quarta-feira, 18 de junho de 2014

Especial Chico Buarque 70 Anos (3):Trocando em Miúdos

Trocando em Miúdos

Na Tenda de Pasárgada, na quarta, 5 de novembro, o escritor Luiz Paulo Faccioli fez uma leitura pública de seu conto "Depois que ele chegou", inspirado na música "Maninha", de Chico Buarque. As sugestões juninas da letra ("se lembra da fogueira, se lembra dos balões") originaram um conto em que uma festa de São João pouco animada marca o fim da paixão não-correspondida de um menino. Todos os 13 contos do livro Trocando em Miúdos foram escritos a partir de músicas de Chico Buarque, não dependendo do conhecimento prévio das canções para serem entendidos ou apreciados.



(Tópico do texto 54º Feira do Livro de Porto Alegre
atualizado diversas vezes durante o período de realização do evento,
em outubro-novembro de 2008)


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Rádio Cabeça

Sabe aquela música que você ouve de manhã e passa todo o dia cantarolando, assobiando ou ao menos lembrando? Pois é, ela está tocando na sua Rádio Cabeça.

A primeira referência formal que tive dessa emissora foi em “O Último Blues”, que Chico Buarque fez para o filme Ópera do Malandro, de Ruy Guerra (1985), onde é cantada por Cláudia Ohana (Gal Costa a gravou no mesmo ano). Após dizer a Tigrão (Edson Celulari) que não adianta achar que ele vai seduzi-la e esquecê-la, Ohana revela que está é se divertindo com ele (“Os dois parecem um casal/ Mas é mentira” – grande sacada!) e - atenção agora - está lá, na última estrofe, com maiúsculas e tudo:

“Essa menina pode ir pro Japão/ Na vida real/ Você é quem enlouquece/ Apaga a última luz/ E nos cantos do seu quarto/ A figura dela fosforece/ Ao som do último blues/ Na Rádio Cabeça/ Se puder esqueça/ A menina que você seduz.”

Seria, então, Chico o criador (ou o descobridor) da Rádio Cabeça? Não, não. Já na década de 1840, o pequeno Piotr Ilich Tchaikovsky, sem saber que quando crescesse seria o mais popular compositor russo, já demonstrava grande facilidade de memorizar na hora qualquer música que ouvisse. Sua família acostumou-se a ser acordada pelos gritos do filho no meio da noite:

- Tirem essa música da minha cabeça, ela não me deixa dormir!


(Mistura e Manda nº 9, 4.8.2003)

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Pagodespel

Caetano Veloso pretendia que o programa Chico e Caetano (TV Globo, 1986) pudesse trazer de volta o papel da televisão como lançadora de músicas inéditas, a exemplo do que ocorria nos anos 1960. A possibilidade real de reproduzir as condições de vinte anos antes era bastante improvável, mas ao menos ele teve a ousadia de tentar. O fruto da ousadia chamou-se "Pagodespel" (algo como pagode + gospel), a única parceria conhecida entre Caetano, Chico Buarque, João Bosco e... Oswald de Andrade (1890 - 1954).

Caetano já "compusera" com Oswald, musicando o poema que abre o livro Pau-Brasil (1925): "Escapulário". Lançado em 1975 no LP Jóia, foi trilha do filme Na Ponta da Faca (Miguel Faria Jr., 1977). Já em 1986, "Escapulário" foi transformado no início de "Pagodespel", com Chico e Bosco compondo mais versos. O novo samba foi arrematado com outro poema de Oswald, "Relicário", também do livro Pau-Brasil, e se constituiu num dos pontos altos do programa de outubro de 86, o antepenúltimo da série.



(Mistura e Manda nº 50, 24.5.2004)

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"Uma Canção Desnaturada"

No artigo "A Malandragem Estrutural" - que integra o livro Chico Buarque do Brasil (Garamond, 2004) -, Arturo Gouveia analisa a peça Ópera do Malandro, dedicando três páginas ao tema "As diferenças entre o livro e o disco". Chama-lhe a atenção que a música "Uma Canção Desnaturada", que qualifica como "uma das mais acabadas realizações de Chico Buarque", não figure no livro, o que a seu ver conferiria "um valor de vantagem ao disco".


Não havia, entretanto, como a letra dessa canção ter sido incluída no livro, que saiu em 1978 pela editora Cultura. "Uma Canção Desnaturada" - assim como "Hino de Duran" - foi composta especialmente para a montagem da peça em São Paulo em 1979. Nesse mesmo ano, as duas músicas figuraram na gravação da trilha sonora da peça em álbum duplo pela PolyGram: "Hino de Duran" com Chico acompanhado pelo grupo A Cor do Som e "Uma Canção Desnaturada" reunindo os vocais de Chico com a veterana Marlene.


(Mistura e Manda nº 128, 6.2.2006)
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Wisnik e outra "bigamia"

Contamos no Mistura e Manda nº 41 a história de uma "bigamia" envolvendo uma melodia de Guinga, que se chama "Canção Desnecessária" com a letra de Manuel Aguiar e, com os versos de José Miguel Wisnik, o primeiro escalado para letrá-la, "Canção Necessária".

Outro caso de "bigamia" recentemente envolveu Wisnik, como ele revelou no show que fez ao lado do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa no Salão de Atos da UFRGS (Porto Alegre), em 29 de agosto de 2005. Gal Costa pedira a Wisnik e Chico Buarque uma música para o show Todas as Coisas e Eu (2003), mas não foi atendida. Quando se preparava para gravar o CD Hoje, a baiana renovou o pedido. Wisnik procurou Chico, que acabou passando uma melodia para Wisnik colocar letra, o que resultou em "Embebedado". Isso é completamente fora dos hábitos de Chico, em geral ele é que recebe uma melodia pronta para colocar versos. Mais ainda: talvez tenha sido a primeira vez que isso aconteceu, pois as poucas vezes em que Chico musicou versos de outros (João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Augusto Boal e Hermínio Bello de Carvalho), os versos já existiam ou, como na sua parceria com Ruy Guerra, Chico os escrevia junto com o parceiro.


A "bigamia" está no fato de a mesma melodia já ter sido entregue por Chico a Sergio Bardotti, que escreveu uma letra em italiano e batizou a canção como "Risotto Neto" - que vem a ser a canção inédita do DVD Vai Passar.


(Mistura e Manda nº 124, 12.12.2005)


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Chicomania

Há um movimento espontâneo em todo o Brasil, a chicomania (exaltação a Chico Buarque). Ela, pelo que se pode notar, independe de qualquer coisa, inclusive do próprio Chico. Ele não comemorou nenhum aniversário "redondo" - completou 59 anos em 19 de junho -, não lançou CD novo (lançou foi é um livro, Budapeste, mas a chicomania é anterior), não conclamou as massas, nada.

Muito legal constatar que, sem forçação de barra nenhuma, o povo brasileiro, sempre que pode, está rendendo homenagem a um de seus grandes integrantes vivos. Não se passam duas semanas sem que chegue a nosso conhecimento, pelo menos um show inteiramente dedicado ao autor de "Injuriado", isso quando não é peça de teatro, debate ou etc. e tal.

Em Porto Alegre, o cantor Dudu Sperb e o violonista Toneco da Costa aderiram à chicomania, apresentando no Café Concerto Majestic, em 16 de outubro, um repertório só do mestre, com e sem parceiros. Chamaram a atenção as versões da dupla para "Samba e Amor", "Atrás da Porta" (Francis Hime - Chico), "Morena dos Olhos d'Água" e "Deixa a Menina". Já em "Vai Passar" (Francis Hime - Chico), "Trocando em Miúdos" (Francis Hime - Chico) e "Eu te Amo" (Tom Jobim - Chico), uma surpresa: no início das canções, a voz de Dudu chegou a lembrar o timbre de Chico! Isso e muito mais deve ser conferido em breve, com a adesão do superbom Jorginho do Trumpete, na temporada programada para o Teatro do Museu do Trabalho.

(Mistura e Manda nº 20, 20.10.2003)


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Continuações (2)

A continuação, uma especialidade do cinema americano, nunca foi o forte no cinema brasileiro. Contam-se nos dedos filmes como Vai Trabalhar Vagabundo 2 - A Volta ou Xuxa e os Duendes 2 (desculpem!). Já na música, a continuação é bem mais freqüente.

Um tipo curioso de música de continuação é a feita por outro autor. É um tipo raro também, localizei apenas três casos. O mais antigo é "Cabo Laurindo" (Haroldo Lobo - Wilson Batista, 1945), samba com o personagem que Herivelto Martins criou em "Laurindo", no carnaval de 1943. 

Os outro dois casos são ambos de 1972. Um deles é "Cotidiano nº 2 (Como dizia o Chico...)" de Toquinho e Vinicius, de 1972, continuando o sucesso de Chico Buarque "Cotidiano", de 1971.

Ainda em 1972, Caetano Veloso compôs "Janelas Abertas nº 2", cantado por Chico no show que deu origem ao LP Caetano e Chico Juntos e ao Vivo. Caetano referia-se a uma canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que fora gravada por Elizeth Cardoso no LP Canção do Amor Demais (1958) - mas, se nesta, as janelas seriam abertas para que o sol viesse iluminar o amor do poeta e sua adorada, na canção de Caetano elas dariam ingresso a todos os insetos...


(Mistura e Manda nº 20, 20.10.2003)

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Chico, o tranqüilo



Domingo, 15 de agosto de 1999. Chico Buarque acaba de cantar “Vai Passar”, já como número extra. O show As Cidades (e também a turnê em Porto Alegre) encaminha-se para o final, quando uma fã aparentando 15 anos consegue pular para o palco do Teatro do SESI e abraçar o cantor. Dois seguranças rapidamente contornam a situação e em seguida Chico encerra o espetáculo com “João e Maria”, como se nada tivesse acontecido.

(OBS2014: Um dos quatro textos publicados na leva inaugural do site Brasileirinho, em 17 de outubro de 2002. Apesar de beeeem curto, nunca foi dos mais acessados, desmentindo a tese de que internautas só gostam de textos curtos.) 


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