quinta-feira, 19 de junho de 2014

Especial Chico Buarque 70 Anos (4): Homenagem ao Malandro

Por Ramona Gemaque

A banda tocava músicas do cotidiano. Chico entrou. Sentou em minha mesa e pediu um cálice, mas dessa vez sem vinho tinto. Chico começou a falar da vida, contou-me seu amor por Carolina e Beatriz e disse que verá Yolanda quando o carnaval chegar. 

Chico estava triste, acabara de voltar do funeral de um lavrador. Perguntei a ele se temia a morte, e Chico respondeu:  malandro quando morre vira samba, o samba agoniza mas não morre. Chico falou-me sobre a roda-viva da vida, e disse que ela destrói qualquer construção que não tenha sido feita com açúcar e com afeto. 

A conversa de botequim adentrava a noite, então pedi á Chico que cantasse o samba para Vinicius que acabara de compor: o samba do grande amor. Chico lembrou-se da mocidade, dos seus amigos João e Maria, nascidos antes do tempo da maldade. Chico lembrou da tatuagem que fizera junto com seu amigo Jorge Maravilha no dia primeiro de maio de um ano qualquer. Lembrou da morena de Angola que subia o morro para ver de perto o zepelim. 

Chico lembrou da bela Geni, a puta que todos jogavam pedras. Chico tirou do bolso um folhetim e um retrato em preto e branco de uma biscate com cabelos cor de abóbora que o deixou no abandono. Jamais seremos futuros amantes, dizia ele. Viva de samba, viver de amor é o desafio do malandro. Naquela noite Chico me contou sobre todas as coisas do mundo, acendi meu último cigarro e como um samba do adeus engoli meu choro bandido, disse até segunda-feira, meu caro amigo.



Fabio Gomes e Ramona Gemaque
(foto: Prsni Nascimento)

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