quinta-feira, 19 de junho de 2014

Especial Chico Buarque 70 Anos (5): Trechos

Além dos textos que venho republicando aqui, nos quais Chico Buarque é o personagem principal, tenho mais dois onde há um trecho considerável dedicado ao autor de "Feijoada Completa". Fechando o post, um trecho do vídeo De Minas a Noel, onde, em entrevista a Ana Cristina Rodrigues, Chico fala da influência que recebeu de Noel Rosa. O vídeo foi publicado pela primeira vez na internet por mim, em 2008. 

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Noites Tropicais

Um bar do Rio de Janeiro, freqüentado por artistas, jornalistas e gente de TV, resolveu, nos anos 70, homenagear seus clientes mais assíduos. Colocou fotos de todos em suas paredes. Lado a lado, ficaram dois então desafetos: o compositor Chico Buarque e o coordenador da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Chico estava banido da Globo desde que retirou sua música do Festival Internacional da Canção de 1971. Seu nome não podia ser citado, ele simplesmente não existia. Chico, ao ver Boni a seu lado na parede, correu a retirar a foto do “inimigo”. Boni fez o mesmo com a foto de Chico, em outro momento. O dono do bar, preocupado com a celeuma causada por sua nova decoração, pediu aos dois para fazerem as pazes. Foi prontamente atendido. Boni recolocou o retrato de Chico na parede, mas o autor de “Carolina” não podia retribuir: além de tirar a foto da parede, Chico a levara para a praia em frente e pisoteou o quadro, quebrando-o. Resultado: Chico continuou na lista negra da Globo por muito tempo. Esta é uma das histórias saborosas que recheiam o livro Noites Tropicais - Solos, Improvisos e Memórias Musicais, de Nelson Motta (Editora Objetiva, 2000, 453 páginas). 

(Abertura do texto em que resenho o livro de Nelson Motta, que escrevi como trabalho da faculdade de Jornalismo da UFRGS em 2000. Publicado no site Brasileirinho em 2003). 

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Em 1995, participei do concurso Histórias de Trabalho, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, com dois textos, um contando minha experiência como produtor do radiojornal "A Voz dos Distritos" (o programa deu origem ao meu terceiro livro publicado, também intitulado A Voz dos Distritos, lançado em 1992). O outro era uma ampla abordagem da presença do trabalho como tema de letra na música popular brasileira, desde os anos 20. Ambos concorriam em categorias diferentes, o que era permitido pelo edital. Mas infelizmente, o responsável pela inscrição inverteu as categorias dos dois textos, e isso me desclassificou em ambas (ao menos foi o que me informaram). Devidamente atualizado e ampliado até 1996, o texto sobre o trabalho na música brasileira foi publicado em 2003 no site Brasileirinho. Dois anos depois, apresentei um resumo na sessão de comunicação do GT História e Trabalho.do  2º Colóquio Internacional Cátedra Unesco-Unisinos/ 5º Encontro de Estudos sobre o Mundo do Trabalho, realizado na Unisinos, em São Leopoldo (RS). A comunicação foi publicada no mesmo ano no livro Políticas Públicas e Trabalho: Dimensões Éticas, Socioeconômicas e Culturais - 2º Colóquio Internacional Cátedra Unesco-Unisinos/ 5º Encontro de Estudos sobre o Mundo do Trabalho: Caderno de Resumos (Unisinos, 2005). 

Em todas as versões (exceto a do livro, mais resumida), há um capítulo dedicado a Chico Buarque, que reproduzo abaixo (clique aqui para ler o texto original completo):

"O Trabalho na Música Popular Brasileira 

2 - O TRABALHO NA MÚSICA BRASILEIRA RECENTE (1958-1996)

2.2 - Chico Buarque

Chico Buarque apareceu na década de 60 fazendo um samba tradicional, trazendo de volta o morro e seus temas de malandragem, trabalho, carnaval e problemas com a polícia. Já no seu primeiro sucesso, em 1965, estava o operário esperando a condução: “Pedro Pedreiro”.

“Pedro pedreiro penseiro esperando o trem/(...) Esperando, esperando, esperando/ Esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando o aumento/ Desde o ano passado/ Para o mês que vem.”

“Com Açúcar, Com Afeto”, feita a pedido de Nara Leão em 1966, retoma a preocupação feminina com o homem que não trabalha:

“Você diz que é operário/ Vai em busca do salário/ Pra poder me sustentar/ Qual o quê/ No caminho da oficina/ Há um bar em cada esquina/ Pra você comemorar/ Sei lá o quê.”

Até aqui, tudo bem. O cidadão fingia que trabalhava, a mulher tinha razão em se queixar. Mas quando ele faz até hora extra e a mulher continua a reclamar, não dá. Era a história de “Logo Eu?”, que Chico compôs e gravou em 1967:

“Essa menina quer me transformar/ Chego em casa, olha de quina/ Diz que já me viu na esquina/ A namorar/ Logo eu, bom funcionário/ Cumpridor dos meus horários/ Um amor quase exemplar/ A minha amada/ Diz que é pra eu deixar de férias/ Pra largar a batucada/ E pra pensar em coisas sérias.//(...) E tem mais isso:/ Estou cansado quando chego/ Pego extra no serviço/ Quero um pouco de sossego/ Mas não contente/ Ela me acorda reclamando/ Me despacha pro batente/ E fica em casa descansando.”

Depois dessa fase inicial, Chico voltou ao tema apenas em sua produção destinada a teatro e cinema. Foi assim com “Vai Trabalhar, Vagabundo” (“Vai trabalhar, vagabundo/ Vai trabalhar criatura/ Deus permite a todo mundo/ Uma loucura”), de 1973, tema do filme de mesmo nome dirigido por Hugo Carvana. Também com “Homenagem ao Malandro”, de 1977, que integrava a peça Ópera do Malandro:

“Eu fui fazer um samba em homenagem/ À nata da malandragem/ Que conheço de outros carnavais/ Eu fui à Lapa e perdi a viagem/ Que aquela tal malandragem/ Não existe mais./ Agora já não é normal/ O que dá de malandro regular, profissional/ Malandro com aparato de malandro oficial/ Malandro candidato a malandro federal/ (...) Mas o malandro pra valer/ Não espalha/ Aposentou a navalha/ Tem mulher e filho e tralha e tal/ Dizem as más línguas que ele até trabalha/ Mora lá longe e chacoalha/ Num trem da Central/ (Xi!).”

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Entrevista com Chico Buarque (De Minas a Noel - parte 3)




Em entrevista gravada em 1987, Chico Buarque conversa com Ana Cristina Rodrigues sobre a influência de Noel Rosa em sua obra, definindo como "noelescos" seus sambas "Juca" e "A Rita". Chico fala também de outras influências, fazendo um rápido panorama da evolução permanente da MPB, e destaca a qualidade das melodias de Noel, cujo mérito não se resumiria em ser um bom letrista. A entrevista foi gravada no Rio de Janeiro, próximo ao campo do Politheama, time mantido por Chico (é possível ouvir apitos vindos do campo no áudio da matéria).



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