havia pensado nessa questão do Chico de bigode como representativo de um período, e sou fã dessas associações e teorias, tenham elas fundamento ou não (nesse caso, tem). Falta à imprensa essa visão sob outros prismas (a exemplo do antigo Canal 100, que mostrava mais a torcida que o jogo, e o fazia muito bem), inclusive esses do inusitado e do visual que estão aí à nossa frente sem que nos demos conta.

Nessa semana lembrei da tese do Fabio sobre o Chico de bigode, pois como tenho ido muito a sebos de LPs, descobri duas coisas: está muito barato adquirir LPs do Chico em bom estado, quase todos da fase 1973-1984. Segundo: 90% das coletâneas do Chico mostram ele de bigode. Realmente, acho que o bigode do Chico é uma espécie de "aval de qualidade", e deve ter atraído tanto os ouvintes quanto os famosos olhos cor de ardósia...
(Marcello Campos)
(Mistura e Manda nº 7, 21.7.2003)

(Making-off: Marcello Campos é jornalista, de Porto Alegre, sendo eventual colaborador do site Brasileirinho. É autor de um livro sobre o grupo Norberto Bauldauf e seu Conjunto)


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Golpe de 1964: 40 anos

Na semana que passou, o golpe militar de 1964 completou 40 anos. O pior desta data é constatar que mais da metade dessas quatro décadas - 21 anos, para ser mais exato - foram sob ditadura. Os militares tomaram o poder num momento de afirmação cultural nacionalista, que acontecia espontaneamente até ali e passou então a ser usada como forma de resistência política. Até a decretação do AI-5, em 1968, a repressão não era tão feroz e ainda era possível pensar e dizer o que se estava pensando. Depois disso, era melhor nem tentar pensar, sob pena de prisão, exílio, tortura ou morte (ou "desaparecimento").

Me causa espanto toda vez que ouço alguém começar a falar que, nos anos 60, a música brasileira era mais criativa, relacionar isso com a existência da ditadura e concluir deixando no ar (ou mesmo afirmando, felizmente em tom de brincadeira) que seria bom que tivéssemos nova ditadura para melhorar a qualidade da música atual. Por favor! Em primeiro lugar, continuamos tendo música de excelente qualidade - agora, se ela não consegue chegar às rádios e TVs comerciais é outra discussão -; segundo, a ditadura não tornou ninguém mais criativo nem estimulou coisa nenhuma.

Chico BuarquePara deixar isso bem claro, basta ver a cronologia de composições de Chico Buarque ano a ano, que Humberto Werneck apresenta ao final do livro Chico Buarque - Letra e Música (Cia. das Letras, 1989): depois de manter uma média de 12 músicas novas por ano entre 1965 e 1972 (e outro tanto entre 1972 e 1973 para sua peça Calabar, escrita com Ruy Guerra), Chico fez só três músicas em 1973: "Joana Francesa", para o filme de mesmo nome de Carlos Diegues, "Cálice" (com Gilberto Gil), que foi censurada, e "Valsa Rancho" (com Francis Hime). É que Chico estava muito visado pela Censura desde que um cochilo do censor de plantão deixara passar "Apesar de Você" em 1970.

Quando da peça Calabar, ambientada no período da ocupação holandesa, mas passando bem a atmosfera de um tempo de repressão, os censores estavam bem alertas, sacaram a metáfora e proibiram a peça a poucas horas da estréia, em 1973. Para conseguir reaver parte do dinheiro perdido na produção, Chico lançou as músicas (ou o que sobrou delas após as tesouradas dos censores) num LP que se chamaria Chico Canta Calabar, mas, como até o título da peça fora proibido, o disco foi lançado com o nome meio estranho de Chico Canta (como se até ali ele nunca houvesse cantado). Ficava evidente que a assinatura "Chico Buarque" já era motivo para proibição; foi então que nasceu o pseudônimo Julinho da Adelaide, "autor" de uma das músicas do LP Sinal Fechado, em que Chico interpretava apenas canções de outros compositores. Em pouco tempo, a jogada foi descoberta e Chico teve que partir para um pouco comentado auto-exílio na Itália, entre o final de 1974 e o início de 1975. Ao voltar, após se apresentar no Canecão ao lado de Maria Bethânia, decidiu parar de fazer shows, situação que perdurou por nove anos. Em suma: um profissional estava sendo estimulado pelo governo da época a preferir não trabalhar. Como ele, tantos outros.


Capa original do LP Chico Canta Calabar, vetada pela Censura


Mais tarde, sobre a pouca produção do período, Chico declarou que muitas vezes iniciava um samba, mas conforme ia escrevendo a letra percebia que ele seria vetado e abandonava a idéia. Era o que eles queriam: em vez de dar trabalho às autoridades, o próprio compositor já praticava a autocensura.

(Mistura e Manda nº 43, 5.4.2004)

(OBS 2014: Em verdade, Calabar não chegou a ser formalmente proibida, como Ruy Guerra explica nos tópicos a seguir. )

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O letrista Ruy Guerra

O cineasta Ruy Guerra foi o homenageado da 2ª edição do festival CineEsquemaNovo (Porto Alegre - 13 a 18 de julho). Sua agenda na capital gaúcha esteve lotada por oficinas, sessões especiais e debates, como o ocorrido no sábado, 17, no Santander Cultural após a curiosa projeção de Os Fuzis (1963). Curiosa porque a versão apresentada, montada a pedido do produtor Jarbas Barbosa para deixar o filme mais "comercial", foi vetada por Ruy ainda quando do lançamento. No acordo que fizeram na época, diretor e produtor acertaram que essa cópia não seria mostrada fora do país; posteriormente, Ruy empenhou-se em só deixar a sua versão circulando, mas pelo jeito esta escapou... Ficou o compromisso de Ruy trazer a Porto Alegre o verdadeiro Os Fuzis, para se realizar nova sessão comentada.

Durante o debate, Ruy falou de seus principais filmes, como Os Cafajestes (1962), Os Deuses e os Mortos (1970) e A Queda (1976). A propósito deste, uma co-direção de Ruy com Nelson Xavier, o crítico Marcus Mello disse enxergar no roteiro referências à obra de Chico Buarque - a ambientação da história num prédio em obras remeteria à música "Construção", e mesmo a trilha de Milton Nascimento reforçaria, para Marcus, essa impressão. Ruy mostrou-se surpreso, pois essa associação nunca tinha lhe ocorrido.

Ainda a propósito de Chico, um espectador quis saber como foi para Ruy a experiência de escrever com ele a peça Calabar, o Elogio da Traição. Ruy contou que, sem condições de filmar no Brasil após a proibição de Os Fuzis, trabalhou um período como letrista, compondo com Edu Lobo (ele poderia citar ainda Marcos Valle, Sérgio Ricardo e Francis Hime). Para escrever com Edu, ia seguido a São Paulo, onde conheceu Chico, "ainda antes de ele ser famoso". Nascia aí a amizade, que só foi se tornar parceria em 1972, quando Chico o convidou para fazerem em conjunto as versões das letras para o musical O Homem de la Mancha (a mais conhecida das quais era "Sonho Impossível", de J. Darion e M. Leigh).



(Mistura e Manda nº 58, 19.7.2004)

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Ruy Guerra fala de Calabar

Terminadas as versões para ...la Mancha, os parceiros Chico Buarque e Ruy Guerra sem outra perspectiva pela frente, resolveram fazer eles próprios o seu musical, surgindo daí Calabar. Ruy conta que Marieta Severo, casada à época com Chico, não acreditava que eles estavam escrevendo um musical, pois passavam o dia em grande farra no apartamento de Chico, conversando alto, cantando, um escrevendo uma parte da letra, passando pro outro... (Realmente, o autor de "Folhetim" costuma trabalhar bem mais recolhido!). Nas músicas da peça, as melodias são de Chico (Ruy não é músico) e as letras são divididas.

Peça pronta, partiu-se para a produção, que alugou o Teatro João Caetano (Rio de Janeiro) para a temporada. Mas faltava o carimbo da Censura. Os censores faltaram a todos os ensaios que foram marcados especialmente para que a peça fosse censurada (no caso, liberada, com ou sem cortes, ou proibida). Novos ensaios eram marcados, mas depois de algum tempo ficou insustentável manter o teatro alugado e arcar com as despesas da produção sem saber se a peça poderia ou não ser feita. Cancelou-se a peça. Para minimizar o prejuízo, os autores buscaram outras mídias: as músicas foram gravadas no disco Chico Canta (a palavra Calabar, que complementava o título, foi proibida); a capa de Regina Vater para o disco (o nome "Calabar" pichado num muro) foi vetada; o disco não era tocado nas rádios; mas a peça saiu em livro numa boa (ao menos 7 edições pela Civilização Brasileira até 1975, COM a capa de Regina que não podia estar no LP! - veja abaixo).



Foi feito ainda um show com temporada de dois meses, Tempo e Contratempo, em que na primeira parte o MPB-4 cantava sucessos de Chico e, na segunda parte, o próprio apresentava o repertório de Calabar: "Ana de Amsterdam", "Bárbara", "Tatuagem", "Fado Tropical"... Algumas músicas, que podiam ser gravadas em disco, não estavam liberadas para ser cantadas em show (vá entender os critérios dos censores!) - mas tudo correu bem, pois bastava Chico dar alguns acordes no violão e o próprio público cantava a música inteira. Por sinal, as quatro cadeiras reservadas para a Censura durante a temporada inteira nunca foram ocupadas...

A peça jamais foi montada no Brasil. Ruy contou que volta e meia alguém quer fazer, mas a coisa não avança. Ele sabe, porém, de uma montagem em Viena (Áustria), por um grupo de brasileiros.


(Mistura e Manda nº 58, 19.7.2004)


(OBS 2014: Depois dessa palestra de Ruy Guerra, a peça foi finalmente montada no Brasil, por um grupo carioca com a participação do cantor Ruy Faria, ex-MPB-4.)

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Sanatório Geral

Foi um grande sucesso a homenagem aos 60 anos de Chico Buarque ocorrida na sexta, 9, no Cia. de Arte Café (Porto Alegre), com apoio do Jornal Vaia e do Brasileirinho. O evento foi batizado como Sanatório Geral, aludindo à escola de samba cujo desfile Chico e Francis Hime descrevem em "Vai Passar".

Falei na abertura, abordando alguns aspectos da obra de Chico e contei passagens pouco conhecidas de sua vida, como seu primeiro encontro com Elis Regina. Na seqüência, vários grupos se apresentaram, interpretando pérolas da obra buarquiana. O Macambira (formado por integrantes da Camerata Brasileira) atacou de "Feijoada Completa". Os dois bandolinistas do grupo tiveram seu momento solo: Rafael Ferrari tocou "Gente Humilde" (Garoto - Vinicius de Moraes - Chico), enfrentando alguns percalços em relação ao som, e Luís Barcellos apresentou uma versão irreconhecível de "O Que Será (À Flor da Terra)". Muito aplaudidas também as atuações da cantora Luciana Pauli (da banda Anahata), que foi acompanhada João Mayer ao violão, e da atriz Daniela de Aquino, que esteve soberba no trecho que apresentou da peça Gota d'Água, de Chico e Paulo Pontes. Outra atriz, Rosaura Costa, leu dramaticamente as letras de "Cálice" (Gilberto Gil - Chico) e "Milagre Brasileiro" (esta, assinada por Chico como Julinho da Adelaide).

Também tocaram Sil, Zé da Terreira, Coca Barbosa e Siboney, Otávio Santos e Carolina, Edu Saffi, Márcio Sobrosa, Rogério Lauda, Leonel Schardong, Mozart Dutra, Giovani Mesquita e Maria Carmen, entre outros. Ao final, o DJ Fred colocou todo mundo pra chacoalhar o esqueleto com uma seleção de Chico, Alcione, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Tim Maia, Jair Rodrigues, Elza Soares, Jorge Ben e outros grandes benfeitores da Humanidade.


(Mistura e Manda nº 57, 12.7.2004)

(OBS: Leia sobre o primeiro encontro de Chico com Elis Regina no Especial 32 anos sem Elis Regina)

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Bom público em palestra sobre Chico Buarque

A palestra sobre os 60 anos de Chico Buarque que realizei no Teatro Philips da Manlec Mega Store (Porto Alegre), na quinta, 30, registrou um dos maiores públicos da série dos Mega Eventos Manlec de que tenho participado. Um público, é bom que se diga, predominantemente jovem e bastante interessado em conhecer mais a respeito do compositor.

Como sempre faço, procurei, ao lado dos aspectos mais conhecidos de sua vida e obra (Censura, a série de músicas com sujeito feminino, o festival d'"A Banda"...), falar de coisas que não são muito comentadas, como a maior inclinação para a literatura do que para a música que Chico manifestava da adolescência até os primeiros shows de bossa nova no Teatro Paramount, em São Paulo, em 1964. Inclinação que, dando frutos aqui e ali (Fazenda Modelo, Chapeuzinho Amarelo) retornou com força nos anos 90 (Estorvo, Benjamim, Budapeste) e contribui para o intervalo cada vez maior entre um disco e outro.

Em função de minha já anunciada participação no projeto Tea+R, não estarei participando dos Mega Eventos Manlec em outubro. E em novembro? Amanhã, ninguém sabe, como diria o Chico.



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